Thomas Mapfumo (lanças) musician from Zimbabwe



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Encontro28.07.2016
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Thomas Mapfumo (lanças) musician from Zimbabwe


 Por João Craveirinha

A Etno-História da África Austral torna bem clara a origem a partir da etimologia dos apelidos baNto, actuais, de uma região do Centro (ou Norte) no Sul, e do Sul no Centro (ou Norte) de Moçambique, retirando qualquer base de "pureza dita étnica". Só os charutos cubanos devem ser "puros". Em Antropologia não há purezas. Todos se vêm misturando há milénios com as invasões e guerras. Por exemplo o nome Mafalala bairro do actual Maputo - cidade, é de origem Macua e data a sua instalação na cidade colonial de Lourenço Marques (em caMpfumo), nos fins do século XIX na zona da Munhuana (cerca 1890). É o nome de uma dança antiga Macua chamada Lifala-la, por altura do maulide, de que falava o português colonial, Ernesto Torre do Valle – o muvulanganga (o que abria peitos a soco). No Lifala-la os dançarinos em transe (homens) espetavam facas e agulhas no corpo ao som do batuque e atabaques em compasso de "mandala" como os faquires da Índia.

Os portugueses coloniais, retiraram os habitantes de uma aldeia Macua (Nampula) que lhes "dava dor de cabeça" e colocaram em zona Ronga no sul. Da mesma forma que uma aldeia Maconde, provavelmente na mesma altura, foi colocada no interior da caTembe. Mais tarde se chamaria de Macondene (zona próxima dos chamados Mandindi (ramo dos Tembes). Este tema requeria estudo profundo incluindo recolha de sangue para testes de ADN. Entretanto a memória de Moçambique vai desaparecendo e cada um diz das suas, sem base alguma, fiando-se nas aparências actuais sem passado. E vem portugueses, em promoção de marketing, introduzindo termos de Angola e sei lá mais de onde, sem respeito algum pelas culturas Moçambicanas. Nem na era colonial isso acontecia e eram portugueses (avós e pais dos actuais se calhar). Mas eles não tem culpa. A culpa é dos governantes que deviam saber dirigir e legislar em vez de deixar andar. A História não lhes absolverá seguramente. Desprezam a Cultura mas a Cultura é "a way of life". É tudo que nos faz viver dentro de regras e a memória colectiva é a base. Quem não sabe de onde vem será facilmente manipulado por qualquer um que venha com dinheiro, nem que seja de esmola a dizer que "vem ajudar" a desenvolver Moçambique. Quem está bem na sua terra não emigra.

 Voltando ao tema:

A História mais recente (200 anos) da África Austral, tem a ver com o M'fecane de Shaka Senzagakhona iZulo, no início do século XIX (1800/1828) aterrorizando seus inimigos com gritos de "sidííkêê" ao atacarem. Os ngunis que fugiam de Shaka (incluindo o avô de Mundungazi (Gungunhane) de nome Soshangana, passaria por Zimbabué e se fixaria primeiro no Buzi (Sofala). Seu filho Muzila fixar-se-ia, após a morte do pai, em Udengo (Gorongosa) Manica, antiga zona da Renamo que reeditaram os rituais e as correrias bélicas da família de Gungunhane que se  tornariam a primeira elite guerreira, "machangane", dos Ngunis do Império de Gaza. Ainda hoje a dança guerreira mais tradicional dos Ndao é o Makwaya, que é originária dos Rongas-Ngunis-Suázi-Zulos. Aliás há uma relação entre o nome e dança Makwaya e o Makwayela (apesar desta última ter tido outras influências acrescidas nomeadamente do step do sapateado dos negro-americanos da década dos anos 1920). Mas a origem é anterior e comum.

Os guarda-costas de Gungunhana (a caminho do desterro em Portugal) e desembarcados em Cabo Verde, eram machangana-maMdao (ou Shonas de Moçambique como dizia o saudoso Prof. Eduardo Mondlane (Phd).

Vários apelidos hoje atribuídos à cultura "Ndao" são na realidade de origem do Sul (Ronga/Suázi/Nguni). Exempli gratia: Mapfumo, Tembe/Tembo, Ndhlofu, Mandevo, Dlakhama, Mandlazi, Muhlanga, Manhiça, Ngonhamo, Mutazabano, Matusse, Dlalala, Duma, etc. Por outro lado no sul de Moçambique há apelidos/nomes de origem Shona: Simango, Modjadji, Calanga/Caranga, Mugogo, Dzugudine, Sitoe (Sithoi – Sithole), Ncomo (Nkhomo), Goenha (Gwenya), Mugabe, et cetera. O próprio nome verdadeiro de Gungunhane era Shona/Ndao = Mundu Gazi (pessoa de sangue real). Partia-se do princípio que a pessoa comum de seu reino não era de sangue (real). Na Europa dizia-se de sangue azul para diferenciar a aristocracia do povo.

É interessante que segundo a biografia de Thomas Mapfumo de Zimbabué, mapfumo em Shona quererá significar Spears – Lanças (que trespassam). O equivalente em xiRonga seria Guaza (ni thlari) trespassar com a lança. No entanto em xiRonga, Mpfumo, por aproximação a Mapfumo apelido, pode significar – rei ou grande chefe e Mafumo – o que chefia. Aliás, Fumo (ku phuma), quer dizer chefe, chefiar, praticamente na maioria dos idiomas baNtos desde o Congo, Angola, Moçambique etc cetera.

Por hoje fico-me por aqui com a Etno-História e deixo-vos com uma saudação laudatória dos antigos Mpfumos Rongas: "Mpfumo wa ndawu wa Nyenyani (khoti), hi va ka xisaka xa mimpfi lexi nga luma ni makosi, thembe ku lwa va Mbetsha".

Comparem agora parte da saudação muito antiga de invocação dos espíritos em xiNguni (antigo) dos Mu - hlanga (hoje ditos Ndaos e pronunciam Muchanga). Nota-se profundamente a mistura linguística do Ronga antigo com o Shona antigo:



"Davuka Muhlanga! Duva! Hi va ka xirho xirema, xa ku remero ra re kure bare -  phelo tlanga na xo - va ka mapamba (ku wutla) va ka pambanyile ngo wuta (va hlanganisa tiko hi vurha)".

 

É notória a mistura linguística nesta invocação de espíritos guerreiros dos Muhlangas (Muchangas) que invadiram, o centro de Moçambique e o leste do Zimbabué, vindos do sul entre 1800 a 1828 seguindo Soshangane e outros chefes Ngunis. Em xiNdao ou Shona não conseguem pronunciar o som convencionado para HLa e TLa (som palatal – céu da boca) para mais ou menos dar o som De-TLha (não existem estes sons também em português) daí o Muhlanga ter degenerado em muCHanga em shona/iNdao. Vejam a leitura de tlanga, wutla, hlanganisa. Definitivamente não é Ndao nem Shona. Reflictam e nunca venham com essa de pureza étnico -regional.



Do Rovuma ao Maputo há um pouco de todos em todos. É isso que nos faz ser Moçambicanos. O resto é dividir para reinar à boa maneira da Conferência Colonial de Berlim, de 1885, onde a Europa dividiu e repartiu a África entre si. Hoje a História pode estar a repetir -se, do Darfur passando pelo Chade (onde os Djandjauídes dão de bandeja o pretexto e o mundo árabe passivo). E ao longo da África ocidental e Moçambique de outra forma estaremos numa nova perante uma nova re-colonização de África com a Globalização económica e de uma pretensa Democracia (importada ou imposta do ocidente) que todos falam para exigir direitos mas ninguém fala em cumprir deveres para com a Nação. O problema em Moçambique, é que o exemplo devia vir das cúpulas, quer do governo quer da oposição, em geral, salvo as excepções.

No mais da diversidade, somos todos wa-likaya. Todos iguais, todos diferentes.

 

O link para ouvirem o Thomas Mapfumo e a música urbana de Zimbabué.



http://worldmusic.nationalgeographic.com/worldmusic/view/page.basic/artist/content.artist/thomas_mapfumo_1760

 http://worldmusic.nationalgeographic.com/worldmusic/view/page.basic/album/content.album/the_legendary_george_sibanda_15936



VISITE:

http://worldmusic.nationalgeographic.com/worldmusic/view/page.basic/artist/content.artist/thomas_mapfumo_1760

 

 


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