Texto publicado sob o título “As religiões afro-brasileiras nas ciências sociais



Baixar 129.2 Kb.
Página2/4
Encontro18.07.2016
Tamanho129.2 Kb.
1   2   3   4

2. Bastide e Camargo: candomblé e umbanda vistos como religiões


Foi Roger Bastide, com O candomblé da Bahia, quem deu ao candomblé o status sociológico de religião. Juntamente com As religiões africanas no Brasil, esse livro é o ponto de partida da moderna interpretação científica da religião dos orixás no Brasil, em que Bastide aprofunda teses previamente apresentadas em seu Imagens do Nordeste místico em preto e branco, publicado originalmente no Brasil em 1945. Até hoje esses livros são básicos para a compreensão das religiões afro-brasileiras. Os estudos afro-brasileiros ampliaram-se muito desde a época das pesquisas de Bastide e muito dos dados apresentados em seus livros já mereceram investigações mais apuradas. Para quem procura simples relatos etnográficos, esses livros podem parecer desatualizados. Mas não se pode dizer que se entende de candomblé sem a leitura da obra bastidiana.

Bastide parte dos relatos de Édson Carneiro e divide com Pierre Verger o interesse pelos orixás no Brasil e na África. Bastide estava interessado, antes de mais nada, na relação entre brancos e negros, o que o levou a produzir, com Florestan Fernandes, de quem foi professor, a famosa investigação pioneira sobre relações raciais em São Paulo. Mas foi o candomblé da Bahia que lhe permitiu chegar a interpretações mais decisivas sobre a recriação no Brasil de uma África simbólica capaz de atenuar as agruras da vida do negro na sociedade branca, num processo em que o templo (o terreiro) aparece como sucedâneo do mundo africano que tinha ficado para trás, do outro lado do Atlântico. O candomblé, para Bastide, recriava para o negro um mundo ao qual ele podia, com certa regularidade, se retirar da sociedade branca opressiva e dominadora, uma pequena África fora da sociedade, o terreiro como substitutivo da perdida cidade africana e da família que não pôde ser refeita no Brasil nos moldes africanos. O candomblé punha à disposição do negro brasileiro um mundo também negro, comunitário-familiar, justaposto ao mundo branco, de modo que o fiel pudesse passar de um mundo para o outro como se fossem dimensões ortogonais de uma mesma realidade, em que o não-religioso significava a adversidade a que o negro estava sujeito pela realidade histórica da escravidão. O candomblé, então religião étnica, foi visto por Bastide como uma África recuperada na vida religiosa dos terreiros. Em As religiões africanas, ele chamou esse dispositivo de “princípio do corte”, mas já antevia um momento em que o candomblé não seria mais simples religião de negros, podendo receber também devotos e simpatizantes originários de etnias de origem não africana. Antecipou, portanto, a transformação do candomblé de religião étnica em religião universal, o que viria a se consolidar trinta anos depois de sua pesquisa de campo nos terreiros da Bahia.

Bastide não queria simplesmente descrever uma religião de africanos no Brasil, mas pretendia entender como as realidades sociais do negro e do branco se interpenetravam, de modo que a pequena África que ele redescobriu em solo brasileiro pudesse ser compreendida como uma realidade brasileira, capaz de se mostrar como fonte de uma metafísica autônoma, num contraponto significativo com a sociedade mais ampla em que estava constituída. O fato é que Bastide estudava uma sociedade que se transformava muito rapidamente, tanto que os grandes temas da sociologia nas décadas seguintes se ateriam a três itens básicos: industrialização, urbanização e migração.

Acompanhando o processo de mudança econômica, social e política que marcou o pós-Segunda Guerra, a vida religiosa no Brasil mudou também. E mudou num grau, numa extensão e numa velocidade nunca dantes vistos em nossa história, ficando para sempre marcado o declínio inexorável do catolicismo face ao avanço de outras religiões. A percepção aguda e insistente desse fato acompanhou Candido Procopio Ferreira de Camargo desde os anos 1950, quando começou a se interessar por estudar o desenvolvimento do que ele caracterizou como "continuum mediúnico" (um gradiente que reúne grande diversidade de formas religiosas que se aproximam ou se afastam, em diferentes graus, dos tipo puros espiritismo kardecista, num pólo, e a religião afro-brasileira, no outro), bem como a expansão das igrejas pentecostais, todas elas formações religiosas intensamente sacrais a se alastrar pelo Brasil urbano, que se industrializava e se modernizava. Exatamente nas regiões em que o país se modernizava e estabelecia gradativamente padrões mais racionais e seculares. A expansão do pentecostalismo, do kardecismo e da umbanda representava a contraface do declínio e da erosão da religião dominante tradicional, o catolicismo, desgaste que não se reduzia à dessacralização e à secularização. O panorama religioso brasileiro mudava, como continua mudando até os dias de hoje, não somente porque há pessoas que desertam de seus deuses tradicionais, laicizando suas vidas e seus valores, mas também porque há outras que em número crescente aderem a novos deuses, ou então redescobrem seus velhos deuses em novas roupagens.

Procopio Camargo se interessava pela religião em mudança, chegando a desconsiderar aquilo que elas pudessem significar em termos de preservação cultural ou étnica, de continuidade, de preservação de identidades sócio-culturais. A obra de Procopio Camargo sobre as religiões é uma obra sobre a conversão religiosa, sobre a escolha e a deserção — do catolicismo para religiões não católicas, do catolicismo para catolicismos. Ao enveredar pelas religiões de transe, religiões mediúnicas, que ele vai enfeixar no gradiente kardecista-umbandista, Procopio Camargo abandonou uma velha preocupação dos estudiosos dessas religiões no Brasil, o transe. Uma vez que, como experiência religiosa controlada ritualmente, o transe interessa ao pesquisador apenas como uma das dimensões religiosas, não importa à sociologia aquilo que ele tem ou pode ter de psicológico, exótico ou mesmo patológico. Com transe ou sem transe, a religião é sempre teatro, representação. O foco da sociologia de Procopio Camargo privilegiava a regulamentação da vida que as religiões são capazes de constituir e de inculcar, e a influência moral que possam ter sobre a conduta de vida de indivíduos e grupos em grande número, mudando mentalidades e modos de agir. Segundo Procópio Camargo, a umbanda interessava à sociologia porque era uma religião que podia ser vista nesses termos. O candomblé só interessaria anos depois, quando também se mostrasse como religião que se abre para todos, agora como concorrente no mercado religioso.

São duas chaves bem diferentes, a de Bastide e a de Procopio, mas em ambas as análises as religiões afro-brasileiras surgem como religiões capazes de competir com as formas religiosas dominantes de interpretação do mundo e de orientação da conduta. Como realidade sociológica, o candomblé e a umbanda têm, nessa perspectiva, o mesmo porte de religiões como o catolicismo e o protestantismo. Passam a se consideradas como iguais.


1   2   3   4


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal