Teologia do novo testamento


B. A tarefa diante de nós



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B. A tarefa diante de nós

  1. Nem seleção nem subtração

Esta crítica tão drástica da mitologia do NT implica a eliminação completa do Kerigma?

Seja o que for, não podemos salvar o Kerigma por selecionar uns de seus aspectos e subtrair outros, assim reduzindo a quantidade de mito. Por exemplo é impossível esquecer o ensino de Paulo quanto a recepção indigna da Santa ceia do batismo pelos mortos, mas crer que comer e beber fisicamente tem um efeito espiritual. Se aceitarmos uma das idéias, devemos aceitar tudo que o NT diz em relação ao batismo e a Santa ceia é apenas esta única idéia que não podemos aceitar.

Claro que se pode argumentar que um dos aspectos do NT tem mais preeminência que outros: nem todos aparecem com mesma freqüência nos livros. Por exemplo há apenas uma ocasião em que aparece as lendas do nascimento virginal e a Ascenção, parece que Paulo e João não tem conhecimento sobre eles. Mas se aceitarmos que são adições, não afeta o caráter mitológico do evento da redenção em sua totalidade. Se começarmos a subtrair do Kerigma, onde vamos terminar? A cosmovisão mitológica deve ser aceita ou descartada em sua totalidade.

Nesse ponto, clareza absoluta e honestidade são essenciais para o teólogo acadêmico. É um dever a si mesmo e para a igreja que servem. No livro de Karl Barth, a escatologia cósmica no sentido de “a história final cronológica” elimina-se a favor de algo que ele pensa a ser uma “última história” que é mitológica. Ele pode enganar-se por pensar que pe uma exegese de Paulo e do NT em geral porque ele tira todo o sentido mitológico em I Coríntios por meio de uma interpretação que trata a verdade.

Se a verdade da proclamação do NT se pode preservar, a única maneira é pela desmistificação. Porém, nosso objetivo não é fazer o NT relevante ao mundo moderno. A questão é se a mensagem do NT consiste apenas de mitologia, ou se necessita que o mito tire para poder entender e como deve entender. A questão trata os dois lados.Primeiro existe a natureza do mito em geral, e o segundo existe o NT mesmo.


  1. A natureza e o mito

O propósito real do mito não é apresentar um quadro objetivo do mundo como é, mas expressar o autoconhecimento do homem no mundo em que vive. O mito não deve ser interpretado de um modo cosmológico, mas baseado nos conhecimentos da antropologia.

Mito fala do poder que o homem pensa experimentar como a base e o limite desse mundo e de seu próprio sofrimento e atividade. Descrevem esses poderes em termos do mundo visível com seus objetivos tangíveis à vida humana, com seus sentimentos, motivos potenciais. Pode descrever a origem do mundo por meio de falar de uma célula do mundo ou de uma árvore. Da mesma maneira, pode encontrar a origem do estado atual e ordem atual do mundo em uma guerra primordial entre os deuses.

Mito é uma expressão da convicção do homem que a origem e propósito do mundo em que se vive, devem buscar dentro do mesmo e não distante do mundo. Mito também é uma expressão de conhecimento do homem que ele mesmo não é o seu senhor, expressa um sentido de dependência não apenas dentro do mundo visível, mas dos poderes que influenciam tanto nos limites do conhecido. Finalmente, mito se expressa na crença do homem em seu estado de dependência, ele pode ser resgatado das forças dentro do mundo visível. Assim o mito contém elementos que demandam crítica especificamente com o uso de imagens com um reclame aparente a validade objetiva. O propósito real do mito a falar de um poder transcendente que controla o mundo, mas, tal propósito é impedido pelos termos usados para expressar a realidade.

Assim a importância do mito neo-testamentário fica não em seus usos de imagem, mas em seu conhecimento de existência que o mito incorpora. A pergunta real se este conhecimento de existência é válida. A fé diz que é e não deve ater as imagens do mito neotestamentário.




  1. O verdadeiro Novo Testamento

O NT convida essa classe de crítica. Não é apenas que há discrepância no mito do NT, mas há contradições. Por exemplo, às vezes a morte de Cristo é um evento cósmico e as vezes é um sacrifício, as vezes sua pessoa se apresenta como Messias e as vezes como o Segundo Adão. O Kenosis do Filho Preexistente (Fp. 2: 6), não faz jugo com as passagens milagrosas como provas de sua divindade. O nascimento virginal não faz jugo com a sua preexistência. A doutrina da Criação não faz jugo com a idéia dos “príncipes deste século” (I Cor. 2: 6) nem o “deus deste mundo” (II Cor. 4: 4) nem os elementos deste mundo (Gl. 4: 3). É impossível conciliar que a lei foi dada por Deus com a teoria de que vem dos anjos (Gl. 3: 19).

Mas a demanda principal de crítica da mitologia vem de uma contradição curiosa que corre por todo o NT. Às vezes nos dizem que a vida humana se controla por forças cósmicas e às vezes nos apontam a uma decisão. Junto com o indicativo de Paulo está o imperativo Paulino. Ou seja, se toma como um ser cósmico e às vezes como “eu” independente a quem a decisão trata da vida e morte. E é por isso que tantos ditos do NT falam a condição do homem moderno enquanto outros ficam enigmáticos e obscuros.




  1. Intentos prévios a desmistificar

Como a mitologia deve ser reinterpretada? Não é a primeira vez que os teólogos têm tentado realizar essa tarefa. Tudo o que foi dito até agora, já foi dito há trinta ou quarenta anos atrás. Os teólogos liberais do último século trabalharam em uma linha equivocada, misturando mitologia ao Kerigma. Estavam corretos? Devemos tratar assim o NT? Esta é a pergunta que temos hoje.

Os últimos vinte anos é que tem aceitado o conceito de Kerigma, o perigo para igreja e para a teologia é a ressurreição não-crítica da mitologia do NT, tornando a mensagem do evangelho sem sentido para o mundo moderno. Não podemos esquecer das análises de outras gerações, temos que fazer levantamento e utilizá-los de uma maneira construtiva. E resumo, a nossa tarefa de hoje é a reinterpretação desta mitologia, baseando no conceito moderno e no conhecimento da existência humana que o NT representa.

Para começar, repassamos uns dos intentos prematuros a desmistificar. Deve mencionar o tratamento alegórico que tem atacado a igreja através da história, este método espiritualiza os eventos mitológicos para que chegue a ser símbolos dos processos ocorrendo na alma.

Era a características dos teólogos liberais antigos que pensaram da mitologia como relativo, assim pensaram que podiam eliminá-la totalmente, guardando somente os princípios da religião e ética. Veja o que Harnack disse em relação a essência da pregação de Jesus sobre o reino de Deus e a sua vinda: “O Reino tem o triplo significado. Primeiro, há algo sobrenatural, um presente de cima não um produto da vida ordinária. Segundo é uma benção puramente religiosa, uma conexão interior com o Deus vivente. Terceiro é a experiência mais importante que o homem pode experimentar, o que depende de todo o demais, dominando toda a sua existência, porque o pecado se perdoa, a pena se cumpre”. Note como a mitologia se elimina: “O Reino de Deus vem ao individuo por entrar em sua alma e por mantê-lo ali”.

Nota-se como Harnack reduz o Kerigma a uns dos princípios básicos de religião e ética. Para os liberais, as grandes verdades de religião e ética são eternas, mas só por meio da história são reveladas e só o processo histórico pode esclarecê-las. Todos somos capazes de verificá-las em nossa própria existência em qualquer época em que vivemos. História pode ser de interesse acadêmico, mas nunca é de importância para a religião.

O NT fala de um fato pelo qual Deus trouxe a salvação ao homem. Jesus não era somente um mestre que tinha coisas muito importantes para dizer, mas sim o agente decisivo da redenção.

Os representantes da escola da História das Religiões foram os primeiros a descobrir até que ponto o NT é um mito. A importância do NT não está em seus ensinamentos sobre religião, mas na sua ética ao ensinar sobre a religião. A essência do NT fica na vida religiosa que mostra, o auge era a união mística com Cristo em quem Deus tomou a imagem simbólica.

Estes críticos encontraram uma verdade importante. A fé cristã não é a mesma que o idealismo religioso; a vida cristã não consiste em desenvolver a personalidade individual, de melhorar a sociedade ou de fazer do mundo um lugar melhor. A vida cristã implica em uma separação total das coisas do mundo. Para os críticos, a religião era a expressão do desejo humano, na qual a alma poderia separar-se de toda a preocupação humana e encontrar descanso. O NT era a fonte permanente do poder que deixava o homem realizar a vida verdadeira de religião e Cristo era o símbolo eterno pelo culto da Igreja Cristã. Nota-se aqui que a Igreja se define exclusivamente como a comunidade que adora.

Além disso, se a “História de Religiões” tem razão, o Kerigma tem deixado de sê-lo. Como os liberais não dizem nada em relação a um fato exclusivo de Deus em Cristo proclamando como um evento de redenção. Então ficamos com a pergunta de que se este evento e a pessoa de Jesus, ambos descritos no NT em termos mitológicos, não são mais que mitologia. O Kerigma pode ser interpretado como mito? Podemos redescobrir a verdade do Kerigma pelos homens que não pensam em termos mitológicos sem perder seu caráter como Kerigma?


  1. Uma interpretação Existencialista a Única Solução

A tarefa teológica que tal interpretação envolve se desvenda somente em uma busca geral e com poucos exemplos. Deve evitar a impressão que é uma tarefa fácil, como se tudo que tivéssemos que fazer é descobrir a fórmula correta e terminar a tarefa, é muito mais complexo do que isso. Isso toma o tempo e a força de uma geração inteira de teólogos.

A mitologia do NT é a essência dos mitos de apocalipticismo judaico e redenção gnóstica. Uma característica comum em ambos é o seu dualismo básico, segundo o qual, o mundo está sob o controle de poderes demoníacos e satânicos e tem necessidade de salvação. O homem não pode realizar esta redenção por si mesmo, é uma dádiva da intervenção divina: Apocalipticismo judeu fala de uma crise mundial que ainda está por vir, no qual esta época presente chegará ao seu final e a nova época inicia com a vinda do Messias, o gnoticismo fala do Filho de Deus enviado do Reino da Luz, entrando neste mundo como homem, resgatando o homem e abrindo um caminho para voltar ao seu lugar celestial.

O significado destas duas classes de mitologia fica outra vez não em suas imagens com sua aparente objetividade mas em seu entendimento da existência humana que dois tratam de expressar. Um bom exemplo de tratamento se encontra no livro de Hans Jonas sobre gnosticismo.

Nossa tarefa é produzir uma interpretação existencialista da mitologia dualista do NT segundo estes exemplos. Quando lemos sobre poderes demoníacos mantendo a humanidade em cativeiro, é que o entendimento da existência humana que forma a base de tal linguagem oferece uma solução à pergunta da vida humana que se vai aceitar a mente não mitológica de hoje? Não podemos pensar que o NT nos apresenta como uma antropologia como que a ciência moderna nos dá. Não se pode provar por lógica ou por evidencia científica. Antropologia Científica sempre toma por base um entendimento definido de existência e esta é a decisão de um pesquisador se é consciente ou não. É por isso que temos que descobrir se no NT oferece ao homem um entendimento de si mesmo que vai desafiar a uma decisão genuína existencial.



Nº 2 O propósito do problema da desmistificação (1963)
O que é entendido por desmistificação é um procedimento hermenêutico que interroga aos enunciados dos textos mitológicos sobre o seu conteúdo real. Portanto se pressupõe que o mito fala de uma realidade inadequada. Também se pressupõe uma determinada compreensão da realidade.

A realidade pode ser compreendida em duplo sentido. Ordinariamente se entende pela realidade, a realidade do mundo representada em uma análise objetiva, nela se orienta, se calcula suas magnitudes para dominá-la assim a sua própria existência.Esta maneira de ver a realidade está elaborada na ciência da natureza e na técnica que a própria ciência elabora.

Esta maneira de ver a realidade é como tal à desmistificação, enquanto que exclui a ação das forças sobrenaturais, cuja história é narrada por um mito – já se trata da ação das Potências que põe em movimento e mantém o curso da natureza.

Como todos os fenômenos do mundo que lhe rodeia, o homem pode submeter-se, então se opõe a si mesmo, com ele reduz sua própria realidade específica, contrária a realidade mundana. Assim ocorre na psicologia.

Esta maneira de ver também pode também chegar ao dominante na ciência histórica, como todavia ocorre no historicismo positivista. Neste caso o historiador observa seu objeto de estudo e se situa como expectador fora do processo histórico que se desenvolve no tempo.

Hoje o reconhecimento de que semelhante não existe, ganha espaço, porque a apreensão do processo histórico é o próprio acontecimento.É impossível ver o objeto na distância de uma análise neutra. A imagem aparentemente objetiva dos acontecimentos históricos está sempre marcada pela individualidade do sujeito preceptor, individualidade que nunca pode chegar a ser um expectador que se mantivesse fora do tempo histórico.

Aqui se faz abstração do fato de que na moderna ciência da natureza tem implantado também uma compreensão análoga da relação sujeito-objeto: o que é observado está formado de uma outra maneira pelo observador. Em relação a saber até a onde se estende a analogia entre a moderna ciência da história e a moderna ciência da natureza, isso necessita de uma investigação especial. O que importa é que na moderna compreensão da história, a realidade é compreendida de uma maneira distinta de que pretende a análise objetiva, ou seja é compreendida como realidade do homem que existe historicamente.

Pelo princípio, o homem há de ser diferenciado do ser da natureza percebido pela análise objetiva. Hoje acostumamos a caracterizar o ser especificamente humano como existência. A existência não designa o fato de ser o sentido em que as plantas e os animais existem, pelo contrário, a maneira especificamente humana de ser.

O homem não está em seu contexto como um ser natural dentro de um encadeamento do curso da natureza, mas é um ser responsável de si mesmo. Isto significa que a vida humana é história; através das decisões de cada instante, conduz a um futuro no qual, o homem escolhe a si mesmo. As decisões são tomadas segundo a maneira como o homem compreende a si mesmo, conforme aquilo em que vê a realização de sua vida.

A história é campo das decisões humanas. Faz-se compreensível quando a vemos como tal, quando vemos nelas, possibilidade de compreensão de ser humano– Chamamos interpretação existencial a semelhante interpretação da história movida pela existência do intérprete, se questiona sobre a compreensão da existência que a cada instante está operando na história.

Posto que de fato, todos os homens vêm de um passado em que uma das possibilidades da compreensão de diretrizes, são oferecidas ou submetidas a revisão, a decisão é sempre em relação ao passado próprio do homem e ao seu futuro.

Não é necessário que a decisão seja tomada conscientemente, e na maioria dos casos é inconsciente. Mas ainda pode aparecer como algo que ainda não tem decidido, o qual a decisão inconsciente do passado, a queda do homem em seu passado. Por isso significa que o homem pode existir de uma forma autêntica ou não.

Se o ser autenticamente humano é a existência, na qual o homem deve assumir-se a si mesmo, é responsável de si mesmo, desde o início até o futuro, a liberdade que a cada instante se faz pertencem à existência autêntica. Pelo seguinte, a realidade do homem histórico nunca é a realidade encerrada, como a de um animal. A realidade do homem é a sua história, a sua realidade que está em seu contexto.

Na história da humanidade tudo isso se vê claramente pelo fato de que o sentido histórico de um acontecimento só é compreensível partindo de seu futuro. O futuro pertence essencialmente ao acontecimento. Não pode falar do sentido da história como o sentido do contexto em que ele vive.

Todavia, todas as decisões são tomadas em situações concretas e inclusive o comportamento sem decisão, portanto, o homem produz sempre em situações concretas. Se a ciência quer fazer compreender as possibilidades de decisões humanas, deve descrever também a história passada. Por mais que analisando, não capte o sentido histórico de uma ação, de um acontecimento, pode e deva tratar de conhecer as ações e os acontecimentos.. Pois nenhum acontecimento, nenhum ato de vontade, nenhuma decisão carece de causa. Por isso é possível em todo o momento compreender o curso da história como um encadeamento cerrado e assim como deve vê-lo a consideração objetiva da história.

Compreendido isso, vem a questão de saber se a interpretação existencial da história e a representação objetiva da história se contradizem mutuamente, se a realidade está em contradição com a que se vê na outra, de sorte que se pudesse falar de duas esferas da realidade, e inclusive uma dupla realidade, seria uma falsa dedução, pois de fato, não há mais que uma realidade e uma verdade do enunciado relativo ao mesmo fenômeno.

Mas a única realidade pode ser vista em um duplo aspecto correspondente a dupla possibilidade que o homem de uma forma autêntica ou não. Na existência não autêntica, o homem se compreende partindo do mundo que se possa dispor, na existência autêntica, parte do futuro que não pode dispor. Portanto, pode considerar a história do passado de um modo objetivo.

Deve caracterizar a relação das duas espécies de compreensão de como uma relação dialética, pois de fato, uma não existe sem a outra. Não há decisões responsáveis nas situações concretas, nas quais também está o jugo da vida natural. A decisão de que o homem escolhe a si mesmo, escolhe a sua existência autêntica, é sempre uma decisão por uma possibilidade da vida natural. Para exercer sua responsabilidade, o homem tem necessidade de considerar o mundo em que está situado como em seu mundo de trabalho de que pode dispor. Daí também a tentação de considerá-lo como a verdadeira realidade de perder a autenticidade da existência e de assegurar a própria vida mediante a utilização daquele que se pode dispor.

Portanto, está perfeitamente claro que a interpretação existencial da história tem necessidade da consideração objetiva do passado histórico. O enunciado de Nietzche, dirigido contra o positivismo de que não há fatos se não interpretação, se presta a mal entendidos, nesse sentido, um fato não pode ser mais que uma interpretação, imagem projetada pelo historiador que se vê afetado em sua própria pessoa. Mas uma interpretação não é, evidentemente, um produto da imaginação; interpreta algo e este algo interpreta os fatos que são acessíveis à análise objetiva do historiador.

Se isso é válido, o problema da desmistificação em sua relação com a ciência histórica pode encontrar uma solução. A ciência histórica é desmistificadora? Sim ou não.

A ciência histórica desmistifica através de uma profunda análise, o historiador não pode proceder de outro modo se obter um conhecimento certo de qualquer fato, quando, por exemplo, quer examinar se o relato transmitido trata realmente de um testemunho válido como um fato passado. Portanto, não pode admitir que a continuidade dos acontecimentos seja rompida pela intervenção de potencias sobrenaturais; não se pode definir um milagre como um acontecimento cuja causa não se fala n o interior da história. A história científica não pode falar, como os escritos bíblicos, de uma intervenção ativa de Deus no curso da história. Não pode perceber como fenômeno histórico, mas na fé na ação de Deus. Se essa fé corresponde a uma realidade, ela não pode ser identificada, posto que uma realidade que está mais além da realidade visível. Para ela deve passar pelo processo mitológico todo o discurso que pretenda falar de Potências transcendentais como de uma ação que é verificável e que pode também eventualmente, servir como argumento para provar tais verdades. Porém, para ela é válido todo discurso sobre as esferas transcendentais como de uma ação que são acrescentadas espacialmente ao mundo visível, tais como o céu e o inferno

Todavia, há uma diferença de princípio entre a ciência histórica e a ciência da natureza em relação a sua posição sobre o mito: a ciência da natureza o elimina, e a ciência interpreta, planejando a questão do sentido do discurso mitológico, que é por inteiro, um fenômeno histórico.

A pergunta: Qual é o sentido geral do discurso mitológico? E possível responder com toda simplicidade. O mito fala de uma realidade que está mais além da realidade objetiva, que tem para o homem, uma importância decisiva que significa, salvação e perdição, a graça ou a ira, que exige respeito e obediência

Eu posso fazer aqui abstração dos mitos etnológicos que querem explicar as formações ou os fenômenos insólitos da natureza. Estes têm importância em nosso contexto à medida que dão a conhecer o pensamento mitológico como um pensamento que nasce do assombro, do espanto, da interrogação e que conta com o encadeamento de causas e efeitos. Este pensamento pode caracterizar-se como cientifico primitivo, com efeito, alguns homens quiseram reduzir o pensamento mitológico a um pensamento primitivo.

De fato, este pensamento cientifico primitivo é próprio de toda a mitologia, mas subsiste uma diferença de princípio. Em efeito, a questão é saber esse – ou em que medida – a intenção do mito é somente explicar para o mundo que se opõe ao homem que observa ou se pretende falar da própria realidade de sua existência. Em nosso contexto, se fala do mito, porquanto, que uma compreensão determinada da existência fala em sua expressão.

Que compreensão de existência? A compreensão de homem fala em um mundo que está cheio de mistérios e que sofre um destino enigmático. O homem se vê forçado a sentir que ele não é o dono de sua própria vida, e adverte que o mundo e a existência humana tem seu fundamento e seu limite em uma potência que fala mais além do que se pode prever e daquilo do que se pode dispor: em uma Potência Transcendente.

Todavia, o pensamento mitológico é muito mais além daqui, enquanto que contra a sua verdadeira intenção, apresenta o transcendente como uma intensificação quantitativa do poder humano. Contra isso, a desmistificação quer valorizar a verdadeira intenção do mito, em outras palavras, sua intenção de falar da verdadeira realidade do homem.

Existe um limite para desmistificação? Se disser que a religião é igual fé cristã, isso não pode prescindir do discurso mitológico. Por que não? Certamente, este discurso proporciona poesia religiosa e a língua cultural e litúrgica, imagens e símbolos nos que a piedade pode falar algo sensível. Não obstante, o essencial é que tais imagens e símbolos ocultem o sentido da reflexão filosófica e teológica. Mas esse sentido não pode ser traduzido em uma linguagem mitológica, pois então haveria de interpretar de novo o sentido desta linguagem e assim sucessivamente até o infinito.

A afirmação de que o mito é indispensável significa na realidade que há mitos que não se deixam interpretar existencialmente. E isso mesmo significa que – ao mesmo em certos casos – é necessário falar do Transcendente (da Divindade) de modo objetivo, porto que a linguagem mitológica é objetiva.

Isso é admissível? Tudo depende da pergunta seguinte: o discurso concernente a ação de Deus é necessariamente um discurso mitológico pode ser interpretado existencialmente?

Deus não é um fenômeno da natureza determinável, não se pode falar de sua ação, ao mesmo tempo de sua existência que se vê afetada pela ação e Deus. Semelhante maneira que falar de Deus, tem sua origem em si mesmo, e por isso o homem é completamente passivo.

A fé do mesmo modo que fala da ação de Deus como de Wunder, também fala como potência criadora e soberana na natureza e na historia e deve fazê-lo. Com efeito, o homem sabendo, em sua existência chamado a vida e posto pela onipotência de Deus, sabe-se porém que por isso mesmo que a natureza e a história em cujo interior se desenvolve sua vida são governada pela ação de Deus. Mas este saber não pode ser expresso senão como uma confissão e nunca como uma verdade ou uma teoria filosófica. A proposição de que Deus é Criador e o Senhor não tem seu legítimo fundamento na compreensão de sua existencial do homem.

Mas então, essa proposição se encerra em um paradoxo. Isso afirma que se vê de fato, um Deus em todos os acontecimentos que são ao mesmo tempo, determinantes na continuidade do curso da natureza e da história. Para a fé, a ação de Deus a continuidade natural dos acontecimentos do mundo, de uma certa forma, suprimida.

Mas o singular da fé cristã é que ela vê um acontecimento histórico determinado que pode ser objetivamente como a ação de Deus em um sentido inteiramente particular: como a revelação de Deus que chama a todos à fé; e este acontecimento histórico é a aparição de Jesus Cristo. O paradoxo desta afirmação é expressa do modo mais agudo em um enunciado do quarto evangelho (“A Palavra se fez carne”).

É evidente que este paradoxo seja de outra natureza que afirma que a ação de Deus é em todo o tempo e em qualquer lugar indiretamente idêntica com o curso do mundo. Em efeito, o sentido do acontecimento de Cristo que é o acontecimento escatológico pelo qual, Deus tem colocado um fim ao mundo e a sua história. Assim, este paradoxo é a afirmação de que um acontecimento histórico é ao mesmo tempo,o acontecimento escatológico.

Agora surge outra pergunta: isso pode ser compreendido como um acontecimento que se realiza em cada instante da existência, ou permanece frente quem é chamado à fé? Este último significaria que é um acontecimento que me afeta incessantemente em minha existência, é necessário que seja ou possa chegar a ser presente em outro sentido.

Este sentido é de fato, o acontecimento escatológico. Pois como tal, não pode chegar a ser um acontecimento do passado, se é verdade que os acontecimentos históricos nunca podem ter o significado de ephapax (uma vez por todas), mas o ephapax pertence à essência do acontecimento escatológico.

Assim pois, não é possível fazê-lo como os acontecimentos históricos. Chega a ser presente na pregação (Kerigma) que tem sua origem em si mesmo, isso significa que a pregação é um acontecimento escatológico. Nela que tem o acontecimento que influencia em minha existência.

O portador da pregação é a Igreja e aqui se repete o paradoxo do qual temos falado. A Igreja é em um aspecto em sua essência um acontecimento escatológico que se produz sempre.

Portanto estou de acordo com esta afirmação de Enrico Castelli (O Kerigma) comporta ser do acontecimento e de eventual análise histórico do acontecimento não venha a ofuscar a revelação da mensagem e do acontecimento.




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