Ética a nicômaco



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ÉTICA A NICÔMACO
LIVRO I
1094 a Toda arte e todo método, assim como toda ação e todo propósito, visam a algum bem; por isto foi dito acertadamente , que o bem é o que todas as coisas visam. Mas nota-se uma certa diversidade entre as finalidades; algumas são atividades, outras são produtos distintos das atividades de que são produtos; onde existe finalidades distintas das ações, aquilo que se produz é por natureza melhor que as ações. Mas como existem muitas ações, artes e ciências, seus fins também são muitos; a finalidade da medicina é a saúde, a da construção naval é o navio, a da estratégia é a vitória, a da economia é a riqueza. Onde, porém, tais artes se subordinaram a uma única qualidade- por exemplo, da mesma forma que a produção de rédeas e outras artes relacionadas a acessórios para a montaria se subordinam à estratégia, da mesmo modo umas artes se relacionam sucessivamente a outras - as finalidades das artes principais devem ter precedência sobre todas as finalidades subordinadas; daí é por causa daquelas que estas são perseguidas. Não haverá diferença no caso das próprias atividades serem as finalidades das ações ou serem algo distinto delas, como ocorre com as artes e ciências mencionadas.

2. Se há, então, para as ações que praticamos, alguma finalidade que desejamos por si mesma, sendo tudo mais desejado por causa dela, e se não escolhemos tudo por causa de algo mais (se fosse assira, o processo prosseguiria até o infinito, de tal forma que nosso desejo seria vazio e vão), evidentemente tal finalidade deve ser o bera e o melhor dos bens. Não terá então urna grande influência sobre a vida o conhecimento deste bem? Não deveremos, corno archeiros que visara a um alvo, ter maiores probabilidades de atingir assiras o que nos é mais conveniente? Sendo assira, cumpre-nos tentar determinar, mesmo sumariamente, o que é este bem, e de que ciências ou atividades ele é o objeto. Aparentemente ele é o objeto da ciência mais imperativa e predominante sobre tudo. Parece que ela é a ciência política, pois esta determina quais são as demais ciências que devem ser estudadas em urna cidade 5, e quais são os cidadãos que devem 1094 b aprendê-las, e até que ponto; e vemos que mesmo as atividades tidas na mais alta estima se incluem entre tais ciências, corno por exemplo a estratégia, a economia e a retórica. Urna vez que a ciência política usa as ciências restantes e, mais ainda, legisla sobre o que devemos fazer e sobre aquilo de que devemos abster-nos, a finalidade desta ciência inclui necessariamente a finalidade das outras, e então esta finalidade deve ser o bem do homem. Ainda que a finalidade seja a mesma para um homem isoladamente e para uma cidade, a finalidade da cidade parece de qualquer modo algo maior e mais completo, seja para a atingirmos, seja para a perseguirmos; embora seja desejável atingir a finalidade apenas para um único homem, é mais nobilitante e mais divino atingi-Ia para uma nação ou para as cidades. Sendo este o objetivo de nossa investigação, tal investigação é de certo modo o estudo da ciência política.

3. Nossa discussão será adequada se tiver a clareza compatível com o assunto, pois não se pode aspirar à mesma precisão em todas as discussões, da mesma forma que não se pode atingi-Ia em todas as profissões. As ações boas e justas que a ciência política investiga parecem muito variadas e vagas, a ponto de se poder considerar a sua existência apenas convencio­nal, e não natural. Os bens parecem igualmente vagos, pois para muitas pessoas eles podem ser até prejudiciais; com efeito, algumas pessoas no passado foram levadas à perdição por sua riqueza, e outras por sua coragem. Falando de tais assuntos e partindo de tais premissas, devemos contentar-nos, então, com a apresentação da verdade sob forma rudimen­tar e sumária; quando falamos de coisas que são verdadeiras apenas em linhas gerais, partindo de premissas do mesmo gênero, não devemos aspirar a conclusões mais precisas. Cada tipo de afirmação, portanto, deve ser aceito dentro dos mesmos pressupostos; os homens instruídos se caracterizam por buscar a precisão em cada classe de coisas somente até onde a natureza do assunto permite, da mesma forma que é insensato aceitar raciocínios apenas prováveis de um matemático e exigir de um orador demonstrações rigorosas.

Cada homem julga corretamente os assuntos que conhece, e é um bom juiz de tais assuntos. Assim, o homem instruído a respeito de um 1095 a assunto é um bom juiz em relação ao mesmo, e o homem que recebeu uma instrução global é um bom juiz em geral. Conseqüentemente, um homem ainda jovem não é a pessoa própria para ouvir aulas de ciência política, pois ele é inexperiente quanto aos fatos da vida e as discussões referentes à ciência política partem destes fatos e giram em torno deles; além disto, como os jovens tendem a deixar-se levar por suas paixões, seus estudos serão vãos e sem proveito, já que o fim almejado não é conhecimento, mas ação. Não fará qualquer diferença o fato de a pessoa ser jovem na idade ou no caráter; a deficiência não é uma questão de tempo, mas depende da vida que a pessoa leva, e da circunstância de ela deixar-se levar pelas paixões, perseguindo cada objetivo que se lhe apresenta. Para tais pessoas o conhecimento não é proveitoso, tal como acontece com as pessoas incontinentes; mas para quem deseja e age segundo a razão o conhecimen­to de tais assuntos é altamente útil.

Estas observações a respeito das pessoas que devem estudar tais assuntos, do espírito com que nossas conclusões devem ser recebidas e do objetivo da investigação, devem ser suficiente à guisa de introdução.

4. Retomando nossa investigação, e diante do fato de todo conhecimento e todo propósito visarem a algum bem, falemos daquilo que consideramos a finalidade da ciência política, e do mais alto de todos os bens a que pode levar a ação. Em palavras, o acordo quanto a este ponto é quase geral; tanto a maioria dos homens quanto as pessoas mais qualificadas dizem que este bem supremo é a felicidade, e consideram que viver bem e ir bem equivale a ser feliz; quanto ao que é realmente a felicidade, há divergências, e a maioria das pessoas não sustenta opinião idêntica à dos sábios. A maioria pensa que se trata de algo simples e óbvio, como o prazer, a riqueza ou as honrarias; mas até as pessoas componentes da maioria divergem entre si, e muitas vezes a mesma pessoa identifica o bem com coisas diferentes, dependendo das circunstâncias - com a saúde, quando ela está doente, e com a riqueza quando empobrece; cônscias, porém, de sua ignorância, elas admiram aqueles que propõem alguma coisa grandiosa e acima de sua compreensão. Há quem pense ' que além destes muitos bens há um outro, bom por si mesmo, e que também é a causa de todos os outros. Seria talvez infrutífero, de certo modo, examinar todas as opiniões sustentadas a este respeito; bastará examinar as mais difundidas ou as aparentemente mais razoáveis.

Mas não deixemos passar despercebida a diferença entre os argumen­tos que partem dos primeiros princípios e os que levam a eles. Platão, com efeito, também tinha razão ao levantar esta questão, quando perguntava se "estamos no caminho que vem dos primeiros princípios ou no que leva a eles". Aqui há uma diferença tão nítida quanto a que existe num estádio de corridas entre o percurso que vai do ponto em que ficam os juízes até o lugar de retorno, num sentido, e o percurso de volta no outro sentido. De fato, devemos começar com o que é evidente, mas as coisas são evidentes em duas acepções: algumas o são relativamente a nós, outras o são absolutamente. É plausível, então, que devemos começar pelas coisas evidentes para nós. Por isto, quem quiser ouvir proveitosamente exposi­ções acerca do nobilitante e do justo e sobre a ciência política em geral, deverá ter adquirido bons hábitos em sua formação. O princípio ' é o que é, e se isto for suficientemente claro, para o ouvinte, ele não necessitará também do por que é, e quem foi bem educado já conhece ou pode vir a conhecer facilmente o princípio. Os que não o conhecem nem podem vir a conhecê-lo devem ouvir as palavras de Hesíodos e:

"Melhor, e muito, é quem conhece tudo só; é bom quem ouve dos que sabem; quem não sabe por si nem abre o coração à sapiência alheia, este é um homem totalmente inútil."

5. Mas retomemos nossa discussão a partir do ponto em que iniciamos esta digressão 9. Se formos julgar pela vida dos homens, estes, em sua maioria, e os mais vulgares entre eles, parecem (não sem algum fundamento) identificar o bem, ou a felicidade, com o prazer. É por isto que eles apreciam a vida agradável. Podemos dizer, com efeito, que existem três tipos principais de vida: o que acabamos de mencionar, o tipo de vida política, e o terceiro é a vida contemplativa `°. A humanidade em massa se assemelha totalmente aos escravos, preferindo uma vida comparável à dos animais, mas ela vai buscar algumas razões em apoio ao seu ponto de vista no fato de muitos homens alçados a elevadas funções de governo compar­tilharem dos gostos de Sardanapalos ". Um exame dos tipos principais de vida demonstra que as pessoas mais qualificadas e atuantes identificam a felicidade com as honrarias, pois pode-se dizer que estas são o objetivo da vida política. Mas isto parece muito superficial para ser o que estamos procurando, pois se considera que as honrarias dependem mais daqueles que as concedem que daqueles que as recebem, ao passo que intuímos que o bem é algo pertencente ao seu possuidor e que não lhe pode ser facilmente tirado. Ademais, os homens parecem perseguir as honrarias com vistas ao reconhecimento de seus méritos; ao menos eles procuram ser honrados por pessoas de discernimento, e entre aquelas que os conhecem, e com fundamento em sua própria excelência. De acordo com eles, então, de qualquer modo a excelência é obviamente melhor. Talvez se possa até supor que ela é, mais do que as honrarias, o objetivo da vida política, mas mesmo isto ainda parece incompleto até certo ponto. Realmente, pode-se possuir a excelência enquanto se dorme, ou sem pô-la em prática durante toda a vida, e um homem excelente também está sujeito à maior miséria e infortúnio, embora um homem que viva nestas condições não possa ser qualificado de feliz, a não ser que queiramos sustentar a tese a qualquer preço. Mas basta deste assunto, pois já tratamos suficientemente dele em nossas exposições mais elementares ` z '. O terceiro tipo de vida é a vida contemplativa, que será examinada mais adiante 's.

A vida dedicada a ganhar dinheiro é vivida sob compulsão, e obviamente ela não é o bem que estamos procurando; trata-se de uma vida apenas proveitosa e com vistas a algo mais. Sob este prisma os objetivos que acabamos de mencionar podem ser tidos corno fins, pois eles são apreciados por si mesmos. É evidente, porém, que eles não são bens autênticos mas muitos argumentos foram gastos para sustentá-los. Deixemos então de lado este assunto.

6. Talvez seja melhor examinar o bem universal e discutir exaustivamente o seu significado, embora tal investigação se torne penosa pelo fato de as Formas terem sido introduzidas na filosofia por um amigo '4. De qualquer modo talvez pareça melhor, e de fato seria até uma obrigação, especial­mente para um filósofo, sacrificar até as relações pessoais mais estreitas em defesa da verdade; efetivamente, ambas nos são caras, tuas o dever nos leva a dar a primazia à verdade. Os introdutores desta teoria não postulavam Formas de grupos de coisas entre as quais eles reconheciam uma noção de anterioridade e posterioridade, razão pela qual eles não sustentavam a existência de uma Forma abrangente de todos os números; mas o termo "bem" é usado igualmente nas categorias de substância, de qualidade e de relação, e o que existe por si `S, ou seja, a substância, é anterior por natureza ao relativo (este é como uma derivação e acidente daquela); não poderia então haver uma Forma comum a ambos estes bens `6. Ademais, já que o termo "bem" tem tantas acepções quanto "ser" (este é igualmente predicado da categoria de substância, como de Deus e da razão, da de qualidade - por exemplo, das diversas formas de excelência -, da de quantidade -por exemplo, do que é moderado -, da de relação - por exemplo, do útil -, da de tempo -por exemplo, da oportunidade - e da de lugar - por exemplo, da localidade conveniente etc.), obviamente ele não pode ser algo universal, presente em todos os casos e único, pois então ele não poderia ter sido predicado de todas as categorias, mas somente de uma. Além disto, já que há uma ciência única das coisas correspondentes a cada Forma, teria de haver urna única ciência de todos os bens; mas o fato é que há muitas ciências, mesmo das coisas compreendidas em uma categoria única - por exemplo, a da oportunida­de, pois a oportunidade na guerra é estudada pela estratégia, e na doença pela medicina, e a moderação quanto aos alimentos é estudada na medicina e nos exercícios atléticos pela ciência da educação física.

Poder-se-ia perguntar o que se quer dizer precisamente com "um homem em si", se (e este é o caso) a noção de homem é a mesma e uma só em "um homem em si" e em um determinado homem. Na verdade, 1096 b enquanto eles são homens não diferem em coisa alguma, e sendo assim o "bem em si" e determinados bens não diferirão enquanto eles foram bons. Tampouco o "bem em si" será melhor por ser eterno, porquanto aquilo que dura mais não é mais branco do que o efêmero.

Os pitagóricos parecem apresentar uma teoria mais plausível a respei­to do bem quando põem a unidade em sua coluna da qual consta o bem ", e Spêusipos parece tê-los seguido. Mas deixemos este assunto para outra exposição.

Pode-se vislumbrar uma objeção ao que dissemos no fato de a teoria acima citada não se referir a todos os bens, e de os bens perseguidos e aceitos por si mesmos serem chamados bens com referência a uma única Forma, enquanto os que tendem a produzir ou preservar outros bens de algum modo, ou a obstar seus contrários, são chateados bens em função dos primeiros, e de um modo diferente. É óbvio, então, que se deve falar dos bens de duas maneiras, e alguns devem ser bons em si e outros em função destes. Separemos, portanto, as coisas boas em si das coisas úteis, e vejamos se as primeiras são chamadas boas com referência a urna única Forma. Que espécie de bens chamaríamos de bons em si? Seriam aqueles perseguidos mesmo quando isolados de outros, como a inteligência, o sentido da visão e certos prazeres e honrarias? Mesmo se os perseguísse­mos também por causa de algo mais certamente os colocaríamos entre as coisas boas em si. Ou nada além da Forma do bem é bom em si? Neste caso a Forma seria inútil. Mas se as coisas mencionadas são também coisas boas em si, a noção do bem apareceria como algo idêntico em todas elas, da mesma forma que a noção da brancura é idêntica na neve e numa tinta branca. Mas em relação a honrarias, inteligência e prazer em sua qualidade de coisas boas, as noções são distintas e diferentes. O betu, portanto, não é uma generalidade correspondente a uma Forma única.

Mas como entendemos o bem? Ele não é certamente semelhante às coisas que somente por acaso têm o mesmo nome. São os bens urna coisa só, então, por serem derivados de um único bem, ou por contribuírem todos para um único bem, ou eles são uma única coisa apenas por analogia? Certamente, da mesma forma que a visão é boa no corpo a razão é boa na alma, e identicamente em outros casos. Mas talvez seja melhor deixar de lado estes tópicos por enquanto, pois um exame detalhado dos mesmos seria mais apropriado em outro ramo da filosofia. Acontece o mesmo em relação à Forma do bem; ainda que haja um bem único que seja um predicado universal dos bens, ou capaz de existir separada e independen­temente, tal bem não poderia obviamente ser praticado ou atingido pelo homem, e agora estamos procurando algo atingível. Talvez alguém possa 1097 a pensar que vale a pena ter conhecimento deste bem, com vistas aos bens atingíveis e praticáveis; com efeito, usando-o como uma espécie de protótipo, conheceremos melhor os bens que são bons para nós e, conhecendo-os, poderemos atingi-los. Este argumento tem alguma plausi­bilidade, mas parecê colidir com o método científico; todas as ciências, com efeito, embora visem a algum bem e procurem suprir-lhe as deficiências, deixam de lado o conhecimento da Forma do bem. Mais ainda: não é provável que todos os praticantes das diversas artes desconheçam e nem sequer tentem obter uma ajuda tão preciosa. Também é dificil perceber como um tecelão ou um carpinteiro seria beneficiado em relação ao seu próprio ofício com o conhecimento deste "bem em si", ou como uma pessoa que vislumbrasse a própria Forma poderia vir a ser um médico ou general melhor por isto. Com efeito, não parece que um médico estude sequer a "saúde em si", e sim a saúde do homem, ou talvez até a saúde de um determinado homem; ele está curando indivíduos. Mas já falamos bastante sobre estes assuntos.

7. Voltemos agora ao bem que estamos procurando, e vejamos qual a sua natureza. Em uma atividade ou arte ele tem uma aparência, e em outros casos outras. Ele é diferente em medicina, em estratégia, e o mesmo acontece nas artes restantes. Que é então o bem em cada uma delas? Será ele a causa de tudo que se faz? Na medicina ele é a saúde, na estratégia é a vitória, na arquitetura é a casa, e assim por diante em qualquer outra esfera de atividade, ou seja, o fim visado em cada ação e propósito, pois é por causa dele que os homens fazem tudo mais. Se há portanto um fim visado em tudo que fazemos, este fim é o bem atingível pela atividade, e se há mais de um, estes são os bens atingíveis pela atividade. Assim a argumentação chegou ao mesmo ponto por um caminho diferente, mas devemos tentar a demonstração de maneira mais clara.

Já que há evidentemente mais de uma finalidade, e escolhemos algumas delas (por exemplo, a riqueza, flautas ou instrumentos musicais em geral) por causa de algo mais, obviamente nem todas elas são finais; mas o bem supremo é evidentemente final. Portanto, se há somente um bem final, este será o que estamos procurando, e se há mais de um, o mais final dos bens será o que estamos procurando. Chamamos aquilo que é mais digno de ser perseguido em si mais final que aquilo que é digno de ser perseguido por causa de outra coisa, e aquilo que nunca é desejável por causa de outra coisa chamamos de mais final que as coisas desejáveis tanto em si quanto por causa de outra coisa, e portanto chamamos absolutamen­te final aquilo que é sempre desejável em si, e nunca por causa de algo mais. Parece que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa de algo mais; mas as honrarias, o prazer, a inteligência e todas as outras formas de excelência, embora as escolhamos - or si mesmas (escolhê-las-iamos ainda que nada resultasse delas), esc,)lhemo-las por causa da felicidade, pensando que através delas seremos felizes. Ao 1097 b contrário, ninguém escolhe a felicidade por causa das várias formas de excelência, nem, de um modo geral, por qualquer outra coisa além dela mesma.

Uma conclusão idêntica parece resultar da noção de que a felicidade é auto-suficiente. Quando falamos em auto-suficiente não queremos aludir àquilo que é suficiente apenas para um homem isolado, para alguém qüe leva uma vida solitária, mas também para seus pais, filhos, esposa e, em geral, para seus amigos e concidadãos, pois o homem é por natureza um animal social '9. Mas deve-se estabelecer um limite para esta enumeração, pois se acrescentarmos à mesma todos os ascendentes e descendentes e os amigos dos amigos estaremos caminhando para o infinito. Deixemos porém o exame desta questão para outra oportunidade; "auto-suficiente" pode ser definido como aquilo que, em si, torna a vida desejável por não ser carente de coisa alguma, e isto em nossa opinião é a felicidade; ademais, julgamos a mais desejável de todas as coisas não uma coisa considerada boa em correlação com outras - se fosse assim ela se tornaria obviamente mais desejável mediante a adição até do menor dos bens, pois esta adição resultaria em um bem total maior, e em termos de bens o maior é sempre mais desejável. Logo, a felicidade é algo final e auto-suficiente, e é o fim a que visam as ações.


Mas dizer que a felicidade é o bem supremo parece um truísmo, e necessitamos de uma explicação ainda mais clara quanto ao que ela é. Talvez possamos chegar a isto se determinarmos primeiro qual é a função própria do homem. Com efeito, da mesma forma que para um flautista, um escultor ou qualquer outro artista e, de um modo geral, para tudo que tem uma função ou atividade, consideramos que o bem e a perfeição residem na função, um critério idêntico parece aplicável ao homem, se ele tem uma função. Teriam, então, o carpinteiro e o curtidor de couros certas funções e atividades, e o homem como tal, por ter nascido incapaz, não teria uma função que lhe fosse própria? Ou deveríamos presumir que, da mesma forma que o olho, o pé, e em geral cada parte do corpo têm uma função, o homem tem também uma função independente de todas estas? Qual seria ela, então? Até as plantas participam da vida, mas estamos procurando algo peculiar ao homem. Excluamos, portanto, as atividades vitais de nutrição e crescimento. Em seguida a estas haveria a atividade vital da sensação, mas também desta parecem participar até o cavalo, o boi e todos os animais. Resta, então, a atividade vital do elemento racional do 1098 a homem; uma parte deste é dotada de razão no sentido de ser obediente a ela, e a outra no sentido de possuir a razão e de pensar. Como a expressão "atividade vital do elemento racional" tem igualmente duas acepções, deixemos claro que nos referimos ao exercício ativo do elemento racional, pois parece que este é o sentido mais próprio da expressão. Então, se a função do homem é uma atividade da alma por via da razão e conforme a ela, e se dizemos que "uma pessoa" e "uma pessoa boa" têm uma função do mesmo gênero - por exemplo, um citarista e um bom citarista e assim por diante em todos os casos -, sendo a qualificação a respeito da excelência acrescentada ao nome da função (a função de um citarista é tocar a cítara, e a de um bom citarista é tocá-la bem), se este é o caso (e afirmamos que a função própria do homem é um certo modo de vida, e este é constituído de uma atividade ou de ações da alma que pressupõem o uso da razão, e a função própria de um homem bom é o bom e nobilitante exercício desta atividade ou a prática destas ações, se qualquer ação é bem executada de acordo com a forma de excelência adequada) - se este é o caso, repetimos, o bem para o homem vem a ser o exercício ativo das faculdades da alma de conformidade com a excelência, e se há mais de uma excelência, de conformidade com a melhor e mais completa entre elas. Mas devemos acrescentar que tal exercício ativo deve estender-se por toda a vida, pois uma andorinha não faz verão (nem o faz um dia quente); da mesma forma um dia só, ou um curto lapso de tempo, não faz um homem bem-aventurado e feliz.

Esta exposição é suficiente como um esboço daquilo que considera­mos o bem, pois naturalmente devemos primeiro delineá-lo e depois trataremos de descrevê-lo detalhadamente. Mas parece que qualquer pessoa pode levar adiante ou completar o que foi inicialmente betu delineado, e que o tempo é um bom inventor e colaborador em tal tarefa, e o progresso das artes deve-se a estes fatos, pois qualquer pessoa pode acrescentar o que está faltando. Devemos também lembrar o que foi dito antes ` e não insistir em chegar à precisão em tudo indiscriminadamente; devemos buscar em cada classe de coisas a precisão compatível com o assunto, e até o ponto adequado à investigação. Com efeito, um carpinteiro e um geômetra estudam o ângulo reto de maneiras diferentes; o primeiro o faz até o ponto em que o ângulo reto é útil ao seu trabalho, enquanto o segundo indaga o que é o ângulo e como ele é, por ser um contemplador da verdade. Cumpre-nos então agir de maneira idêntica em todas as outras matérias, para que nossa tarefa principal não fique subordinada a questões secundárias. Não devemos tampouco indagar qual 1098 b é a causa de tudo de maneira idêntica; em algumas circunstâncias basta que o fato seja betu fundamentado, como no caso dos primeiros princípios; o fato é o ponto de partida e o primeiro princípio. Quanto aos primeiros princípios, discernimos alguns por indução, outros por via da percepção, outros pela habitualidade, e outros de outras maneiras; devemos porém tentar investigá-los de acordo com sua natureza e esforçar-nos por defini­los corretamente, pois eles influem fortemente na seqüência da investiga­ção. Com efeito, admite-se que o princípio é mais que a metade do todo, e projeta luz de imediato sobre muitas das questões em exame.

8. Devemos conduzir nossa investigação sobre a felicidade levando em conta as conclusões a que chegamos partindo de nossas premissas, mas devemos igualmente considerar o que se diz em geral sobre ela; com urna visão realista, todos os dados se concatenam, ruas com uma visão falsa os fatos logo colidem. Os bens são divididos em três classes ==, e alguns deles são descritos como exteriores, enquanto outros o são corno pertinentes à alma ou ao corpo. Chamarmos geralmente os bens pertinentes à alma de bens no verdadeiro sentido da palavra e no mais alto grau, e atribuímos à própria alma as ações e atividades psíquicas. Nossa opinião deve ser correta, pelo menos segundo este ponto de vista, que é antigo e aceite pelos estudiosos de filosofia. Ela também é correta porque identificamos a finalidade com certas ações e atividades, pois assim ela se insere entre os bens da alma e não entre os bens exteriores. Outra noção que se harmoniza com nossa opinião é a de que o homem feliz *vive bem e se conduz bem, pois praticamente definimos a felicidade corno uma forma de viver bem e conduzir-se bera. Ademais, todas as características procuradas na felicidade se enquadrara no que dissemos a seu respeito. Algumas pessoas, de fato, pensam que a felicidade é excelência, outras que ela é discernimento, =' outras que é urna espécie de sabedoria; outras, ainda, pensam que ela é tudo isto, ou uma destas noções em conjunto com o prazer, ou serra que lhe falte o prazer, enquanto outras, finalmente, acrescentam a prosperidade exterior. Alguns destes pontos de vista vêm sendo sustentados por muita gente, e há muito tempo, e outros por umas poucas pessoas eminentes, e não é provável que nem aquelas nem estas estejam inteiramente enganadas; é mais plausível que elas estejam certas ao menos quanto a alguns dos pontos, ou até quanto à maioria deles.
Nossa definição é condizente cora a opinião dos que identificam a felicidade com a excelência ou cora alguma forma de excelência, pois a felicidade é a atividade conforme à excelência. Realmente, não é pequena a diferença entre a concepção do bem supremo corno posse ou exercício, de um lado, ou como estado de espírito ou atividade do outro, pois pode existir o estado de espírito sem que ele produza qualquer resultado bom, como no caso de uma pessoa adormecida ou inativa por outra razão, mas não pode ocorrer o mesmo com a atividade conforme à excelência; de 1099 a qualquer maneira ela se manifestará, e bem. Da mesma forma que nos jogos Olímpicos os coroados não são os homens mais fortes e belos, e sim os que competem (alguns destes serão os vitoriosos), quem age conquista, e justamente, as coisas boas da vida.

A vida de atividade conforme à excelência é agradável em si, pois o prazer é uma disposição da alma, e o agradável para cada pessoa é aquilo que se costuma dizer que ela arpa; por exemplo, ura cavalo dá prazer a um apreciador de cavalos, um bom espetáculo a ura apreciador de teatro, do mesmo modo que atos justos são agradáveis a quem ama a justiça e, de um modo geral, atos caracterizados pela excelência dão prazer a quem ama a excelência. Mas no caso da maioria dos homens seus prazeres colidem uns com os outros porque não são agradáveis por sua própria natureza enquanto os apreciadores do que é belo sentem prazer nas coisas naturalmente agradáveis. Ora: as ações conformes à excelência são desta natureza, de tal forma que elas são ao mesmo tempo agradáveis em si e agradáveis aos apreciadores do que é belo. A vida destes, portanto, não terra necessidade de outros prazeres como uma espécie de acessório ornamental, mas contém seus prazeres em si mesma; então, ninguém qualificará de justo um homem que não sinta prazer em agir justamente, nem de liberal um homem que não sinta prazer em ações liberais, e similarmente no caso de todas as formas de excelência. Sendo assim, as ações conformes à excelência devem ser necessariamente agradáveis. Mas elas são igualmente boas e belas, e têm cada um destes atributos no mais alto grau, se o homem bom julga bem a respeito de tais atributos; e ele julga, como dissemos. Então a felicidade é o melhor, mais belo e mais agradável dos bens, e estes atributos não devem estar separados, como na inscrição existente em Delos:


"Mais bela é a justiça, e melhor a saúde; mais agradável é possuir o que amamos."
Todos estes atributos estão presentes nas melhores atividades, e identificamos uma destas (a melhor de todas) como a felicidade.

Mas evidentemente, corno já dissemos, =5, a felicidade também requer bens exteriores, pois é impossível, ou na melhor das hipóteses não é fácil, praticar belas ações sem os instrumentos próprios. Em muitas ações 1099 b usamos amigos e riquezas e poder político como instrumentos, e há certas coisas cuja falta empana a felicidade - boa estirpe, bons filhos, beleza - pois o homem de má aparênica, ou mal nascido, ou só no mundo e sem filhos, tem poucas possibilidades de ser feliz, e tê-las-á ainda menores se seus filhos e amigos forem irremediavelmente maus ou se, tendo tido bons filhos e amigos, estes tiverem morrido. Como dissemos =`', então, a felicidade parece requerer o complemento desta ventura, e é por isto que algumas pessoas identificam a felicidade com a boa sorte, embora outras a identifiquem com a excelência.

9. E por esta razão que se pergunta se podemos aprender a ser felizes, ou se podemos ser felizes graças ao hábito ou a algum tipo de exercício, ou então à providência divina, ou finalmente graças à sorte. Se alguma coisa que os homens têm é um presente dos deuses, é razoável supor que a felicidade seja urna graça divina, e seguramente o mais divino de todos os bens humanos, porquanto ele é o melhor. Mas talvez esta pergunta caiba melhor em outra investigação. Ainda que não seja uma graça dos deuses, mas nos venha corno o corolário da excelência e algum processo de aprendizado ou exercício, a felicidade parece estar entre as coisas mais divinas, pois aquilo que é o prêmio e a finalidade da excelência parece sumamente bom e algo divino e bendito. Sob este prisma a felicidade também pode ser muito difundida, pois quem quer não seja deficiente quanto à sua potencialidade para a excelência tem aspirações a atingi-Ia mediante um certo tipo de aprendizado e esforço. Mas se é melhor ser feliz assim do que por sorte, é razoável supor que é assim que se atinge a felicidade, pois tudo que ocorre segundo a natureza é naturalmente tão bom quanto pode ser; o mesmo acontece com tudo que depende da arte ou de qualquer causa racional, especialmente se depende da melhor de todas as causas. Entregar à sorte o que há de melhor e mais belo seria totalmente dissonante.

A resposta à questão que estamos levantando aparece claramente diante de nossa definição da felicidade, pois já dissemos ` que ela é urda certa atividade da alma conforme à excelência. Dos bens rëstantes, alguns devem ser preexistentes como pré-requisitos da felicidade, e outros são naturalmente coadjuvantes e instrumentais. Ver-se-á que esta conclusão é condizente com o que falamos de início `, pois afirmamos que a finalidade da ciência política é a finalidade suprema, e o principal empenho desta ciência é infundir um certo caráter nos cidadãos -por exemplo, torná-los bons e capazes de praticar boas ações.


E natural, então, que não qualifiquemos os bois e cavalos ou quaisquer outros animais de felizes, pois nenhum deles é capaz de participar de tal 1100 a atividade. Por esta razão as crianças também não podem ser consideradas felizes, pois não são capazes daquela atividade devido à sua pouca idade; quando se diz que as crianças são felizes, trata-se de um bocas augúrio diante das esperanças que depositarmos nelas para o futuro. A felicidade, corno dissermos=', pressupõe não somente excelência perfeita, mas também urna existência completa, pois muitas mudanças e vicissitudes de todos os tipos ocorreras no curso da vida, e as pessoas rasais prósperas podem ser vítimas de grandes infortúnios na velhice, como se conta de PríamosZ` na poesia heróica. Ninguém pode considerar feliz urna pessoa que experi­mentou tais vicissitudes e teve um fim tão lastimável.

10. Não se deve então chamar homem algum de feliz enquanto ele estiver vivo? Devemos, como disse Sôlon, "ver o firas"?" Ainda que devamos adotar esta doutrina, pode um homem ser realmente feliz depois de morto? Não é isto um absurdo total, especialmente para nós, que definimos a felicidade corno urna atividade? Mas se não chamarmos o homem morto de feliz, e se Sôlon não quis dizer isto, e sim que somente quando um homem está morto pode com certeza ser qualificado de feliz, por estar afinal a salvo dos inales e infortúnios, ainda assim esta hipótese dá margem a discussões, pois se pensa que tanto o casal quanto o beras existem em relação também aos mortos, da mesma forma que existem em relação a quem está vivo ruas não tecas consciência deles (por exemplo, honrarias e desonra, e a boa ou má sorte dos filhos e dos descendentes eras geral). Mas aqui também temos um problema, pois embora urna pessoa tenha vivido urna vida de bem-aventurança até a velhice e tenha tido urna morte condizente com sua vida, muitos reveses podem ocorrer com seus descendentes - alguns destes podem ser bons e desfrutar uma vida compatível com seus méritos, enquanto pode acontecer o contrário com outros. Além disto, eras termos de tempo o distanciamento dos descenden­tes em relação aos seus ancestrais obviamente iria crescendo de maneira incomensurável. Seria estranho, então, se os mortos tivessem de ser afetados por estas mudanças de sorte, e fossem ora felizes, ora desditosos; também seria estranho se as vicissitudes dos descendentes não afetassem de algum modo e durante algum tempo a felicidade de seus ancestrais.

Mas devemos voltar à nossa primeira dificuldade ", pois talvez através de um exame da mesma nosso problema possa ser resolvido. Se tivermos de ver o fim para só então poder congratular-nos com um homem por sua bem-aventurança, mas não por passar afinal a ser bem-aventurado, e sim por tê-lo sido antes, certamente será paradoxal que, no momento exato em que ele se torna feliz, o fato não lhe possa ser atribuído, porque não nos dispomos a chamar os vivos de felizes em face das mudanças da sorte, e porque a felicidade, em nossa opinião, é algo permanente e não facilmente sujeito a mudanças, enquanto a roda da fortuna pode muitas vezes dar uma reviravolta completa em relação ao mesmo homem. Efetivamente, é óbvio que, se tivéssemos de acompanhar-lhe as vicissitudes, chamaríamos com freqüência o mesmo homem de feliz agora e de desventurado em seguida, transformando-o numa espécie de camaleão, ou numa casa construída sobre areias movediças.

Ou não seria de forma alguma correto deixar-nos levar pelas vicissitudes de um homem? O sucesso ou fracasso na vida não depende dos favores da fortuna, mas a vida humana, como dissemos, também deve contar com eles; na realidade, são nossas atividades conformes à excelência que nos levam à felicidade, e as atividades contrárias nos levam 1100 b à situação oposta.

A dificuldade que acabamos de discutir é uma confirmação adicional de nossa definição, pois nenhuma das funções do homem é dotada de tanta permanência quanto as atividades conformes à excelência; estas parecem ser até mais duradouras que nosso conhecimento das ciências. E entre estas mesmas atividades, as mais elevadas são as mais duradouras, por ocuparem completa e constantemente a vida dos homens felizes, pois esta parece ser a razão de não as esquecermos.

O homem feliz, portanto, deverá possuir o atributo em questão '' e será feliz por toda a sua vida, pois ele estará sempre, ou pelo menos freqüentemente, engajado na prática ou na contemplação do que é conforme à excelência. Da mesma forma ele suportará as vicissitudes com maior galhardia e dignidade, sendo como é, "verdadeiramente bom e irrepreensivelmente tetragonal.

Muitos eventos são frutos do acaso, e diferem por sua grandeza ou insignificância; embora a boa sorte ou o infortúnio em pequena escala não mudem evidentemente o curso completo da vida, grandes e freqüentes sucessos tornam a vida mais feliz, pois eles, por sua própria natureza, realçam a beleza da vida e também podem ser usados nobremente e de conformidade com a excelência; grandes e freqüentes reveses, ao contrá­rio, aniquilam e frustram a felicidade, seja pelos sofrimentos que causam, seja por constituírem óbices a muitas atividades. Isto não obstante, mesmo na adversidade a galhardia resplandece, quando alguém sofre grandes e freqüentes infortúnios com resignação, não por insensibilidade, mas por nobreza e grandeza de alma. Se, como dissemos, as atividades de uma pessoa são um fator determinante na vida, nenhuma pessoa supinamente feliz poderá jamais tornar-se desgraçada; ela nunca praticará ações odiosas ou ignóbeis, pois sustentamos que as pessoas realmente boas e sábias suportarão dignamente todos os tipos de vicissitudes, e sempre agirão da maneira mais nobilitante possível diante das circunstâncias; da mesma forma que um bom general usa do modo mais eficiente possível os contingentes disponíveis, um bom sapateiro faz o sapato mais requintado possível do couro que lhe dão, e o mesmo acontece com todos os artesãos. Sendo assim, o homem feliz nunca poderá tornar-se desgraçado, embora nunca possa vir a ser feliz o homem que enfrentar os infortúnios de um Príamos. Tampouco sua sorte será inconstante e contrastante, pois nem 1101 a ele será deslocado de sua felicidade facilmente ou por infortúnios corriqueiros, mas somente por grandes e freqüentes desventuras, nem se recuperará de tais infortúnios e se tornará novamente feliz em pouco tempo, mas somente - se isto acontecer - após um longo lapso de tempo, durante o qual ele tiver tido oportunidade de obter muitos e belos sucessos.

Por que não diríamos, então, que é feliz o homem ativo de conformidade com a excelência perfeita e suficientemente aquinhoado com bens exteriores, não por um lapso de tempo qualquer, mas por toda a vida? Ou deveríamos acrescentar "e que é feito para viver assim e morrer de maneira compatível com a vida que levou?" Com efeito, o futuro é obscuro para nós, enquanto concebemos a felicidade como uma finalidade, e auto-suficiente. Sendo assim, devemos declarar supinamente felizes as pessoas vivas que preencham os requisitos mencionados e sejam feitas para continuar a preenchê-los, mas tudo dentro das limitações da condição humana. Contentemo-nos com estas considerações sobre o assunto.

11. A crença de que a felicidade dos mortos não é afetada de forma alguma pelas vicissitudes de seus descendentes e amigos em geral, parece contrariar profundamente o conceito de amizade e as noções geralmente aceitas. Como, porém, os eventos da vida são numerosos e diversificados, e variam na intensidade com que nos afetam, estabelecer uma distinção detalhada entre eles seria uma tarefa muito longa, ou mesmo interminável, e talvez seja suficiente um exame perfunctório do assunto. Nossos próprios infortúnios, com efeito, embora em certos casos tenham um peso e uma influência consideráveis em nossas vidas, em outros casos se revestem de uma importância relativamente pequena, e o mesmo raciocí­nio se aplica aos infortúnios de nossos amigos em sua totalidade. Faz uma diferença considerável a circunstância de as pessoas afetadas pelos vários tipos de sofrimento estarem vivas ou mortas, muito mais do que, nas tragédias, a circunstância de os crimes e atos abomináveis serem previa­mente conhecidos, em vez de cometidos no próprio palco. Devemos portanto levar em conta esta diferença, ou melhor ainda, talvez a própria dúvida existente quanto à participação efetiva dos mortos em qualquer dos bens ou males. Na verdade, as considerações que acabamos de fazer

Ética a Nicômacos

parecem mostrar que, mesmo na hipótese de qualquer betu ou mal os atingir, o efeito é apenas fraco e insignificante, seja intrinsecamente, seja em relação a eles, e se não o for, sua intensidade e seu gênero não serão bastantes para trazer felicidade aos infelizes nem para tirar os felizes de sua felicidade. Parece, portanto, que os mortos são influenciados de certo modo pela ventura dos que lhes são caros, e também por seus infortúnios, mas que a intensidade e o gênero do efeito não chegam a tornar infelizes as pessoas felizes, nem a produzir qualquer efeito deste tipo.

12. Resolvidas estas questões, vejamos agora se a felicidade está entre as coisas que simplesmente louvamos ou entre aquelas às quais atribuímos um grande valor; de qualquer modo, é claro que ela não deve ser posta entre as potencialidades.

Parece que uma coisa louvável é sempre louvada por ter uma certa 1101 b qualidade e relacionar-se de certo modo com alguma coisa. Com efeito, louvamos as pessoas justas e corajosas, e de um modo geral as pessoas boas e a própria virtude, por causa das ações destas pessoas e dos respectivos resultados; louvamos também os homens fortes, os velozes e assim por diante, pelo fato de eles possuírem certas qualidades naturais e estarem em certa relação com algo bom e importante. Isto se evidencia também pelo fato de os deuses serem louvados (parece absurdo que os deuses devam ser avaliados segundo os nossos padrões, mas é assim que os avaliamos, porquanto o louvor pressupõe uma referência, como dissemos, a algo mais). Mas se louvamos por razões como as que expusemos, evidentemente o que se aplica às melhores coisas não é louvor, mas algo maior e melhor, como é óbvio, pois nosso procedimento em relação aos deuses e aos homens mais próximos da divindade é chamá-los de felizes e bem-aventurados. Acontece o mesmo com as coisas boas; ninguém louva a felicidade como louva a justiça, mas chamamos a primeira uma "benção", como algo divino e melhor.

Parece que Êudoxos também estava certo em seu método ao defender a supremacia do prazer. Ele sustentava que o fato de o prazer, apesar de ser um bem, não ser louvado, é uma indicação de que ele é superior às coisas que louvamos, corno acontece com Deus e o bem, pois todas as outras coisas são avaliadas em relação a estes.

Com efeito, o louvor convém à excelência, pois é esta que torna o homem capaz de praticar ações nobres, ao passo que os panegíricos exaltam tanto as atividades do corpo quanto as da alma. Mas talvez um exame meticuloso deste assunto fique melhor nas obras dos autores que se 1102a dedicam ao estudo dos panegíricos `. Para nós é evidente, em vista do que dissemos, que a felicidade é algo louvável e perfeito. Parece que é assim porque ela é um primeiro princípio, pois todas as outras coisas que fazemos são feitas por causa dela, e sustentamos que o primeiro princípio e causa dos bens é algo louvável e divino.

13. Sendo a felicidade, então, uma certa atividade da alma conforme à excelência perfeita, é necessário examinar a natureza da excelência. Isto provavelmente nos ajudará em nossa investigação a respeito da felicidade. Também parece que o verdadeiro estadista é aquele que estudou especialmente a excelência, já que ele quer tornar os cidadãos homens bons e obedientes às leis (sirvam de exemplo os legisladores de Creta e Esparta, e outros como eles que existiram) mas se esta investigação é pertinente à ciência política, é claro que sua execução deve seguir nosso plano inicial. É evidente que a excelência a examinar é a excelência humana, pois o bem e a felicidade que estamos procurando são o bem humano e a felicidade humana. A excelência humana significa, dizemos nós, a excelência não do corpo, mas da alma, e também dizemos que a felicidade é uma atividade da alma. Se for assim, obviamente o estadista deve ter algum conhecimento das funções da alma, da mesma forma que quem quer estudar e curar os olhos deve conhecer também o corpo todo, e ainda mais porque a ciência política é mais louvada e melhor que a medicina; mesmo entre os médicos, os melhores esforçam-se mais por conhecer o corpo todo. O estadista, então, deve estudar a alma, e deve estudá-la tendo em vista estes objetivos, e apenas o suficiente em face das questões que estamos discutindo; uma precisão maior talvez exigisse um esforço maior que o necessário aos nossos propósitos.


Algumas observações suficientemente adequadas já foram feitas sobre o assunto em nossos escritos para o público`, e devemos recorrer a elas aqui; por exemplo, que a alma é constituída de urna parte irracional e de outra dotada de razão. Se estas duas partes são realmente distintas, à maneira das partes do corpo ou de qualquer outro todo divisível, ou se, 1102 b embora distintas por definição, elas na realidade são inseparáveis, corno os lados côncavo e convexo da periferia de um círculo, não faz diferença alguma no caso presente. Uma das subdivisões da parte irracional da alma parece comum a todos os seres vivos e é de natureza vegetativa; refiro-me à parte responsável pela nutrição e pelo crescimento. Com efeito, é esta a espécie de impulso da alma que devemos atribuir a todos os recém­nascidos, e até aos embriões, e este mesmo impulso deve ser atribuído às criaturas plenamente desenvolvidas (isto é mais razoável do que atribuir algum impulso diferente a estas últimas). A eficiência deste impulso parece comum a todas as espécies de seres vivos, e não somente à espécie humana, pois ele parece funcionar principalmente durante o sono, enquanto a bondade e a maldade são menos manifestas durante o sono (por isto se diz que as pessoas felizes e as desditosas em nada diferem durante a metade de suas vidas; isto acontece naturalmente, pois o sono é uma inatividade da alma quanto às chamadas coisas boas e más), à exceção talvez de alguns movimentos que, dentro de certos limites estritos, possam atingir a alma; neste caso, os sonhos dos homens bons são melhores que os de outras pessoas quaisquer. Mas bastam estas considerações quanto ao assunto; deixemos de lado a faculdade nutritiva, pois por sua própria natureza ela não faz parte da excelência humana.

Parece haver também um outro elemento irracional na alma, irias este em certo sentido participa da razão. De fato, louvamos a razão tanto do homem dotado quanto do destituído de continência, bem corno a parte racional da alma de ambos, pois esta os exorta acertadamente e em direção aos melhores objetivos; acha-se também neles, todavia, outro elemento natural além da razão, que luta contra esta e lhe resiste. De fato, da mesma forma que, quando pretendermos mover para a direita membros paralisa­dos, eles tendem, ao contrário, a mover-se para a esquerda, é isto que acontece com a alma: os impulsos das pessoas destituídas de continência atuam em direções opostas. Mas enquanto no corpo o membro errático é visível, no caso da alaria não o vemos; seja como for, não devermos duvidar de que haja na alma um elemento além da razão, resistindo e opondo-se a ela, embora o sentido em que ele e ela se distinguem um do outro não faça diferença para nós. Mas mesmo este elemento parece participar da razão, corno dissemos; de qualquer forma, nas pessoas dotadas de continência ele obedece à razão, e presumivelmente ele é ainda mais obediente nas pessoas moderadas e valorosas, pois nestas ele fala, em todos os casos, em uníssono coem a razão.



Conseqüentemente, o elemento irracional parece dúplice. O elemen­to vegetativo, todavia, não participa de forma alguma da razão, mas o elemento apetitivo e em geral o elemento concupiscente participam da mesma em certo sentido, até o ponto em que a ouvem e lhe obedecem; é neste sentido que falamos na "racionalidade" de um pai ou de um amigo, em contraste com a "racionalidade" matemática''. O fato de advertirmos alguém, e de reprovarmos e exortaremos de um modo geral, indica que a razão pode de certo enodo persuadir o elemento irracional. E se também deve ser dito que este elemento participa da razão, aquilo que é dotado de razão (tanto quanto o que não é) será dúplice, e uma de suas subdivisões participa da razão no sentido próprio e em si, enquanto a outra terá urna tendência para obedecer no sentido em que se obedece a um pai.

A excelência também se diferencia em duas espécies, de acordo coem esta subdivisão, pois dizemos que certas formas de excelência são intelectuais e outras são morais (a sabedoria, a inteligência e o discerni­enento, por exemplo, são formas de excelência intelectual, e a liberalidade e a moderação, por exemplo, são formas de excelência moral). Realmente, falando sobre o caráter de urna pessoa não dizemos que ela é sábia ou inteligente, e sim que ela é jovial, ou amável ou moderada, crias louvamos uma pessoa sábia por sua disposição de espírito, e chamamos de formas de excelência as disposições de espírito louváveis.


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