"The Tablet" Agosto de 2012



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“The Tablet” – Agosto de 2012

“Pode crer, caro Sr., quando um homem sabe que vai ser enforcado dentro de quinze dias, isso faz concentrar a sua mente de forma maravilhosa”. O comentário seco do Dr. Johnson foi feito, de facto, para proteger o condenado, um padre gatuno e caído em desgraça, da acusação de que não tinha sido ele mesmo a escrever o seu último sermão. Johnson, com a sua generosidade característica, tinha-o escrito por ele; mas fê-lo bem demais para chegar a convencer as pessoas de que podia ter sido o “Dr Simonia”, como era chamado o padre, a tê-lo escrito. Por trás de cada história, aí está outra à espreita.

Talvez por trás da história em destaque dos Jogos Olímpicos se esconda outra, também ela relacionada com a face mais afiada da morte. A Grã-Bretanha da austeridade, lutando no seu Dunquerque económico, está esbanjando dinheiro num segundo evento global para levantar o moral, em outros tantos meses. Antes da grande cerimónia de abertura, os “bifes” choramingas queixavam-se dos custos, do trânsito, do caos, da má arquitectura do Parque Olímpico. Mas, cumprindo as normas, na noite de abertura, o evento foi qualificado como uma celebração de tudo o que de melhor tem a Humanidade e disse-se que o melhor que há na Grã-Bretanha estava a ser partilhado com o mundo inteiro. Vamos acreditar nisso, enquanto dura a animação. Antes da contagem final das medalhas, poderá mesmo parecer uma grosseria pensar em quantas bibliotecas poderiam ter-se mantido abertas, quantas casas se poderia ter construído ou remodelado para famílias mais pobres, quantas escolas poderiam ser melhoradas ou operações de emergência realizadas, até só com o dinheiro que custou o fogo de artifício. Talvez, no entanto, isto ajude a elevar o moral e impressione bem os investidores estrangeiros. De qualquer modo, mantivemos o nosso “rating” de triplo A.

Ninguém consegue ganhar este debate. Por isso, vejamos porque é que o mundo investe tanto neste mega evento desportivo, o qual, tal como a religião, não tem qualquer efeito directo sobre a qualidade de vida material e que se pode dizer que apenas proporciona um impulso emocional de curta duração. Em primeiro lugar, sem dúvida, constitui um grande alívio em relação ao tédio insuportável e à angústia da vida normal. Diz-se que a própria cultura se desenvolveu como um intervalo na rotina de caçar e recolher. A maior parte da cultura moderna apresenta-se a si mesma, sem qualquer vergonha, como uma forma de escape. A religião, que nasceu da cultura como uma importante actividade fora da rotina, tem de enfrentar a mesma acusação; e o desporto, que estava estreitamente relacionado com os rituais religiosos no Mundo Antigo, não tem o menor escrúpulo face a esta questão: não só constitui uma quebra face à vida comum, mas é melhor do que a vida comum. É para as últimas páginas do jornal que muitas pessoas dirigem primeiro a sua atenção. Tal como a guerra, numa cultura heróica, o desporto consegue revelar a Humanidade no que esta tem de mais corajoso, mais nobre, mais generoso. Os cobardes e os traidores da guerra (tal como os desportistas que tomam substâncias proibidas) não diminuem a glória dos heróis.

Assim, os Jogos são variações dos “temas eternos da arte e da canção” que nos permitem elevar-nos para além do mundano e do medíocre. Esses temas não são muitos e podem mesmo ser reduzidos apenas a dois: o amor e a morte. O amor afirma a vida e faz com que qualquer coisa valha a pena. A morte põe tudo em causa e faz descer o pano sobre os melhores. Eles andam de mãos dadas, às claras ou dissimuladamente, em todas as encenações humanas, seja no Teatro Globo de Shakespeare, seja no Estádio Olímpico.

Os eventos desportivos entretecem o amor com a morte, numa experiência artificialmente intensificada de um empreendimento humano. O espectador é cativado, não só pela deslumbrante afirmação de vida, juventude, saúde e beleza, como é, também, mantido como num transe pela sombra que ela lança, na qual podemos pressentir a morte. Isto não é tão tétrico como parece. São Bento sabia que a vida é vivida de forma mais intensa quando a morte é “mantida constantemente perante os olhos”. Nem tem a ver apenas com a dúvida sobre se o atleta sobreviverá aos riscos que corre.

Cada apito final num jogo, cada vez que o pé se solta da beira da prancha de saltos, cada linha de meta, que faz saltar a multidão do seu lugar, joga com o fogo da mortalidade, o prazo de validade de tudo o que dá à vida um foco e uma profundidade – o gume fino sem o qual a vida se torna horrivelmente aborrecida e dispersa. Alguém disse que a cura para o aborrecimento seja no que for, é continuar a fazê-lo. Mas este é o caminho estreito que poucos tomam. O caminho mais amplo é fabricar um modelo de funcionamento do entusiasmante e do glorioso e concentrar-se nele enquanto dura, apreciar os seus efeitos e virar-se para o próximo evento.

De qualquer modo, o desporto é o último resquício do teatro sagrado de que a Humanidade ainda dispõe, para além da liturgia. E o estádio parece responder melhor a essa necessidade das pessoas, hoje em dia, do que a igreja. Será que é um estimulante artificial que imita o êxtase e o encantamento, um voyeurismo viciante? Ou é a celebração da comovedora beleza da conquista humana e a natureza fugidia da nossa felicidade? Tal como em todos os rituais sagrados, as fronteiras entre a vida e a arte são temporariamente suspensas. E, para ser franco, a tristeza vem sempre misturada com a exultação, o sal nas lágrimas da felicidade humana.




Laurence Freeman OSB



(tradução de Rui G. Souto)


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