Tese apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da ufsc como requisito para a obtenção do grau de Doutor



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Trabalho de tese apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da UFSC como requisito para a obtenção do grau de Doutor em Engenharia de Produção.

Autoria: Edla Maria Faust Ramos

Orientação: Dra. Léa Da Cruz Fagundes (LEC/UFRGS)

Florianópolis, novembro 1996


Cap. 4 Fundamentação teórica - parte 1: as teorias cognitivas e os conceitos de autonomia e cooperação

Introdução (síntese da Unidade III do CAPRA – Ponto de mutação sobre psicologia newtoniana)


A psicologia é uma ciência bastante recente, (a sua origem pode ser datada em meados do século passado), mas para compreender o mapeamento do pensamento psicológico na atualidade, é bem provável que seja necessário reportar-se a uma história bastante longínqua. Capra (1982) faz um relato muito interessante ressaltando que a compreensão do psiquismo humano é paralela ao desenvolvimento da filosofia e é lá que as suas origens devem ser buscadas. Esse relato de Capra será sintetizado nesta introdução. Segundo ele, já Descartes fazia uma nítida diferença entre o corpo perecível e a alma indestrutível, e aconselhava que a alma devia ser estudada pela introspecção, enquanto que o corpo, pelas técnicas das ciências naturais. Apesar de Descartes considerar que o corpo e a alma, mesmo em domínios diferentes, interagiam pela glândula pineal, os estudiosos dos séculos subseqüentes não procuraram analisar esta interação.

Nos séculos XVII e XVIII haviam nitidamente duas correntes, os estruturalistas que buscavam estudar a mente e a introspecção, a partir dos elementos básicos da consciência, e os behavioristas, ou ambientalistas, que apenas se preocupavam em estudar o comportamento, tentando adaptar o modelo da física clássica ao seu estudo. O sucesso do pensamento cartesiano e newtoniano confere vigor à corrente comportamentalista que mantém até hoje grande influência no mundo contemporâneo.

Foi John Locke um dos principais pensadores desta corrente no período citado. É dele a máxima da tábula rasa, segundo a qual: “nada existe na mente que não tenha antes passado pelos sentidos”. A mente então é uma massa inerte na qual as idéias vão sendo gravadas a partir das percepções. Este entendimento nega o próprio conceito de inatismo formulado por Descartes, para ele, haveria na mente uma disposição cognitiva inata, nunca os sentidos sozinhos poderiam dar conta da construção de conceitos complexos.

A teoria do associacionismo procura avançar na compreensão simplista dos behavioristas da época: as sensações são elementos básicos que se associam formando estruturas mais complexas. Estas podem, então, ser explicadas a partir de algumas poucas regras de associação. O princípio da associação foi considerado por David Hume como central na análise psicológica, as sensações teriam uma força de atração entre elas, e isto explicaria a construção de conceitos mais sofisticados. Era então o homem apenas um feixe de percepções.

Ao conceito de associação, no século XIX, veio somar-se o conceito de reflexo neurológico, oriundo dos avanços da anatomia e da fisiologia. A clara relação causal entre estímulo e resposta, conferem ao reflexo neurológico o status de componente fisiológico elementar básico para todos os padrões mais complexos de comportamento. A crença na possibilidade de que o reflexo neurológico poderia fornecer a base para todo o comportamento humano, é explicitada na teoria do russo Ivan Sechenov. Um dos principais estudiosos desta teoria é Ivan Pavlov, com a descoberta do princípio do reflexo condicionado.

Ainda no século XIX, o behaviorismo ganha um grande impulso no trabalho de Wundt, que fundou o primeiro laboratório de psicologia. Wundt, por acreditar que todo o funcionamento mental podia ser analisado a partir de elementos específicos dedicou-se a entender como esses elementos podiam combinar-se entre si, para formar as percepções, as idéias e os processos associativos. Acreditava Wundt, que este era o objeto da psicologia.

Em contraposição às visões dualistas do behaviorismo e do estruturalismo o início deste século vê surgir as teorias gestaltista e do funcionalismo. Os gestaltistas, cujo principal representante é Max Wertheimer, propugnam que a percepção não pode dar-se em termos de associações de elementos isolados. Daí, nasce o conceito de que as percepções são gestaltens, ou totalidades. Estas totalidades são mais do que a mera soma das partes, uma vez que exibem qualidades não presentes nos elementos isolados. Esta visão mantém uma componente inatista, por não explicar como tais totalidades surgem. Seriam elas já pré formadas na mente?

O funcionalismo, tem como principal expoente William James, que resgata o estudo da consciência na psicologia, cuja construção entende ser um fenômeno dinâmico. Não é a estrutura que precisa ser analisada, mas o processo do funcionamento, que ele entende relacionado com a vida como um todo. Esta não é mais uma visão dual, corpo e mente são interdependentes e dessa interdependência nasce a consciência como um fenômeno pessoal, integral e contínuo. As regras de associação são, para James, um mero recorte transversal de uma contínua corrente do pensamento que tinha que ser entendida “em relação às ações conscientes dos seres humanos em seu confronto cotidiano com uma variedade de desafios ambientais.” (Capra, 1982:162)

No século XX a psicologia recebe a cooperação de muitas áreas científicas e passa também a ser aplicada em vários campos da atividade humana, dentre eles a educação. Isto se deveu ao fato de enfim a psicologia ter atingido, por conseqüência do trabalho de muitos pensadores, e em especial, nesse início de século, do trabalho de Watson, o status de uma ciência natural. O behaviorismo teve, e tem até hoje, uma importância capital na educação de um modo geral. Das múltiplas escolas psicológicas existentes, pode-se dizer que esta foi a que conformou, de forma mais definitiva, a prática pedagógica do mundo ocidental. Só recentemente, esta prática tem sido questionada.

Devido a esta importância impõe citar ainda o trabalho de Watson e Skinner, os seus dois principais teóricos deste século. Watson domina a cena behaviorista nas três primeiras décadas do século. Ele assume, como muitos já tinham feito, a validade, para o homem, dos resultados de experimentos realizados com animais, pois, para ele, a única diferença destes para aqueles, são os tipos de comportamento que exibem.

O conceito de condicionamento de Berkhetev e Pavlov é inteiramente assumido por Watson, passando este a ser o princípio e o método de explicação do behaviorismo. Mas, Watson aprimora o conceito, construindo uma descrição objetiva e rigorosa para o reflexo condicionado. Da mesma forma que Bacon preconizou ser possível o controle total da natureza, acreditaram os behavioristas a partir de Watson, ser possível o controle total do comportamento humano. Donde foi preciso ter claro, que apenas os fenômenos observáveis seriam passíveis de descrição, e estas deveriam ser feitas independentemente do observador. Isso levou à tendência de explicar todos os fenômenos psicológicos a partir de causas determinantes provenientes do mundo externo. O pensamento, a percepção e, mesmo, as emoções não são, então, experiências subjetivas, mas modos de comportamento, nada mais do que respostas a estímulos do ambiente.

O princípio do reforço ao condicionamento é uma contribuição importante que a teoria behaviorisa ganha de Clark Hull. Esse princípio afirma que a resposta a um estímulo pode ser reforçada ou eliminada pela satisfação, ou falta dela, gerada pelo comportamento resposta (é o princípio da maximização do prazer).

A partir da década de 50 o principal estudioso desta corrente psicológica passa a ser Skinner. Além de um grande talento para a experimentação Skinner teve uma contribuição teórica fundamental. Ele tornou operacional o conceito de reforço, a partir do conceito de condicionamento operante, no qual toda história das experiências passadas é objetivamente considerada e não apenas os estímulos diretos do ambiente. “Pode-se, assim, dizer que o comportamento é sempre o resultado de associações estabelecidas entre algo que o provoca (um estímulo antecedente) e algo que o segue e o mantém (um estímulo conseqüente).” (Davis, 1991:33)

A teoria de Skinner, de certa forma explicou como a experiência influencia a aprendizagem, sendo esta entendida como o processo pelo qual o comportamento é modificado como resultado daquela. Nesse sentido, a visão behaviorista eliminou o caráter pessimista e preconceituoso da concepção inatista, que oriunda da influência religiosa, acreditava que cada homem é criado por Deus de forma definitiva, donde pode muito pouco a educação fazer por ele, a não ser aprimorar um pouquinho os seus próprios talentos. Quando estes talentos não existem, nada há a fazer. As aptidões, a prontidão e os coeficientes de inteligência são os escudos que a concepção inatista tem para o fracasso da sua prática pedagógica. Recuperar a importância dos fatores ambientais e sociais no desenvolvimento, esta foi a grande contribuição do behaviorismo.

Para os behavioristas passou a ser importante o planejamento do ensino, com a definição clara dos objetivos a serem alcançados, com a preparação do ambiente da aprendizagem e das seqüências a serem seguidas até o objetivo, bem como, com a definição dos mecanismos de reforço que serão utilizados. Aí está a grande contribuição do pensamento behaviorista para a pedagogia.

Mas há nesse pensamento um grave aspecto negativo, trata-se da questão do poder excessivo conferido ao ambiente. Os behavioristas ignoram completamente a interdependência entre o organismo vivo e o seu ambiente. Skinner deixa claro que considera como inexistentes a consciência, a mente, as idéias, isto porque, faltam a estes conceitos, as dimensões da ciência física. Não existe o ‘eu’ íntimo, para Skinner, donde ele propõe uma abordagem técnica para criar, por condicionamento, um novo tipo de homem e uma nova sociedade. A crise atual da sociedade seria, então, superada, não pela criação de um novo tipo de consciência (já que esta nem existe), nem por uma mudança de valores (pois estes são apenas reforços positivos ou negativos), mas através do controle científico do comportamento humano.

Se, para Skinner seria possível uma tecnologia manipuladora do comportamento, tão precisa quanto a física e a biologia, então o homem, para Skinner não pode ser autônomo. As conseqüências disto na prática pedagógica, logo se fizeram perceber. Nesta prática, o aluno é visto como um ser passível de manipulação, portanto passivo e controlado pelo ambiente. Há um excessivo diretivismo na mesma, nenhuma liberdade de ação é dada aos educandos, que já não esteja prevista no planejamento do ensino. Apesar de Skinner considerar que as situações pessoais podem influenciar na percepção do estímulo, normalmente as diferenças individuais não são consideradas, o plano de ensino é elaborado de forma massificada. Essa visão trouxe um tecnicismo exagerado na prática pedagógica, as relações pessoais e a cooperação não são levadas em conta, pois o ambiente não tem sido entendido como contendo outras pessoas, é em geral apenas o mundo físico que é considerado.



Se não é o ambiente o único responsável, se o sujeito como corpo, mente e consciência também tem parte ativa no processo do desenvolvimento, então é na interação do sujeito com o ambiente que o desenvolvimento se dá. Este é o entendimento da corrente interacionista que surge no início deste século tendo como principais nomes Jean Piaget e Lev Vygotsky. Neste trabalho escolheu-se trabalhar com Piaget, porque é o que se preocupou mais com o conceito de autonomia e do seu papel no desenvolvimento humano.

Além disso se estudou em detalhes os trabalhos de Paulo Freire e Humberto Maturana e Francisco Varela, o primeiro deles por ter construído uma pedagogia da libertação, onde a autonomia e a cooperação são conceitos centrais. Os dois últimos, por terem em conjunto estudado o fenômeno biológico, e porque desse estudo concluíram que a vida é ela mesma um fenômeno autônomo, donde, também o é o processo cognitivo.

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