Ética e Responsabilidade Social 1 Ética: De que se trata



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Centro Universitário Assunção - UNIFAI

Biblioteconomia
Teoria Geral da Administração – TGA

Prof. Antonio Siqueira
Ética e Responsabilidade Social

1 Ética: De que se trata
A ética é a disciplina ou campo do conhecimento que trata da avaliação do comportamento de pessoas e organizações. A ética lida com o que pode ser diferente do que é, da aprovação ou reprovação do comportamento observado em relação ao comportamento ideal. O comportamento ideal é definido por meio de um código de conduta ou código de ética.
A palavra ética (do grego ethos) tem a mesma base etimológica da palavra moral (do latim mores). Os dois vocábulos significam hábitos e costumes, indicando normas de comportamento que se tornaram habituais. Alguns autores fazem distinção entre ética e moral. A ética compreende uma teoria ou reflexão crítica sobre os fundamentos de um sistema moral, ou de um sistema de costumes de uma pessoa, grupo ou sociedade. O que a sociedade se acostumou a aceitar como habitual (ou moral) não é, necessariamente, ético.
Os códigos de ética compreendem normas de conduta. Há o código de ética dos médicos, da propaganda, dos militares, dos políticos, de um grupo social, de uma corrente filosófica ou doutrinária (como a ética do capitalismo) ou até mesmo a ética de uma pessoa. Os códigos de conduta são explícitos, como os juramentos que os médicos fazem, ou implícitos, como a obrigação de oferecer socorro a quem está em dificuldades.

2 Criação de Sistemas de Valores
Os valores formam a base dos códigos de ética. Os valores que orientam o comportamento ético, e que permitem classificar os comportamentos dentro de qualquer escala de desenvolvimento moral foram e continuam sendo propostos por filósofos e diversos tipos de líderes: Confúcio, Buda, Moisés, Jesus Cristo, Sócrates, Platão e Aristóteles, entre muitos outros. Essas pessoas manifestam opiniões a respeito de como a sociedade deveria ser, e fazem de maneira a influenciar as convicções alheias. Religiões, ideologias, crenças e doutrinas políticas e econômicas nasceram dessa forma. Outras normas de conduta ética nascem dos usos e costumes, do processo social de julgar comportamentos e considerá-los certos ou errados, e de distinguir o vício da virtude pelos sentimentos de reprovação ou aprovação que inspiram.
Muitas pessoas, desde a antiguidade, têm participado da construção de sistemas de valores. A seguir serão consideradas três delas: Confúcio, Aristóteles e Kant.

2.1 Confúcio
A maneira oriental de administrar e fazer negócios certamente é influenciada pela doutrina de Confúcio (551-479 a.C.). Na época da vida de Confúcio, a China estava dividida em estados feudais, que guerreavam entre si continuamente. Confúcio desenvolveu um conceito de renascimento moral e social. Se colocada em prática, essa idéia estabeleceria a utopia do Estado como um bem público e criaria as condições para a paz entre os homens.
O princípio mais elevado do Confucionismo é a norma da reciprocidade. A conduta virtuosa consiste em tratar os outros como cada um gostaria de ser tratado. Em muitas culturas, existem princípios semelhante a essa norma, também chamada de Regra de Ouro, que tem duas versões:

  • Tudo o que quereis que os outros vos façam, fazei-o vós a eles.

  • Não façais aos outros o que não quereis que vos façam.

Para Confúcio, a conduta virtuosa em relação a si consiste em buscar desenvolver habilidades, adquirir educação, trabalhar duro, não gastar mais dinheiro que o necessário e cultivar a paciência e a perseverança. O consumo desenfreado é condenável, assim como perder a calma. A moderação é valorizada em tudo.



2.2 Aristóteles
A ética no Ocidente tem suas raízes nas idéias de Aristóteles (384-322 a.C.). Embora defendesse uma sociedade baseada na detestável instituição da escravidão, Aristóteles criou uma ética que diz respeito à virtude e ao bem estar das pessoas.
Sua ética é definida em termos de “fins do ser humano”. Os fins das pessoas são não apenas seus objetivos de curto prazo e seus projetos de vida. As pessoas têm um fim intrínseco último, que é a felicidade. A razão e a virtude são os meios para alcançar a felicidade, que é uma propriedade da alma.
A felicidade não resulta do prazer, nem da fortuna, nem do poder. A felicidade é a vida da atividade virtuosa de acordo com a razão. Uma vida direita é uma vida ativa, cheia de amigos, de participação na comunidade e ocupada com a atividade filosófica da contemplação.
Virtude é a tradução de aretê, palavra que também significa excelência. As virtudes podem e devem ser ensinadas. Há duas formas de excelência:

  • A excelência intelectual, que compreende a inteligência e o discernimento.

  • A excelência moral, que compreende a liberalidade e a moderação.

A excelência moral está relacionada com a escolha de ações e emoções. Essa escolha depende do uso da razão e do pensamento. O excesso é uma forma de erro, assim com a falta. Portanto, deve-se buscar o meio-termo. A virtude envolve o equilíbrio no comportamento, o meio entre os extremos, tal como a beleza envolve simetria e ordem. As pessoas devem esforçar-se para pôr em prática a excelência moral e intelectual pra se tornarem boas. A alma deve ser cultivada por hábitos que permitam distinguir o bem.


As virtudes específicas de que Aristóteles se ocupou são as que fazem um ser humano excelente e com quem é bom viver: coragem, temperança, senso de justiça, senso de humor, veracidade, cordialidade. A ética de Aristóteles está ligada a suas concepções políticas. Somente na comunidade social e política pode-se realizar o comportamento ideal no qual se baseia a felicidade. A felicidade individual pressupõe a felicidade da família, dos amigos e dos concidadãos. Para serem felizes, as pessoas devem ter um bom governo, capaz de formar cidadãos de bom caráter, habituados a praticar o bem.

2.3 Kant
No século XVIII, o filósofo alemão Immanuel Kant transformou a Regra de Ouro em dois imperativos categóricos, que estabelecem o comportamento ideal para a vida em sociedade:

  • Uma ação é moralmente correta para uma pessoa em determinada situação, se e somente se a razão dessa pessoa para tal é a razão que essa mesma pessoa desejaria que outras tivessem ao agir, em qualquer situação semelhante.

  • Uma ação é moralmente correta para uma pessoa se e somente se, ao agir, essa pessoa não usa outras pessoas simplesmente como meios para avançar em seus próprios interesses, e também tanto respeitem quanto desenvolva capacidades destas outras pessoas para escolher livremente por elas próprias.

Na sociedade ideal, talvez a Regra de Ouro e os imperativos de Kant fossem dispensáveis. Porém, essa complexa questão filosófica deve dar lugar à constatação de que os códigos de conduta compulsória, desde os Dez Mandamentos até o Código Penal, são realidade e necessidade bastantes práticas.



3 Evolução Ética
A idéia de que os códigos de conduta evoluem e, portanto, há códigos mais evoluídos e mais atrasados, faz parte do conceito de ética. No Velho Testamento, a recomendação é “olho por olho”. No Novo Testamento, “amai vossos inimigos”. Durante muito tempo, na Europa e em outros lugares, os condenados foram torturados e executados em praça pública, em espetáculos a que a multidão assistia como divertimentos. Na atualidade, os descendentes de pessoas que estavam nessas mesmas multidões não hesitariam em condenar essa prática. Outros exemplos:


  • Até os anos 90, vigorava na África do Sul a política do apartheid, segundo a qual a maioria negra do país tinha menos direitos que a minoria branca. O boicote internacional e os conflitos internos forçaram a obsolescência dessa política, que resultou na integração racial e democratização do país.




  • A segurança (ou insegurança) dos automóveis, para passageiros e motoristas, não fazia parte das preocupações dos projetistas até meados dos anos 60. Sofrer acidentes e danos corporais era tido como risco inerente ao automóvel, que os compradores e motoristas assumiam implicitamente. Então, em meados dos anos 60, o livro Inseguro a qualquer velocidade, do advogado americano Ralph Nader, colocou no banco dos réus um automóvel da General Motors, inaugurando a era dos cintos de segurança, air bags, lateral reforçada e outros itens de proteção pessoal. Em todo mundo, a indústria automobilística e os consumidores acostumaram-se a exigir projetos com esses itens.

Conceitos como civilização, virtude coletiva, igualdade, respeito à pessoa e direitos humanos estão intimamente ligados à mudança evolutiva dos costumes. O processo de administrar as organizações é influenciado por essa evolução. Idéias como segurança do usuário, proteção do ambiente, proteção da mulher e dos menores, e direitos iguais no local de trabalho são relativamente recentes. Certamente, a evolução dos costumes criará novos valores, com os quais os administradores do futuro deverão conviver.



4 Estágios de Desenvolvimento Moral
Em qualquer momento, valores éticos antigos convivem com os mais novos e avançados. A obediência aos valores mais avançados continua a ser opção de indivíduos e grupos, uma vez que há quem prefira ficar com os valores mais atrasados. As organizações, por meio de seus administradores, também fazem opções, permitindo situá-las numa escala de valores. Uma das escalas disponíveis propõe três níveis ou estágios de valores, chamados estágios de desenvolvimento moral:

  • Pré-convencional

  • Convencional

  • Pós-convencional

Estes são os estágios básicos, admitindo-se que essa classificação pode ter outros níveis. Portanto, cada um dos estágios a seguir é também uma escala.



4.1 Estágio pré-convencional de desenvolvimento moral
Nesse estágio, a ética é essencialmente individualista ou egoísta. Não há regras comuns aceitas, a não ser a regra de que não há regras. Os indivíduos e grupos agem muito mais motivados pela busca do prazer pessoal, ou interesse do grupo a que pertence, do que qualquer outro tipo de padrão de conduta. Nesse estágio, não há qualquer preocupação com a questão da responsabilidade das organizações ou indivíduos em relação à sociedade.
São indicativos desse estágio de desenvolvimento moral os seguintes princípios de conduta:

  • Cada um por si

  • O negócio é levar vantagem em tudo

  • Os outros que se danem

  • O mundo é dos espertos

No campo das doutrinas econômicas e da administração das empresas, esse estágio é conhecido como Darwinismo social, por causa da teoria da “seleção natural”, exposta por Darwin em seu livro de 1859, A origem das espécies. Segundo essa teoria, as formas de vida evoluem e aprimoram-se por meio de um processo natural que permite a sobrevivência apenas das espécies mais fortes, ou aptas. Portanto, a natureza representa a vitória da formas de vida mais capazes.


Depois da divulgação dessa teoria, aparecem na Inglaterra pessoas que tentaram explicar a evolução da sociedade pelo mesmo princípio. Essas pessoas ficaram conhecidas como darwinistas sociais, e sua doutrina encontrou simpatizantes em todo o mundo capitalista. Empresários que buscavam justificativa para seu comportamento egoístico encontraram nessa teoria uma explicação confortável para o que foi chamado de “capitalismo selvagem”. Se o homem era criação da natureza de Deus, seria errado interferir nas leis naturais da sobrevivência e predominância dos mais fortes e mais aptos. A sociedade, assim como a natureza, também era um campo de caça para os predadores e o território dominado pelos mais fortes. Muitos comportamentos de empresas são explicados pela adesão, ainda que temporária ou circunstancial, a este princípio predatório de conduta.
Todos os casos em que a administração e seus agentes se comportam de modo a privilegiar apenas os interesses da empresa, ou seus interesses pessoais, mostram o estágio pré-convencional de desenvolvimento moral.

4.2 Estágio convencional de desenvolvimento moral
No estágio convencional, a ética continua sendo individualista. Porém, as regras de conduta são elaboradas tendo em vista a reação das outras pessoas. O receio da punição pelo comportamento incorreto e a busca de recompensas passam a conviver com a busca da satisfação pessoal, característica do estágio anterior. As pessoas e os grupos ainda agem movidos pelo interesse pessoal, mas dentro dos limites e restrições impostos pelos interesses alheios.
No campo da administração, esse estágio corresponde às estratégias que a empresa adota por causa da regulamentação ou do interesse em atingir certos nichos de mercado. Por exemplo, os organismos financiadores internacionais (como o Banco Mundial) só concedem empréstimos para projetos de grandes obras, desde que os impactos ambientais tenham sido estimados. São conhecidos os casos de empréstimos que foram recusados por falta de proteção ao ambiente, a populações nativas ou indígenas. Assim, a empresa que se propõe levantar essas bandeiras pode estar unicamente interessada na recompensa que representa a perspectiva de obter o financiamento.
É indicativo desse estágio de desenvolvimento moral o seguinte tipo de raciocínio:

  • Se me comportar como os outros esperam que me comporte, poderei ter vantagens ou evitar retaliações.

Muito do comportamento socialmente responsável é determinado mais pela pressão social que por convicção.




4.3 Estágio pós-convencional de desenvolvimento moral
No estágio pós-convencional de desenvolvimento moral, o comportamento atingiu o mais alto nível ético. A conduta pessoal, grupal ou individual está fundamentada em princípios morais que reconhecem os direitos alheios, o impacto do comportamento sobre os outros, as gerações futuras, os exemplos para os jovens, e conceitos como justiça, honra, dignidade, auto-realização por meio do respeito para consigo e para com os outros. O comportamento por princípios e convicções, e não pelas convenções, pelo receio da punição ou pela busca de recompensas. A idéia de responsabilidade social está no centro desse estágio de desenvolvimento moral.
São indicativos desse estágio de desenvolvimento moral os seguintes raciocínios e comportamentos:

  • Minha liberdade termina onde começa a liberdade do vizinho.

  • Não concordo com nenhuma de suas palavras, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las.

  • Não há quem me obrigue a fazer algo que considere moralmente errado.

  • Não importa a opinião da maioria, mas valores universais e ideais como justiça, direito, igualdade, liberdade, fraternidade.

  • Mulheres e crianças em primeiro lugar.

  • O comandante é o último a abandonar o navio.

No estágio pós-convencional de desenvolvimento moral, o comportamento é determinado pelo idealismo moral.



5 Responsabilidade Social
Muito da discussão sobre a ética na administração tem sua origem na opinião de que as organizações têm responsabilidades sociais; elas têm a obrigação de agir no melhor interesse da sociedade. Portanto, devem pautar sua ação pelo princípio do estágio pós-convencional de desenvolvimento moral. Essa opinião representa uma ampliação da idéia da responsabilidade social dos indivíduos, idéia que, assim como toda a discussão sobre ética, é herança que a sociedade moderna recebeu da antiguidade clássica. No contexto da responsabilidade social, a ética trata essencialmente das relações entre pessoas. Se cada um deve tratar os outros como gostaria de ser tratado, o mesmo vale para as organizações. Ética, portanto, é uma questão de qualidade das relações humanas e indicador do estágio de desenvolvimento social.
Não há discussão sobre o fato de que as organizações, assim como os indivíduos, têm responsabilidades sociais, à medida que seu comportamento afeta outras pessoas e, querendo elas ou não, há pessoas e grupos dispostos a cobrar essas responsabilidades por meio do ativismo político. Da imprensa, da legislação e da atuação nos parlamentos. Porém, há duas correntes a esse respeito, cada uma delas com argumentos muito fortes.


Doutrina da responsabilidade social

Doutrina do interesse do acionista

  • As organizações são instituições que usam recursos da sociedade.

  • Portanto, têm responsabilidade com a sociedade.

  • O papel da empresa é aumentar a riqueza da sociedade.

  • As organizações são responsáveis perante seus acionistas apenas.

  • O objetivo é maximizar o lucro do acionista.

  • A responsabilidade pelos problemas da sociedade é do governo e dos cidadãos.



6 As empresas e o Terceiro Setor
Diante da incompetência do Estado e do Governo, pessoas, comunidades e organizações passaram a organizar-se na busca de soluções para os problemas sociais. As organizações e entidades sem fins lucrativos tornaram-se os principais agentes de solução de problemas. O papel dessas organizações não governamentais (ONGs), também chamadas entidades do terceiro setor, tornou-se mais importante à medida que os problemas sociais se agravaram e o Estado tornou-se insuficiente para resolvê-los. São exemplos de ONGs ou entidades do Terceiro Setor:

  • Instituições de caridade, como as Casas André Luiz, a Cruz Vermelha e a Médicos sem Fronteiras.

  • Associações de desenvolvimento comunitário, como a Cooperativa das costureiras da Rocinha (RJ), e as Sociedades Amigos de Bairros.

  • Associações de proteção do meio ambiente, como a Fundação SOS Mata Atlântica.

  • Grupos de interesses específicos, como a AACD e a Rede Feminina de Combate ao Câncer.

  • Entidades que promovem o associativismo e a prestação de serviços, como os Escoteiros e o Rotary Club.

  • Fundações com atividades assistencialistas ou educacionais.


Referência Bibliografia

MAXIMIANO, Antonio César Amaru. Introdução à administração. Edição compacta. São Paulo: Atlas, 2006, p. 272-288.







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