Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade, Mobilidade, Memória e Sustentabilidade



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II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa

e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo

Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas

Complexidade, Mobilidade, Memória e Sustentabilidade

Natal, 18 a 21 de setembro de 2012




EIXO TEMÁTICO: (X) Complexidade ( ) Mobilidade ( ) Memória ( ) Sustentabilidade

CAMPO(S): (X) Teoria, História e Crítica ( ) Projeto de Arquitetura ( ) Projeto Urbano e Paisagístico

( ) Tecnologias do ambiente construído ( ) Representação e Tecnologias da informação



INSERÇÃO: ( ) Simpósio Temático (X) Artigo Completo

Florestan Fernandes e a gênese da questão urbana

em São Paulo


Florestan Fernandes and the genesis of the urban question in São Paulo
< AUTORIA OMITIDA PARA REVISÃO CEGA>

RESUMO


A importância de Florestan Fernandes para a constituição da sociologia brasileira é considerada fundamental, pois está vinculada à construção de uma nova interpretação do Brasil, a partir de bases explicativas galgadas na especificidade de sua própria história, e não em exemplos externos. Apesar de a cidade não ser um tema central em sua obra, em 1950 ele publicou um artigo que colocaria a pesquisa urbana como assunto crucial para a sociologia. No artigo, Florestan ressaltava a urgência de estudos e análises sobre São Paulo, apontando para a centralidade do processo de metropolização. Seus seguidores, cerca de vinte anos depois, iriam enfrentar a problemática da questão urbana articulada à nova interpretação do Brasil por ele proposta. Este artigo propõe uma pesquisa com o objetivo de realizar um estudo do modo como a questão urbana se apresenta na obra de Florestan Fernandes, situando-a no contexto do pensamento do autor, para identificar seu nexo e sua importância em relação à interpretação do Brasil proposta por ele e compreender as derivações sobre esse tema geradas na obra de outros pensadores que o sucederam e foram por ele influenciados. Com este trabalho, acredita-se contribuir para o entendimento da questão urbana no Brasil tal como foi construída pela sociologia, a partir de pressupostos muito diferentes daqueles considerados na construção da mesma questão por outras disciplinas do conhecimento.

Palavras chave: questão urbana, Florestan Fernandes, São Paulo



ABSTRACT

Florestan Fernandes importance for the formation of Brasilian sociology is considered fundamental, since it is bound to the construction of a new interpretation of Brazil, based on explanations arising from the specificity of its own history, rather than external examples. Although the city does not become a central theme in his work, he published in 1950 an article that would open this issue as crucial subject for sociology. There, Florestan stressed the urgency of research and analysis about São Paulo, pointing to the centrality of the metropolitan issue. His followers, some twenty years later, would face this problem, connected to a new interpretation of Brazil. This article proposes a study on how urban question is presented on the work Florestan Fernandes, situating it within the author’s thinking, in order to identify its connection and importance in relation to his interpretation of Brazil and to understand its deployments in the work of other thinkers who followed him and were influenced by him. This research is believed to contribute to the understanding of the urban question in Brazil as it was formulated by brasilian sociology, based on very diferent assumptions from those considered by other disciplines of knowledge.

Key words: urban question, Florestan Fernandes, São Paulo

RESUMEN

La importancia de Florestan Fernandes para la formación de la sociología brasileña se considera fundamental, puesto que está vinculada a la construcción de una nueva interpretación del país, sobre la base de las explicaciones que surgen de la especificidad de su propia historia, más que en ejemplos externos. Aunque la ciudad no consista en tema central en su obra, el autor publicó en 1950 un artículo que abre este tema como crucial para la sociología. Allí, Florestán insistió en la urgencia de la investigación y el análisis de São Paulo, que apunta a la centralidad de la cuestión metropolitana. Sus seguidores, unos veinte años más tarde, hacen frente a este problema, conectado a una nueva interpretación de Brasil. Este artículo propone un estudio sobre cómo la cuestión urbana se presenta en la obra de Florestan Fernandes, como se sitúa dentro del pensamiento del autor, a fin de determinar su relación con su interpretación de Brasil y de entender sus despliegues en el trabajo de otros pensadores que le siguieron y fueron influenciados por él. Esta investigación se cree que contribuye a la comprensión de la cuestión urbana en Brasil, tal como fue formulada por el sociologo, en base a supuestos muy diferentes de los considerados por otras disciplinas del conocimiento.

Palabras clave: cuestión urbana, Florestan Fernandes, São Paulo

A importância de Florestan Fernandes para a constituição de uma sociologia genuinamente brasileira é manifesta e vem sendo debatida por inúmeros pesquisadores, de colegas a alunos e seguidores (D’ Incão: 1987, Martinez: 1998, Martins: 1998, Arruda: 2001 e outros). Sua contribuição é considerada fundamental à medida que sua obra propõe a construção de uma nova interpretação da sociedade brasileira e da especificidade do seu processo de desenvolvimento, a partir de bases explicativas galgadas na sua própria história, e não em exemplos externos. Essa perspectiva suplantou a prática, até então predominante, de transferência de modelos interpretativos de outras sociedades e adequação a uma realidade nacional cujo passado nada tinha de semelhante com aquele de onde provinham tais modelos.

A cidade não é um tema central em Florestan. Antes desse, outros assuntos foram por ele propostos como categorias fundamentais para o entendimento dessa sociedade na sua especificidade e, portanto, para o delineamento de uma sociologia brasileira, tais como a legitimidade de uma camada autenticamente “burguesa”, a questão racial, o problema da escravidão e a questão da mudança social. No entanto, em 1950, Florestan publicou um artigo que inauguraria a pesquisa urbana como um assunto crucial para a sociologia (Fernandes: 1950). Prova disso é a centralidade que o processo de urbanização no país ocupou como tema de estudo entre os seus alunos, a exemplo de Paul Singer, Lúcio Kowarick e Francisco de Oliveira.

No artigo, Florestan ressaltava a importância do processo de metropolização de São Paulo, apontando para a urgência de estudos e análises a esse respeito. Ao identificar o tema, o autor flagrava a ausência de dados empíricos, indicando uma lacuna importante na produção de pesquisas aprofundadas sobre a transformação de São Paulo em metrópole. Seus seguidores, cerca de vinte anos depois, iriam enfrentar a empreitada, de uma forma que evidencia a presença da sociologia de Florestan em sua base: a questão urbana seria tratada por todos eles não a partir da problemática da produção da cidade, mas pela via do pressuposto de uma nova interpretação do Brasil.

Este artigo delineia uma proposta de estudo do modo como a questão urbana se apresenta na obra de Florestan Fernandes, com uma finalidade dupla: em primeiro lugar, situa-la no contexto do pensamento do autor, identificando seu nexo e sua importância em relação à interpretação do Brasil proposta por ele; em segundo lugar, compreender as derivações geradas por esse modo específico de formular a questão urbana na obra de outros pensadores que o sucederam e foram por ele influenciados. Com essa forma de recortar o problema, acredita-se contribuir para o entendimento da questão urbana no Brasil tal como foi construída pela sociologia, a partir de pressupostos muito diferentes daqueles considerados na construção da mesma questão por outras disciplinas do conhecimento que também se debruçaram sobre o problema da cidade no mesmo período, tais como a geografia, a história e o próprio urbanismo.

Assim, o objetivo central perseguido neste artigo é mapear caminhos que possam dar a compreender de que forma foi construída a questão urbana como objeto de pesquisa sociológica em São Paulo, a partir da influência de Florestan Fernandes. O autor consolidou notável presença na constituição de uma sociologia tipicamente brasileira, construída a partir da cidade de São Paulo e produzida especificamente na Universidade de São Paulo. Tendo em vista essa perspectiva, procuramos compreender, em primeiro lugar, os fatores fundamentais que fizeram com que a questão urbana ocupasse lugar de destaque na própria consolidação da disciplina, durante a década de 1950. Em seguida, interessa também ao entendimento da forma como se desdobraram as interpretações sociológicas da questão urbana no Brasil, no contexto de uma nova leitura sobre o processo histórico e social brasileiro, na obra dos seguidores desse pensador. Tais desdobramentos não são aleatórios, mas determinados historicamente pelas condições da configuração real da cidade no momento em que se produzia tal análise e pelo rumo dos debates intelectuais sobre o tema. Dessa forma, a pesquisa visa a busca inserir o problema do lugar ocupado pela questão urbana na sociologia produzida em São Paulo a partir da década de 1950 no contexto que condicionou sua caracterização enquanto tal.

Tendo em vista o caráter eminentemente interdisciplinar do urbanismo, este projeto parte da premissa de que há um campo de inter-relações entre os diversos saberes que têm a cidade como objeto. Entende-se que é pertinente considerar o urbanismo não apenas como uma disciplina em si, mas também em sua interface com a produção de conhecimento sobre a cidade proveniente de outras disciplinas, tais como a história, a economia, a geografia e a sociologia. Assim, o estudo em vista se insere em um esforço de análise sobre a construção da “questão urbana” pelas diferentes disciplinas das ciências sociais em São Paulo, sobretudo a partir de sua consolidação como metrópole, durante a década de 1950. O estudo dos diferentes saberes que compõem esse campo de conhecimento, a partir dessas contribuições e seus confrontos, permite identificar o processo de construção histórica da reflexão sobre a problemática urbana, avalizando uma elaboração crítica acerca de algumas questões que interferem nos modos de intervenção sobre a cidade, pressuposto central do próprio urbanismo.

A cidade em pauta neste projeto é São Paulo, a partir de seu reconhecimento como metrópole, durante a década de 1950. O recorte temporal proposto tem em conta que muitas das questões fundamentais da política urbana atual, tais como a defesa da autonomia municipal em matéria de política urbana, a importância da inserção do planejamento metropolitano no contexto de um plano regional, a centralidade do aspecto infra-estrutural para o desenvolvimento urbano, as dicotomias centro/bairros e a relevância dos sentidos sociais e políticos implicados na configuração urbana e metropolitana, por exemplo, emergiram no debate sobre a cidade desse período. A relação entre as discussões atuais sobre essas questões e o repertório de propostas, estudos e pontos de vista colocados naquele momento é ampla e profunda e merece ser revisitada com o sentido de recolocar o debate sobre o urbanismo no Brasil em termos interdisciplinares.

Esse problema foi por mim identificado durante uma pesquisa sobre a história de criação do Parque Ibirapuera (Barone: 2007). Procurando compreender por que o Ibirapuera pode ser identificado como o primeiro parque metropolitano de São Paulo, percebemos que ele havia sido criado em um momento em que pesquisadores de diversas disciplinas do campo das ciências sociais se dedicavam ao estudo da metrópole, de modo pioneiro, em um esforço ao mesmo tempo de reconhecimento, compreensão e interpretação de um processo urbano sui generis contemporâneo a eles.

A quantidade de autores que contribuiu para a consolidação de uma reflexão crítica sobre o processo de urbanização característico desse período é ampla e heterogênea. Privilegiando-se a contribuição da Universidade de São Paulo e a forma por meio da qual se organizaram os saberes sobre a cidade em torno de disciplinas estabelecidas por sua própria estrutura departamental, podem ser citados, por exemplo, nomes como Aroldo de Azevedo (1958a, 1958b e 1961) na geografia, Richard Morse (1954) na história, Florestan Fernandes (1959) e Roger Bastide (1959) na sociologia e Luis Ignácio de Anhaia Mello (1954), no urbanismo propriamente dito. Todos esses autores enfrentaram o problema da metrópole em sua obra no mesmo momento, durante a década de 1950, a partir dos pressupostos e do instrumental de análise oferecido por suas disciplinas.

A constatação de que o tema da metrópole estava presente em todas as disciplinas humanas na década de 1950 em São Paulo pareceu um ponto relevante por si. Dizia respeito à produção do conhecimento sobre a cidade. Para dar um tratamento específico a esse problema, apresentei um artigo no XIII Encontro Nacional da ANPUR (Barone: 2009), demonstrando que esses estudiosos haviam fundado em suas disciplinas a pesquisa urbana, ou a pesquisa sobre a cidade de São Paulo, do ponto de vista de sua especificidade metropolitana.

A partir da obra desse elenco de pensadores, percebeu-se também que esse debate podia ser organizado a partir de grandes temas, que correspondiam à direção predominante da produção do conhecimento sobre a cidade durante determinados períodos dentro do intervalo mais largo em enfoque. Esses períodos, logo ficou claro, correspondiam a uma sucessão de gerações.

Assim, notou-se que esse conjunto de autores podia ser agrupado por um recorte geracional, apontando para uma periodização da orientação da pesquisa urbana em São Paulo. A geração de 1950 (Azevedo, Fernandes, Bastide, Morse, Anhaia Mello, Lebret) organizava-se em torno da emergência do tema da metrópole nas diversas disciplinas das ciências sociais. A geração de 1970 (Kowarick, Singer, Oliveira) debatia o problema do processo de urbanização à luz da crítica ao desenvolvimento dependente e associado, enfocando sobretudo a questão da formação da periferia urbana. Na década de 1990, iniciava-se um período de pesquisa marcado fortemente pela tendência de elaboração de grandes sistematizações do conhecimento, da qual Santos, Villaça e Bresciani são importantes representantes.

Das relações estabelecidas entre as obras desses autores, portanto, surge um campo fértil para compreensão dos rumos da pesquisa urbana produzida em São Paulo a partir das diferentes disciplinas das ciências humanas. O pressuposto da interdisciplinaridade permite entrever, primeiramente, a coerência interna da abordagem de cada disciplina, suas especificidades e as diferenças entre elas. Essa diferenciação é um ganho, sobretudo quando posta no contexto da realidade da cidade, identificando as diferenças nas formas de enfrentamento dos problemas urbanos por diferentes atores da arena intelectual e política. Permite também notar que há transformações no tratamento do objeto ao longo do tempo, demarcando a possibilidade de uma periodização. Além disso, proporciona evidências sobre as continuidades, filiações, influências, contrapontos e rupturas entre esses autores, delineando o território de uma produção de conhecimento fecunda e heterogênea sobre a cidade nesse período, bem como disputas, entraves e correlações de forças, questões ainda não equacionadas a esse respeito.

É preciso considerar ainda os motivos para a questão urbana ser construída de determinadas formas por cada uma das ciências sociais. O estudo desses motivos permite situar o debate sobre a cidade no tempo e esclarecer seu condicionamento histórico. O esforço de contextualização dessas relações indica os limites do debate, gerados pela própria forma de construção do problema, criando bases para uma reflexão crítica acerca do modo como ele se constitui hoje em dia.

Curiosamente, o tema da metrópole contribuiu também para evidenciar os instrumentos de análise de cada disciplina para subsidiar a compreensão e o enfrentamento dos problemas reais do seu tempo. Dessa forma, distinguir a metrópole como objeto de estudo, na década de 50, ajudava a justificar a pertinência de cada disciplina, contribuindo para sua autonomia em relação às demais.

Finalmente, destaca-se o sentido da proposição desta proposta de estudo no momento presente. Esse sentido ganha importância à medida que contribui para esclarecer alguns pontos de um debate em pleno andamento, em relação aos francos limites enfrentados pelo paradigma do planejamento urbano como forma hegemônica de intervenção sobre a cidade, em São Paulo e no país. Por meio do presente projeto procura-se desvendar as influências do conhecimento produzido a respeito da cidade sobre a concepção de propostas urbanísticas, com o objetivo de evidenciar as articulações entre a formulação teórica, a compreensão crítica e a intervenção sobre o processo urbano. Procura-se oferecer subsídios para a inserção do urbanismo em um contexto ampliado, nas suas convergências e divergências em relação às demais disciplinas que integram o campo das ciências sociais, com vistas a fazer emergirem novas formas de problematizar a questão urbana. Entendemos assim que essa pesquisa, somada aos demais trabalhos parciais que vêm sendo por nós executados tendo em vista a compreensão do conjunto de disciplinas que constituem os “saberes sobre a cidade” de São Paulo a partir da metade do século XX, guarda meios de contribuir para essa reflexão crítica.

No presente momento, o que temos é um mapeamento da bibliografia produzida sobre Florestan Fernandes e seus seguidores, que abre um campo de investigação amplo em si mesmo. Sobre o trabalho de Florestan, já foi produzida uma quantidade muito grande quantidade de textos, artigos, livros e seminários, tal a importância do sociólogo no contexto da sua disciplina. Um dos principais comentadores de sua obra é Otavio Ianni (2004) organizador de uma coletânea de textos do próprio Florestan escritos entre 1959 e 1979, cuja seleção evidencia os temas centrais de sua obra: as mudanças sociais, o desenvolvimento, a revolução burguesa, a escravidão, o folclore, a questão do novo homem e da nova sociedade, a universidade, as ciências sociais e a própria sociologia.

Outro importante comentador de sua obra é José de Souza Martins (1998), que publicou um livro sobre o autor, destacando sobretudo seu papel intelectual na formação da chamada “escola sociológica de São Paulo”. Sem a pretensão de fazer uma síntese ou sistematização completa, Martins coloca-se como aluno e discípulo de Florestan, discorrendo tanto sobre a pessoa, o professor, o militante, quanto sobre sua obra, a questão da política, da ciência e da própria sociologia. O livro é uma homenagem póstuma e inclui uma entrevista com o professor Alfredo Bosi.

Maria Arminda Arruda é outra pesquisadora do papel decisivo de Florestan na consolidação da sociologia paulistana, igualmente destacando sua personalidade, sua história, sua orientação política, profissional e intelectual e o caráter fundante de sua obra. Em artigos e livros, discorre sobre esses aspectos no contexto da produção universitária em São Paulo na época eu que o pensador atuou (Arruda: 2001; Micelli, 1989).

Outra autora que levanta a importância de Florestan no contexto da construção da Universidade de São Paulo, departamentos e disciplinas é Irene Cardoso (1982). A perspectiva de Cardoso reflete a questão das lutas e disputas políticas e ideológicas em torno da criação da Universidade de São Paulo entre 1920 e 1937. É, portanto, no debate com os pares, intelectuais como Lévi-Strauss e Roger Bastide, mas também no contexto de um certo autoritarismo de estado que condicionou os debates acadêmicos de então, que Cardoso situa a contribuição ímpar de Florestan.

Duas coletâneas de artigos foram publicadas como homenagens póstumas, uma na forma de livro e outra na forma de seminário. Martinez (1998) organizou um livro dividido em três partes: intelectual militante, capitalismo contemporâneo e crise do socialismo e universidade: cultura, ciência e política, com contribuição de diversos autores. A seleção temática que estrutura o livro reflete, sem dúvida, o impasse do capitalismo e da própria universidade sobre o engajamento político intelectual no momento de sua publicação. D’Incão (1987) organizou o material de um seminário de homenagem a Florestan realizado em 1986 na Unesp de Marília, no primeiro esforço coletivo para avaliar a produção do sociólogo.

Os textos dos “seguidores” de Florestan também foram amplamente comentados, pois tratam-se de analistas e pesquisadores notáveis em suas intervenções críticas. Sobre a questão urbana, em geral, o trabalho desenvolvido pelos membros da geração de 1970, na qual se inserem os sucessores de Florestan, podem ser agrupados pela sua preocupação com o tema da periferia urbana. É com esse recorte temático que esses textos vêm sendo analisados mais recentemente.

Tanaka (2006) apresentou uma importante contribuição a essa reflexão, relacionando a construção social do conceito de periferia em São Paulo a práticas e discursos de sujeitos sociais e políticos elaborados em um contexto histórico específico. A autora identifica como a noção de periferia passa a ocupar o centro do debate sobre a questão urbana no Brasil, sobretudo na perspectiva do pensamento crítico, no qual se torna fundamental para a identificação dos problemas da sociedade brasileira e da formulação do projeto político de desenvolvimento e superação da sua condição de desigualdade.

O foco de sua análise evidencia o panorama que redunda no esvaziamento da dimensão teórica do conceito, implicando uma generalização do uso de noções como a segregação urbana, descoladas da compreensão do problema da produção do espaço urbano em sua especificidade. Segundo Tanaka, o declínio do conceito está associado ao uso que se fez dele, vinculado a pressupostos teóricos delineados pela corrente do pensamento crítico no Brasil, cuja interpretação propunha a combinação de uma moderna inserção da economia brasileira no capitalismo com uma forma inacabada de pacto social marcado pela super-exploração do trabalho e por formas não-capitalistas de uso do trabalho extensivo. Nesse sentido, a noção de periferia não consistiria uma estrutura nova da configuração da sociedade brasileira, mas serviria apenas para reforçar uma interpretação já esboçada da especificidade do seu subdesenvolvimento.

Arantes (2009) traz uma outra reflexão importante sobre o mesmo problema, ao fazer um balanço do que ele considera a produção pioneira de pensadores marxista brasileiros que procuraram compreender as contradições do crescimento urbano, esboçando uma teoria critica inovadora. No artigo de Arantes, aparece a ideia de periferia urbana sobreposta a uma outra dimensão do termo, que emerge da inserção do Brasil na chamada “periferia do capitalismo”i.

O ponto que interessa a Arantes é a passagem da compreensão da periferia como reflexo das condições impostas para a reprodução da força de trabalho em uma economia dependente para uma interpretação onde a cidade é a própria forma da expansão do capitalismo. Nessa passagem, a questão urbana passa a ser tomada como objeto da teoria e da crítica, e não apenas como consequência das relações de dominação. Segundo o autor, o grupo articulado em torno do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – CEBRAP, constituído por nomes como Singer, Oliveira e Kowarick, orbitou ao redor do tema da periferia por meio de uma análise econômica e sociológica que, no fundo, prescindia da especificidade da configuração do espaço. A cidade, segundo Arantes, não adquiriu “estatuto interpretativo” para esses autores. Ao contrário, foi entendida de forma unidimensional, como manifestação direta da racionalidade econômica e política. Para ele, essa condição só foi revertida a partir das pesquisas voltadas para um estudo da produção da cidade e da periferia como forma mesma da contradição a que a sociedade estava submetida. Essas pesquisas foram desenvolvidas no mesmo período, articuladas à produção do CEBRAP nessa matéria, mas no âmbito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAUUSP, por arquitetos engajados com a compreensão da dimensão propriamente urbana do problema nacional, tais como Maricato, Rolnik e Bonduki.

Vale mencionar também a grande sistematização da pesquisa urbana produzida nesse período, não no contexto paulistano, mas no âmbito latino-americano, feita por Gorelik (2005). O autor situa a pesquisa sobre a "cidade latino-americana" como construção cultural, visto que as cidades dos países latino-americanos apresentam conjunturas e caraterísticas tão distintas que não formam uma categoria explicativa em si. Segundo Gorelik, a categoria explicativa “cidade latino-americana” existiu apenas enquanto “houve vontade intelectual de construí-la como objeto de conhecimento e ação” e “teorias para pensá-la, e atores e instituições dispostos a tornar efetiva essa vocação”: entre as décadas de 1950 e 1970, o pensamento social latino-americano definiu um novo contorno, das teorias do desenvolvimento às teorias da dependência, do reformismo modernizador às posições revolucionáriasii. No campo específico da pesquisa urbana, prevaleceu naquele momento a crença na ideia operativa do planejamento. Nesse contexto, a “cidade latino-americana” aparecia como o locus de uma modernização livre dos custos e dos erros experimentados nos países desenvolvidos, um “laboratório de experimentação social e política”. Diferentemente, portanto, de Arantes, que critica o ponto de vista teórico da geração de 1970, pelo qual a questão urbana seria mais um reflexo de condições sociais e econômicas de dependência, Gorelik vê nesse mesmo debate a “cidade latino-americana” como uma figura-chave da teoria social.

O trabalho proposto por meio deste artigo constrói-se pelo cruzamento de alguns esforços de pesquisa. A questão urbana na obra de Florestan foi pouco tratada, mas situa-se dentro de uma intenção que não pode ser desconsiderada para uma compreensão mais precisa da forma como foi formulada por ele e, posteriormente, por seus discípulos. Nessa linhagem da sociologia paulistana, a questão urbana foi tratada na perspectiva de articular elementos para uma interpretação do Brasil, de sua situação política, econômica e social e de sua formação histórica específica. Portanto, é dentro dessa perspectiva que se enquadra esta pesquisa. Assim sendo, um primeiro trabalho necessário será o de compreender a inserção da questão urbana no conjunto da obra de Florestan. Para tanto, será necessário fazer uma leitura sistematizada e seletiva da obra do autor, elegendo os trabalhos mais representativos da interpretação do Brasil por ele proposta, para nela situar sua leitura do problema da cidade de São Paulo, representada naquele momento como a “cidade-metrópole”.

Tal leitura deverá ser contextualizada em relação à própria cidade, seus problemas e os debates políticos e técnicos em pauta no momento em que a problemática da metropolização era levantada por Florestan. Essa contextualização será feira a partir de imagens da cidade colhidas em periódicos da época, projetos arquitetônicos ou urbanísticos implementados no período e documentos, textos e artigos publicados em periódicos da época que tratem dos problemas urbanos e seus debates.

Do mesmo modo, deverá ser desenvolvida uma contextualização histórica da obra dos autores “seguidores” de Florestan: Paul Singer, Lúcio Kowarick e Francisco de Oliveira, e da forma de inserção da pesquisa urbana dentro de sua obra. É necessário que cada texto seja compreendido em relação ao momento histórico em que foi escrito, editado e publicado. Além da perspectiva da própria realidade urbana à qual se reportam, o cenário do desenvolvimento urbano experimentado e os debates sobre a cidade em pauta naquele momento, o contexto da produção desses textos deve ser considerado em relação à condição histórica, política e social na qual se inscrevem e também à trajetória profissional, intelectual e política dos seus autores.

Da contextualização da obra desses autores emana a necessidade de se organizar essa produção em relação ao tempo histórico em transformação, sugerindo uma periodização. O esforço de periodização revela a pertinência da visada por gerações sucessivas, tal como proposto na disciplina “Os saberes sobre a cidade”.

Outro trabalho previsto será o de estabelecer uma interface entre a visão sociológica da questão urbana em São Paulo nesse período e a de outras disciplinas. Para essa tarefa, será pertinente considerar a obra dos demais autores citados inicialmente, como Morse, Azevedo, Anhaia Mello, Bastide, Lebret, bem como os da geração seguinte, Maricato, Santos, Villaça, Bresciani e Sevcenko. O enfoque dado a essa leitura será, neste momento, de comparação, no sentido de evidenciar o ponto de vista sociológico. Reconhecida essa dimensão, será necessário também situar o enfoque sociológico no contexto histórico das transformações da cidade, de modo a buscar esclarecer por que foram levantados determinados aspectos do problema em cada momento, e não outros.

A partir da elaboração desses trabalhos, será possível delinear as influências do pensamento de Florestan sobre a produção dos sucessores em relação à problemática urbana no Brasil. Finalmente, buscaremos compreender por meio desse trabalho qual a contribuição que pode ser imputada à formulação da questão urbana a partir dos anos de 1950 na sociologia paulistana para a construção teórica da disciplina.



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i Categoria proposta por Schwarz (1979), para indicar o estatuto dos países não-centrais no chamado “capitalismo avançado” de Theodore Adorno.

ii Demarcando essa periodização, o autor avalia que até a década de 1940 as cidades eram consideradas apenas em seus contextos nacionais; e depois de 1980 a categoria “cidade latino-americana” já não representava mais uma dimensão teórica produtiva.



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