Teoria da literatura IV universidade do estado do rio de janeiro



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TEORIA DA LITERATURA IV

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

2º semestre de 2007

Professora: Masé Lemos

Aluno: Alexandre Pereira Martins

Teoria da Literatura IV - Turma 3



(A irrealidade da realidade)

O outro: a necessidade do diálogo

As fronteiras do real na literatura pós-moderna:a busca por novas configurações


“Sejamos realistas: a realidade não existe”1

Santiago Nazarian, escritor

Na literatura contemporânea, os limites entre ficção e realidade abrem espaço para a criação de novas configurações, novos mundos, novas possibilidades dentro de um vasto universo, seja ele literário ou não-literário, humano ou não humano. Não de outra forma são os contos “O puzzle (fragmento)” e “O puzzle (suíte et fin)”, partes integrantes do livro “Os lados do círculo”, do escritor gaúcho Amílcar Bettega Barbosa. Nessa obra, o autor explora a tênue fronteira entre fato e imaginação, valendo-se de um narrador em primeira pessoa, que conta a sua experiência, aparentemente recente, na busca em encontrar uma forma de dialogar com o outro e de reconfigurar continuamente o passado.

O narrador parece ter dificuldade em se aprofundar nos acontecimentos em que ele narra, talvez por “imaginar” não conseguir ser compreendido e, por isso, acaba não saindo dessa superficialidade. Mesmo assim, parece sempre haver “essa necessidade de comunicar ao outro, mas passado o impulso inicial esbarrava numa total falta de sentido, a incompreensão, a impossibilidade de tudo o que não fosse apenas e simplesmente o fragmento de um gesto no vazio.” (BETTEGA: 2004, 17).

Desta forma, podemos relembrar Gumbrecht, quando diz que:


(...) o novo observador, auto-reflexivo, sabe que o conteúdo de toda observação depende de sua posição particular (...) cada fenômeno particular pode produzir uma infinidade de percepções, formas de experiência e representações possíveis.” (GUMBRECHT, 1998)
Segundo Foucault, esse é o problema da “crise de representabilidade”. Esse é o momento em que observador passa a se observar enquanto observa a realidade. Nesse quadro, podemos “encaixar” os dois contos tratados neste ensaio - como se fossem peças de um jogo a ser montado -, pois a partir da experiência particular do narrador, as representações são apresentadas, mas a configuração (a possibilidade da conclusão de um gesto) fica nas mãos de cada leitor, como se o jogo pertencesse a cada indivíduo.

Em HARVEY (1996), Lyotard expressa que, apesar do “vínculo social ser lingüístico”, “não é tecido com um único fio!”, mas por um “número indeterminado de jogos de linguagem”, e, “não estabelecemos necessariamente combinações lingüísticas estáveis”, e “as propriedades daquelas que estabelecemos não são necessariamente comunicáveis”. Assim, “já não havia configuração possível, não havia mais nada que não fosse isso que Marta arranjara por meio de sua escrita fraca, quase ilegível, uma tentativa, um passo em direção àquelas vidas gastas às quais ela dava vida, um passo em minha direção, um gesto” (BETTEGA, 146).

Em “O puzzle fragmento”, os personagens, reunindo-se à beira do rio Guaíba, em Porto Alegre, demonstram necessitar, a cada semana, de nova configuração, mesmo “sabendo que ela ainda estava muito longe da configuração perfeita, um passo, um passo remetendo ao passo seguinte e a outro e a outro” (ibidem, 16). Já em “O puzzle (suíte e fin)”, só restam as tentativas do narrador com Marta (e seria a última), pois todos os outros “pedaços de vida”, “recortes de biografias minúsculas” ou “esses gritos de socorro”: “todos já tinham desaparecido, desistido, todos tinham já passado a outra coisa” (ibidem, 146). Ao final, já não haveria nada além restos, nada além de lembranças de gestos passados.

Bettega, utiliza-se do jogo (o puzzle) e constrói narrativas como se os fragmentos de cada história fossem se seguindo, como peças que se encaixam ou como se um gesto indicasse e puxasse o próximo gesto. E os gestos, as tentativas de diálogos, são atitudes tomadas por personagens que “não eram mais do que nomes sem rosto e sem história” ou ainda “débeis faíscas na imensa noite da cidade”. O fato de não terem rosto nem história talvez pudessem indiciar que eles fossem personagens ficcionais. Porém, “a telefonista da Agência Centro de quem só se conhece a voz fria de Banco do Brasil” (BETTEGA, 11) existe tanto na ficção quanto na realidade.

Numa contínua e intrigante tentativa de reconfiguração das coisas, do passado, os personagens, quando se agrupam, misturam objetos que, organizados, buscam o contato com o outro, intentando sustentar um possível diálogo, uma maneira de se compreender e de ser compreendido. “E no outro lado (somente algum tempo depois foi possível perceber) estavam Marta e seus espelhos, inventando um jogo novo para as peças que éramos eu, tu, o teu vizinho, a telefonista.”

Não poderia deixar de terminar este ensaio sem citar o próprio Bettega numa crônica-apresentação no site da Terra Magazine, relembrando Robert Mussil, ao dizer que pretende: “Falar de coisas secundárias quando há tantas coisas fundamentais. E por que falaria de coisas fundamentais quando há tantas coisas secundárias?”2 Assim, fechando a volta que o círculo dá, pode-se perceber uma certa ironia nos contos de Bettega, pois “uma forma de dialogar com o outro” é “uma espécie de necessidade vital e coletiva”, ou seja, é uma coisa fundamental para a comunicação e a vida em sociedade, sendo que, hoje em dia, até parece haver um esgarçamento dos gestos comunicativos, devendo-se levar em consideração a superficialidade desses gestos. Dessa forma, Bettega problematiza, literariamente, a difícil manutenção do ato que é o de dialogar com o outro e, em uma das muitas possibilidades do jogo, faz com que o leitor reflita a respeito da superficialidade, e até do esvaziamento, dos contatos entre as “peças” desse grande jogo que é a Humanidade e que, de certa forma “somos eu, tu, o teu vizinho, a telefonista...”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BETTEGA, Amílcar. “Os lados do círculo”. Cia das Letras, 2004.

DAVID, Harvey. “Condição pós-moderna”. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. “Modernização do sentidos”. São Paulo: Editora 34, 1998.



1 Apresentação no XVI Seminário Internacional da Cátedra Padre António Vieira de Estudos Portugueses – Novos Realismos. Em 31 de outubro de 2006.

2 “Prosa Pequena”, publicado em 17 de abril de 2006, às 14h51min, no site www.terramagazine.terra.com.br


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