Texto publicado sob o título “As religiões afro-brasileiras nas ciências sociais



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5. Religiões universais em competição e conflito


Mas um tema novo, decisivo, candente, começou a preocupar ultimamente os cientistas sociais: qual o futuro das religiões afro-brasileiras?

Nos últimos anos do século xx, acreditava-se que tudo ia bem com as religiões afro-brasileiras. Já haviam consolidado seu status de religiões de caráter universal e se encontravam instaladas no País e mais além como concorrentes legítimas e em expansão no mercado religioso. Cresceram e se mostraram, lutando para romper o preconceito que ainda as cercava e cerca, religiões de origem negra que são. Mas, em 2001, Ricardo Mariano, analisando o crescimento evangélico, em sua tese de doutorado, fez uma descoberta sensacional5. Descobriu que as religiões afro-brasileiras estavam perdendo fiéis. Isso mesmo: os diminutos candomblé e umbanda, somados, perdiam fiéis num montante significativo. E apontou como razão o enfrentamento com as igrejas pentecostais. O conflito entre evangélicos e afro-brasileiros já vinha sendo estudado, mas agora tudo mudava de figura, de extensão, abrindo-se um novo flanco na pesquisa sociológica do segmento afro-brasileiro. Trabalhos como os de Ari Pedro Oro, Cecília Loreto Mariz e Mariza de Carvalho Soares, todos da década de 1990, como o de Miriam Marcílio Rabelo, mais recentemente, já explicitavam o tema do conflito entre evangélicos e afro-brasileiros e se perguntam sobre as chances de sobrevivência dessas últimas. Agora tratava-se de medir o declínio e refletir sobre seus efeitos na sociedade brasileira.

Olhando separadamente as religiões, pode-se ver que a perda de fiéis do conjunto afro-brasileiro se deve ao encolhimento da umbanda. Como o pequeno crescimento do candomblé não é suficiente para compensar as perdas umbandistas, o conjunto todo se mostra, agora, debilitado e declinante diante do avanço pentecostal.

Acho que algumas considerações que apresentei em Segredos guardados, meu livro de 2005, podem sumariar o novo quadro de preocupação.

Podem ser muitas as razões do declínio afro-brasileiro, mas certamente elas estão associadas às novas condições da expansão das religiões no Brasil no contexto do mercado religioso. A oferta de serviços que a religião é capaz de propiciar aos consumidores religiosos e as estratégias de acessar os consumidores e criar novas necessidades religiosas impõem mudanças que nem sempre religiões mais ajustadas à tradição conseguem assumir. É preciso, sobretudo, enfrentar-se com os concorrentes, atualizar-se. Para religiões antigas, podem ocorrer mudanças que mobilizam apenas um setor dos líderes e devotos, como, por exemplo, ontem, a fração das Comunidades Eclesiais de Base e, hoje, a parcela da Renovação Carismática do catolicismo. No caso dos evangélicos, avançam os renovados pentecostais, mas declinam algumas das denominações históricas, tradicionais.

Certamente, o sincretismo católico, que por quase um século serviu de guarida aos afro-brasileiros, não deve mais lhes ser tão confortável. Quando o próprio catolicismo está em queda, a âncora sincrética católica pode estar pesando desfavoravelmente para os afro-brasileiros, fazendo-os naufragar.

Umbanda e candomblé são religiões mágicas. Ambas pressupõem o conhecimento e o uso de forças sobrenaturais para intervenção neste mundo, o que privilegia o rito e valoriza o segredo iniciático. Além do sacerdócio religioso, a magia é quase que uma atividade profissional paralela de pais e mães-de-santo, voltada para uma clientela religiosamente alheia à religião africana. Nesses termos, o candomblé é visto dentro do próprio segmento afro-brasileiro como fonte de maior poder mágico que a umbanda, o que atrai para o seio do candomblé muitos umbandistas.

Para o candomblé, que está mais perto do pensamento africano que a umbanda, o bem e o mal não se separam, não são campos distintos. A umbanda, porém, quando se formou, se imaginou também como religião ética, capaz de fazer a distinção entre o bem e o mal, à moda ocidental, cristã. Mas acabou criando para si uma armadilha: ao separar o campo do bem do campo do mal, povoou o primeiro com seus guias de caridade, os caboclos, pretos-velhos e outros espíritos bons, à moda kardecista. Para controlar o segundo, arregimentou um panteão de exus-espíritos e pombagiras, entidades que não se acanham em trabalhar para o mal quando o mal é considerado necessário. Ficou dividida entre dois campos éticos opostos, “entre a cruz e a encruzilhada”, na feliz expressão de Lísias Nogueira Negrão. Por outro lado, o culto dos exus e pombagiras, identificados popularmente, especialmente pelos religiosos oponentes, como figuras diabólicas — culto tratado durante muito tempo com discrição e segredo — veio recentemente a ocupar na umbanda lugar aberto e de realce. Era tudo de que precisava um certo pentecostalismo: agora o diabo estava ali bem à mão, nos terreiros adversários, visível e palpável, pronto para ser humilhado e vencido. O neopentecostalismo leva ao pé da letra a idéia de que o diabo está entre nós, incitando seus seguidores a divisá-lo nos transes rituais dos terreiros de candomblé e umbanda. Pastores da Igreja Universal do Reino de Deus, em cerimônias fartamente veiculadas pela televisão, submetem desertores da umbanda e do candomblé, em estado de transe, a rituais de exorcismo, que têm por fim humilhar e escorraçar as entidades espirituais afro-brasileiras incorporadas, que eles consideram manifestações do demônio, num ataque sem trégua ao candomblé e à umbanda e a seus deuses e entidades, prática constitutiva de sua própria identidade, conforme demonstraram Ronaldo de Almeida6 e Ricardo Mariano7. Os terreiros, enfim, haviam sido deixados em paz pela polícia (quase sempre), mas ganharam inimigos muito mais decididos e dispostos a expulsá-los do cenário religioso, contendores que fazem da perseguição às crenças afro-brasileiras um ato de fé, no recinto fechado dos templos como no ilimitado e público espaço da televisão e do rádio.

A umbanda e o candomblé, cada qual a seu modo, são bastante valorizados no mercado de serviços mágicos e sempre foi grande — e não necessariamente religiosa — a sua clientela, mas ambos enfrentam hoje a concorrência de incontáveis agências de serviços mágicos e esotéricos de todo tipo e origem, sem falar de outras religiões, que inclusive se apropriam de suas técnicas, sobretudo as oraculares.

As afro-brasileiras são religiões de pequenos grupos que se congregam, nos terreiros, em torno de uma mãe ou pai-de-santo. Embora se cultivem relações protocolares de parentesco iniciático entre terreiros, cada um deles é autônomo e auto-suficiente, e não há nenhuma organização institucional eficaz que os unifique ou que permita uma ordenação mínima capaz de estabelecer planos e estratégias comuns na relação da religião afro-brasileira com as outras religiões e o resto da sociedade. As federações de umbanda e candomblé, que supostamente uniriam os terreiros, não funcionam, pois não há autoridade acima do pai ou da mãe-de-santo. Além de competirem com as outras religiões e práticas mágicas, os terreiros competem fortemente entre si, e os laços de solidariedade entre os diferentes grupos são frágeis e circunstanciais. Não há organização empresarial e não se dispõe de canais eletrônicos de comunicação. Sobretudo, nem o candomblé nem a umbanda têm quem fale por eles, muito menos quem os defenda. Muito diferente das modernas organizações empresariais das igrejas evangélicas, que usam de técnicas modernas de marketing, que treinam seus pastores-executivos para a expansão e prosperidade material das igrejas, que contam com canais próprios e alugados de televisão e rádio, e com representação aguerrida nos legislativos municipais, estaduais e federal. Mais que isso, a derrota das religiões afro-brasileiras é item explícito do planejamento expansionista pentecostal.

A organização dos afro-brasileiros em pequenos grupos (as comunidades dos terreiros) hoje pode pesar desfavoravelmente. Entre as décadas de 1950 e 1970, as religiões de conversão se caracterizavam pela formação de pequenas assembléias, em que todos se conheciam e se relacionavam. A religião recriava simbolicamente relações sociais comunitárias que o avanço da industrialização e da urbanização ia desfazendo. Tanto no terreiro afro-brasileiro como na igreja evangélica, o adepto se sentia de novo parte de um pequeno e bem definido grupo. Ao contrário disso, a religião típica da década de 1980 em diante é uma religião de massa. As reuniões religiosas são realizadas em grandes templos, situados preferencialmente nos lugares de maior fluxo de pessoas, com grande visibilidade, que funcionam o tempo todo e que reúnem adeptos vindos de todos os lugares da cidade. Os crentes já não precisam necessariamente se conhecer uns aos outros. O culto também é oferecido dia e noite no rádio e na televisão e o acesso ao discurso religioso é sempre imediato, fácil. Os pastores são treinados para um tipo de pregação uniforme e imediatista. No catolicismo carismático, por sua vez, a constituição dos pequenos grupos de oração teve que se calçar na criação dos grandes espetáculos de massa das missas dançantes celebradas pelos padres cantores. Nesses vinte anos, mudou muito a forma como a religião é oferecida pelos mais bem-sucedidos grupos religiosos. São mudanças a que o candomblé e a umbanda não estão afeitos. Não são capazes de se massificar, mesmo porque a vida religiosa de um afro-brasileiro se pauta principalmente pelo desempenho de papéis sacerdotais dentro de um grupo de características eminentemente familiares. Mais que isso: as cerimônias secretas das obrigações e sacrifícios não são abertas sequer a todos os membros de um terreiros, havendo sempre uma seleção baseada nos níveis iniciáticos, não sendo concebível a sua exposição a todos, muito menos sua divulgação por meio televisivo.

Além disso, os terreiros afro-brasileiros usualmente desaparecem com o falecimento da mãe ou pai-de-santo. A não ser em uma dúzia de casas que se transformaram em emblemas de importância regional ou nacional para a religião, dificilmente um terreiro sobrevive a seu fundador. Tudo sempre começa de novo, pouco se acumula.

Fragmentadas em pequenos grupos, fragilizadas pela ausência de algum tipo de organização ampla, tendo que carregar o peso do preconceito racial que se transfere do negro para a cultura negra, as religião afro-brasileiras têm poucas chances de se sair melhor na competição — desigual — com outras religiões. Silenciosamente, assistimos hoje a um verdadeiro massacre das religiões afro-brasileiras. O fato é que as lideranças da umbanda e do candomblé, em grande parte pouco interessadas no que se passa fora do terreiro de cada um, não têm sabido como reagir ou como se organizar na defesa de sua religião8. É verdade que o candomblé carrega um fardo de tradição que tende a ser imobilizador, mas a umbanda, que surgiu exatamente para adequar o culto afro-brasileiro a novos tempos, também não parece agora capaz de se adaptar rapidamente às novas demandas que a sociedade apresenta.

De todo modo, a importância cultural da umbanda, do candomblé, do xangô, do tambor-de-mina, do batuque e das demais denominações tem sido sempre maior que seu alcance demográfico em termos da efetiva filiação de seguidores. Sua contribuição às mais diferentes áreas da cultura brasileira é riquíssima, como acontece também noutros países americanos em que se constituíram religiões de origem negro-africana. Mas, se se confirma que o Brasil vem se tornando religiosamente menos afro-brasileiro, a fonte viva de valores, visões de mundo, arranjos estéticos, aromas, sabores, ritmos etc., que são os terreiros afro-brasileiros, pode entrar em processo de extinção. Não seria um horizonte promissor para o cultivo da diferença cultural e do pluralismo religioso, cujo alargamento alimentou promessas do final do século xx de mais democracia, diversidade, tolerância e liberdade.

É essa, a meu ver, a discussão pendente que as ciências socias têm hoje que enfrentar no trato das religiões afro-brasileiras.

Muito obrigado.

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Resumo:
Em sua conferência inaugural do XI Congresso Latino-Americano sobre Religião e Etnicidade, promovido pela ALER — Associação Latino-Americana para o Estudo das Religiões — em São Bernardo do Campo, de 3 a 7 de julho de 2006, o autor trata da bibliografia produzida pelas ciências sociais sobre as religiões afro-brasileiras ao longo de trinta e cinco anos, desde o início de sua carreira profissional de sociólogo em 1971, mostrando o pouco que havia antes. Discorre sobre os temas e questões surgidos ao longo do tempo, mostra o aparecimento dos novos autores e obras, e nomeia diferentes iniciativas institucionais que fazem parte da consolidação das ciências sociais da religião no Brasil. A partir de sua experiência de sociólogo, aponta aspectos que considera fundamentais no processo de constituição e mudança das religiões afro-brasileiras em face das demais religiões. Indica pautas de pesquisa que marcaram diferentes momentos e ­­­­explicita pontos pendentes que as ciências socias deveriam hoje enfrentar no trato das religiões afro-brasileiras. Ao longo da exposição, compõe uma lista de autores e obras, arrolados ao final como bibliografia selecionada, que considera básica para o estudos das religiões afro-brasileiras em seus diferentes aspectos sociológicos, antropológicos e históricos.
O autor:
Reginaldo Prandi é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo e atual professor permanente de seu programa de pós-graduação em Sociologia. Autor de três dezenas de livros, suas obras tratam sobretudo de sociologia da religião e mitologia afro-brasileira. Os mais recentes são: Mitologia dos orixás e Segredos guardados: orixás na alma brasileira, publicados pela Companhia das Letras, e Encantaria brasileira, pela editora Pallas. Tem publicado também livros de literatura infanto-juvenil: Ifá, o Adivinho, Xangô, o Trovão, Oxumarê, o Arco-Íris e Minha querida assombração, pela Companhia das Letrinhas; e Os príncipes do destino, pela CosacNaify. O recente Morte nos búzios, pela Companhia das Letras, é sua estréia na ficção policial.


1 Congresso realizado pela ALER — Associação Latino-Americana para o Estudo das Religiões — em São Bernardo do Campo, de 3 a 7 de julho de 2006.

2 Gideon Alencar, Protestantismo tupiniquin: hipóteses sobre a (não) contribuição evangélica à cultura brasileira. São Paulo, Arte Editorial, 2005.

3 Os dados bibliográficos de obras e autores citados no texto encontram-se ao final, em "Bibliografia selecionada". Longe de constituir uma listagem exaustiva de autores e obras, essa bibliografia pretende indicar, a meu juízo, os títulos básicos para a compreensão de diferentes temas tratados por cientistas sociais no âmbito das religiões afro-brasileiras.

4 Antônio Flávio Pierucci e Reginaldo Prandi, A realidade social das religiões no Brasil. São Paulo, Hucitec, 1996.

5 Ricardo Mariano, Análise sociológica do crescimento pentecostal no Brasil. Tese de doutorado em Sociologia. São Paulo, USP, 2001.

6 Ronaldo R. M. de Almeida, A universalização do Reino de Deus. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, nº 44, pp. 12-23, março de 1996.

7 Ricardo Mariano, Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo, Loyola, 1999.

8 Aguarda julgamento de apelação no STF, um processo judicial inusitado, já vitorioso em duas instâncias, iniciado por religiosos afro-brasileiros contra as redes de televisão Record e tv Mulher, ambas de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus.

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