Textos, contextos e intertextos da tropicália



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O monumento não tem porta


A entrada é uma rua antiga estreita e torta

E no joelho uma criança sorridente feia e morta


Estende a mão

Viva a mata ta ta

Viva a mulata ta ta ta

No pátio interno há uma piscina

Com água azul de Amaralina

Coqueiro fala e brisa nordestina

E faróis

Na mão direita há tem uma roseira autenticando eterna primavera


E nos jardins os urubus passeiam a tarde inteira


Entre os girassóis

Viva Maria iá iá

Viva a bahia iá iá iá iá

No pulso esquerdo o bang bang

Em suas veias corre muito pouco sangue

Mas seu coração balança a um samba

De tamborim

Emite acorde dissonantes

Pelos cinco mil autofalantes

Senhoras e senhores ele põe os olhos grandes sobre mim

Viva iracema ma ma

Viva ipanema ma ma ma ma

Domingo é o fino da bossa

Segunda-feira está na fossa

Terça-feira vai à roça

Porém


O monumento é bem moderno

Não disse nada do modelo do meu terno

Que tudo mais vá pro inferno

Meu bem


Que tudo mais vá pro inferno

Meu bem


Viva a banda da da

Cármen miranda da da da da



O carnaval, a miséria, a opressão, a Jovem Guarda, tudo está presente. Remete a Coisas nossas de Noel Rosa, onde já aparece a palavra bossas. Os dois primeiros versos, dialogam com a linguagem “para-choque de caminhão”. Contrapondo nariz a movimento e a planalto central, diz que podemos saber onde temos o nariz, mas preferimos fzer canaval, com ou sem ordem do “planalto”(de papel e prata). Opõe a TV de O fino da bossa ao Brasil rural da palhoça. Citam-se José de Alencar, Olavo Bilac e Catulo da Paixão Cearense. Há referências a cantigas de roda e a composições da música popular brasileira. Brasília é o elemento chave, central, embora não nomeada, impondo certa estrutura ao que poderia ser (sem Brasília) mero arrolamento. Cada inserção é motivada: cada uma tem, com efeito, na origem, um tema, um personagem, por vezes um simples pormenor apenas evocado e que a inserção parece desenvolver e mesmo reescrever. No conjunto de piscinas e faróis, aparecem os ícones da classe média: piscina em casa e automóveis. É a nossa dor, nossa alegria, nosso ridículo. As rimas são primárias, de contigüidade desconcertante. Cada refrão tem sua constelação de sugestões e referências: o filme Viva Maria, com Brigitte Bardot, o refrão iá-iá, tratamento devido às senhoras (a duplicação ocorre por deferência, já que iá é mãe em iorubá12). Os termos combinados são contraditórios: à fragilidade do papel crepom opõe-se a prata; a criança sorridente está morta, mas estende a mão. Nela podemos ver Lautréamont, assim como Jerônimo Bosch. Note-se a grafia “autofalantes”. No penúltimo conjunto faz-se descrição de um ser com pouco sangue e olhos grandes. Quem será? O Brasil? O brasileiro? A mídia? A massificação ou o massificado? Na seqüência de rimas bossa, fossa, palhoça, além de simples citação o que se diz, de fato é que a massificação é uma joça, mas resistiremos. Temos bossa, e não fazemos questão de sair da fossa, sendo essa, talvez mais criativa., histórica ou momentânea. A canção iluminou e batizou o movimento tropicalista. Tem em comum com o filme O rei da vela o modo cubista de fragmentar as imagens. Um religioso português viu na canção a certeza de um futuro feliz para o Brasil, inclusive com referência à profecia de D. Bosco para o Planalto Central, sem ironia. Amarra-se, assim, a tropicália no mito sebastianista, também presente em Terra em transe e Deus e diabo na terra do sol.. É um inventário, mostrando passadismo e cafonice, caótico, divertido, ironizando o mau-gosto nacional e o pretenso bom-gosto intelectual.





II A banda – Chico Buarque de Holanda





Estava à toa na vida

O meu amor me chamou

Pra ver a banda passar

Cantando coisa de amor

A minha gente sofrida

Despediu-se da dor

Pra ver a banda passar

Cantando coisa de amor

O homem sério que contava dinheiro parou

O faroleiro que contava vantagem parou

A namorada que contava as estrelas parou

Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia fechada sorriu

A rosa triste que vivia calada se abriu

É ameninada toda se assanhou

Pra ver a banda passar

Cantando coisa de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou

Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou

A moça feia debruçou na janela

Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu

A lua cheia que vivia escondida surgiu

Minha cidade toda se enfeitou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto

O que era doce acabou


Tudo tomou seu lugar


Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto

Em cada canto uma dor

Depois da banda passar

Cantando coisa de amor




III Alegria, alegria – Caetano Veloso



Caminhando contra o vento

Sem lenço sem documento

No sol de quase dezembro

Eu vou


O sol se reparte em crimes

Espaçonaves guerrilhas

Em cardinales bonitas

Eu vou


Em caras de presidentes

Em grandes beijos de amor

Em dentes pernas bandeiras

Bomba e brigitte bardot

O sol nas bancas de revista

Me enche de alegria e preguiça

Quem lê tanta notícia

Eu vou


Por entre fotos e nomes

Os olhos cheios de cores

O peito cheio de amores vãos

Eu vou


Eu tomo uma coca-cola

Ela pensa em casamento

Uma canção me consola

Eu vou


Eu tomo uma coca-cola

Ela pensa em casamento

Uma canção me consola

Eu vou


Por entre fotos e nomes

Sem livros e sem fuzil


Sem fome e sem telefone


No coração do brasil

Ela nem sabe até pensei

Em cantar na televisão

O sol é tão bonito

Eu vou

Sem lenço sem documento



Nada no bolso ou nas mãos

Eu quero seguir vivendo


Amor

Eu vou


Por que não? Por que não?

Essa última é uma composição lirica e musicalmente audaciosa. A base rítmica é a marcha, mas o acompanhamento foi feito por um conjunto dos denominados pop. O título foi extraído dos programas do Chacrinha. Algumas pessoas até o desconhecem, chamam de “sem lenço e sem documento”, ou por outros versos. O título é irônico em relação à letra. A menção à Coca-Cola foi polêmica, sua também ironia não foi imediatamente apreendida. Satirizam-se, também, os chamados intelectuais de esquerda (sem livros e sem fuzil) e os meios de comunicação (pensei em cantar na televisão). Ocorre o já citado processo de reunir elementos da nossa cultura, aparentemente desconexos. Insiste-se na necessidade de absorver informações (a banca de revistas, quem lê tanta notícia). A composição é datada, já que menciona ícones da época: Brigitte Bardot, Claudia Cardinale. Há contestação à ditadura do bom-gosto dos festivais, mesmo tendo sido apresentada pela primeira vez num festival, num jogo de cena já tropicalista, com uso de guitarras elétricas, para escândalo dos puristas da MPB. O refrão soa como um desafio: “por que não”. As últimas palavras foram extraídas de As palavras de J. P. Sartre13.



A banda e Alegria tem tudo a ver. Elas representam o casamento da MPB e da música jovem. Porém , A banda, que não faz parte da obra maior de Chico Buarque de Holanda, é atemporal, atópica, embora fale em “minha gente sofrida”, enquanto Alegria, alegria é datada, fala de fatos da época. A imprensa, na ocasião falou em paródia, em antagonismo, mas não é disso que se trata. Alegria é uma outra Banda, ainda que não seja, a paródia, obrigatoriamente uma troça. Os dois primeiros versos de cada composição poderiam ser permutados. Ambas são antiquadas na sua estrutura heptassilábica, já presente no português arcaico. O personagem é o mesmo pícaro. O tópico da moça na janela em A banda seria, mais tarde, várias vezes retomado pelo autor, assim como a efemeridade da alegria e a volta da inevitável tristeza: “carnaval, desengano, deixei a dor em casa me esperando”; “amanhã tudo volta ao normal”.

IV Soy loco por ti América – Caetano Veloso


Soy loco por ti, América,

Yo voy traer una mujer playera

Que su nombre sea Marti,

Que su nombre sea Marti

Tenga como colores la espuma blanca de Latinoamérica

Y el cielo como bandera,

Y el cielo como bandera

Soy loco por ti, América,

Soy loco por ti de amores

Sorriso de quase nuvem,

Os rios, canções, o medo

O corpo cheio de estrelas,

O corpo cheio de estrelas

Como se chama a amante

Desse país sem nome, esse tango, esse rancho,

Esse povo, dizei-me,

Arde o fogo de conhecê-la,

O fogo deconhecê-la

Soy loco por ti, América,

Soy loco por ti de amores

El nombre del hombre muerto

Ya no se puede decirlo, quién sabe?

Antes que o dia arrebente,

Antes que o dia arrebente

El nombre del hombre muerto

Antes que a definitiva noite se espalhe em Latinoamérica

El nombre del hombre es pueblo,

el nombre del hombre es pueblo

Soy loco por ti, América,

Soy loco por ti de amores

Espero a manhã que cante,

El nombre del hombre muerto

Não sejam palavras tristes,

Soy loco por ti de amores

Um poema ainda existe

Com palmeiras, com trincheiras, canções de guerra

Quem sabe canções do mar,

Ai, hasta te comover, ai, hasta te comover

Soy loco por ti, América,

Soy loco por ti de amores

Estou aqui de passagem,

Sei que adiante um dia vou morrer

De susto, de bala ou vício,

De susto, de bala ou vício

Num precipício de luzes

Entre saudades, soluços, eu vou morrer de bruços

Nos braços, nos olhos,

Nos braços de uma mulher,

Nos braços de uma mulher

Mais apaixonado ainda dentro dos braços da camponesa, guerrilheira

Manequim, ai de mim, nos braços de quem me queira,

Nos braços de quem me queira

Soy loco por ti, América,

Soy loco por ti de amores


Uma rumba, em homenagem a Che Guevara, composta logo após sua morte, misturando português e castelhano. O sentimento de latinoamericanidade não é forte entre nós. Sentimo-nos mais ligado ao american way of life. A ironia, mais uma vez se faz presente, assim como o caráter de inventário de elementos da nossa cultura, mais ou menos desprestigiados. A montagem utiliza, como em outras composições, elementos redundantes ou ligados, indo além da elipse

.






V Superbacana – Caetano Veloso




Toda essa gente se engana


Então finge que não vê

Que eu nasci

Pra ser o super bacana

super bacana

super bacana

super bacana

super-homem

superflit

supervinc

superhist

superbacana

Estilhaço sobre copacabana

Tudo em copacabana

Copacabana

O mundo explode

Longe muito longe

O sol responde

O tempo esconde

O vento espalha

E as migalhas

Caem todas

Sobre


Copacabana

Me engana

Esconde o superamendoim

O espinafre biotônico

O comando do avião supersônico

Do poder atômico

Do avanço econômico

A moeda número um do tio patinhas

Não é minha

Um batalhão de cowboys

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