Texto do Prof. Cástor Cartelle



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A EVOLUÇÃO DO

CAVALO NA HISTÓRIA



Texto do Prof. Cástor Cartelle


Museu de Ciências Naturais,

Pontifícia Universidade Católica, Minas Gerais

Publicado na Revista ‘Mangalarga Marchador’ -

No. 13 – 1991




Em 1840, o paleontólogo dinamarquês Peter Lund comunicou o primeiro achado de cavalo fóssil no Brasil, um osso de mão (metacarpo), ocorrido na região de Lagoa Santa (MG). Depois desta, foram raras no país descobertas que tenham realmente colaborado para o conhecimento dos nossos cavalos extintos.
Nos últimos anos, entretanto, os achados multiplicaram-se, e a história desses animais começa, enfim, a ser recontada. Para isso, contribuiu de forma definitiva a recuperação recente de um crânio – na Gruta do Túnel, no município baiano de Santana, pela equipe de paleontologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, chefiada pelo autor deste artigo.

Os eqüinos estão intimamente ligados à vida e ao folclore brasileiros. É difícil imaginar Dom Pedro I no Ipiranga, a Granja do Torto ao final da “velha república”, o Nordeste, o Pantanal e os pampas sem seus respectivos cavalos ou jegues. Até na mais espirituosa metáfora nacional, marcam presença: “Deu zebra.” Qual a história desses animais? Certamente, serem contínuos andarilhos faz parte de sua essência. Hoje, cavalos de raças variadas, asnos, onagros e zebras formam o grupo dos equídeos. Mas, até atingirem esse estágio, houve um longo caminhar.


A história tem início com o grupo Hyracotherium, cujas espécies – com tamanho entre 25 e 50 cm e peso de quatro a 16 quilos – registram-se no Eoceno (de 36 a 55 milhões de anos atrás). Na marcha, apoiavam-se sobre a planta dos pés e mãos, não nos cascos. Apresentavam crânio curto, quatro dedos em cada mão e três em cada pé. Os dentes arredondados e com cúspides sugerem uma dieta à base de folhas e frutos. Se víssemos à nossa frente animais assim, com dorso arqueado à maneira de coelhos, não suspeitaríamos de que a rica história dos equídeos estivesse começando. Restos fósseis desses animais foram encontrados na Europa e nos Estados Unidos, o que sugere ampla distribuição geográfica, facilitada pela ligação Ásia - América do Norte através do istmo de Behring – faixa de terra que ligava o que seria o Alasca de hoje com o norte da porção asiática da atual União Soviética. Não sem razão, um sinônimo de Hyracotherium, que não se conservou, foi Eohippus: “O cavalo da aurora dos tempos”.
Na Eurásia constatou-se a existência de outro grupo, o dos paleotérios, que forma uma família própria, contemporânea do grupo anterior. Foi curta a existência desse ramo colateral, uma vez que as soluções evolutivas surgidas não lhe permitiram uma capacidade adaptativa tão dinâmica quanto a que seria alcançada pela sub - família Eqüinae. A evolução desta deu-se no seguinte sentido: aumento progressivo do tamanho corporal, alongamento do crânio, fechamento da órbita – separada da fossa temporal por uma barra óssea -, diminuição progressiva dos dedos e complexificação dos dentes.
Para a aquisição de novos hábitos alimentares, como por exemplo o consumo de gramíneas, a dentição tipo Hyracotherium não era apropriada. A evolução comportaria duas soluções adaptativas: aumento do tamanho e da resistência dentária ou complexificação dos pré-molares, que se tornariam semelhantes aos molares. No grupo dos paleotérios, a adaptação ocorreu num ou noutro sentido, mas não nos dois ao mesmo tempo.
Na linhagem que continuou até os eqüinos atuais, desenvolveram-se ambas as soluções em associação. Talvez radique neste fato uma das razões do êxito evolutivo destes e o fracasso dos paleotérios.
Durante o Oligoceno (de 22 a 36 milhões de anos atrás), a história continua na América do Norte. Surgem formas maiores, do tamanho de um galgo, com extremidades curtas e tridáctilas. Embora mais elaborados, os dentes desses animais ainda eram pouco resistentes ao desgaste provocado por uma dieta mais abrasiva. Podemos citar Mesohippus e Miohippus.
Acumulam-se os anos e as mudanças genéticas.
Já no Mioceno (de 5 a 22 milhões de anos atrás), percebem-se duas claras tendências evolutivas: um grupo – que não desenvolveria uma dentição mais complexa – conservou uma dieta à base de ramagens: teria vivido em florestas. A este grupo pertenceu Anchitherium, que da América do Norte se espalhou pela Ásia e finalmente pela Europa, até extinguir-se ao final do período.
A outra tendência evolutiva constata-se ainda no Oligoceno, acentuando-se no Mioceno. Os dedos laterais começam a se reduzir paulatinamente. Em conseqüência, a sustentação passou a ser feita exclusivamente pelos dedos centrais (os terceiros). Grandes rebanhos ocuparam, então, as estepes abundantes em gramíneas. Com esse tipo de alimentação, os dentes dos animais sofrem profundo desgaste. Ocorreu em contrapartida um “aperfeiçoamento” dentário: o fuste elevou-se e teve início um processo de crescimento dos dentes após a idade juvenil; espessa camada de cimento preencheu as dobras do duro esmalte depositado em cristas, que se complicaram e se elevaram na superfície mastigatória. A porção anterior do crânio alongou-se. Foram adaptações fantásticas que, ao permitirem o aumento de trituração sem comprometer a rigidez dos dentes, provocaram enorme eficiência na pastagem. No fim do Mioceno, diversas espécies deste ramo, a que chamamos estépico, partem da América do Norte e espalham-se pela Ásia, Europa e África, também através do istmo de Behring. É bem conhecido o Hipparion, que ocupou vastas extensões durante o Plioceno (de 1,8 milhão de anos a 5 milhões de anos atrás), extinguindo-se mais tarde sem seqüência evolutiva. Taxonomicamente já era um Eqüinae, que inclui também os equídeos modernos. Ao final do Plioceno – início do Pleistoceno (de 11 mil a 1,8 milhão de anos atrás), constatam-se novas migrações partidas também da América do Norte. Os cavalos modernos (Equus) já estavam presentes na história da vida. Mais uma vez, o istmo de Behring permitia a ligação com a Ásia.
Durante 60 milhões de anos a América do Sul permanecera ilhada, à maneira da Austrália atual. Abrigava uma fauna de mamíferos peculiar e riquíssima (ver abaixo no box ‘Uma singular fauna de mamíferos’). No final do Pleistoceno, completou-se um lento processo geológico: a emergência da América Central, que acabaria por tornar-se uma ponte intercontinental, unindo as Américas do Sul e do Norte. Em conseqüência, estabeleceu-se um grande intercâmbio faunístico (ver abaixo o box ‘O intercâmbio faunístico americano’). Foi nesse contexto que os equídeos se espalharam, atingindo não só a Ásia, Europa e África, mas também – pela primeira vez – a América do Sul. A vocação de andarilho atingia o seu máximo.

QUADRO GEOCRONOLÓGICO


RELACIONADO COM OS EQUÍDEOS


ERA

PERÍODO

ÉPOCA

MILHÕES DE ANOS

EQUÍDEOS

CENOZÓICA

QUATERNÁRIO

HOLOCENO

Até 0,01










PLEISTOCENO

De 0,011 a 1,8

E. (Amerhippus)

Hippidion

CENOZÓICA

TERCIÁRIO

PLIOCENO

De 1,8 a 5

Equus

Hipparion







MIOCENO

De 5 a 22

Anchitherium







OLIGOCENO

De 22 a 36

Miohippus

Mesohippus







EOCENO

De 36 a 55

Hyracotherium







PALEOCENO

De 55 a 65




O cinema nos tem oferecido, em ritmo inflacionário, histórias da ocupação do Oeste americano. Nas cenas de perseguição, índios cavalgam cavalos nervosos, em pêlo, quase sempre mais lentos do que os cavalos selados dos desbravadores. Nos filmes, o índio Jerônimo e seu cavalo parecem ter uma convivência atávica. Mas as coisas não foram bem assim.


No Pleistoceno (período que se estende de 2 milhões e 500 mil a 11 mil anos atrás), o istmo de Behring tornou-se um estreito. Grave crise da vida ocorreu nesse período. O fenômeno das glaciações fez com que enormes superfícies continentais fossem ocupadas pelo gelo. Sobreviveram animais adaptados a climas frios ou que se refugiaram em territórios de climas mais amenos. Nos trópicos, alternaram-se períodos de umidade e seca, e as temperaturas sofreram alterações. Apesar das dificuldades, os equídeos sobreviveram em territórios da Ásia, Europa e África.
Há aproximadamente dez mil anos, ocorreu nas Américas uma tragédia faunística: espécies até então cheias de esplendor e força, saíram de cena. Enormes preguiças de até seis metros de comprimento; gliptodontes semelhantes a tatus, de tamanho comparável ao de um ‘fusca’; toxodontes que lembravam, na aparência, rinocerontes; tigres-dente-de-sabre com assustadores caninos de até 30 cm; grandes rebanhos de mastodontes; todos desapareceram como que da noite para o dia.
Provavelmente trocas climáticas romperam o equilíbrio que a Natureza criara durante lentos milhões de anos, provocando brutal redução na variedade de nossa fauna. Em museus, pode-se constatar a crise violenta que atingiu os mamíferos. Sem exceção, todos os cavalos americanos foram atingidos por essa drástica extinção. Dez mil anos depois, foram re – introduzidos no continente pelos colonizadores, já domesticados. Alguns, desgarrados, tornaram-se selvagens. Domados pelos índios norte-americanos, muitos acabaram por fazer parte da paisagem do “velho Oeste”.

UMA SINGULAR FAUNA DE MAMÍFEROS



Há aproximadamente 60 milhões de anos, a América do Sul tornou-se um continente - ilha, assim permanecendo até três milhões de anos atrás. Nas diversas camadas sedimentares, a Natureza preservou fósseis de uma fauna de mamíferos que, embora riquíssima, é praticamente desconhecida no âmbito de nossa cultura. Não é de se admirar, pois, que raposas e até leões tenham se tornado símbolos de escolas de samba, times de futebol ou das mordidas progressivamente vorazes do imposto de renda.
Os marsupiais evoluíram aqui – ainda hoje vivem em nosso continente gambás e cuícas, por exemplo – diferentemente dos encontrados na Austrália. Em Itaboraí (RJ), foram encontrados fósseis de animais que viveram há 50 milhões de anos. Uma destas espécies recebeu a poética denominação de Eobrasilia coutoi, em homenagem ao nosso país e ao grande estudioso de fósseis, Professor Paula Couto. Entre os marsupiais encontravam-se os raros predadores de uma fauna predominantemente herbívora.
Vejamos outros exemplos de nossa fauna.
Antes da separação dos continentes, os condilartros tinham ampla distribuição geográfica. Sua denominação traduz a peculiar conformação de um osso de pé com articulação arredondada. Tinham dieta preferentemente omnívora e aqui permaneceram como relíquias, extinguindo-se pouco depois de ocorrer o isolamento sul-americano. Foram encontrados também na América do Norte.
Várias espécies incluem-se entre os astrapotérios, pirotérios e xenoungulados. Essas denominações estranhas indicam características de cada um deles. Embora restrita, essa era uma fauna espetacular, seja pelo tamanho avantajado de alguns animais, seja pelos enormes caninos de outros. Todos apresentavam estrutura morfológia primitiva.
Os edentados são talvez os mais característicos mamíferos da fauna sul-americana. Entre eles, inclui-se bom número de preguiças terrícolas (algumas de até sete toneladas de peso), gliptodontes (semelhantes a tatus, com carapaça rígida, crânio curto e alto), todos extintos. Preguiças arborícolas, tatus e tamanduás sobrevivem até os dias de hoje.
Dos litopternos conhecem-se razoavelmente a história evolutiva e numerosas espécies que, ao longo do tempo, sofreram redução do número de dedos, modificações dentárias – que não comprometeram o número original de 44 dentes – e aumento do tamanho corporal. Suas narinas recuaram paulatinamente, até situarem-se entre as órbitas. Se entrarmos no túnel do tempo e retrocedermos dez mil anos, no vale em que desembarcarmos vamos ver, pastando, um rebanho diferente, irreconhecível. Fixando o olhar num animal adulto, veremos três dedos com cascos, patas altas e robustas, pescoço comprido, crânio alongado e achatado, corpo de cavalo e cauda curta; a distância entre seu lombo e o chão é de aproximadamente dois metros. A cabeça, quando erguida, paira a três metros do chão; pequena tromba movimenta-se como que olfateando o ar. Através da imaginação, estamos diante de uma macrauquênia.
Há ainda os notoungulados (ou ungulados do sul), ordem que teve uma história de 50 milhões de anos, cujos últimos representantes chegaram a ter o tamanho de hipopótamos e, provavelmente, hábitos anfíbios. Uns apresentavam chifres, outros, enormes incisivos e caninos projetados para a frente. Rebanhos numerosos de toxodontes espalhavam-se ao longo de nossos rios e lagos, pastando com calma e pesadamente.
Por que só conhecemos esta fauna tão rica e variada através de fósseis? Na Natureza, as extinções são freqüentes. O binômio vida - morte caminha lado a lado. Uma espécie desaparece naturalmente em razão de sua incapacidade adaptativa. Ao final do Pleistoceno – quando a América do Sul já não era mais uma ilha – desapareceram espécies soberbas, em sua plenitude. Por que isso acontece? Um mosaico de causas convergentes pode ser a resposta: mudanças climáticas e vegetativas, alterações pluviométricas, surgimento de barreiras naturais tais como florestas, rios e lagos, desequilíbrios faunísticos. Há dez mil anos atrás nossa fauna ficou menos rica em conseqüência de processos naturais – o que é lamentável, mas não trágico. A tragédia se dá através do verdadeiro zoocídio – contínuo, insensível e impune, a que assistimos hoje.

Em 1833, o naturalista Charles Darwin descobriu os primeiros fósseis de cavalos sul-americanos. Pouco depois, em 1840, o paleontólogo inglês Richard Owen noticiava esta descoberta espetacular. Foi nesse mesmo ano que o “pai da paleontologia brasileira”, o dinamarquês Peter Lund, comunicou o primeiro achado de fóssil no Brasil, na região de Lagoa Santa (MG): um osso da mão (metacarpo). Tal peça foi registrada pelo próprio Lund em catálogo manuscrito até hoje conservado cuidadosamente no Museu de Zoologia da Universidade de Copenhague, na Dinamarca. Novas descobertas se seguiram: alguns ossos a mais e uns poucos dentes. Percebendo diferenças morfológicas em relação aos cavalos atuais, Lund acabou por identificar três espécies. Remetido à Dinamarca, onde se encontra hoje, esse material foi estudado por diversos autores, como os naturalistas Herluf Winge – que escreveu uma obra monumental com base em estudos de 12.622 peças enviadas por Lund – e J.E.V. Boas. Este último chegou a afirmar, em seu trabalho sobre a forma de uma zebra fóssil dos campos brasileiros, publicado em 1881, que havia “dado zebra” no Brasil, no sentido literal da expressão. Alguns cientistas acreditam que as atuais zebras se teriam refugiado na África migrando da América do Norte. Uma das espécies brasileiras é considerada como tal por Boas. Pela análise dos ossos, entretanto, não se pode fazer tal afirmação, a não ser como hipótese. A espécie brasileira deve ser considerada como um cavalo e não uma zebra.




O INTERCÂMBIO FAUNÍSTICO AMERICANO


Na transição Plio-Pleistoceno, a América do Norte ligou-se à do Sul graças à emergência da América Central, que funcionou como uma ponte entre os dois continentes. A partir de então começam a aparecer – tanto no sul como no norte – fósseis de mamíferos estranhos à fauna de ambos os territórios. Antes do contato pleno entre eles, tais anomalias, embora em menor número, já eram percebidas. A partir da união total, as faunas originais, notadamente a sul-americana, modificaram-se.
Excluídos o homem, os mamíferos aquáticos e os morcegos, são conhecidas, do Plioceno até nossos dias, 32 famílias norte-americanas e 30 da América do Sul. No mesmo período, extinguiram-se 12 em cada um dos continentes. Do grande intercâmbio faunístico ocorrido, participaram 16 das 32 famílias norte-americanas e oito das 30 sul-americanas. Treze das 16 primeiras famílias e quatro das oito últimas sobrevivem ainda hoje em seus continentes de origem.
A partir desses dados, surge uma indagação: por que algumas famílias não participaram daquele intercâmbio? Em razão de seu clima e relevo, ou da presença de florestas, a América Central teria funcionado como uma espécie de filtro ou barreira intransponível para muitas espécies. Até a América do Sul não chegaram, por exemplo, bisontes e mamutes. Macrauquênias e toxodontes, por outro lado, nunca atingiram a América do Norte.
A harmoniosa fauna sul-americana transformou-se com a chegada de diversos carnívoros (ursos, cachorros, raposas, onças e trigres-dente-de-sabre), proboscídeos (mastodontes), perissodáctilos (antas e cavalos), artiodáctilos (veados, porcos-do-mato, lhamas), logomorfos (tapeti, o coelho brasileiro atual) e roedores (capivaras, pacas, ouriços-cacheiros). Deste imenso contingente invasor, capivaras, pacas, antas e lhamas extinguiram-se na América do Norte, sobrevivendo aqui. Os ouriços-cacheiros experimentaram uma situação singular: também se extinguiram na América do Norte, sobrevivendo aqui, e acabaram por se re - introduzir naquele território.
Embora menos numerosa, a fauna sul-americana que participou do intercâmbio não foi menos magnífica. Para o Norte migraram gliptodontes, várias espécies de preguiças terrícolas e tatus, marsupiais. Os dois últimos grupos lá sobrevivem até hoje.

Após Lund, poucos foram os achados realizados no Brasil: dentes isolados em Minas Gerais (Montes Claros e Lagoa Santa), Rio Grande do Sul e Paraíba, e alguns ossos de extremidades, na Bahia (Chique-Chique) e em Pernambuco (Pesqueira). Nos últimos anos, no entanto, Fausto Luiz de Souza Cunha, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, recuperou em Corumbá (MT) um crânio praticamente completo e metade de uma mandíbula. A equipe de paleontologia do Museu de Ciências Naturais da Pontifícia Universidade de Minas Gerais (PUC-MG) coletou no município de Jacobina (BA) numerosos dentes e peças esqueletais. Recentemente, participamos da Operação Tatus II, realizada no município de Santana (BA), durante a qual um grupo de 13 espeleólogos permaneceu 21 dias isolado no interior da Gruta do Padre, com o objetivo de desenvolver experiências de permanência subterrânea. A equipe externa (de que fazíamos parte) dedicou-se também à exploração de outras grutas. Na Gruta do Túnel, descoberta pelo equipe, localizamos um crânio que, apesar de incompleto, apresentava a porção mais importante para estudo praticamente perfeita. Numa gruta do município baiano de Central, a equipe de arqueologia da Professora Maria Beltrão, do Museu Nacional, coletou alguns dentes e ossos das extremidades. Essas descobertas, não há dúvidas, permitem que se conheça melhor a história dos cavalos brasileiros. É óbvio que os cavalos não são troglófilos, isto é, não são animais que vivem indistintamente dentro ou fora de grutas. Os fósseis dos mamíferos recuperados nesse ambiente, em geral, forma carreados post mortem para dentro delas por cursos de água esporádicos ou permanentes que nelas penetraram. Dentro das grutas, restos podem, inclusive sofrer transporte. Já localizamos ossos do mesmo indivíduo separados por distâncias de até dois quilômetros.


Entre outras peças, o metacarpo descoberto por Lund e (duvidosamente) o crânio recuperado por Fausto Luiz S. Cunha pertencem a Equus (Amerhippus) neogaeus, morfologicamente muito semelhante a um cavalo comum de porte médio, do qual difere por apresentar pequenas variações dentárias. Os ossos das extremidades eram proporcionalmente mais robustos, embora as falanges portadoras de cascos fossem menores. Esta é a espécie que Boas considera tratar-se de uma zebra. O sub - gênero Amerhippus prosperou sobretudo no continente sul-americano: restos de espécies diferentes da brasileira foram encontrados na Argentina, Bolívia, Equador e Colômbia.
Por estarem relacionadas a uma outra espécie de cavalo ainda mal conhecida no Brasil, as descobertas de Santana e Jacobina têm grande importância. Apesar de o material recolhido ainda estar sendo estudado, já se podem tirar algumas conclusões. Tais restos pertencem a Hippidion, gênero conhecido apenas na América do Sul. Tradicionalmente, pensava-se que o Brasil tivesse sido habitado por duas espécies do mesmo gênero (uma de porte reduzido, outra de maior porte), a exemplo do que fora constatado na Argentina. As espécies dos dois países seriam portanto idênticas. Tal interpretação foi adotada pelo fato de o material fóssil existente no Brasil ser insuficiente para que se pudesse formular outra hipótese. Acreditamos, no entanto, que o Brasil abrigou uma única espécie. A comparação do material coletado em Santana com o que se conhece na Argentina leva-nos também a concluir que o Hippidion brasileiro é diferente das espécies que se conhecem no país vizinho. Hippidion principale é a denominação da nossa espécie.
Hippidion principale apresentava caracteres mais primitivos do que a outra espécie brasileira, Equus (Amerhippus) neogaeus. É de se notar que as diferentes espécies de Equus e Hippidion se teriam originado provavelmente de um ancestral norte-americano, o Pliohippus. Alongado, o crânio de Hippidion era desproporcional em relação ao corpo. Os dentes, mais simples, eram em maior número do que os de Equus. Aparentemente, fêmeas e machos possuíam caninos (nos cavalos atuais, só os machos os possuem); o primeiro pré-molar superior era conservado durante toda a vida, ao passo que nas espécies de Equus esse dente desaparece quando a dentadura definitiva se instala, raramente permanecendo em indivíduos adultos. Os ossos nasais de Equus, relativamente largos, projetam-se livres, formando as narinas externas a partir do nível do segundo pré-molar. Hippidion principale tinha ossos nasais muito finos e alongados, que se projetavam livres desde o nível das órbitas, formando a cavidade nasal, o que equivale ao plano posterior ao último molar. O crânio do animal, anteriormente longo e e estreito, apresentaria um focinho afilado. Com crânio maior que o Equus (Amerhippus) neogaeus, Hippidion possuía corpo de tamanho semelhante, pescoço mais curto e membros mais atarracados do que aquele. Se pudéssemos observá-lo em nossos campos, teríamos a nítida impressão de que se tratava de um animal menos ágil, desproporcional em relação a outros cavalos.

Sendo simpátricas, isto é, compartilhando o mesmo território, as duas espécies brasileiras talvez tivessem necessidades alimentares diferentes. Hippidion principale poderia ter uma alimentação mais abrasiva, enquanto Equus (Amerhippus) neogaeus teria uma alimentação menos grosseira. Os dentes da última espécie têm a superfície de mastigação dentária mais uniforme, sem as saliências que se observam na primeira. Ambas as espécies seriam mais marchadoras do que trotadoras1. Teria este fato influído também no processo de extinção? Com se sabe, herbívoros de tamanho médio, como as lhamas e cervos de deslocamentos rápidos ainda hoje sobrevivem na América do Sul.


Sabemos que processos de extinção são contínuos. A Natureza, no entanto, desenvolveu mecanismos capazes de deixar escondidas, no interior da terra, relíquias que permitem a reedição do passado. Os fósseis, para quem os estuda, guardam certa nostalgia, por serem testemunho do desaparecimento de formas de vida. Por outro lado, trazem alegria, ao permitirem a descoberta de vidas que se multiplicaram em formas variadas.
Cada peça é um alerta da Natureza contra a violência que tem ameaçado a vida em nosso planeta.


*** Cástor Cartelli ministra aulas na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e trabalha no Museu de Ciências Naturais da UFMG. Este artigo foi publicado na Revista ‘Ciência Hoje’ em Julho de 1988 e sua veiculação na Revista ‘Mangalarga Marchador’ foi autorizada pelo professor.

Sugestões para leitura:


SIMPSON, G.G., ‘Horses’, Nova York, Oxford University Press, 1951;
PAULA COUTO C., ‘Tratado de Paleomastozoologia’, Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Ciências, 1979;
HOFFSTETTER R., ‘Les mammifères Pléistocenes de la République de l´Équateur’, Mémoires de la Société Géologique de France, no, 66, Paris, 1952.



1 Grifo especial





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