Texto do dr. Luiz Sayão, coordenador da comissão de tradução



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Texto do dr. Luiz Sayão, coordenador da comissão de tradução.



Nas linhas que se seguem procuraremos mostrar como os novos conhecimentos lingüísticos, as descobertas arqueológicas mais recentes, os estudos de crítica textual, o avanço dos estudos semíticos e as mudanças da língua portuguesa tornam absolutamente necessária uma nova tradução da Bíblia.



Em todo o mundo, já é de conhecimento geral o fato de que a arqueologia é uma das ciências muito importantes para os estudos bíblicos. Os críticos e estudiosos liberais do século dezoito e dezenove escreveram obras que punham em dúvida muito da historicidade das narrativas bíblicas. Foi somente o florescimento da arqueologia, com suas descobertas no final do século dezenove e nos últimos cem anos que conseguir comprovar definitivamente muito daquilo que tinha sido posto em dúvida pelos estudiosos racionalistas liberais. Algumas das principais descobertas arqueológicas que em muito ajudaram os estudos bíblicos foram:



  1. As Cartas de Amarna (centenas de cartas entre cananeus e egípcios)

  2. Os Manuscritos do Mar Morto (centenas de manuscritos que continham as cópias mais antigas do Antigo Testamento)

  3. As Tábuas de Ebla (trazem luz sobre a vida patriarcal)

  4. As cartas de Mári (costumes, informações detalhadas e nomes patriarcais)

  5. O código de Hamurábi (paralelos com a lei mosaica)

  6. A Pedra da Roseta (chave para decifrar o egípcio antigo)

  7. Papiros e pergaminhos do Novo Testamento (Sinaítico, papiro Bodmer, Chester Beatty, etc)

  8. Cultura e língua de Ugarite e as tábuas de Ras Shamra (língua próxima ao hebraico, luz sobre religião cananita e a poesia hebraica)

  9. O Rochedo de Behistun (fundamental para decifrar a língua babilônica)

  10. Cidades, cultura e língua acadianas (valor histórico e lingüístico)

  11. As cartas de Laquis (da época da conquista babilônica)

  12. O calendário de Gezer (o mais antigo registro do hebraico escrito)

  13. A Epopéia de Gilgamesh (paralelo próximo do dilúvio bíblico)

  14. O Prisma de Senaqueribe (confirma a história da resistência do rei Ezequias à invasão assíria)

  15. O templo de Diana dos efésios (Atos 19)

Sem dúvida alguma, o impacto das centenas de descobertas arqueológicas de modo algum fica restrito à comprovação da historicidade dos relatos bíblicos. Todas as informações obtidas pelos arqueólogos sobre a história, a cultura, a religião, a sociedade e a língua falada pelos antigos hebreus e pelos povos vizinhos trouxeram uma contribuição imensurável para o nosso conhecimento das Escrituras Sagradas nos últimos cento e cinqüenta anos.

Concentraremos nossa atenção sobre o impacto dessas descobertas para a tradução da Bíblia. As próprias descobertas de cidades e de localidades específicas ajudam a tradução. Quando sabemos que o texto refere-se a um povoado, ou a uma montanha, ou a um ribeirão, é muito mais fácil fazer uma tradução clara e exata. Quando os tradutores da nvi trabalharam no texto de Josué 13.5, por exemplo, a arqueologia já tinha resolvido a dúvida sobre a localidade de Lebo-Hamate. Algumas versões bíblicas trazem a entrada de Hamate, tradução inadequada, conforme demonstrada pela arqueologia.





As descobertas de centenas de manuscritos do Antigo e do Novo Testamento trouxeram muita luz à crítica textual bíblica. Atualmente, temos à nossa disposição um número muito maior de testemunhos da revelação escrita de Deus aos homens. Isso significa que hoje temos condições de chegarmos a um texto mais próximo do original do que há cento e cinqüenta anos atrás.

No caso do Antigo Testamento, as descobertas mais importantes foram as dos seguintes manuscritos:


  • O Códice Cairense (Geneza), descoberto em 1890, contendo muitos manuscritos de grande parte da Bíblia Hebraica.

  • O Papiro Nash, descoberto em 1902, contendo poucos versos de Êxodo e de Deuteronômio.

  • Os Manuscritos do Mar Morto. Também conhecidos como manuscritos de Cunrã, esses documentos, encontrados em 11 cavernas do deserto da Judéia em 1947-48, eram cerca de mil anos mais antigos do que o texto massorético conhecido. Eles comprovaram que o texto do Antigo Testamento fora preservado de maneira extraordinária.

Quando falamos do Novo Testamento, os manuscritos encontrados nos últimos dois séculos tiveram um impacto tremendo para a crítica textual e a determinação do texto mais próximo do original. As principais descobertas foram:

Os Papiros » São os testemunhos mais antigos do Novo Testamento e datam dos séculos II e III dC. Os mais importantes, que levam o nome de seus descobridores ou do local onde foram achados, são:

  • O Fragmento John Rylands, p52, (trechos de João 18), de cerca de 130 dC. Foi encontrado em 1930.

  • Os papiros de Oxirrinco. Diversos manuscritos encontrados no Egito em 1898. Datam principalmente do século III dC.

  • Os papiros Chester Beatty, p45, p46 e p47, contendo a maioria do NT, de cerca de 250 dC.

  • Os papiros Bodmer, p66, p72 e p75, contendo grande parte do NT, de cerca de 175-225 dC.

Os Manuscritos Unciais » São assim chamados, porque foram escritos com letras maiúsculas em pergaminhos. Os três mais antigos e completos, chamados códices, são o Sinaítico, o Vaticano e o Alexandrino. Merecem destaque:

  • O Sinaítico. Descoberto em 1844 pelo conde Tischendorf, data da primeira metade do século IV dC.

  • O Vaticano. Ainda que fosse conhecido desde 1475, arquivado na Biblioteca do Vaticano, só foi publicado em 1889-1890.

Não é difícil perceber quanta "coisa nova" foi encontrada. Além disso, os estudos detalhados e comparativos entre os manuscritos já existentes e os descobertos mais recentemente são obra consumada há apenas algumas décadas. Apesar disso, esses estudos ainda prosseguem. Em Israel, por exemplo, há um projeto chamado Hebrew Old Testament Text Project, cujos resultados preliminares já foram publicados pelas Sociedades Bíblicas Unidas (sediada em Nova Iorque). Esse projeto está avaliando detalhadamente todos os problemas de crítica textual do Antigo Testamento à luz de todas as descobertas feitas nos últimos anos.

Diante desse quadro, alguns leitores ficarão preocupados, imaginando que todas as gerações anteriores foram muito prejudicadas no conhecimento da Palavra de Deus. É extremamente importante ressaltar que essas descobertas confirmaram a preservação das Escrituras. Os textos descobertos coincidem em mais de 90% com aquilo que conhecíamos antes. Todavia, nos detalhes menores, em determinados textos específicos, essas descobertas foram muito importantes para que chegássemos a um texto ainda mais próximo do original.


O leitor informado terá consciência que só as descobertas dos manuscritos e o avanço da crítica textual são suficientes para justificar novas traduções bíblicas. Todavia, vamos descobrir que as outras razões que serão ainda mais convincentes.



As descobertas arqueológicas trouxeram repercussão no campo da ciência lingüística. Especialmente no caso do hebraico, as novas informações foram muito importantes. Os achados arqueológicos trouxeram à tona uma vasta literatura escrita em outras línguas semítico-ocidentais, isto é, línguas do mesmo grupo lingüístico do hebraico. Entre elas merecem destaque especial o acadiano, usado na Babilônia desde antes da era patriarcal, e o ugarítico.

Existem centenas de palavras hebraicas no Antigo Testamento que aparecem apenas uma única vez na Bíblia. Alguns desses termos sempre foram difíceis de traduzir. A tradução deles era basicamente fundamentada na tradição disponível, proveniente do grego ou do latim. Os estudos semíticos trouxeram muita luz sobre a origem, o uso e o significado de raízes comuns entre o hebraico e essas outras línguas semíticas. Quando alguém abre um dicionário teológico do Antigo Testamento e estuda um vocábulo hebraico, logo percebe a importante relação do termo com o seu cognato ugarítico, acadiano, etc. Além disso, muito da gramática, da sintaxe, das estruturas poéticas e de outras particularidades lingüísticas foi aprofundado graças aos estudos recentes, decorrentes dos novos achados.

No caso do Novo Testamento grego, não houve um aprofundamento lingüístico tão significativo. Todavia, a constatação, no final do século passado, de que o dialeto do Novo Testamento não era o ático (clássico), mas sim o grego coinê, trouxe um impacto para os tradutores da Bíblia. Diante desse fato, começaram a surgir traduções contemporâneas das Escrituras, procurando principalmente comunicar a Palavra de Deus na língua do povo.

Talvez um dos fatores que foram determinantes para que se buscasse um aperfeiçoamento na tradução das Escrituras foi o desenvolvimento da ciência lingüística nos últimos séculos. Pouca gente sabe, mas há quinhentos anos atrás a maioria dos estudiosos acreditava que as palavras equivaliam exatamente aos objetos que representavam. No caso do termo cavalo, por exemplo, acreditava-se que havia alguma coisa no próprio animal que nos levava a dar-lhe o nome de "cavalo". Cria-se que podíamos captar "a cavalice" do cavalo e expressá-la foneticamente. Além disso, línguas como o latim e o hebraico eram vistas como sagradas. Não se imaginava que outras línguas "profanas" pudessem transmitir idéias bíblicas cristãs adequadamente. A verdade é que pouca gente poderia imaginar que o hebraico era uma língua comum, parente das línguas faladas pelos cananeus e pelos demais povos semitas.

Os estudos lingüísticos evoluíram muito nos últimos séculos. Depois, acreditarem que a linguagem humana poderia ser devidamente explicada e definida pela teologia, pelas ciências matemáticas, pela história e pela biologia, os estudiosos da lingüística começaram a entender melhor a natureza da linguagem e desenvolver modelos que a explicavam a mais adequadamente. Foi somente a partir do começo do século XX, que surgiram estudiosos como Ferdinand Saussure, Roman Jacobson, Louis Hjelmslev, Noam Chomsky, Edward Sapir e Leonard Bloomfield, que escreveram obras que trouxeram um grande impacto na lingüística contemporânea e um substancial desenvolvimento da ciência da linguagem.

Os estudos mais minuciosos e detalhados da lingüística, bem como de suas disciplinas, como a fonética, a fonologia, a semântica, a morfossintaxe, a psicolingüística, a sociolingüística, etc, tornaram-se muito importantes e relevantes para as traduções bíblicas. Avanços interdisciplinares também foram muito significativos. Estudos na área de antropologia, sociolingüística, lingüística matemática e etc ampliaram em muito os horizontes dos estudos da linguagem humana e das línguas faladas em todo o mundo. Esse aprofundamento científico também encontrou representantes entre estudiosos cristãos e evangélicos, que contribuíram para uma compreensão mais aprofundada do grego e do hebraico bíblico. Alguns nomes merecem destaque especial: Eugene Nida, James Barr, Moisés Silva, K. L. Pike e Johannes Louw.

O resultado de todo esse desenvolvimento científico encontra-se disponível para os milhares de tradutores da Bíblia de todo o mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe uma escola inteiramente voltada para o ministério de tradução bíblica. Seu nome é Summer Institute of Linguistics (SIL). Além de cursos de lingüístico, ali é produzido farto material lingüístico destinado aos tradutores da Bíblia. A United Bible Societies (UBS), sediada em Nova Iorque, produziu uma série chamada Translators Handbook (Manual para Tradutores). Quase todos os livros da Bíblia estão disponíveis nessa coleção. Neles são discutidos detalhadamente os problemas de tradução de cada versículo.


Portanto, cremos que diante do que já foi apresentado e discutido até agora o amigo leitor já compreende como e por que os recursos lingüísticos disponíveis hoje são extremamente importantes e relevantes para uma tradução da Bíblia fundamentada e compreensível.



Como é de conhecimento de todos, a língua não é estática. A maneira de falar muda constantemente. Há mais de quinze séculos os habitantes de Portugal, da Espanha, da Romênia, da França e da Itália falavam latim. Com o tempo, o latim passou a ser falado de modo diferente em cada uma dessas nações, a ponto de eles não entenderem mais uns aos outros. As mudanças naturais e culturais deram origem às diversas línguas neolatinas. Esse mesmo fenômeno continua acontecendo com a língua portuguesa hoje. Por essa razão, aquilo que comunicava bem no passado já não é entendido perfeitamente hoje. Vejamos alguns exemplos dessa realidade indiscutível, lendo alguns textos bem antigos da língua portuguesa:

No mundo non me sei parelha

Mentre me for´ como me vay

Ca já moiro por vós – e ay!

Mia senhor branca e vermelha,

Queredes que vos retraya,

Quando vus eu vi em saya!

Mao dia me levantei,

Que vus enton non vi fea!



A Ribeirinha, Paio Soares de Taveiros, 1189

Não é difícil observar as dificuldades que um falante do português de hoje teria ao tentar ler e entender o texto de 1681. Graças a Deus pelas atualizações necessárias que foram feitas nas revisões subseqüentes na tradução do Pai Nosso. E não devemos nos esquecer que esse texto, por ser uma prece comum e tradicional, sofreu pouca alteração quando comparado com outros.

Várias são as mudanças na língua que exigem revisões e novas traduções da Bíblia. Entre elas devemos destacar:

Palavras que caíram em desuso e não são mais entendidas.

Há termos como rebuçar, alígera, coscorão, opróbrio, obréia, caçoula, charneca, chocarrice, enxúndia, impudicícia, concupiscência, desassisada, vitupério, vilipêndio, etc, utilizados no vocabulário evangélico antigo, que deixaram de ser usados.

Palavras que mudaram de sentido.

Podemos destacar termos como jornaleiro (sinônimo de diarista), vagabundo (sinônimo de peregrino, andarilho), fazenda (sinônimo de bens ou riquezas no linguajar comum), buzina (sinônimo de trombeta).

Palavras que adquiriram sentido pejorativo ou chulo.

Aqui estão alguns exemplos: fezes (significava resíduo em geral); bostela (queria dizer mancha na pele); obrar (equivalia a fazer, realizar).

Palavras novas.

Antes de 1969 ninguém conhecia a palavra alunissar (descer na lua). De igual modo, há outros termos que foram criados há algumas décadas e passaram a fazer parte da língua. Tais termos terão pouco impacto na tradução de um texto tão antigo como o da Bíblia. No entanto, alguns termos antigos podem ser substituídos por outros mais recentes.

Sintaxe Contemporânea.

A maneira de dizer a mesma coisa mudou. Atualmente prefere-se períodos mais curtos e as conjunções são menos empregadas do que há algumas décadas. Ocorreram também mudanças de preferência quanto à regência de verbos e de outras classes de palavras.

Ortografia.

As reformas ortográficas são importantes e necessárias. A última reforma ocorrida no Brasil foi em 1971. Toda tradução bíblica digna deve respeitar as regras da língua receptora.



Conforme pudemos observar, a tarefa de tradução da Bíblia é de fato uma responsabilidade permanente dos cristãos. Ninguém, bem informado, pode achar que já chegamos à perfeição. Diante da complexidade de tudo o que envolve esse processo, podemos ter certeza que nunca teremos uma tradução absolutamente perfeita. Todavia, não podemos fugir de nossa tremenda responsabilidade, isto é, a de comunicar a Palavra de Deus à humanidade.



Graças a Deus pelas contribuições importantíssimas dos arqueólogos, dos lingüistas, dos estudiosos da crítica textual, dos exegetas e dos tradutores que têm permitido que o cumprimento dessa tarefa seja uma realidade na língua portuguesa.


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