Tendência cultural no final de milênio características da Pôs modernidade



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TENDÊNCIA CULTURAL NO FINAL DE MILÊNIO

Características da Pôs modernidade
Gilmar Zampieri
Cada época histórica produz seus mitos, isto é, um conjunto de crenças, conscientes ou inconscientes, com as quais se propõe explicar a totalidade do real e regular os comportamentos humanos. O final de milênio, que se aproxima, está prometendo enterrar alguns desses mitos e fazer ressurgir outros. Esta problemática hoje vem sendo discutida comumente sob o conceito de crise da modernidade e emergência da pós modernidade.

A modernidade se construiu sob o mito da razão: a luz da razão dissiparia para sempre as trevas do misticismo pré científico; munido com a arma da racionalidade, o homem moderno avançaria seguro em direção ao futuro glorioso da democracia, da produção ilimitada de bens para todos, e finalmente, o irracional seria superado...

Hoje no final do segundo milênio, esta crença está em crise. Para uns, é uma crise definitiva: estaríamos no esgotamento de um paradigma e na emergência de um outro diverso. Para outros, a crise deve ser entendida não como fim, mas como processo dialético de superação. De um lado e de outro pairam dúvidas. Uma certeza, porém, se impõe: o tema número um da agenda, no final deste milênio, e a cultura.

0 conceito que até agora melhor expressa a nova tendência é o de " pós modernidade". Sob esse conceito se inscreve uma nova sensibilidade cultural que, a seguir, enquadraremos em oito características.


A PÓS MODERINIDADE
0 tempo e o termo pós modernidade é ambíguo. Uns o proclamaram como uma nova era, um novo espírito epocal. A modernidade teria se esgotado e sua aventura racional criadora teria chegado ao fim; agora, sem alma, ela se deixa dominar pela rotina, repetição, cópia, consumo. Os que compartilham desta visão entendem que todas as articulações(econômicas, políticas, culturais) que acompanham a modernidade estão definitivamente enrijecidas, cadavéricas. Estaríamos assim diante de um "ponto de mutação" e de um novo paradigma científico (Fritjof Capra) diante de uma "nova onda", fruto da revolução tecnológica, sobretudo na área da informática (Alvin Toffler); diante de uma sociedade sem interioridade, onde tudo e transparência e visibilidade imediata (Jean Baudrillard); diante de uma sociedade pós industrial em que se dispensaria o recurso às grandes "narativas legitimadoras", tais como a emancipação do espírito, ou melhor, do gênero humano (iluminismo) e a autobiografia do espírito( (Hegel) para justificar e legitimar o conhecimento e a ação e passa se para um tempo próprio de "jogos de linguagem", com objetivos não abstratos, mas de conhecimento funcional prático, traduzido em "quantidade (bits) de informação" Lyotard); diante de uma época de eterno retorno do mesmo (Nietzsche) diante de uma época em que o "Eu" integra do deixa lugar ao "Eu" dividido, fragmentado e esquizofrênico (Deleuze Guatari).

Em todos estes pensadores e outros (Foucauld, Camus. Kafka, Derrida, Escola de Frankfurt ... ), a "crítica se desenvolve em duas direções básicas: houve uma perversão dos ideais da modernidade ou um esgotamento desses ideais", Todos concordam numa premissa: a modernidade está tora de moda .

Noutro campo se situam aqueles que postulam ser a pós-modernidade a retomada cie idéias e princípios esquecidos ou ainda não levados a efeito pela modernidade. Nesse sentido, o pós moderno não seria tão "pós" como se pretende. Estes estão de acordo quanto a novas tendências emergentes, porém não acreditam ser correta a postulação de um "novo espírito epocal", de algo "radicalmente novo que precisássemos, para descrevê lo, criar um termo que sugere uma cesura epocal, qualitativa, entre o mundo mo­derno e nossa própria atualidade. Todas as tendências 'pós modernas' podem ser encon­tradas de modo pleno ou embrionário na própria modernidade" . Esta tendência não vê na crítica à modernidade senão à própria mo­dernidade em movimento, completando o seu projeto. Habermas situa se nesta tendência. Para ele a modernidade não e um projeto falido, mas um projeto inacabado, como suge­re o titulo de uma obra sua, datada de 1980: 'Modernidade, um projeto inacabado", Para Habermas não se trata de negar a modernida­de, mas de completar o seu projeto através de um novo paradigma, o da racionalidade co­municativa. Habermas é crítico da modernidade mas a sua critica é elaborada desde dentro.

Essa discussão ainda está em aberto. Não é nosso intenção tomar posição a favor ou contra. O que pretendemos é apenas constatar e apresentar o que se apresenta como características quando se falo sob o rótulo de “pós-modernidade”.


TAIS CARACTERÍSTICAS SÃO:



1. Fim da idéia de progresso e da História

A modernidade foi o tempo por excelência Ias grandes utopias sociais: os ilustrados acreditavam na vitória da razão sobre a igno­rância e a servidão, através da ciência: os capitalistas acreditavam alcançar a felicidade através da racionalização das estruturas da so­ciedade e do incremento da produção de bens. os socialistas sonhavam com a emanci­pação do proletariado e com ele o fim da exploração do homem pelo homem. Em todos havia a esperança de um futuro promissor .

A pós modernidade não crê no progresso na sua possibilidade. 0 mundo é cruel e duro e não há mais esperança de poder mudá-lo. As experiências históricas foram desastrosas. Hirochima e Nagazaki são frutos diretos do progresso. Que progresso é esse e a que leva?. 0 pós moderno é desencanto quanto ao futuro.

Ao lado do mito do progresso, cai o mito da história. Para os modernos a história tem uma conexão interna e uma finalidade última a alcançar. Hegel postulava a história como o desenvolvimento do Espírito Absoluto que lhe garante coerência e racionalidade. Marx supu­nha uma conexão entre a sociedade primitiva, escravocrata, feudal, capitalista e, finalmente, a comunista. Essa visão de um curso unitário da história já não faz sentido para o pós mo­derno. A história é para ele uma ilusão que de­sapareceu. 0 mundo é construído por uma multidão de átomos individuais que estão jun­tos por casualidade. Na realidade o que há são acontecimentos sem nenhuma conexão entre si. Já não existe caminho único e unitário para a história. Estamos diante de uma encruzilha­da e, quem sabe, até de um labirinto: muitos caminhos se entrecruzam sem conduzir a lu­gar algum. (o problema das biografias, das histórias particulares, da vida privada é que faz sucesso).

A atitude pós moderna, frente a essa de­sesperança de sentido e de objetivos últimos, não e de tragédia. Para o pos moderno o niilismo não é trágico. Sem porto para chegar, simplesmente flutua se apreciando as maravi­lhas do mar. A atitude fundamental é: se não há futuro, vive se hedonisticamente o presen­te. As flores não são para os funerais.

2. Hedonismo e "ressurreição da carne"

Se não há por que pôr se em marcha para uma terra prometida, então é preciso voltar para casa e desfrutar da vida. Ganha relevân­cia o culto do "eu", o intimismo, Perdida a es­perança e a confiança na construção de um projeto global, resta concentrar se na realiza­ção pessoal. A manifestação disto é a cres­cente preocupação pela saúde que se mostra na obsessão por terapias pessoais ou de gru­pos, os exercícios corporais, massagens, sau­nas, dietética macrobiótica, bioenergia, etc.

No mundo do homem o gozo passa a ser o alfa e o ômega, princípio e fim. Nesse sen­tido poderíamos dizer que ocorre uma verdadeira ressurreição da carne. Em suma, passasse de uma sociedade prometeica para uma sociedade narcisística

3. Fim do imperativo categórico

Na seqüência lógica do postulado do fim da história e das grandes utopias sociais, advém o fim da ética e da moral de princípios típicos de projetos a longo prazo. Decorre dis­so que "não se aceita mais a moderna moral da formiga de La Fontaine. Pretende se viver o tempo da cigarra, (da gratuidade, da emo­ção, da irreflexão livre “ .

Sem história a construir, cai o dever e a obrigação moral. Sem projetos pelos quais vale a pena sacrificar a vida, cada um pode fa­zer o que bem entender. Vivendo uma moral de oportunidade descomprometida. A estéti­ca substitui a ética. Tem valor imperativo o que é atraente e agradável (obs. até pouco tempo o relógio que todos queriam era o Quartz pois era exato. Hoje todos os relógios são exatos e então a escolha cai sobre o desing) . 0 princípio ético mais importante é: faça o que quiser. 0 prin­cipio da realidade e sacrificado em favor do principio do prazer. Freud fica invertido. Nada mais e proibido. Vale o principio dos jovens de 1968: "é proibido proibir". Viva feliz é o único imperativo categórico.

4. Do "penso, logo sou  para o "sinto, logo sou"

A modernidade se caracteriza em última análise pela racionalidade. A grande deusa moderna é a razão. Na pós modernidade o “homo sapiens" tem deixado lugar para o “homo sentimentalis”. Milan Kundera, pós-­moderno na área da literatura, assim se ex­pressa: "Penso, logo existo é uma afirmação de um intelectual que subestima as dores de dente. Sinto, logo existo é uma verdade de al­cance muito mais amplo e que concerne a todo ser vivo. Meu eu não se distingue essen­cialmente do seu eu pelo pensamento. Mui­tas pessoas, poucas idéias: pensamos todos mais ou menos a mesma coisa. Mas. se al­guém pisa meu pé, só eu sinto a dor... Por isso sinto, logo sou e uma verdade muito mais geral". A razão está em declive deixando lugar para a sensibilidade e a subjetividade. Nietzs­che dizia: "É só dos sentimentos que vêm toda a autenticidade, toda a boa consciência, toda a evidência da verdade" .




5. Niilismo sem tragédia

0 homem moderno se aventura na procu­ra racional de fundamentação, de autocom­preensão através de grandes doutrinas e teo­rias com pretensão de totalizantes. 0 pós mo­derno nega em bloco esses grandes discur­sos da modernidade, sem contrapor lhe outros. pois seria entrar na mesma dinâmica. Nega se com indiferença.

Para o pós modemo todo o conhecimento é débil, limitado. Por isso mesmo não é pos­sível encontrar um sentido único e totalizante para a vida. Além do que, dizem os pós mo­dernos, toda a pretensão é totalitária por que­rer ganhar os demais e obrigar a entrar na sua verdade que se pretende universal. Paia a pós modernidade, a modernidade se instala sob o terror e a violência, pois não admite a di­ferença e muito menos a alteridade. A pos­-modernidade é tolerante para com aqueles que pensam de modo diferente .

Para a pós modernidade as lógicas expli­cativas são múltiplas e contraditórias entre si. E não vê problema nisso. Não é trágico por causa disso. Guia se por esferas regionais de sentido sem tentar se agarrar a verdades absolutas. Decorre daí uma atitude e um indivíduo fragmentado resultante de uma mescla de compreensões, virtudes, ações. 0 indivíduo pós moderno "não se agarra a nada, não tem certezas absolutas, nada o surpreende e suas opiniões são suscetíveis de modifica­ções rápidas. Passa a outras coisas com a mesma facilidade com que troca de detergente".



6. Da tolerância à indiferença

A modernidade acreditava que pela con­frontação de posições chegava se a um con­senso em torno da verdade, da justiça do bem. 0 pós moderno não acredita nessa pos­sibilidade e sequer a deseja. Nietzsche é paradigmático: "meu juízo é meu, outro qualquer d­ficilmente o poderá reclamar. Devemos livrar­-nos do mau gosto de querermos estar de acordo com muitos. Bom deixa de ser bom quando dito pelo vizinho. E como é que pode­ria haver um 'bom comum'?".. Assim, a pós modernidade se nega a discutir opiniões. A sua máxima é: viva e deixe viver. É nesse sentido que passa se da tolerância à indife­rença. "Se nada tem sentido, tudo também pode ter e a tolerância se transforma em indi­ferentismo, onde não vale a pena nenhum de­bate e nenhuma idéia deve ser discutida, pois os argumentos não têm valor, só os senti­mentos, que são confundidos e identificados com as sensações".

7. 0 retorno aos bruxos

Com o destrono da racionalidade a pos­-rnodernidade retorna ao religioso reprimido. Somente que agora o retorno se da de uma forma selvagem. A modernidade pregou a morte de Deus e com isso favoreceu a des­crença em tudo. A reação pós moderna vai ao outro extremo. Agora acredita se em tudo. Não é por nada que assistimos hoje a um autêntico "boon" de esoterismo e ocultismo (quiromancia, cartomancia, astrologia, vidên­cia, cartas astrais, cabala, alquimia, pitagoris­mo, teosofia, espiritismo ... ) Na Europa e nos Estados Unidos os astrólogos registrados ofi­cialmente são três vezes mais numerosos que todos os físicos e químicos juntos. Na França, por exemplo, na mais de 50.000 consultórios de pitonisas, videntes, cartomantes, etc. Nos Estados Unidos os astrólogos se aproximam a 175.000 e em várias universida­des do país os estudantes têm solicitado cur­sos de astrologia. Na Itália, 12.000 astrólogos têm se constituído em sindicato .



8. 0 retorno a Deus

A pos modernidade não só retorna aos bruxos, mas retorna também a Deus. 0 retor­no a Deus, porém, não é nos moldes das grandes religiões, de estilo intelectualizado e rígido. Seguindo “lógicas múltiplas", como foi dito acima, o indivíduo pós moderno é ecléti­co do ponto de vista religioso. "Assim uma ,sociedade pluralista torna possível que cada um tome seu coquetel religioso beliscando um zesto de Islã, uma pitada de judaísmo, algumas migalhas de cristianismo, um tragui­nho de nirvana, sendo possível todas as com­binações, inclusive, para ser verdadeiramente ecumênico, acrescentando uma pitadinha de marxismo, ou criando para si um paganismo sob medida. Abertura universal. simpatia uni­versal.



0 retorno a Deus se da, portanto. de uma forma "light", sem militância e obrigação de coerência com a doutrina defendida. 0 retor­no é de cunho espiritualizante e por isso re­chaça as religiões intelectualizadas e que exi­gem compromissos institucionais. A religião propícia para essa postura é a que trabalha mais a nível estético e emocional, de tipo pen­tecostal e carismático>
CONCLUSÃO
Vale aqui uma máxima de Espinoza: "nem rir, nem chorar, compreender". Não se trata de tirar conclusões apressadas. Não se trata de fazer juízo de valor simplificado. Não se tra­ta de tomar partido pró ou contra. Antes, pelo contrário, trata se de compreender o fenôme­no em processo. Será problemático e nada prudente tomar a posição (irônica) do grande Nelson Rodrigues: "Se os fatos desmentirem as nossas idéias, pior para os fatos". Importa, num momento de ebulição, aguçar a percep­ção e fazer um esforço de compreensão. Só assim podemos influenciar positivamente na realidade. Seja para reforçar o existente, seja para mudá lo.


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