Tese de doutorado departamento de psicologia



Baixar 0.6 Mb.
Página1/11
Encontro20.07.2016
Tamanho0.6 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11





Carla Mourão



A “experiência cultural” na prevenção
do abuso de drogas na adolescência


TESE DE DOUTORADO


DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica

RIO DE JANEIRO

Fevereiro de 2005






Carla Mourão

A “EXPERIÊNCIA CULTURAL” NA PREVENÇÃO
DO ABUSO DE DROGAS NA ADOLESCÊNCIA



Tese de Doutorado
Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Psicologia.
Orientadora: Maria Euchares de Senna Motta

Rio de Janeiro

Fevereiro de 2005





Carla Mourão


A “experiência cultural” na prevenção
do abuso de drogas na adolescência

Tese apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Doutor pelo Programa


de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio.

Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo assinada.


Profª. Maria Euchares de Senna Motta

Orientadora

Departamento de Psicologia — PUC-Rio

Paulo Fernando Carneiro de Andrade

Coordenador Setorial do Centro Técnico-Científico — PUC-Rio

Rio de Janeiro, fevereiro de 2005.

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do trabalho sem autorização da universidade, da autora e do orientador.



Carla Mourão
Graduou-se em Psicologia em 1989. No mesmo ano iniciou sua formação em psicanálise. Nos anos 90 iniciou suas pesquisas sobre a questão da toxicomania, que continua sendo seu principal tema de pesquisa. Em 1999 concluiu o mestrado com a dissertação: “Uma droga de cultura”: a representação social das drogas dos anos 60 aos 90. No ano de 2001 passou a dedicar-se mais profundamente à prevenção do abuso de drogas entre adolescentes. Apresentou trabalhos em congressos e fez palestras em várias instituições sobre o tema da prevenção e da clínica da toxicomania. Possui alguns artigos publicados sobre o assunto. Foi coordenadora técnica do CEPRAL (Centro de Estudos e Prevenção do alcoolismo) do Hospital Escola São Francisco de Assis. Participou da elaboração do projeto e fez parte da equipe técnica do projeto UNIDAD (Unidade de atenção às adições) do CIAP (Centro de Investigação e Atendimento psicológico) da PUC-Rio.

Ficha catalográfica



Mourão, Carla
A experiência cultural na prevenção do abuso de drogas na adolescência / Carla Mourão; orientadora: Maria Euchares de Senna Motta. – Rio de Janeiro: PUC-Rio, Departamento de Psicologia, 2004.
184 f.; 30 cm
Tese (doutorado) — Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Psicologia.
Inclui referências bibliográficas
1. Psicologia — Teses. 2. Adolescência. 3. Cultura. 4. Drogas — Prevenção. 5. Abuso de drogas. 6. Toxicomania. I. Motta, Maria Euchares de Senna. II. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Psicologia. III. Título.

CDD: 150

Para meus pais, Ewald e Heloiza.
Para meus filhos, Pedro e Manuela,
de novo e sempre.

Agradecimentos

À Profª. Drª. Maria Euchares de Senna Motta, pelo saber transmitido e pela atenção, gentileza, suavidade e carinho com que acompanhou meu percurso. E também pelo exemplo de como um verdadeiro professor pode acolher, apoiar e incentivar seus alunos.

Ao Dr. Aluísio Pereira de Menezes, por tantas coisas, tantas..., que a lista não caberia aqui nessas páginas.

Aos coordenadores gerais, coordenadores e adolescentes do Grupo Cultural Afro reggae, da Companhia Étnica de Dança, do Espaço de Construção da Cultura, da Escola de Teatro Spetaculum, do Centro Cultural Jongo da Serrinha, e da Escola de Circo da Fundição Progresso, pela disponibilidade e generosidade com que partilharam suas experiências, sem as quais esse trabalho não seria possível.

Aos meus filhos, Pedro e Manuela, pela contribuição com relação à compreensão do “universo adolescente” e pela força que me dão para continuar caminhando e tentando, a cada dia, ser uma pessoa melhor.

À todos os adolescentes que fazem parte da minha vida, e que muito me ensinam, sempre. Essa nova geração faz acreditar, realmente, em “outros mundos possíveis”.

À minha amiga Clélia de Ehlers Oliveira, por seu carinho, estímulo e pela generosidade com que partilha comigo sua experiência clínica e seu conhecimento sobre psicanálise e também pelas sugestões preciosas.

À minha amiga Rosane Grippi, por ter me socorrido num momento de exaustão, realizando uma excelente revisão do texto e da bibliografia, e por ter suportado minha “crise pós-parto”, impulsionando-me, com toda paciência, até o final da tarefa.

À minha amiga Gilda Sodré, pelas sugestões, atenção, carinho e estímulo.

Ao meu amigo Eduardo Neves, pelas correções e pelo apoio em momentos cruciais.

Ao meu amigo Marcelo Jacques, pela versão do resumo em francês.

À minha amiga Paula Carneiro da Rocha, pela confiança e generosidade.

Ao Prof. Dr. Marcelo Cruz, pelo estímulo que sua confiança na minha capacidade e no meu trabalho me proporcionam.

À Marize, Verinha e Marcelina, pela ajuda nos assuntos burocráticos.

À CAPES pelo apoio financeiro.

Resumo

Mourão, Carla. A experiência cultural na prevenção do abuso de drogas na adolescência. Rio de Janeiro, 2005. 180f. Tese de Doutorado — Departamento de Psicologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Essa pesquisa trata da metodologia de programas criados por organizações não governamentais que oferecem atividades ligadas às artes e à cultura para crianças e jovens. O objetivo é apresentar soluções preventivas alternativas para a problemática do abuso de drogas na adolescência. Utilizamos a psicologia do desenvolvimento emocional infantil de D.W. Winnicott como referência teórica para a análise da pesquisa de campo realizada com os programas culturais comunitários, com o objetivo de avaliar a possibilidade de sua utilização na prevenção do abuso de drogas entre adolescentes. Chegamos assim à questão da importância de se trabalhar em função dos principais indicadores de risco que operam ainda na infância, período considerado como determinante, mas no qual o desenvolvimento da personalidade ainda não alcançou uma configuração definitiva.

Palavras-chave

Adolescência, cultura, prevenção, abuso de drogas, toxicomania.


Resumè

Mourão, Carla. L’expérience culturelle dans la prévention contre l’abus des drogues dans l’adolescence. Rio de Janeiro, 2005. 180f. Tese de Doutorado — Departamento de Psicologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Cette recherche se propose d’analyser la méthodologie de certains programmes créés par des organisations non gouvernamentales offrant à des enfants et des jeunes des activités liées à l’art et à la culture. Notre but est de présenter des solutions préventives alternatives contre l’usage abusif des drogues dans l’adolescence. La psychologie du développement émotionnel enfantin d’inspiration winnicottienne sert de base théorique à l’analyse de la recherche sur le terrain aussi bien qu’à l’évaluation de l’efficacité des programmes culturels communautaires en ce qui concerne la prévention contre l’usage abusif des drogues dans l’adolescence. Nous touchons ainsi à la question des plus importants indicateurs de risques opérant dans l’enfance, période certes déterminante mais où le développement de la personnalité n’a pas atteint sa configuration définitive.

Mots-clés

Adolescence, culture, prévention, abus de drogues, toxicomanie.



Assim, sem muito alarde, Winnicott amplia os conceitos de “fenômenos transicionais” da primeira infância, para incluir o “espaço potencial” da vida adulta no interior da cultura. Próximo ao fim de sua vida, Winnicott passou a interessar-se mais e mais por compreender não apenas aquilo que leva os humanos a adoecer, mas aquilo que os leva a nutrir-se ao cuidarem um dos outros em meio à herança cultural.
Masud Khan, Da pediatria à psicanálise.

Eu acho que nosso futuro é ser sociólogos. (risos)
Paulo Henrique, 15 anos.
Pô, eu quero cara! Eu quero trabalhar com sociologia, etnografia, teatro, tudo ligado ao social. O teatro te proporciona saber tudo. Saber sobre a cultura da Amazônia, de lá do Sul, eu adoro isso! Saber mais...
Bruno, 16 anos.
Diálogo entre adolescentes do Espaço de Construção da Cultura

Olho por todo o meu passado e vejo

Que fui quem foi aquilo em torno meu

Salvo o que é vago e incógnito desejo

De ser eu mesmo de meu ser me deu
Fernando Pessoa, Poesias.

Sumário

1
Introdução 14

2
Prevenção do uso/abuso de drogas 19

2.1
Definindo prevenção 20

2.2
Política Nacional de drogas e prevenção 22

2.2.1
Redução da oferta e redução da demanda 22

2.2.2
Redução de Danos 27

2.2.3
Redução de Danos com crianças e adolescentes 34

3
Os campos médico, jurídico e sOciocultural


e a prevenção do abuso de drogas
com adolescentes 36

3.1
A mídia, a opinião pública e o uso e abuso de drogas


na adolescência: que espetáculo! 50

3.2
Os jovens consumidores de drogas no meio do “tiroteio ESPETACULAR” 63

4.1
Programas culturais comunitários 68

4.1.1
Pesquisa de campo: metodologia 68

4.1.2
Descrição do campo 69

4.1.3 Algumas considerações sobre a experiência e a reflexão


surgidas a partir do trabalho de observação participante de campo 74

4.1.4
Uso/abuso de drogas, estratégias de prevenção e programas culturais 76

4.1.5
A possibilidade de aplicação da metodologia dos programas culturais na prevenção do abuso de drogas entre adolescentes de classe média e alta 80

4.2
Adolescência, prevenção e psicanálise 88

4.2.1
Adolescência, abuso de drogas e psicanálise: a teoria de D.W. Winnicott — do brincar à experiência cultural 88

4.2.1.1
Ilusão/desilusão na primeira infância 90

4.2.2
O “vácuo” adolescente: entre o brincar e a experiência cultural 93

4.2.3
Quando o objeto transicional é uma droga! 95

4.3
Privação da prevenção ou prevenção da privação: as formulações winnicottianas para a prevenção e o tratamento do comportamento anti-social e da delinqüência e os programas culturais – um modelo? 98

4.3.1
Agressividade e destrutividade na infância 108

4.3.1.1
“O uso do objeto” 118

5
Os programas culturais,


a “experiência cultural” de Winnicott
e a “experiência estética” de Dewey:
por uma “ética da estética da existência” 121

5.1
Arte, criatividade e constituição do eu (self)


na obra de WINNICOTT 121

5.2
A filosofia e a “experiência estética” de Dewey 130

5.2.1
Cultura e estética popular: o Funk e o Hip-Hop 145

5.3
“Ética da estética da existência” 156

6
Conclusão 168

7
Referências bibliogrÁfiCas 178



1
Introdução

O presente estudo analisa a metodologia de programas criados por organizações não governamentais que oferecem atividades ligadas às artes e à cultura para crianças e jovens, tendo como referência teórica a psicologia do desenvolvimento emocional infantil formulada por D.W. Winnicott. O objetivo é trazer novas contribuições para o campo da prevenção do abuso de drogas entre adolescentes.

A questão do abuso de drogas e da drogadição1 nos ocupa há vários anos. Ao longo do tempo, nossa atenção se desdobrou por algumas vertentes desse tema, sempre numa perspectiva de interseção entre psicanálise e cultura.

O interesse pela relação entre adolescência e prevenção originou-se de dois motivos: da observação clínica e do trabalho vinculado à prevenção do uso/abuso de drogas, realizado no então chamado Conselho Estadual de Entorpecentes do Rio de Janeiro2 (MOURÃO, 1999). O trabalho diretamente ligado à prevenção despertou-nos, definitivamente, para os impasses da atividade preventiva e, conseqüentemente, para a busca de soluções alternativas nesse campo.

Ao abordar o tema da prevenção com adolescentes (Id., ibid), ouvimos críticas contundentes, que coincidiam com nossas próprias críticas à orientação preventiva dominante.

A partir dessa experiência, estabeleceu-se a necessidade de conhecer mais de perto algum trabalho comunitário alternativo voltado para adolescentes. Foi assim que chegamos ao Grupo Cultural Afro-reggae, onde realizamos entrevistas com os jovens envolvidos no programa, com o coordenador e com o coordenador geral.

O Afro-reggae é uma ONG (Organização Não-governamental), que iniciou suas atividades na Comunidade de Vigário Geral. A princípio, o trabalho consistia na alfabetização de crianças e em sua iniciação pedagógica e cultural. Para os jovens eram oferecidas atividades ligadas à “Usina Musical”, uma escola de música que existe até hoje, onde eles aprendem a tocar vários instrumentos. A partir da Usina Musical surgiram as bandas, algumas das quais são hoje profissionais e fazem apresentações pelo mundo todo.

O projeto teve início em 1993. Quando o conhecemos, em 1998, participavam dele 400 crianças e jovens entre dois e vinte e cinco anos. Foi com grande satisfação que, ao revê-lo em 2002, encontramos um trabalho bem mais maduro, resultado de idéias e práticas que se desenvolveram muito além das expectativas. De lá para cá, o Grupo Cultural Afro-reggae ampliou bastante suas atividades, passando a atuar, inclusive, em outras comunidades do Rio de Janeiro3.

A partir do encontro com o Afro-reggae e dos resultados animadores que eles vêm obtendo no trabalho preventivo com jovens, nos interessamos por conhecer outras ONGS que também vêm se destacando nesse campo4.

A partir desses novos encontros, e da convivência mais próxima com o cotidiano desses grupos, surgiu o estímulo para a realização desse trabalho, no qual também se busca lançar mais luz sobre o esforço daqueles que estão se movimentando no sentido de oferecer alternativas criativas para crianças e jovens que correm o risco de se tornarem vítimas da violência, da cooptação pelo tráfico de drogas ou do sofrimento e da degradação causados, muitas vezes, pela toxicomania.

O que mais nos chamou a atenção, desde o primeiro contato com tais programas é o sucesso significativo que ele vêm alcançando na prevenção do abuso de drogas entre os jovens, ainda mais, quando comparado ao desempenho dos esforços preventivos tradicionais.

Desde então, de posse de algumas informações sobre os programas, e do contato mais próximo com o cotidiano dos mesmos, surgiram diversas perguntas: O que acontece ali? O que, nesses trabalhos, faz a diferença com relação às tentativas preventivas tradicionais? O que será que esses programas oferecem de especial, que faz com que consigam, sem focar especialmente a questão das drogas, um bom resultado também nesse âmbito?

Ao comparar as entrevistas feitas com adolescentes5 que não estão envolvidos em nenhum desses programas (que deixaram bem claro que a informação, mesmo que transmitida de forma isenta de moralismos ou de técnicas de amedrontamento, não é suficiente para prevenir a experimentação ou o abuso de drogas), com as entrevistas realizadas com os adolescentes das ONGS (que apontam para a importância de suas práticas, ou seja, de seu envolvimento mais estreito com a arte e com a cultura como atividades preventivas), passamos a refletir sobre algumas outras questões: por que a informação científica sobre os perigos e danos causados pelo consumo abusivo de drogas, mesmo que destituída de cunho moral, calcada em princípios éticos e de bom senso, não é suficiente para que os jovens não se tornem drogaditos? Que tipo de experiência é essa, que os adolescentes dos projetos culturais comunitários descrevem como sendo tão intensa e significativa para eles a ponto de transformar suas vidas? O que será que está em jogo nessas experiências? A confiança no grupo? A valorização das experiências coletivas? O contato maior com a tradição cultural?

Assim, a medida em que a pesquisa foi se desenvolvendo, percebemos que, para uma compreensão mais ampla do assunto, seria necessário buscar o auxílio de alguns outros campos de conhecimento. Geralmente esses programas utilizam uma abordagem educativa, ainda que se trate de uma educação “informal”, que é definida por alguns coordenadores como Arte-educação. Foi dessa forma que tópicos como Educação, Arte, Estética e Cultura foram surgindo durante a elaboração do trabalho.

No que diz respeito à educação, observa-se uma relativa escassez de trabalhos e de profissionais de educação especializados no abuso de drogas, embora essa escassez não se justifique pela falta de uma demanda social nesse sentido.

Diante dessa situação, parece ser importante que o meio acadêmico, especialmente da área educacional, se sensibilize com relação à questão da prevenção do abuso de drogas, a exemplo do que aconteceu com a educação sexual, que migrou do terreno exclusivo da área médica, passando a ser repensada por educadores, psicólogos, historiadores e filósofos.

Embora a literatura brasileira sobre o uso e abuso de drogas entre estudantes seja relativamente numerosa quando comparada a outros temas que associam educação e saúde, ela não tem praticamente nenhuma relação com educação. As pesquisas nesse campo, em geral, têm se concentrado apenas na avaliação da incidência do uso de drogas entre estudantes de ambos os sexos que freqüentam os diferentes níveis escolares, nas diferentes regiões do país. Ainda são poucas as iniciativas que interpretam esses dados numa perspectiva de articulação entre o comportamento dos estudantes diante do consumo de drogas e os padrões culturais da sociedade brasileira (CARLINI-COTRIM & ROSEMBERG, 1990). Tais dados seriam de grande importância para o estabelecimento de diretrizes preventivas mais adequadas, eficazes e contextualizadas à realidade brasileira.

Existe muita controvérsia sobre qual seria, hoje, o melhor enfoque para lidar com a prevenção do abuso de drogas. Por outro lado, mesmo com toda a polêmica que envolve o assunto, há concordância sobre a importância da transmissão da informação. No entanto, observa-se também que a informação tem pouco alcance quando não são levadas em conta as condições concretas de vida que facilitam o abuso de drogas nos vários segmentos populacionais.

Enfim, com relação à abordagem da infância e da adolescência, e também da experiência que parece estar em jogo no trabalho das ONGs pesquisadas, o presente estudo, como já mencionado acima, se fundamenta no trabalho teórico-clínico de D.W. Winnicott.

A importância do brincar na vida dos sujeitos foi destacada por Winnicott (1975 [1971]), a partir de seus estudos sobre os fenômenos transicionais, que incluem desde o emprego primitivo de um objeto ou técnica transicional até os estados mais elevados de capacidade dos seres humanos para a experiência cultural.

No primeiro capítulo encontra-se a definição de prevenção e a distinção entre prevenção primária, secundária e terciária, tanto no contexto mais amplo da saúde mental, quanto no âmbito do consumo de drogas. Nesse capítulo também se inicia uma análise crítica, que é aprofundada no segundo capítulo, com relação aos trabalhos preventivos mais comumente praticados no Brasil, tendo a política Nacional de Drogas como referência.

No segundo capítulo, tratamos de algumas questões que dizem respeito às instituições diretamente relacionadas com a questão da prevenção. Nesse capítulo também empreendemos uma análise da política brasileira de drogas, relacionando-a com a situação dos jovens usuários de drogas e dos toxicômanos no Estado do Rio de Janeiro.

Na primeira parte do terceiro capítulo apresentamos a metodologia, bem como as observações, reflexões e resultados da pesquisa de campo, relacionando esses dados com a teoria de Winnicott sobre o brincar e a experiência cultural. Na segunda parte são apresentadas as articulações feitas entre a psicopatologia manifestada na área dos fenômenos transicionais e a drogadição, e também entre as formulações winnicottianas sobre a tendência anti-social e delinqüência, e a questão do abuso de drogas entre adolescentes.

No quarto capítulo, continuamos a apresentar as reflexões de Winnicott sobre a “experiência cultural”, referindo-a ao conceito de “experiência estética” trazido por John Dewey (1980 [1934]). Todo esse capítulo se desenvolve em torno do questionamento sobre o papel da arte e da cultura na vida cotidiana, especialmente nos campos da filosofia e da educação.

Na medida em que a arte e a cultura popular estão sujeitas a todo tipo de críticas abusivas, da parte daqueles que vêem a estética popular como um campo inferior com relação às “belas artes” e a “alta cultura”, e sendo os elementos da cultura popular da máxima importância no trabalho realizado pelas ONGs pesquisadas aqui, problematizamos algumas questões colocadas por Dewey, e desenvolvidas mais recentemente por Shusterman (1998): o que é arte? Será que alguma abordagem teórica é capaz de garantir o estatuto da “obra de arte” distinto de outros objetos que são frutos do “fazer humano” e que são, muitas vezes, utilizados pelas pessoas em sua vida cotidiana?

Nesse capítulo também apresentamos o resultado de nosso estudo e observação de campo sobre o Funk e o Rap, elementos marcantes no cotidiano dos programas estudados, e sobre o movimento Hip-Hop carioca e sua influência no universo cultural das ONGs pesquisadas.

2
Prevenção do uso/abuso de drogas

Uma avaliação geral sobre a evolução do consumo de drogas no Brasil aponta para uma grande defasagem entre a legislação, as políticas públicas e os problemas reais de saúde da população brasileira. Nas últimas décadas, as poucas mudanças no quadro nacional do consumo de psicotrópicos foram para pior, mais especificamente no que diz respeito à maconha e à cocaína (NOTO e SILVA, 2002).

Essa observação revela uma situação constrangedora e preocupante: as medidas adotadas nos últimos anos para reverter esse quadro não tiveram a eficácia esperada e, além disso, negligenciaram várias questões de saúde6.

Assim, torna-se não só um desafio à inteligência e ao bom senso dos operadores da Política Nacional de Drogas, mas uma necessidade, cada vez maior, para a sociedade civil como um todo, a criação e o desenvolvimento de práticas mais eficazes que possam auxiliar as pessoas (especialmente as crianças e os jovens) a conviver com drogas, mantendo sua integridade e autonomia, apesar das várias problemáticas que permeiam seu cotidiano: a pobreza, a solidão, as questões colocadas pela adolescência, a falta de perspectivas, a falta de convivência com os pais, a exclusão social, o abandono, a violência, o isolamento social, o desemprego, entre outras.

Diante desse panorama, vários autores do campo indicam a prevenção como a melhor solução encontrada até o momento para lidar com essa situação. No entanto, são tantas as dificuldades, de diversas ordens, para a efetivação de uma verdadeira prática preventiva com relação ao consumo de drogas que, até o momento, pelo menos no Brasil, estamos longe de poder apresentar resultados mais significativos nesse âmbito.

  1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal