Ética geral e profissional



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ÉTICA GERAL E PROFISSIONAL

MÓDULO 8


Índice


1. Ética Profissional 3

1.1 As origens da ética profissional 4




1. Ética Profissional


Se entendermos ética como a conduta do ser humano em sua comunidade e em sua classe profissional, uma reflexão mesmo que superficial, pode nos levar a ponderar que um tipo de conduta nem sempre tem o mesmo valor social nos diferentes tempos históricos.

Algumas normas de conduta desaparecem, uma vez que o conhecimento científico nos convence de que tal atitude, longe de proteger o tecido social, pode levar ao esfacelamento da sociedade. Isso porque a ética não é imutável. Sendo racional por excelência, tudo que a ciência nos prova como erro altera nossa maneira de pensar uma determinada atitude. Por exemplo, até a segunda guerra o valor “coragem” era entendido como a capacidade do homem de matar em defesa de seu país ou nação. A tolerância era vista como fraqueza e falta de honra, tanto que qualquer ofensa era motivo para duelo entre dois homens.

Hoje, não só se alterou o sentido, como coragem tornou-se um valor também feminino. Coragem hoje é a luta metafórica. É buscar agir de acordo com o coração, para pôr em prática projetos pessoais, independentemente do que outras pessoas pensem. É ir além dos limites físicos e psicológicos para promover o bem. E a Tolerância (assim mesmo com letra maiúscula) é para muitos filósofos a virtude ética fundamental, num período histórico em que pessoas das mais diversas etnias, culturas e religiões devem (imperativo ético) cooperar entre si, para defender a vida de nosso maior bem comum: o planeta Terra.

Como é sabido, o Brasil faz parte do que se convencionou chamar civilização ocidental. No ocidente, as ações consideradas éticas são dirigidas por valores construídos durante o processo civilizatório. Tal processo inclui desde o decálogo mosaico, passando pelas inovações cristãs de caridade, solidariedade, igualdade e fraternidade, até as contribuições do pensamento humanista cuja ideia de moral se funda na razão, e, portanto, o agir ético é buscar a ação desinteressada, a universalidade de valores e os homens como portadores de história e de dignidade.

Assim, construiu-se no ocidente capitalista e liberal a convicção de que cada pessoa é portadora em sua humanidade de todo o universo civilizatório, sendo insubstituível e livre, mesmo quando suas ações são contrárias às leis e aos costumes. Foram essas reflexões que permitiram ao Ocidente a promoção de constituições de direito pleno e de órgãos internacionais e nacionais de defesa dos direitos da pessoa humana, denunciando internacionalmente as nações, instituições e pessoas que os desrespeitam. Por exemplo: Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana - ONU, 1948.

Uma pessoa ética não só deve pautar seu comportamento dentro de normas de conduta consideradas civilizadas, mas estar sempre em busca de uma reflexão teórica que analisa, critica ou legitima os fundamentos e princípios que regem um determinado sistema moral. Não é raro na história o surgimento de filósofos ou profetas que propõem um sistema ético criticando a moral vigente e propondo uma revolução nos valores e normas estabelecidos na sociedade. Sócrates, por exemplo, questionou, com sua filosofia, os valores da democracia ateniense; Jesus, com sua prática e ensinamentos, criticou profundamente a moral judaica do seu tempo; os filósofos iluministas e os reformadores protestantes demonstraram que a sociedade cristã, nos séculos XVI e XVII, havia se afastado dos valores morais cristãos.

Na verdade, a experiência ética fundamental para os dias de hoje é justamente essa sensação de “estranhamento” frente à realidade. É uma capacidade que vem da reflexão sistemática e metódica sobre o que é o bem comum e que nos faz perceber que algo está fora da normalidade, isto é, o modo como funciona a sociedade ou até mesmo o modo de ser e agir de outrem não têm coerência com aquilo que a ética nos ensina como modo de vida que produza o bem comum.

Se antes essa experiência ética fundamental ocorria a cada milênio ou séculos, hoje, devido à velocidade de tudo, ela é uma constante, sobretudo na esfera profissional; portanto, ser ético hoje é mais do que nunca estar refletindo entre o que eu devo fazer e como eu devo agir em tal situação, quando tenho que escolher entre meu desejo e o meu dever, entre um bem comum e o bem de alguns. Essa situação de escolha é o dilema ético, companheiro constante de um profissional no mundo pós-moderno.


1.1 As origens da ética profissional


A experiência ética fundamental para os protestantes puritanos nos séc. XVI e XVII inaugura a ética profissional moderna. Eles perceberam que a práxis dos cristãos, nessa época, era bem diferente daquilo que a Bíblia pregava. Naquele tempo, devido ao poder político da Igreja Católica, moral confundia-se com religião e com ética. Isso foi provado por Weber em seu livro A ética protestante e o espírito do capitalismo (1996). Diz ele que o que denominamos ‘vocação’, ou seja, o sentimento de amor e realização em algum tipo de trabalho, é que nos leva a um plano de vida; nem os povos predominantemente católicos, nem a Antiguidade Clássica conheceram um termo equivalente.

Os protestantes, nesse período, e só eles ao longo da História, ao traduzir a Bíblia, alteraram o sentido da palavra para justificar a nova mentalidade burguesa. Na Bíblia, a palavra vocação significava um chamamento, uma ordem divina para sair do mundo e dedicar a vida a Deus em conventos e monastérios. Devido à mentalidade – de reforma da religião cristã – do tradutor, ela passa a ser interpretada como chamamento divino, para agir no mundo e transformá-lo para a glória de Deus; construir o reino de Deus no mundo, por meio do trabalho.

Desse modo, a palavra vocação ganha um novo sentido, o sentido que damos a ela até hoje, e o valor que até então era dado ao trabalho é alterado. O trabalho deixa de ser uma punição para se tornar (até hoje o vemos assim) uma salvação e um projeto coletivo de promoção do bem comum e da felicidade geral. Portanto, essa mentalidade que resultará no espírito do capitalismo é produto da Reforma Religiosa Protesta nte.

Também é produto da Reforma a valorização do cumprimento do dever nas profissões, ao se fazer o trabalho da forma mais perfeita possível, como se o labor cotidiano demonstrasse a presença divina na execução das tarefas; e mais, como se todo o trabalho fosse feito para o próprio Deus. Como acreditavam que a qualquer momento o Cristo encarnado poderia voltar para julgar os seres humanos de acordo com sua conduta, era imprescindível que o crente estivesse sempre trabalhando segundo uma disciplina rígida.

Os valores de disciplina ascética, poupança, austeridade e dever foram incorporados ao mundo do trabalho, relacionando-se assim o conceito de competência à ética profissional do mundo capitalista até os dias atuais. Quando Kant escreveu Crítica da razão prática, em 1788, em que desenvolve sua reflexão sobre o desinteresse e a universalidade como pilares da moral para construir sua noção de dever. Tais valores já eram praticados na vida cotidiana dos protestantes puritanos.

Os textos orientam as diversas práticas profissionais, quando definem profissão como “trabalho que se pratica com habitualidade a serviço de terceiros” ou quando reforçam que a profissão além da utilidade para o indivíduo é uma rara expressão social e moral; ou, ainda, considerando-a alta expressão de humanidade. A profissão permite ao indivíduo ao mesmo tempo status social e realização plena.Pormeiodaprofissãoprovamosnossacapacidade,habilidade, sabedoria e inteligência. Ela treina nossa personalidade para vencer os obstáculos, entre eles o domínio de nossos desejos e paixões. Na verdade, tais textos desenvolvem um raciocínio de acordo com a ética kantiana: liberdade, virtude da ação desinteressada (boa vontade) e preocupação com o interesse geral definem as modernas morais do dever.



Como vimos acima, essa ideia do dever gerou de maneira indelével na cultura ocidental a ideia do mérito, pois só as pessoas são capazes de compreender a importância do dever. Se a alguém consegue vencer seus interesses privados e praticar ações que levem ao interesse comum, ela se supervaloriza, ela se torna competente. A competência, sobretudo a profissional, é um valor fundamental da ética profissional na civilização ocidental.



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