Terceiro grau da oração: a oração afetiva



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Terceiro grau da oração: a oração afetiva.

Santa Teresa não usa esta expressão em nenhuma das suas obras, porém fala dela com claridade [Vida 13, 11] e tem sido aceitada por unanimidade em todas as escolas de espiritualidade cristã; Um dos primeiros em falar desta expressão foi Álvarez de Paz em sua obra De inquisitione pacis (1617), tomando, por exemplo, o jesuíta catalão Antonio Cordeses (1518-1601).



1. Natureza. A oração afetiva é aquela na que predominam os afetos da vontade sobe o discurso do entendimento. E como uma meditação simplificada na qual cada vez vai tomando um lugar mais importante o coração por cima do prévio trabalho discursivo. Acreditamos, pelo mesmo fato, que não tem diferença especifica entre a oração afetiva e a meditação, porém tem diferença com a contemplação. É, repetimos, uma meditação simplificada e orientada ao coração; nada mais. Isto explica que o transito de uma para a outra se face de uma forma gradual e insensível, ainda que com mais o menos rapidez ou facilidade, de acordo ao temperamento do quem o exercita, o esforço, a educação recebida, o método uado e outros fatores semelhantes.

Tem espíritos que por seu jeito muito afetuoso conseguem muito rápido prescindir quase por completo do discurso porque uma pequena reflexão excita o suficiente os afetos. Outros, pelo contrario, de caráter frio e enérgico, precisam ter sempre no inicio o discurso reflexivo, e mesmo assim, não conseguem muitos afetos; frequentemente cada afeto precisa de um novo discurso. Estas almas vão precisar evidentemente mais tempo e prática que as anteriores para atingir a oração afetiva. Finalmente, até o método de meditação tem influencia nisto. Assim, por exemplo, o método de Santo Inácio da muita importância à parte intelectual, não favorece o trânsito para a oração afetiva como o método franciscano, que já desde o inicio coloca menos importância no entendimento e mais importância no coração.

Quando tem que ser feito o trânsito? Você deve evitar: cedo demais e tarde demais. Acreditamos, porém, que na prática e possível evitá-los facilmente, se tem o cuidado de simplificar a meditação devagar, insensível, sem esforço, sem violência. Não insista para provocar violentamente afetos aos quais não sente o impulso e para os quais não tem força; mas entregue-se a eles com docilidade se sente o atrativo da graça, sem preocupações nem pouco nem muito de percorrer os pontos ou momentos de sua acostumada oração discursiva. Deste modo, com suavidade e sem esforço evitando toda violência, você vai fazer o transito da meditação à oração afetiva, que vai diminuir a sua mínima expressão e logo a suprimir totalmente, o prévio trabalho do entendimento discursivo.

O que nunca pode ocorrer é uma oração pura e exclusivamente afetiva., sem conhecimento prévio. A vontade é potencia cega, e só pode amar o bem que o entendimento apresenta. Mas acostumado o entendimento pelas anteriores meditações a encontrar facilmente esse bem, o apresentará cada vez mais rapidamente á vontade, dando-lhe a matéria da oração afetiva.



2. Prática da oração afetiva.

São muito acertados os seguintes conselhos do Pe. Crisógono:

1.- Não suspender o discurso antes do surgimento do afeto. Seria perder o tempo numa néscia ociosidade e fomentar uma ilusão perigosa demais.

2.- Não forçar os afetos. Quando não surjam espontaneamente o fiquem extintos, excita-los outra vez suavemente pelo discurso, mas nunca querer estingar demais um só afeto.

3.- Não ter pressa por passar de uns a outros afetos. É o extremo oposto ao ponto anterior. Issto é expor a alma a perder o fruto do primeiro e não conseguir logo o segundo; é como quem deixa uma presa segura uma outra incerta.

4.- Procurar reduzir e simplificar progressivamente os afeitos. No principio não importa se são muitos, para que a pouca intensidade seja suprida pelo número; mas na medida que a alma vai adiantando é bom reduzi-lhos até chegar, se é possível, a unidade. Assim, a intensidade será maior.



3. Vantagens desta oração.

Psicologicamente falando, esta oração representa um verdadeiro alivio para a alma, que vem a diminuir o rudo trabalho da meditação discursiva. Mas muitos maiores são as vantagens espirituais que apresenta. As principais são:

1.- União mais íntima e profunda com DEUS, efeito infalível do exercício do amor, que nos vai aproximando cada vez mais ao objeto amado.

2.- Um desenvolvimento proporcionado de todas as virtudes infusas, pois, estando em conexão com a caridade, crescem todas á vez como os dedos da mão.

3.- Esta oração produz a consolação e suavidade sensível, que se a alma sabe aproveitar, sem apegar-se desordenadamente a eles, estes servirão de grande estímulo e alento par a prática das virtudes cristãs.

4.- É uma excelente preparação para a oração de simplicidade e primeiras manifestações da contemplação infusa.



4. Obstáculos e inconvenientes

Estes preciosos vantagens podem ser atrapalhadas por alguns inconvenientes contrários.

Tem que evitar cuidadosamente sobre tudo:

1.- O esforço violento para produzir os afetos. A alma tem que convencer-se de que o verdadeiro fervor reside na vontade, não na sensibilidade. Tem alguns que acha que fazem um ato intensíssimo de amor a DEUS apertando fortemente as mãos e incendendo o rosto até a congestão ao mesmo tempo em que lançam uma exclamação amorosa. Não é isto. Sem tanta pompa se pode chagar a um ato perfeitíssimo com só retificar e elevar de plano os motivos do mesmo, ou seja, fazendo-o só e simplesmente por glorificar a DEUS em plano de puro amor, embora não dai para nós nenhuma utilidade ou vantagem. São os motivos cada vez mais puros e elevados os que dão tanto valor aos atos mais insignificantes dos santos.

2.- Achar que eu estou mais adiantado na vida espiritual do que estou em realidade. Tem almas que, ao sentir o coração cheio de doces emoções e ao olhar a facilidade e prontidão com que brotam da alma os atos de amor de DEUS, acham que estão quase nos confines do êxtase. Que falsa apreciação, que se comprova sem esforço poucos minutos depois de terminada a oração, quando começam sem escrúpulo a faltar ao silêncio, a criticar aos outros, a fazer mal e de presa as obrigações de estado, quando não as omitem totalmente, etc. O verdadeiro adianto na vida espiritual consiste na prática cada vez mais seria e perfeita das virtudes cristãs, não nas doçuras que se experimentam na oração, que são matéria de tantas ilusões.

3.- A gula espiritual, que impulsa a procurar na oração afetiva a suavidade dos consolos sensíveis no lugar do estímulo e alento para a prática austera das virtudes cristãs.

DEUS geralmente castiga este desejo egoísta da alma retirando-lhe seus consolos e mergulhando-a na aridez e sequidade mais desoladora para que aprenda a retificar a intenção e olha por sim mesma o pouco que vale quando DEUS vai embora.

4.- A negligencia e preguiça da alma, que a impulsa a uma estéril e ociosidade quando faltam os afeitos por não molestar-se em voltar aos discursos da simples meditação. É uma ilusão muito grande pesar que, uma vez chegada a alma á oração afetiva habitual, já nunca precisara voltar á meditação. Jamais acontece isto ne sequer ás almas que tem logrado subir até a cume da perfeição. Falando das almas que tem logrado escalar até as sétimas moradas, Santa Teresa de JESÚS escreve expressamente: “Não deveis entender, irmãs, que os efeitos a que me referi sejam experimentados sempre com a mesma intensidade. Por isso, quando me lembro, digo: “com frequência”, porque ás vezes Nosso Senhor deixa essas almas entregues á sua natureza. Então parece que todas as coisas peçonhentas das arredores e das outras moradas deste castelo se juntam contra elas, buscando vingar-se do tempo em que não as podiam incomodar”. Pois se isto acontece as vezes ás almas chegadas á plena união com DEUS, quanto mais acontecerá com ás que não tem conseguido transcender ne sequer as fronteiras da ascética na oração afetiva. É preciso nestes casos lutar contra a preguiça e distrações, fazendo o que dai para fazer com os recursos de uma simples meditação ou oração de discurso. O contrario seria ficar numa atitude preguiçosa que abriria a porta a um mundo de ilusões.



5. Frutos desta oração.

Tem uma norma infalível para julgar a legitimidade ou bondade da oração: examinar os frutos. É uma norma suprema do discernimento dos espíritos, como dada pelo Nosso Senhor JESUSCRISTO (Mt 7, 16). O fruto da oração afetiva não pode medir-se pela intensidade dos consolos sensíveis nela experimentados, senão pela melhora e aperfeiçoamento olhando de conjunto da vida. A prática cada vez mais intensa das virtudes cristãs, a pureza de intenção, a abnegação e desprezo de se mesmo o espirito da caridade, o cumprimento exato dos deveres do próprio estado e outras coisas semelhantes serão o índice da legitimidade da nossa oração.



“O resto são chorrilhos que se evaporam, suspiros que se esvaecem na atmosfera” Pe. Crisógono

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