Texto para a próxima questãO



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TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

(Unifesp 2002) Uma feita em que deitara numa sombra enquanto esperava os manos pescando, o Negrinho do Pastoreio pra quem Macunaíma rezava diariamente, se apiedou do panema e resolveu ajudá-lo. Mandou o passarinho uirapuru. Quando sinão quando o herói escutou um tatalar inquieto e o passarinho uirapuru pousou no joelho dele. Macunaíma fez um gesto de caceteação e enxotou o passarinho uirapuru. Nem bem minuto passado escutou de novo a bulha e o passarinho pousou na barriga dele. Macunaíma nem se amolou mais. Então o passarinho uirapuru agarrou cantando com doçura e o herói entendeu tudo o que ele cantava. E era que Macunaíma estava desinfeliz porque perdera a muiraquitã na praia do rio quando subia no bacupari. Porém agora, cantava o lamento do uirapuru, nunca mais que Macunaíma havia de ser marupiara não, porque uma tracajá engolira a muiraquitã e o mariscador que apanhara a tartaruga tinha vendido a pedra verde pra um regatão peruano se chamando Venceslau Pietro Pietra. O dono do talismã enriquecera e parava fazendeiro e baludo lá em São Paulo, a cidade macota lambida pelo igarapé Tietê.

(Mário de Andrade, "Macunaíma, o herói sem nenhum caráter".)


1. O sujeito da oração "Mandou o passarinho uirapuru" pode ser identificado por meio da análise do contexto lingüístico interno. Trata-se de:

a) sujeito indeterminado.

b) "uirapuru" = sujeito expresso.

c) "passarinho" = sujeito expresso.

d) Ele ("o herói") = sujeito oculto.

e) Ele ("o Negrinho do Pastoreio") = sujeito oculto.


TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES.

(Unirio 2000) Leia os excertos abaixo, tirados da revista Veja; em seguida, responda à questões propostas.


TEXTO I

O controle dos genes envolvidos no processo de envelhecimento será uma das maiores conquistas da história da sociedade humana. A grande maioria das doenças, entre elas o câncer, o diabetes e os problemas cardíacos, está relacionada ao envelhecimento e raramente acomete os jovens. Em sua versão final, o controle genético do processo de envelhecimento resultará em pessoas que se mantêm por muito tempo com saúde física semelhante à de um jovem de 20 anos. Mas o corpo humano na sua forma atual não é compatível com a imortalidade física. Nem é nosso objetivo criar pessoas imortais. Para nós, o importante é como se vive durante a velhice. Não se trata de prolongar simplesmente a velhice de forma indefinida, com velhos vivendo limitadamente, mas de garantir que as condições físicas da juventude sejam mantidas por mais tempo.

TEXTO II

Com a morte da mãe, o lar desmoronou e o menino foi internado, por ordem judicial, em um orfanato da cidade de Pirajuí, onde ficou até os 17 anos. Quando saiu, voltou para casa, reencontrou o pai e os irmãos, mas nenhuma esperança. Vivia de biscates, trabalhou num mercado e numa borracharia, depois na lanchonete. Até que um dia atendeu um rapaz forte e espigado no balcão. "Como você conseguiu ficar assim?", perguntou Claudinei. "Fazendo atletismo", respondeu o outro, orgulhoso. No dia seguinte começava a tardia carreira de campeão. "A vida transformou o Claudinei num forte", diz Jayme Netto Júnior, seu treinador no Clube Funilense de Presidente Prudente, interior de São Paulo. "Quanto maior a pressão, maior é a sua capacidade de superação."


TEXTO III

Do lado de fora dos muros da Febem, a realidade da infância no Brasil é igualmente revoltante. Segundo dados do IBGE, 40% das crianças brasileiras entre zero e 14 anos vivem em condições miseráveis, ou seja, a renda mensal familiar não passa de metade do salário mínimo.

O desafio é tão dramático que muita gente acaba dando de ombros, convencida de que se chegou a uma situação da qual não há retorno. É um erro. Neste momento, milhares de fundações e organizações não governamentais, ONGs, estão demonstrando como boas idéias, um pouco de dinheiro e muita disposição podem mudar essa realidade para melhor. Se elas conseguem realizar transformações positivas em universos limitados o bom senso indica que basta copiar o exemplo apropriado. Estima-se que só as fundações (...) estejam investindo 500 milhões de reais por ano numa infinidade de programas de cunho educacional, cultural, esportivo, de saúde, lazer e até mesmo de estímulo a iniciativas governamentais bem-sucedidas. Estão mostrando como é possível, se não resolver o problema de milhões, pelo menos prevenir o de centenas de milhares e recuperar outros tantos.
2. "ESTÃO MOSTRANDO como é possível, se não resolver o problema de milhões, pelo menos prevenir O de centenas de milhares e recuperar outros tantos."
No texto III, a locução verbal e o pronome destacados, no processo coesivo textual, referem-se, respectivamente, a:

a) "fundações e organizações não governamentais".

b) "transformações" e "bom senso".

c) "fundações" e "estímulo".

d) "programas" e "desafio".

e) "iniciativas governamentais" e "retorno".


3. "COM A MORTE DA MÃE, o lar desmoronou..."

Assinale a opção em que a expressão destacada se mantém inalterada quanto ao aspecto semântico e à estrutura sintática.

a) Posto que a mãe morresse, o lar desmoronou.

b) Por ter morrido a mãe, o lar desmoronou.

c) Em virtude de a mãe ter morrido, o lar desmoronou.

d) O lar desmoronou, quando a mãe morreu.

e) O lar desmoronou devido à morte da mãe.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

(Ufrs 98) 1 A deterioração dos centros urbanos tomou conta dos noticiários. A cidade é a demência. A cidade é a selva. Mas a televisão sempre oferece compensações e, para aliviar o "show" do caos urbano, ela exibe o idílio da vida campestre. É assim que, na ficção e na publicidade, reina o ¢videobucolismo, esse gênero de fantasia em que a grama não tem formiga, as cobras não têm veneno e as mulheres não têm vergonha. Chinelos, cigarros, margarinas e cartões de crédito buscam os cenários de praias vazias, fazendas inocentes e montanhas íngremes para aumentar sua promessa de gozo. E há também caminhonetes enormes, as tais "off-road", que se anunciam rodando sobre escarpas, pântanos e rochas cortantes. A felicidade mora longe do asfalto.

2 Mas é curioso: essa mesma fabricação imaginária que santifica a natureza contribui para agravar ainda mais a selvageria nas cidades. Basta observar. Transeuntes se trajam como quem vai enfrentar o mato, os bichos, o desconhecido. Relógios de mergulhadores são ostentados por garotos que mal sabem ver as horas; botas de vaqueiro, próprias para pisar currais, freqüentam cerimônias de casamento; fardas militares de guerrilheiros amazônicos passeiam pelos shoppings. No trânsito, jipes brucutus viraram a última moda. Com pneus gigantescos e agressivos do lado de fora, e estofamento de couro do lado de dentro, são uma versão sobre quatro rodas dos condomínios fechados. Em breve, começarão a circular com pára-choques de arame farpado.

3 A distância entre um motorista de vidros lacrados e o mendigo que pede esmola no sinal vermelho é maior do que a distância entre aquele e as trilhas agrestes das novelas e dos comerciais. Nas ruas esburacadas das metrópoles, ele talvez se sinta escalando falésias. No coração desses dois homens, que se olham sem ver através dessa estranha televisão que é o vidro de um carro, a cidade embrutecida é a pior de todas as selvas.

(Fonte: BUCCI, Eugênio. CIDADES DEMENTES. VEJA, 2 de julho, 1997, p.17.)
4. Conforme sua função no texto, a palavra que pode substituir uma palavra ou expressão anteriormente explicitada. Este é o caso de todas as ocorrências, em maiúsculo, de "que", nas seqüências a seguir, À EXCEÇÃO DE

a) É assim QUE, na ficção e na publicidade, reina o videobucolismo, esse gênero de fantasia em que a grama não tem formiga, as cobras não tem veneno e as mulheres não têm vergonha.

b) E há também caminhonetes enormes, as tais "off-road", QUE se anunciam rodando sobre escarpas, pântanos e rochas cortantes.

c) Mas é curioso: essa mesma fabricação imaginária QUE santifica a natureza contribui para agravar ainda mais a selvageria nas cidades.

d) Relógios de mergulhadores são ostentados por garotos QUE mal sabem ver as horas (...).

e) No coração desses dois homens, que se olham sem se ver através dessa estranha televisão QUE é o vidro de um carro, a cidade embrutecida é a pior de todas as selvas.


TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

(Unb 99) Texto I


1 Em torno de um homem que expunha em leque os dentes estragados, a multidão fechava um círculo ansioso.

2 - Meus senhores, se um dos senhores acorda altas horas da noite com uma formidável dor de dentes e põe no rosto uma nota de conto de réis, nada adianta. Mas se tiver na gaveta do criado-mudo o Bálsamo Africano, em dois, três minutos, fica curado e dorme outra vez. Vamos fazer uma experiência, meus senhores? Não haverá entre o respeitável público quem esteja com uma formidável dor de dentes? Que se apresente!

3 Da turba apinhada, um mulato gordo se destacou. Tinha um ar de saúde, mas franzia a cara.

4 - Estou com uma dor de dentes danada!

5 - Pois esfregue isso que cura.

6 O camelô passou-lhe um tubo cor-de-rosa.

7 Comentavam em redor:

8 - É maromba dele!

9 - Gente. Será?

10 - Fica congelado o dente.

11 Enquanto esperavam o efeito do remédio, o homem do ungüento gritou para o céu:

12 - Zepelim! Zepelim!

13 Todos levantaram a cabeça e nada viram senão o azul faiscante. Mas o camelô aproximara-se da caixa, onde uma cobra preta e amarela parecia dormir, e anunciou:

14 - Dona Filomena vai dançar o tango argentino.

15 A cobra mexeu na caixa. Um mudo que olhava fez grandes sinais para explicar que a cobra não mordia . o mulato aproximou-se.

16 - Passou a dor?

17 - Passou.
Oswald de Andrade. MARCO ZERO - I: A REVOLUÇÃO MELANCÓLICA, In: TEXTOS ESCOLHIDOS. Agir, 1977, p. 85-6 (com adaptações).

Texto II
Menino, mandavam-me escovar em jejum os dentes, mal saído da cama. Eu fazia e obedecia. Sabe-se - aqui no planeta por ora tudo se processa com escassa autonomia de raciocínio. Mas, naquela ingrata época, disso eu ainda nem desconfiava. Faltavam-me o que contra ou pró a geral, obrigada escovação.

Ao menos as duas vezes por dia? À noite, a fim de retirar as partículas de comida, que enquanto o dormir não azedassem. De manhã...

Até que a luz nasceu do absurdo.

De manhã, razoável não seria primeiro bochechar com água ou algo, para abolir o amargo da boca, o mingau-das-almas? E escovar, então, só depois do café com pão, renovador de detritos?

Desde aí, passei a efetuar assim o asseio. Durante anos, porém, em vários lugares, venho amiúde perguntando a outros; e sempre com já embotada surpresa. Respondem-me - mulheres, homens, crianças, médicos, dentistas - que usam o velho, consagrado, comum modo, o que cedo me impunham. Cumprem o inexplicável.

Donde, enfim, simplesmente referir-se o motivo da escova.
J. Guimarães Rosa. TUTAMÉIA. In: FICÇÃO COMPLETA.

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995, p.679.

Texto III
PNEUMOTÓRAX
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

- Respire.

........................................................................................

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


Manuel Bandeira. LIBERTINAGEM. In: POESIA COMPLETA E PROSA. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974, p.206.

Texto IV
Torrente de loucos


1 Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração.

2 - A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que intercepto o dito de S. Paulo aos Coríntios: "Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada". O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-¢lhes os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade.

3 - Um excelente serviço, corrigiu o boticário.

4 - Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos.

5 - Muito maior, acrescentou o outro.

6 E tinha razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. £O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!

7 - Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias.

8 - Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...

9 - Essa pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato...
Machado de Assis. O ALIENISTA E OUTRAS HISTÓRIAS. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d., p.20

Texto V
O pulso ainda pulsa.

O pulso ainda pulsa.
Peste bubônica, câncer, pneumonia,

Raiva, rubéola, tuberculose, anemia,

Rancor, cisticercose, caxumba, difteria,

Encefalite, faringe, gripe, leucemia.


O pulso ainda pulsa.

O pulso ainda pulsa.


Hepatite, escarlatina, estupidez, paralisia,

Toxoplasmose, sarampo, esquizofrenia,

Úlcera, trombose, coqueluche, hipocondria,

Sífilis, ciúme, asma, cleptomania.


O corpo ainda é pouco.

O corpo ainda é pouco.


Reumatismo, raquitismo, cistite, disritmia,

Hérnia, pediculose, tétano, hipocrisia,

Brucelose, febre tifóide, arteriosclerose, miopia,

Catapora, culpa, cárie, câimbra, lepra, afasia.


O pulso ainda pulsa.

O corpo ainda é pouco.


Ainda pulsa.

Ainda é pouco.

Pulso... pulso... pulso... pulso... pulso...
O PULSO. Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Antônio Belloto (Titãs). Õ BLÉSQ BLOM, 1992.
5. Quanto à estrutura morfossintática do texto III, julgue os itens abaixo.
(1) O tratamento entre as personagens é formal, como comprovam algumas marcas lingüísticas do texto.

(2) No primeiro parágrafo, o verbo transitivo exigiu dois objetos diretos para que seu sentido se completasse.

(3) O pronome oblíquo "lhe" funciona como um pronome possessivo.

(4) O trecho "ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos" (par.4), no tempo verbal futuro, admite ser reescrito assim: ELE DAR-ME-Á, PORÉM, MUITO MAIOR CAMPO AOS MEUS ESTUDOS.


TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

(Pucsp 2002) POÇAS D' ÁGUA


As poças d'água são um mundo mágico

Um céu quebrado no chão

Onde em vez de tristes estrelas

Brilham os letreiros de gás Néon.


(Mario Quintana, "Preparativos de viagem", São Paulo, Globo, 1994.)
6. Refletindo-se sobre a relação entre os termos da oração, pode-se afirmar que

a) o termo D'ÁGUA complementa sintaticamente o termo POÇAS.

b) o termo MUNDO MÁGICO complementa sintaticamente o termo AS POÇAS D'ÁGUA.

c) o termo EM VEZ DE TRISTES ESTRELAS complementa o termo BRILHAM.

d) não há complementos verbais nem nominais.

e) há simplesmente complementos nominais.


TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

(Ufv 99) ESSAS MÃES MARAVILHOSAS E SUAS MÁQUINAS INFANTIS


1 Flávia logo percebeu que as outras moradoras do prédio, mães dos amiguinhos do seu filho, Paulinho, seis anos, olhavam-na com um ar de superioridade. Não era para menos. Afinal o garoto até aquela idade - imaginem - se limitava a brincar e ir à escola. Andava em total descompasso com os outros meninos, que já desenvolveram múltiplas e variadas atividades desde a mais tenra idade. O recorde, por sinal, pertencia ao garoto Peter, filho de uma brasileira e um canadense, nascido em Nova Iorque. Peter, tão logo veio ao mundo entrou para um curso de amamentação ("Como tirar o leite da mãe em 10 lições"). A mãe descobriu numa revista uma pesquisa feita por médicos da Califórnia informando sobre a melhor técnica de mamar (chamada técnica de Lindstorm, um psicanalista, autor da pesquisa, que para realizar seu trabalho mamou até os 40 anos). A maneira da criança mamar, afirmam os doutores, vai determinar suas neuroses na idade adulta.

2 Uma tarde, Flávia percebeu duas mães cochichando sobre seu filho: que se pode esperar de um menino que aos seis anos só brinca e vai à escola? Flávia começou a se sentir a última das mães. Pegou o marido pelo braço dizendo que os dois precisavam ter uma conversa com o filho.

3 - O que você gostaria de fazer, Paulinho? - perguntou o pai dando uma de liberal que não costuma impor suas vontades.

4 - Brincar...

5 O pai fez uma expressão grave.

6 - Você não acha que já passou um pouco da idade, filho? A vida não é uma eterna brincadeira. Você precisa começar a pensar no futuro. Pensar em coisas mais sérias, desenvolver outras atividades. Você não gostaria de praticar algum esporte?

7 - Compra um time de botão pra mim.

8 - Botão não é esporte, filho.

9 - Arco e flecha!

10 Os pais se entreolharam. Nenhum dos meninos do prédio fazia curso de arco e flecha. Paulinho seria o primeiro. Os vizinhos certamente iriam julgá-lo uma criança anormal. Flávia deu um calção de presente ao garoto e perguntou por que ele não fazia natação.

11 - Tenho medo.

12 Se tinha medo, então era para a natação mesmo que ele iria entrar. Os medos devem ser eliminados na infância. Paulinho ainda quis argumentar. Sugeriu alpinismo. Foi a vez de os pais tremerem. Mas o medo dos pais é outra história. Paulinho entrou para a natação. Não deu muitas alegrias aos pais. Nas competições chegava sempre em último, e as mães dos coleguinhas continuavam olhando Flávia com uma expressão superior. As mães, vocês sabem, disputam entre elas um torneio surdo nas costas dos filhos. Flávia passou a desconfiar de que seu filho era um ser inferior. Resolveu imitar as outras mães, e além da natação colocou Paulinho na ginástica olímpica, cursinho de artes, inglês, judô, francês, terapeuta, logopedista. Botou até aparelho nos dentes do filho. Os amiguinhos da rua chamavam Paulinho para brincar depois do colégio.

13 - Não posso, tenho aula de hipismo.

14 - Depois do hipismo?

15 - Vou pro caratê?

16 - E depois do caratê?

17 - Faço sapateado.

18 - Quando poderemos brincar?

19 - Não sei. Tenho que ver na agenda.

20 Paulinho andava com uma agenda Pombo debaixo do braço. À noitinha chegava em casa mais cansado do que o pai em dia de plantão. Nunca mais brincou. Tinha todos os brinquedos da moda, mas só para mostrar aos amiguinhos do prédio. Paulinho dava um duro dos diabos. "Mas no futuro ele saberá nos agradecer", dizia o pai. O garoto estava sendo preparado para ser um super-homem. E foi ficando adulto antes do tempo, como uma fruta que amadurece de véspera. Um dia Flávia flagrou o filho com uma gravata à volta do pescoço tentando dar um laço. Quando fez sete anos disse ao pai que a partir daquele dia queria receber a mesada em dólar. Aos oito anos abriu o berreiro porque seus pais não lhe deram um cartão de crédito de presente. Com oito anos, entre uma aula de xadrez e de sânscrito, Paulinho saiu de casa muito compenetrado. Os amiguinhos da rua perguntaram onde ele ia:

21 - Vou ao banco.

22 Caminhou um quarteirão até o banco, sentou-se diante do gerente, pediu sugestões sobre aplicações e pagou a conta de luz como um homenzinho. A façanha do garoto correu o prédio. A vizinhança começou a achá-lo um gênio. As mães dos amiguinhos deixaram de olhar Flávia com superioridade. Os pais, enfim, puderam sentir-se orgulhosos. "Estamos educando o menino no caminho certo", declarou o pai batendo no peito. Na festa de 11 anos, que mais parecia um coquetel do corpo diplomático, um tio perguntou a Paulinho o que ele queria ser quando crescesse.

23 - Criança!

24 Paulinho cresceu. Cresceu fazendo cursos e mais cursos. Abandonou a infância, entrou na adolescência, tornou-se um jovem alto, forte, espadaúdo. Virou Paulão. Entrou para a faculdade, formou-se em Economia. Os pais tinham sonhos de vê-lo na Presidência do Banco Central. Casou com uma jornalista. Paulão respirou aliviado por sair debaixo das asas da mãe, que até às vésperas do casamento queria colocá-lo num curso de preparação matrimonial. Na lua-de-mel, avisou à mulher que iria passar os dias em casa dedicando-se à sua tese de mestrado. A mulher ia e vinha do emprego e Paulão trancado no seu gabinete de estudos. Uma tarde, o marido esqueceu de passar a chave na porta. A mulher chegou, abriu e deu de cara com Paulão sentado no tapete brincando com um trenzinho.

(NOVAES, Carlos Eduardo. "A cadeira do dentista & outras crônicas." 7. ed. São Paulo: Ática, 1997. p.15-17.)
Glossário

Caratê - luta corporal em que o indivíduo se serve de meios naturais para atacar ou defender-se.

Espadaúdo - que tem ombros largos.

Hipismo - esporte que compreende equitação, corrida de cavalos, etc.

Logopedista - pessoa que se dedica à ciência de corrigir defeitos de pronúncia.

Sânscrito - antiga língua sagrada e literária da Índia.

Sapateado - dança que se caracteriza por bater os tacões dos sapatos no chão.

Terapeuta - pessoa que se aplica a tratar de doenças.


7. Sabemos que ATÉ tem duas significações: a) indica o termo (no espaço ou no tempo) que não se ultrapassa; b) expressa inclusão. Nas passagens a seguir, extraídas do texto, há quatro exemplos de uma e um único exemplo da outra. Assinale a alternativa em que a palavra ATÉ apresenta significado distinto do que possui nas demais:
a) "Afinal o garoto ATÉ aquela idade - imaginem - se limitava a brincar e ir à escola." (par.1)
b) "... um psicanalista, autor da pesquisa, que para realizar seu trabalho mamou ATÉ os 40 anos..." (par.1)
c) "Botou ATÉ aparelho nos dentes do filho." (par.12)
d) "Caminhou um quarteirão ATÉ o banco..." (par.22)
e) "Paulão respirou aliviado por sair debaixo das asas da mãe, que ATÉ às vésperas do casamento queria colocá-lo num curso de preparação matrimonial." (par.24)
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

(Faap 97) AS POMBAS


Vai-se a primeira pomba despertada...

Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas

De pombas vão-se dos pombais, apenas

Raia sangüínea e fresca a madrugada


E à tarde, quando a rígida nortada

Sopra, aos pombais, de novo, elas, serenas

Ruflando as asas, sacudindo as penas,

Voltam todas em bando e em revoada...


Também dos corações onde abotoam,

Os sonhos, um por um, céleres voam

Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,

Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam

E eles aos corações não voltam mais...

(Raimundo Correia)

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