"The Tablet" Dezembro de 2012



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“The Tablet” – Dezembro de 2012

Fria e cruamente, chegaram as notícias de que tinha havido um desastre. Três rapazes tinham sido mortos na auto-estrada. Um dos pais dizia, com alívio, que não poderia ser o seu filho porque ele o tinha proibido de conduzir na auto-estrada durante um ano.

Mas ele tinha mesmo conduzido e era uma das vítimas. As pessoas presumiram que, sendo jovens, a conduzir de noite, bem tarde… devia de ter sido culpa deles. Na realidade, eles estavam sóbrios e a conduzir de modo responsável. Mas um camião, do outro lado da estrada, patinou e embateu noutro carro, que se elevou bem alto no ar, saltou a divisória da estrada e aterrou mesmo em cima do carro onde seguiam os rapazes. Como é que uma singularidade destas estaria cotada numa tabela actuarial?

As comparações são uma coisa odiosa, mas a morte dum filho deve ser a mais devastadora das tragédias humanas. Ela rasga e deixa abertas partes do nosso mundo interior que nem sabíamos que existiam e espezinha os nossos mais profundos instintos e expectativas. Em vão, protestamos contra a injustiça do cosmos e das suas leis. A lei do karma claramente não nos respeita e nem sequer conseguimos acreditar agora na lei superior da graça. Já não há mais forros prateados para ver. Vemos bem exposto o grau de insensibilidade daquela lei face à fragilidade humana, o seu nível de totalitarismo e de arbitrariedade nas intricadas maquinações das regras e da sorte. De repente, ficamos a saber o que realmente significa a impotência e a justiça parece não passar de uma mera coisa humana.

Alguns dias depois do acidente, outro filho foi raptado e a família teve que suportar mais onze dias de agonia e insónia. Houve negociações sobre um pedido de resgate irrazoável, ameaças de o assassinar, a impossibilidade de recorrer à polícia, pois bem podia acontecer que esta tivesse participado no grupo que perpetrara o rapto, e finalmente, um assalto bem sucedido ao esconderijo dos raptores com uma equipa de segurança privada. Outra vez em paz. E logo a seguir uma devastadora humilhação pessoal de uma das filhas, com a distribuição viral de um vídeo privado na Internet. Uma lenta recuperação do bombardeio de sofrimento. E de repente, no seu máximo, a doença de Parkinson.

Escutei de Will, não de Job, a descrição desta fantástica série de tormentos. Ele falava com emoção, mas de modo calmo e com a sua precisão típica de engenheiro. A expressividade dos seus músculos faciais estava já a ser afectada. Mas eu não me enganei ao identificar um brilho no seu olhar e o seu sentido de humor. Ele apenas pedia a Deus uma coisa: que poupasse a sua família a mais sofrimento.

Vivemos tão ofuscados por estatísticas e tão controlados por sistemas concebidos para permitir que a vida seja previsível e segura que esquecemos, estouvadamente, o quanto tudo é singular e imprevisível. E então, de repente, é como se o dedo de Deus descesse, como num desenho animado, vindo detrás das nuvens do não saber, para pegar em nós e nos punir por um crime que, tal como em Kafka, nunca é explicado. É o Guantánamo da justiça.

Que leve bater de asas de uma borboleta na Amazónia terá feito com que um carro cheio de jovens chegasse no exacto ponto, no espaço e no tempo, em que iria apanhar com o outro carro que vinha a voar sobre o separador da estrada?

Estava a ouvir um grupo de jovens meditantes descrever o que significava para eles a sua fé e oração, cada um deles tão único e, no entanto, com tanto em comum. Uma jovem falou sobre a vida com dor crónica. Ao fazer a ligação desta situação com a sua viagem espiritual e a descoberta da fé, vimos profundidade. Habitualmente, ouvimos palavras ou ideias sobre a profundidade humana. Às vezes, até discutimos sobre ela, como sempre, com palavras. Ocasionalmente, o véu verbal é dissolvido pelo poder da verdade simples e a profundidade fica exposta à vista de todos. Nesse momento, de novo, vi nos seus olhos e no seu sorriso uma paz que parecia totalmente incongruente. Como é que poderia existir uma tal paz no meio de tanta dor?

Talvez o Advento nos dê o tempo necessário para compreendermos isto. Será que o real significado do Natal não estará na preparação e na expectativa, em vez de estar nas liturgias religiosas e seculares, cheias de palavras, com que o celebramos? No fim de contas, apesar da sentimentalização que fazemos do Natal, a história por trás das canções é também bastante dura. O casal excluído e sem-abrigo à espera de uma criança, que, possivelmente, já tinha suportado um certo embaraço social em torno da paternidade; uma curta visita de alguns sábios, eles próprios, também, assustados; um exílio repentino numa terra hostil e o massacre dos bebés nascidos na mesma altura. Feliz Natal?

No entanto, esta história conhecida da destilação da Divindade num único nascimento sob a condição humana, hoje cruel, amanhã encantadora, respira paz. De qualquer modo, não uma paz como a que o mundo dá. Não uma paz embrulhada em embalagens de oferta caras. Então, quem é que a dá? De onde é que vem este brilho de alegria e paz, no meio do infortúnio inclemente? A vida não se torna mais previsível quando a paz do Natal é transmitida dos olhos para o coração e até, às vezes, de coração para coração. Mas ocorre uma convulsão silenciosa, sísmica, ao sentirmos que se cumpre uma profecia.


Laurence Freeman OSB



(tradução de Rui G. Souto)


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