Textos, contextos e intertextos da tropicália



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O Rio de Janeiro continua sendo


O Rio de Janeiro, fevereiro e março.

Alô, alô, Realengo, aquele abraço.

Alô, torcida do Flamengo, aquele abraço.

Chacrinha continua balançando a pança

E buzinando a moça e comandando a massa

E continua dando as ordens no terreiro.

Alô, alô, seu Chacrinha, velho guerreiro,

Alô, alô Teresinha, Rio de Janeiro.

Alô, alô, seu Chacrinha, velho palhaço,

Alô, alô, Teresinha, aquele abraço.

Alô, moça da favela, aquele abraço.

Todo mundo da Portela, aquele abraço.

Todo mês de fevereiro, aquele passo.

Alô, banda de Ipanema, aquele abraço.

Meu caminho pelo mundo, eu mesmo traço.

A Bahia já me deu régua e compasso.

Quem sabe de mim sou eu, aquele abraço.

Pra você que me esqueceu, aquele abraço.

Alô, Rio de Janeiro, aquele abraço.

Todo o povo brasileiro, aquele abraço


.

Foi composta logo ao deixar Gil a prisão em Realengo, no Rio de Janeiro, em 1969. Era quarta-feira de cinzas e o centro do Rio ainda apresentava a decoração de Carnaval. Na expressão “aquele abraço” o demonstrativo não tem esse valor, funciona, antes, como superlativo. Além de Realengo, citam-se, no já mencionado aspecto de inventário, diversos elementos do universo carioca: favela, escola de samba Portela, banda de Ipanema etc. O apresentador de programas de auditório, Chacrinha, como se sabe, é o ícone da Tropicália. Há um sabor de “vamos deixar tudo prá lá”, que aparece também em Não chore mais. Porém, essa proposta de conciliação não envolve a perda da autonomia: “quem sabe de mim sou eu”.



XIV EXPRESSO 2222 – Gilberto Gil




Começou a circular o expresso 2222


Que parte direto de Bonsucesso pra depois.

Começou a circular o expresso 2222 da Central do Brasil

Que parte direto de Bonsucesso

Pra depois do ano 2000.

Dizem que tem muita gente de agora

Se adiantando e partindo pra lá.

Pra 2001 e 2 tempo afora

Até onde essa estrada do tempo vai dar,

Menina do tempo vai.

Segundo quem já andou no expresso

Lá pelo ano 2000 fica a tal

Estação final do percurso-subida,

Na Terra-mãe concebida

De dentro de fogo, de água e sal,

Oi, menina, de água e sal.

Dizem que parece com o bonde do morro

Do corcovado daqui

Só que não se pega e entra e sente e anda,

O trilho é feito um brilho

Que não tem fim,

Oi, menina, não tem fim.

Nunca se chega no Cristo concreto

De matéria ou qualquer coisa real.

Depois de 2001 e 2 tempo afora

O Cristo é como que foi visto

Subindo ao céu,

Subindo ao céu,

Num véu de nuvem brilhante,

subindo ao céu.

A fusão espaço-tempo (de Bonsucesso pra depois; no ano 2000 fica a estação final) é aparentemente surrealista. Já permitiu várias leituras, desde o sucateamento da estrada de ferro, iniciado na época, até uma referência ao uso de ácido lisérgico. O aparecimento de tópicos religiosos, o tom apocalíptico reforçam o efeito surreal e preparam a composição seguinte de Gilberto Gil, em parceria com Chico Buarque, a famosa Cálice.



XV São São Paulo – Tom Zé


São São Paulo meu amor

São São Paulo quanta dor

São oito milhões de habitantes

De todo canto em ação

Que se agridem cortesmente

Morrendo a todo vapor

E amando com tanto ódio

Se odeiam com todo amor

São oito milhões de habitantes

Aglomerada multidão

Por mil chaminés e carros

Caseados à prestação

Porém com todo defeito

Te carrego no meu peito

São São Paulo meu amor

São São Paulo quanta dor

Salvai-nos por caridade

Pecadoras invadiram todo o centro da cidade

Armadas de rouge e baton

Dando vivas ao bom humor

Num atentado contra o pudor

A família protegida

Um palavrão reprimido

Um pregador que condena

Uma bomba por quinzena

Porém com todo defeito

Te carrego no meu peito

São São Paulo meu amor

São São Paulo quanta dor

Santo Antonio foi demitido

Dos ministros de Cupido

Armados de eletrônica

Casam pela TV

Crescem flores de concreto

Céu aberto e ninguém vê

Em Brasília é veraneio

No Rio é banho de mar

O país todo de férias

E aqui é só trabalhar

Porém com todo defeito

Te carrego no meu peito

São São Paulo meu amor

São São Paulo quanta dor

Composição da mesma época das demais, segue a mesma linha de inventário de elementos que rodeiam a vida, nesse caso, a vida urbana: pregadores, prostitutas, automóveis. Denuncia a invasão da TV em corações e mentes, assim como a construção desordenada que mata a paisagem. Em “flores de concreto” faz-se referência à poesia concreta que, como já se disse, é cultuada pelo movimento tropicalista. Ironiza-se o discurso de que apenas em São Paulo se trabalha, não no restante do Brasil. Joga com São Paulo, santo protetor e São Paulo, cidade.

Ao mesmo tempo em que se produziam canções de caráter experimental quanto a melodia, arranjos, uso de instrumentos díspares, com letras mais ou menos engajadas, produzia-se um outro tipo de música, que, de forma alguma, chegava aos festivais. O público do Anhembi mostrava-se autoritário e intolerante. Porém, as composições eram um grande sucesso de público. Trata-se da chamada música brega, ou cafona, terreno onde pisaram todos os grandes nomes da MPB, conscientes disso, ou não, por paródia, ou não.

O diálogo entre o segmento brega e o não-brega faz-se de diversas formas:

- desmascarando o slogan da época “disco é cultura” – “Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos” (Belchior – Como nossos pais)


  • como citação apaziguadora, após polêmica – “Oh frenéticas dancin’days, não sei se sete, não sei se são seis” (Odair José – Coisas simples)

  • como retomada de slogans – “Só o amor constrói, por favor plante uma flor, pra florir nosso país (Don e Ravel – Só o amor constrói) – retomada dos slogans flower-power, faça amor, não faça guerra e de várias canções internacionais como Acquarius, Let the sunshine, Give peace a chance e Imagine, essas duas últimas de John Lennon. O brado pelo fim da guerra no Vietnã desaguou em Hino do Mobral. Esse mesmo apelo foi retomado por Geraldo Vandré em Para não dizer que não falei de flores (caminhando e cantando...).

  • por conciliação de canção de caráter político e canção de lamento amoroso - “Quando a gente volta o rosto para o céu e diz, olhos nos olhos da imensidão, eu não sou cachorro não” (Chico Buarque – Pecado original).

  • idem – “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta” (com o pseudônimo de Julinho da Adelaide).

  • em retomada da temática – “Se eu quiser falar com Deus” (Gilberto Gil, em composição do mesmo título, com base em Se eu pudesse conversar com Deus de Nelson Ned, lançado em 1966)

  • idem – “Nenhuma força irá me fazer calar, faço no tempo soar minha sílaba” (Roberto Carlos, gravada por Caetano Veloso)15

  • pela declarada homenagem a um autor – “Ele foi um rei e brincou com a sorte, hoje ele é nada e retrata a morte. Ele passou por mim mudo e entristecido, eu quis gritar seu nome e não pude. Ele olhou pra parede e disse coisas lindas. Disse um poema para um poste, me vieram lágrimas. O que foi que fizeram com ele? Não sei, só sei que esse trapo, esse homem, foi um rei.” ( Benito de Paula – Para Geraldo Vandré)

O tema da volta ao lar, recorrente entre os poetas, inclusive nos tropicalistas, tem sua versão, nessa fase de volta do exílio político:



Meu caro amigo – Chico Buarque de Holanda e Francis Hime

Tô voltando – Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro

O bêbado e o equilibrista – João Bosco e Aldir Blanc

Esse mesmo tema esse foi explorado na música brega, com a marca da volta à região natal, em geral, o Nordeste brasileiro: “Aqui não fico mais, a saudade é tanta, de rever meu lar e abraçar meus pais” (Paulo Sérgio – Asa branca).


Outro tema recorrente é a tristeza do brasileiro, contrariando o seu estereótipo de pessoa sempre alegre:16

Não tenho culpa de ser triste – Nelson Ned

Oração de um jovem triste – Alberto Luiz

Meu sorriso também é triste – Amilton Lelo

Sou mais um triste – Alessandro

Eu sou um rapaz triste – Livi-Maluin

O homem mais triste do mundo - Letinho
Ainda hoje, os estudos sobre os artista da MPB esquecem os da MPC (música popular cafona). Nesse ponto, os tropicalistas não se fizeram de rogados e assumiram galhardamente sua boa convivência com a chamada música brega, inclusive nas capas de seus discos, com elementos da fauna e da flora, boá de plumas etc. De fato, tinham em comum as dificuldades com a censura. Se as letras tropicalistas eram politizadas, as cafonas eram tidas como eróticas. Uma das mais combatidas foi a famosa Pare de tomar a pílula, de Odair José, contrária à política de redução da taxa de natalidade.

A maior dificuldade em relação à chamada música popular popular, está na subjetividade de sua delimitação. O que é cafona para algumas pessoas não o é para outras. Paulo César de Araújo, tratando desse tema,17 chega à conclusão de que cafona é aquilo que não tem compromisso, nem com a tradição, nem com a vanguarda. A Tropicália, que chegou a gravar Coração Materno, convoca, de forma desinibida, referências, temas, palavras, ruídos, frases de universos isolados no espaço e no tempo. Faz justaposição de fragmentos, culturemas, e sucata. Oferece um painel histórico, porém constrangidamente, como se o espectador permanecesse num ponto ideal de equidistância, frente a um panorama tumultuado de citações e transcrições, sem outro elo, que não seja o estarmos com elas familiarizados.

Talvez daí a eleição de Chico Buarque de Holanda como o músico do século, por sintetizar, em sua obra várias tendências, do regional ao urbano, do tradicional ao inovador, do cerebral ao abertamente sentimental.
Romances
Muitas foram as obras narrativas produzidas no período em estudo. Escolhemos, aqui, o romance Quarup de Antonio Callado, por diversos fatores: é ideológico, portanto representativo de uma visão de mundo; é, também, objetivo, o narrador se mantém fora dos acontecimentos o que lhe dá uma posição mais à vontade para narrá-los; os comentários aos fatos ficam por conta das personagens, o narrador não pesa no fio narrativo, o leitor se sente dentro da cena.

Esses comentários e reflexões das personagens são cheios de humor cáustico. Às personagens, se falta o ufanismo não falta o nacionalismo, mas é um nacionalismo crítico, prefere em lugar da exaltação leviana, aquela “confiança no futuro que não pode ser pior que o passado”, como já disse P. Prado em seu Retrato do Brasil. Os sentimentos e as situações recebem, na maioria das vezes, tratamento parodístico. (cf p. ) “É que toda arte moderna tende a brincar com seus temas – mesmo e sobretudo quando os leva terrivelmente a sério”. 18 Quando, no início da narrativa, Nando deseja boa viagem a Francisca, o tom sacerdotal soa a nós leitores, como a ela própria, inopinado (sic).

“As narrativas modernas assemelham-se a epopéias negativas (não são obras de salvação ou de redenção – parênteses nossos). São testemunhas de um estado de coisas em que o indivíduo liquida a si mesmo e se encontra com o pré individual.”19

A obra está montada em sete capítulos:

1º O ossuário – Recife, 1954

2º O éter – Rio, 1954

3º A maçã – Xingu, 1954

4º A orquídea – Xingu, 1961

5º A palavra – Recife, 1964

6º A praia – Recife, 1964 – abril a agosto

7º O mundo de Francisca – Recife – Quarup foi escrito de 1965 a 1966

Os títulos dos capítulos são bastante indicativos. O Ossuário aponta elmentos mortos, petrificados, intransformáveis. Esse capítulo mostra Nando, padre de um convento onde há mais dois padres: André e Hosana. Desses nomes podemos extrair indicações. André (homem) místico, à beira da loucura, com preocupações metafísicas. Hosana (viva, salve), sensual rebelde, vai terminar por matar o superior do convento (viva, que bom), abrindo soluções inesperadas para si mesmo e para Nando. No final do primeiro capítulo, Nando, após ter um, até então terrivelmente evitado, contato sexual, adoece gravemente. Ao se restabelecer, concorda, de súbito, em ir ao Xingu fundar uma prelazia, tornando-se a doença um período de tomada de consciência.

O segundo capítulo apresenta uma retrospectiva, amais longa e uma das poucas em toda a obra, linear como convém a um épico. Começa com Nando se embriagando de éter; a seguir conta-se como Nando entrou em contato com as pessoas que o botaram em contato com o éter. “Em 1954, a pátria está de porre” (Quarup).

O terceiro capítulo remete a associações cosmogônicas, edênicas, para o que havia antes do princípio. Durante esse episódio, Nando convive com índio e indigenistas, a questão do índio é colocada cruamente. Prepara-se uma grande festa, o Quarup, homenagem aos antepassados, com antropofagia simbólica, a fim de incorporá-los e as suas virtudes. A festa não chega a se realizar, pois, com o suicídio de Getúlio Vargas, desfaz-se a infra-estrutura do posto indigenista. No final do capítulo há um longuíssimo parágrafo, precipitado de palavras para acontecimentos que se precipitam.

Do terceiro para o quarto capítulo há um salto no tempo. A Orquídea, palavra carregada de sexualidade, até mesmo de fertilidade, traz Nando e Francisca, vivendo um encontro no Xingu. No início do capítulo a narrativa se acelera, com pequenos flashes de retrospectiva. A seguir, narra-se a expedição até o Centro Geográfico. Com o macabro encontro de uma tribo que está a morrer de sarampo, somam-se e, até, amalgam-se, brancos, índios, e elementos da natureza. O capítulo termina com a morte de Fontoura no centro do Brasil (um formigueiro) e no colo de Francisca, como se tivesse nascido dela, enquanto em São Paulo, Jânio Quadros renuncia à Presidência.

No quinto capítulo, Nando volta a Recife, participa do plano de alfabetização de adultos pelo método Paulo Freire (A Palavra). Há o golpe de 1964, Nando é preso, torturado, por sua tentativa de manter o governador Arraes, e, a seguir, posto em liberdade. Essas mudanças bruscas na vida de Nando ele mesmo as explica :“Eu me converto a tudo que exija fervor”(Quarup). O Herói, presente em todas as cenas é Nando. Há, entretanto, os vazios deixados por Levindo por onde circula Nando. Levindo (levedo, o fermento na massa) morre no início da narrativa e permanece dirigindo os destinos, traçando os passos, principalmente de Nando.

No sexto capítulo, aparece Nando dedicado a “deslembrar, descriar, deseducar” (Quarup). Reparte-se, doa-se ao maior número de pessoas possível, buscando uma junção com o Outro, o que lhe inspira o jantar de homenagem aos dez anos de morte de Levindo. Há uma longuíssima descrição de vitualhas, um ária de grande simbolismo. Uma outra ária nesses moldes já havia aparecido no segundo capítulo, onde Ramiro Castanho quase narra a história da civilização brasileira através da farmacopéia. Nando reúne os amigos para um jantar por Levindo, desafiando as forças da repressão. O jantar, como a festa do Quarup, não se realiza. E é mais um capítulo que termina com Nando em péssimas condições físicas.

O sétimo capítulo “foi escrito depois do último” (Quarup). O final é apoteótico, cinematográfico, com Nando adotando o nome de Levindo, após ter andado por suas lacunas, durante quase toda a narrativa. “A catarse, uma das categorias mais centrais da arte, é propriamente uma categoria ética”. 20 Cumpre-se, assim, a missão do herói, lê-se a sua história e a da sua coletividade. “A arte cumpre também enquanto consciência e memória que é da história humana, a função de elevar a particularidade individual ao genericamente humano”.21


Os índices de pertinência da obra ao movimento tropicalista estão no seu tema – conversão do intelectual à militância política – e no seu efeito pontilhista, picadinho, verdadeiro trabalho de recorte e colagem, com intenções de compor um mural de “reservas de imagens e emoções próprias ao país patriarcal rural e urbano; para apreciá-lo é preciso familiaridade com a moda (diante do disparate aparentemente surrealista); no método de alfabetização Paulo Freire estão presentes o arcaísmo da consciência rural e a reflexão especializada de um educador”22 O insólito nessa combinação disparatada é que o método realmente alfabetiza. Em Quarup, temos flashes de aulas pelo método Paulo Freire. Uma dessas lições, fora de contexto, poderia ser recebida como um pequeno poema concreto:



cla

classe – clamor

cle

clemência



cli

clima


clu

clube


..........

eu remo


eu clamo

eu reclamo



Quarup, manifestação da Tropicália, quer mostrar, quer ensinar, com melancolia e humor. O povo brasileiro e ditadura pró-imperialista estão em cena para gerar indignação. A situação tenta, por outro lado, fabricar não só um futuro, mas também um novo passado, rescrever a história para tornar ideologicamente ativas suas posições. A obra tem esse mencionado caráter de inventário, de mural, que abrange do Recife ao Rio, do Rio ao Xingu; de padres e burocratas, a índios, prostitutas, camponeses, guerrilheiros. Há uma colagem de vários instantâneos da vida nacional:

  • a religiosidade – presente todo o tempo, cristã ou indígena;

  • o empreguismo, as mordomias, o nepotismo;

  • a situação do índio, tratada de forma diversa do que sempre se faz na literatura brasileira, com denúncia da catequese;

  • o nordeste das propriedades rurais, seus preconceitos, seu machismo, as milícias particulares, embora não se possa chamá-lo romance regionalista;

  • os acontecimentos políticos de 1954 a 1964.

Para compor esse painel, a obra só poderia ser vasta, fiel a sua linhagem épica. O número de personagens nomeadas excede a cinqüenta. Não falta mesmo uma homenagem ao parnasianismo: “apenas raia sangüínea e fresca a madrugada” (p. 68).

Há, ainda, objetos que marcam presença por toda a obra: pilares (pilares para o Quarup, pilar no centro geográfico, estandarte em homenagem a Levindo) azulejos: Francisca copia azulejos no mosteiro, fabricam-se azulejos com o nome de Levindo, guardando a terra do centro geográfico, destruídos e substituídos pelo golpe de 1964, enquanto Padre Hosana termina seus dias cultivando verduras ao redor da entrada do túnel de azulejos tidos com sacrílegos.

O discurso é realista, fiel às personagens. No início da narrativa, 1954, aparecem gírias da época: lesco-lesco, calma no Brasi, será o Benedito etc. No decorrer da obra, entrechocam-se vários discursos. Desse entrechoque resulta que os discursos se complementam, por vezes se sobrepõem, no papel de traçar os limites e dar as indicações para Nando e sua trajetória. Ao chamar Francisca de o centro de Francisca, ao mesmo tempo em que assume o nome de Levindo, Nando atinge o que sempre desejou, a total fusão com seus ideais, o completo engajamento.

Em resumo, o épico Quarup trata da odisséia de Nando-Levindo, sua viagem pela região, pelo país, pelo amor, pela causa dos índios, pela política, enfim buscando a integração, o engajamento total, a paz através da guerra.


TEATRO
Mencionamos, aqui, uma peça teatral escrita muito antes do período abordado, mas que foi adotada como um de seus ícones. Trata-se de O rei da vela de Oswald de Andrade. Escrita em 1933, publicadas em 1937, só foi encenada, pela primeira vez em 1967, pelo Grupo Oficina, dirigido por José Celso Martinez Corrêa. Como obra de Oswald de Andrade, situa-se no contexto da Semana de Arte Moderna. Esse evento tem muito a ver com Tropicalismo, reunindo diversa manifestações artíticas (música, poesia, pintura) numa mesma tendência: o processo de aumento da conscientização política. Como os tropicalistas, Oswald não foi um político militante. Seu papel, principalmente na obra em questão, é o denunciar, de forma irônica, a submissão ao capital estrangeiro, a vaidade da chamadas aristocracias urbana e rural, a valorização do que é de fora. Nelson Rodrigues avant la lettre, concentra na mesma família personagens com desvios sexuais, para mostrar decadência social.

Seus personagens são: o comerciante enriquecido com a privação alheia; o funcionário que só quer superar o patrão: um devedor que o comerciante explora há anos; um intelectual (Pinote) que, como tantos outros, decide bajular a burguesia; a representante da aristocracia rural que se une ao comerciante; o americano, recebido com festejos e que vai completar o triunvirato – a propriedade rural, o comércio, o capital estrangeiro.

Os nomes do par central são sarcasticamente escolhidos: Heloísa de Lesbos e Abelardo – dupla que comoveu a Idade Média, mas que, aqui, não tem qualquer idealismo, são a metáfora da união entre renome e dinheiro, com as referências trazidas pelo segundo nome da personagem central de Oswald. Há, ainda, o irmão homossexual de Heloísa, Totó Fruta-de-Conde; Perdigoto, outro irmão, bêbado e jogador, pensa em organizar uma milícia para controlar os colonos descontentes; a mãe de Heloísa, D. Cesarina, cedendo às investidas do genro; o motorista da família, por quem o americano, Mr. Jones (nome também óbvio) mostra interesse. Como pano de fundo, o pai de Heloísa tenta ser o patriarca num mundo que já não existia.

O título se refere à atividade comercial do personagem Abelardo I (são dois) que explora o costume de se colocar uma vela na mão do moribundo, custe o que custar, assim como fala da impossibilidade de a indústria nacional trabalhar com produtos mais sofisticados.

O cenário e os figurinos, na montagem de José Celso são de um mau gosto carnavalesco. Como todo precursor, Oswald não viu o impacto de sua obra. Os comentário, por ocasião da apresentação, foram de ‘ridículo e pornográfico’ a ‘crítica da atualidade’ – mostrada trinta anos depois de escrita, mas ainda válida, a ponto de ser a melhor tradução, no teatro, do espírito Tropicalista.
FILMES
É vasta a cinematografia da época. Muitas obras apresentam em comum traços da cultura brasileira: o Nordeste árido, o abuso do poder econômico, o misticismo a carnavalização. Dessas obras podemos citar os filmes de Ruy Guerra, Cacá Diegues, e Glauber Rocha.

Do último autor, foram selecionados três filmes, próximos pela forma e pela temática:


Deus e diabo na terra do sol:
É emblemático, por excelência. Nas primeiras cenas vêem-se caveiras de animais povoadas por moscas, fazendo pensar na magistral descrição de Flaubert dos leões crucificados. A seguir, aparecem pessoas cumprindo tarefas agrícolas e caseiras com instrumentos rudimentares. Essas cenas já localizam, no espaço, os episódios, onde aparecem os ingredientes previsíveis: jagunço, coronel, vaqueiro, religião fronteiriça à superstição. O enredo é, também, previsível, o mesmo de todo épico: o vaqueiro, roubado no acerto de contas, sente-se tomado da missão de justiceiro e parte em pregação. Mas é um anti-herói, maltrapilho, desacreditado. Contudo, prossegue, cumprindo penitências, na sua caminhada para a “Terra Prometida”. Não faltam as referências bíblicas, inclusive com sacrifício de criança, qual um novo e falhado Abraão. Com o mesmo punhal com que a criança é morta, a mãe apunhala o sacerdote.

Os nomes são elucidativos: Manoel - depois Satanás, numa cerimônia de rebatismo; Cristino, Antonio das Mortes.

O enredo não é linear. Dentro da linha Tropicalista, há alegorias, recorte e colagem, retomada de cenas, num efeito circular.

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