Texto de apresentação do livro de João Craveirinha, o macaco Macaquinho e o Macaco Macacão e outras histórias



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Encontro28.07.2016
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Texto de apresentação do livro de João Craveirinha,

O Macaco Macaquinho e o Macaco Macacão e outras histórias.

por Glória Bastos

Com este livro, João Craveirinha transporta-nos até ao universo da tradição oral africana e ao “era uma vez…” que povoa igualmente as minhas/nossas – europeias e ocidentais – memórias de infância.

Na verdade, as seis narrativas que compõem o volume hoje aqui apresentado, são todas introduzidas por essa expressão mágica que, de imediato, nos situa num imaginário ancestral que todos partilhamos de alguma forma, embora assumindo depois realizações distintas, de acordo com as respectivas geografias.

Mas estes textos remetem-nos para contextos sociais precisos, distinguindo-se aqui duas dimensões. Por um lado, temos a dimensão simbólica, na medida em que estas histórias de animais, na esteira da tradição africana ancestral de contar fábulas, remetem para as relações sociais entre os homens ou, se preferirmos, para as questões do exercício do poder, retratando-se comportamentos e valores como a ambição, a justiça, a generosidade, ou a intriga. Neste sentido, a narrativa aponta sempre no final, e de forma explícita, para uma lição de ética ou moral – seguindo aqui a estrutura que caracteriza a fábula de matriz ocidental.

Em alguns momentos deparamos também com outras filiações da narrativa, como o conto etiológico, presente na história número 3 –INGONHAMA O LEÃO, FISSI A HIENA , O CAMALEÃO E SUNGURA A LEBRE – quando na página 32 se diz que “A partir daí as hienas passaram a andar às escondidas de noite a roubar comida e os restos de outros animais mortos. E é por isso que as hienas e os leões são grandes inimigos até hoje”.

Um outro elemento que sobressai neste contos é ainda a remissão para um contexto social real, em apontamentos que localizam o leitor ou ouvinte perante cenários humanos – porque as figuras intervenientes são agora pessoas e não animais – que caracterizam aspectos da sociedade africana actual. É o caso da abertura da primeira história - o macaco macaquinho e o macaco macacão – que nos apresenta uma cena familiar, de um menino com a mãe e a avó, em que a televisão e as telenovelas são referenciais facilmente reconhecíveis. Ou as duas últimas histórias, que se diz serem contadas por “vovô Mussa, antigo combatente pela Independência de Moçambique”.

Esta intromissão do real no simbólico apresenta um outro aspecto que merece a nossa especial atenção. Pensemos nos papéis que a literatura oral africana assume – à semelhança, aliás, do que acontece com a literatura de tradição oral da cultura ocidental – o papel educativo e o papel recreativo. O papel educativo é geralmente pontuado pela figura do contador, que veicula a história e a lição que a acompanha. Em alguns destes contos essa figura foi transportada para dentro da história. Eu explico. Na literatura de transmissão oral a figura do contador é central, na medida em que é através dele que o ouvinte contacta com a história; o contador é, assim, um iniciador nos segredos do mundo, das coisas que nos rodeiam. Esse contador geralmente é um adulto, um velho, uma vez que a experiência de vida constitui um traço importante na figura desse iniciador. E os ouvintes (os iniciados) serão jovens, crianças que assim descobrem os meandros da vida e do homem.

Ora esta situação enunciativa, que é externa ao texto, no caso do livro de João Craveirinha foi transportada para dentro do texto. Isto é, o acto de contar histórias é ele próprio encenado dentro das histórias e cumprindo os preceitos exigidos pela função. Por exemplo, na primeira narrativa, é a avó (e não a mãe, embora também seja referida no texto) que conta ao neto a história do macaco macaquinho. E é o vovô Mussa que conta aos netinhos a história do gala gala poeta e de outros animais.

Em relação à faceta recreativa – para além da dimensão lúdica inerente às próprias histórias – refira-se ainda o convite explícito (na contracapa) a uma intervenção dos destinatários ao nível da expressão plástica, pintando as ilustrações a traço também da autoria de João Craveirinha.

Olhemos agora para as personagens que povoam estas fábulas. Em primeiro lugar, os animais que protagonizam as histórias ou os que têm um papel relevante no desfecho da acção, são sempre animais pequenos. Mas a sua pequenez surge em oposição à sua capacidade de sobrevivência e, sobretudo, ao seu poder para conduzir a fábula a um final feliz. Facilmente encontramos aqui formas que originam uma simpatia imediata entre a criança e estes pequenos animais, nos quais ela projecta os seus desejos de acção e afirmação, interiorizando as atitudes e valores positivos que essas figuras transportam consigo. Temos igualmente os animais negativos, como seria de esperar, seguindo-se a estrutura dicotómica característica da fábula e do conto tradicional (a hiena, a cobra, o hipopótamo, entre outros), simbolizando sobretudo a agressividade não social e o exercício negativo do poder.

Uma reflexão final sobre a questão da linguagem, já que estamos em Portugal e se deseja que este livro seja também lido/ouvido por meninos e meninas das nossas escolas. Na verdade, a linguagem pode aqui constituir um elemento importante de surpresa e de descoberta: de surpresa, pelo efeito de estranheza que certamente provocam as palavras que identificam os animais, e de descoberta, porque permite um contacto com outros termos que não os da sua língua, constituindo uma interessante e motivante forma de aceder a dimensões do outro, numa abertura ao mundo de que hoje se fala muito mas que, para além disso, é realmente um desafio importante para a nossa sociedade.

Neste sentido, este livro de João Craveirinha pode certamente ser um importante contributo para uma educação multicultural ao permitir às crianças o contacto com uma linguagem e com formas narrativas que sendo em muitos aspectos familiares a outras histórias que conhecem possuem, também, ingredientes novos.

Felicito assim o autor por trazer até nós este volume e nos permitir a nós, adultos, partilhar um universo mágico que também nos convida a uma reflexão profunda sobre o mundo em que vivemos.

Lisboa, 2005, Out., 06 – Palácio Galveias.



Glória Bastos (Professora Universitária portuguesa – especialista em Literatura Infantil)





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