Textos, contextos e intertextos da tropicália



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Da legião dos super-heróis


E eu superbacana

Vou sonhando

Até explodir colorido

No sol dos cinco sentidos

Nada no bolso ou nas mãos

_ Um instante, Maestro!

super-homem

superflit

supervinc

superhist

superviva

supershell

superquentão



É um corolário de Tropicália. Faz arrolamento de produtos cujos nomes se iniciam com o prefixo super-, numa amarga ironia de nossa posição de consumidores periféricos. Retoma a idéia constante nas telas de Andy Wahrol da fileira de produtos na prateleira do supermercado, dos anúncios das revistas populares. Faz, também, associação entre heróis de histórias em quadrinhos e o universo de marcas e produtos, colocando-os no mesmo terreno mitológico, do qual somos habituais consumidores. “Um instante, maestro” era o bordão adotado pelo apresentador Flávio Cavalcanti, quando queria criticar pesadamente alguma composição musical. Em “nada no bolso ou nas mãos” o autor cita a si mesmo (Alegria, alegria)



VI Atrás do trio elétrico – Caetano Veloso


Atrás do trio elétrico

Só não vai quem já morreu

Quem já botou pra rachar

Aprendeu


Que é do outro lado

Do lado de lá

Do lado que é lá do lado de lá.

O sol é seu

O som é meu

Quero morrer

Quero morrer já

O som é seu

O sol é meu

Quero viver

Quero viver lá

Nem quero saber

Se o diabo nasceu

Foi na bahi foi na bahia

O trio elétrico

Só rompeu

No meio-di no meio-dia


Faz carnavalização da Tropicália e de tudo o mais, com alegria e leveza, num exercício de antropofagia cultural. É resposta aos puristas que censuravam a utilização de instrumentos elétricos, tidos como estranhos à MPB. Vai desaguar na axé-music.



VII Paisagem útil Caetano Veloso

Olhos abertos em vento

Sobre o espaço do aterro

Sobre o espaço, sobre o mar

O mar vai longe do flamengo

O céu vai longe suspenso

Em mastros firmes e lentos

Frio palmeiral de cimento

O céu vai longe do outeiro

O céu vai longe da glória

O céu vai longe suspenso

Em luzes de luas mortas

Luzes de uma nova aurora

Que mantém a grama nova

E o dia sempre crescendo

Quem vai ao cinema

Quem vai ao teatro

Quem vai ao trabalho

Quem vai descansar

Quem canta quem canta

Quem pensa na vida

Quem olha a avenida

Quem espera voltar

Os automóveis parecem voar

Os automóveis parecem voar

Mas já se acende e flutua

No alto do céu uma lua

Oval vermelha e azul

No alto do céu do rio

Uma lua oval da esso

Comove ilumina o beijo

Dos pobres tristes felizes

Corações amantes

Do nosso brasil.

Entre essa canção e Alegria, alegria há uma ponte, um pensar de novas tarefas. É, evidentemente, paródia de Inútil paisagem de Antonio Carlos Jobim. Persiste o caráter de inventário, de arrolamento, digno do movimento tropicalista. O primeiro verso cita Oswald de Andrade no seu Manifesto da Poesia Pau-Brasil, 1924: “ver com olhos livres” – clamor contra a eloqüência tradicional, a falsa reverência, pela libertação da poesia de regras e noções preconcebidas. A letras se desenvolve como uma câmera, focando primeiramente o cenário, em seguida os figurantes e, por último, o a dupla que se beija. Em “frio palmeiral de cimento” (os postes), “a lua oval da esso” (logotipo da multinacional do petróleo) opõe-se a natureza à tecnologia. Essa oposição prolonga-se nos contraditórios “tristes, felizes”. Aqui vem outra citação de Oswald de Andrade e seu manifesto: “os postes da Light”, sendo a Light, em 1922, algo insólito, agressivo e indispensável. A dicotomia, na verdade, é: natureza tropical = subdesenvolvimento + tecnologia estrangeira → desenvolvimento. Nos verso começados com a palavra quem, o ritmo de marcha lenta sofre modificação, abandonam-se os instrumento de percussão, com realce dos movimentos das pessoas, obrigatórios na vida urbana moderna. A partir de “os automóveis” o ritmo lento é retomado, para nos últimos verso passar à forma de seresta tradicional. Os nomes de lugar, grafados com minúscula, nos lembram de que essas palavras são substantivos comuns ou adjetivos, tornados topônimos: rio, glória, flamengo.




VIII Baby – Caetano Veloso




Você

Precisa saber da piscina

Da margarina

Da carolina

Da gasolina

Você


Precisa saber de mim

Baby baby

Eu sei que é assim

Você


Precisa tomar um sorvete

Na lanchonete

Andar com a gente

Me ver de perto

Ouvir

Aquela canção do Roberto



Baby baby

Há quanto tempo

Você

Precisa a prender inglês



Precisa aprender o que eu sei

E o que eu não sei mais

E o que eu não sei mais

Não sei


Comigo vai tudo azul

Contigo vai tudo em paz

Vivemos na melhor cidade

Da américa do sul

Da américa do sul

Você precisa

Não sei

Leia na minha camisa



Baby baby

I love you

Baby baby

I love you


É outra composição em que se faz arrolamento de elementos de nossa cultura. Enfatiza-se a necessidade de se estar familiarizado com esses elementos. Admite-se o volume de informações sincrônicas que os canais planetários lançam no dia-a-dia, apenas para mostrar-lhes a transitoriedade. “Na Bahia explode sempre a súmula, somo ou suma multilateral, anti-linear, desde Gregório de Mattos, que escrevia poemas trilíngües para fixar, num só texto, as vertentes de uma só situação política.”14 Estamos diante do citado mural de informações, que vai da Carolina de Chico Buarque à “canção do Roberto”, qualquer que seja.


IX Não identificado – Caetano Veloso


Eu vou fazer uma canção pra ela

Uma canção singela brasileira

Para lançar depois do carnaval

Eu vou fazer um iê-iê-iê romântico

Um anticomputador sentimental

Eu vou fazer uma canção de amor

Para gravar num disco voador

Uma canção dizendo tudo a ela

Que ainda estou sozinho apaixonado

Para lançar no espaço sideral

Minha paixão há de brilhar na noite

No céu de uma cidade do interior

Como um objeto não identificado

Como um objeto não identificado

Que ainda estou sozinho apaixonado

Como um objeto não identificado

Para gravar num disco voador

Eu vou fazer uma canção de amor

Como um objeto não identificado.

A palavra disco é tomado em dois sentidos: veículo extraterrestre e objeto em que uma música pode ser gravada. Na aproximação entre esses dois sentidos, há referência a canção rapida e amplamente divulgada. Como em Paisagem útil, há oposição entre natureza (céu, espaço sideral) e tecnologia (disco voador). A palavra que reforça a contradição é anticomputador.


X DIVINO MARAVILHOSO – Caetano Veloso e Gilberto Gil

Atenção

Ao dobrar uma esquina


Uma alegria

Atenção menina


Você vem


Quantos anos você tem?

Atenção


Precisa Ter olhos firmes

Pra esse sol

Para essa escuridão

Atenção


Tudo é perigoso

Tudo é divino maravilhoso

Atenção para o refrão

É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte

Atenção


Para a estrofe

Pro refrão

Pro palavrão

Para a palavra de ordem

Atenção

Para o samba exaltação



Atenção

Tudo é perigoso

Atenção

Para as janelas no alto



Atenção

Ao pisar o asfalto mangue

Atenção

Para o sangue sobre o chão



É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte


A letra é, sensivelmente, anti-ufanista, como algumas outras. Aponta, inclusive, como elemento perigoso, o samba-exaltação do tipo Aquarela do Brasil. Funciona em antíteses: sol/escuridão; perigoso/maravilhoso; asfalto/mangue. Pede atenção para várias formas de discurso: refrão, palavrão, palavra de ordem, samba-exaltação, deixando entendido que o perigo está nos discursos de persuasão, amenos ou autoritários. O título dessa canção foi também de um programa de televisão com os participantes da Tropicália. O programa foi subitamente tirado do ar e nunca mais voltou, nem em retrospectivas. Observe-se que, na segunda parte, a palavra atenção é mais freqüentemente repetida. A referência ao sol é tópico retomado.



XI Batmacumba – Caetano Veloso e Gilberto Gil

Batmacumbaiéié batmacumbaobá

Batmacumbaiéié batmacumbao

Batmacumbaiéié batmacumba

Batmacumbaiéié batmacum

Batmacumbaiéié batman

Batmacumbaiéié bat

Batmacumbaiéié ba

Batmacumbaiéié

Batmacumbaié

Batmacumba

Batmacum


Batman

Bat


Ba

Bat


Batman

Batmacum


Batmacumba

Batmacumbaié

Batmacumbaiéié

Batmacumbaiéié ba

Batmacumbaiéié bat

Batmacumbaiéié batman

Batmacumbaiéié batmacum

Batmacumbaiéié batmacumbao

Batmacumbaiéié batmacumbaobá
É a intertextualidade tomada nas últimas conseqüências, levando à desintegração do narrativo e do próprio discurso. Leva-se, também, às últimas conseqüências, a mise en abyme, com a segunda parte sendo o espelhamento da primeira. Nesse rock-macumba nota-se a presença de diversas referências culturais. Bem no centro do texto está a palavra (pai-de-santo). Nas margens superior e inferior está obá (rei ou ministro no culto afro-brasileiro). A palavra bat, primeiramente, faz pensar em percussão de tambor, até que aparece, na quinta linha e, no seu espelho, a vigésima terceira linha, o nome batman, do conhecido super-herói Opõe-se a indústria internacional da cultura de massa ao elemento nativo, isto é, o ritual. A linha melódica é repetitiva, aumentando e baixando a intensidade, de acordo com o comprimento dos versos. Na terminação ié-ié, assim como no acompanhamento musical, está presente a cultura popular também internacional. No conjunto, a poema traça a figura das asas abertas do morcego (bat). Completa-se a fusão da música com a poesia concreta, afinidade muitas vezes evidenciada na obra dos autores.

XII Domingo no parque – Gilberto Gil


O rei da brincadeira - ê José


O rei da confusão – ê João

Um trabalhava na feira – ê José

Outro na construção – ê João

A semana passada no fim da semana

João resolveu não brigar.

No domingo de tarde saiu apressado

E não foi pra ribeira jogar

Capoeira


Não foi pra lá pra ribeira,

Foi namorar.

O José, como sempre, no fim da semana

Guardou a barraca e sumiu.

Foi fazer, no domingo, um passeio no parque,

Lá perto da boca do rio.

Foi no parque que ele avistou

Juliana,


Foi que ele viu

Juliana na roda com João,

Uma rosa e um sorvete na mão.

Juliana, seu sonho, uma ilusão,

Juliana e o amigo João.

O espinho da rosa feriu Zé

E o sorvete gelou seu coração.

O sorvete e a rosa – ê José

A rosa e o sorvete – ê josé

Oi dançando no peito – ê José

Do José brincalhão – ê José

O sorvete e a rosa – ê José

A rosa e o sorvete – ê josé

Oi girando na mente – ê José

Do José brincalhão – ê José

Juliana girando – oi girando

Oi na roda gigante – oi girando

Oi na roda gigante – oi girando

O amigo João – oi João

O sorvete é morango – é vermelho


Oi girando e a rosa - é vermelha

Oi girando, girando – é vermelha

Oi girando, girando – olha a faca

Olha o sangue na mão - ê José

Juliana no chão – ê José

Outro corpo caído – ê José

Seu amigo João – ê José

Amanhã não tem feira – ê José

Não tem mais construção – ê João

Não tem mais brincadeira – ê José

Não tem mais confusão _ ê João

No estilo descritivo, visual, cinematográfico, a canção de Gilberto Gil apresentou-se, pela primeira vez, no mesmo festival que Alegria, alegria. Enquanto essa fala em cinema, Domingo no parque é cinema. Após caracterizar os personagens e descrever o cenário, passa a narrar os fatos, em pequenos movimentos, como um video-clipe. É um rock-baiano. Narra um crime passional, sem explicitá-lo. A influência dos Beatles em Gilberto Gil, com seu apelo ao visual, continua a se fazer sentir na abertura do programa de TV O Sítio do Picapau Amarelo. O efeito de movimento é reforçado pela aliteração dos nomes dos personagens, e acentuado no ritmo da melodia.



XIII AQUELE ABRAÇO – Gilberto Gil

O Rio de Janeiro continua lindo,


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