Timor leste construindo o futuro



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UNIVERSIDADE DO RIO DE JANEIRO - UNIRIO

ALFABETIZAÇÃO SOLIDÁRIA – PAS

AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO – ABC

RESULTADOS DO PROGRAMA DE EXPANSÃO FASE II



TIMOR LESTE CONSTRUINDO O FUTURO

ÁREA TEMÁTICA: FORMAÇÃO PROFISSIONAL E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

AUTORA: ANTÔNIA BARBOSA PÍNCANO

INSTITUIÇÃO: UNIVERSIDADE DO RIO DE JANEIRO – UNIRIO

RECURSO A SER UTILIZADO: RETROPROJETOR – DATA SHOW

ENDEREÇO: Rua João Afonso, 49 apartamento 906. Humaitá – RJ

CEP 22261-40

Tel.: XX 21 535-1647 CEL. 9337-7388

e-mail: tuca@openlink.com.br

tucapinc@hotmail.com

tunica@unirio.br

UNIVERSIDADE DO RIO DE JANEIRO - UNIRIO

ALFABETIZAÇÃO SOLIDÁRIA – PAS

AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO - ABC

RESULTADOS DO PROGRAMA DE EXPANSÃO FASE II

TIMOR LESTE CONSTRUINDO O FUTURO

RESUMO
O trabalho apresenta dados finais do Programa Alfabetização Comunitária e da Agência Brasileira de Cooperação - ABC desenvolvido, no Timor Leste, em parceria, na segunda fase, com cinco Universidades: Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO), do Rio, RJ, Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) Montes Claros, MG, Universidade Mackenzie (MACKENZIE) São Paulo, SP, Universidade Santa Cecília (UNISANTA), de Santos, SP, Faculdade Interlagos (FINTEC), São Paulo, SP. Os dados contidos neste relatório correspondem às seguintes etapas: a) Primeira etapa – agosto de 2001 - Curso de formação inicial de professores educadores de pessoas adultas, para o desenvolvimentos das ações educativas, envolvendo 157 participantes, oriundos dos treze distritos de Timor Leste, a saber: Aileu, Ainaro, Baucau, Bobonaro, Cova Lima, Dili, Ermera, Lautem, Liquiça, Manatuto, Manufahi, Oe-Cussi, Viqueque; Segunda etapa – viagens(missões) de formação continuada e acompanhamento do trabalho dos professores educadores, monitores pedagógicos, coordenadores, equipe de educação não-formal; Terceira etapa – novembro/dezembro de 2002 – Avaliação final evidenciando-se observar o aluno como leitor e produtor de textos. Assim este estudo se propõe a uma reflexão orientada por dois caminhos: Um deles se destina a compreender quais as estratégias e as possíveis leituras o professor timorense realiza. Quem são estes professores na condição de leitores e escritores? Que modelos de textos são esperados e poderão ser produzidos por eles? O outro caminho se destina a focalizar o aluno e a examinar as práticas de letramento orais e escritas em que está inserido, tanto no que se refere às atividades realizadas em sala de aula como fora dela.

ALFABETIZAÇÃO SOLIDÁRIA – PAS

AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO - ABC

RESULTADOS DO PROGRAMA DE EXPANSÃO FASE II

TIMOR# LESTE CONSTRUINDO O FUTURO

INTRODUÇÃO


Trata-se de uma investigação de caráter “exploratório” que envolve professores que atuam em classes de educação de pessoas adultas em Timor Leste, na Ásia. Estes professores são cidadãos timorenses que residem em Dili, capital do país, e nos doze distritos que compõem a nação Timor Loro Sa’e, a saber: Aileu, Ainaro, Baucau, Bobonaro, Covalima, Ermera, Liquiça, Lospalos, Manatuto, Manufahi, Oe-cussi, Viqueque.. A primeira fase do Projeto teve seu início em outubro de 2000 e se completou em início de agosto de 2001. O trabalho se desenvolveu em onze salas de aulas localizadas em comunidades situadas na parte central da capital e em arredores. A segunda fase iniciou-se em agosto de 2001e se desenvolveu com 130 salas de aula, em comunidades localizadas no interior do país, completando –se em dezembro de 2002
Segundo dados da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) - Ministério das Relações Exteriores, estima-se que 47% da população timorense é analfabeta1 em língua portuguesa; dentre estes 64% são mulheres. Dili, a capital, possui taxa de analfabetismo de 26% predominante entre pessoas com idade acima de 25 anos.
O programa objetivou alcançar primordialmente pessoas a cuja faixa etária varia entre 25 a 50 anos2. Os jovens e as crianças freqüentam cursos regulares, onde lhes é ensinado o Português, além do Tétum e o Indonésio.
A decisão de reaprender a língua portuguesa é manifestada com transparência pela população com idade superior a 25 anos. Há uma procura crescente pelas salas de aula onde ocorrem os cursos de alfabetização.
A afirmação do ex-Presidente do Conselho Nacional de Resistência Timorense (CNRT) e primeiro presidente da República Democrática de Timor Leste, Xanana Gusmão é que a experiência com a língua portuguesa, internalizada pelos cidadãos/cidadãs timorenses até 1975 e reprimida brutalmente até 1999, pode ser resgatada pois, durante vinte e quatro anos de ocupação indonésia, essa língua foi, e tem sido utilizada como sinal de resistência e de luta pela liberdade. Cabe lembrar que o português era falado pelas famílias, em casa, em momentos estreitamente ligados por afeição e confiança. Os timorenses usavam a língua portuguesa como forma de defesa e de força contra a opressão indonésia.
Nesse sentido pode-se entender porque o Presidente Xanana Gusmão enfatiza: “Tendo em mente nossa história, nós devemos fortalecer a nossa língua materna, o tétum, disseminar e aperfeiçoar o domínio da língua portuguesa e manter o ensino da língua indonésia”.
Para compreendermos em que contexto se inserem os professores educadores de pessoas adultas3 e os alunos envolvidos4 no Programa Alfabetização Comunitária , consideramos relevante destacar alguns elementos sobre Dili – capital de Timor Leste – onde se realizou o Curso de Formação Básica dos Educadores.
A cidade de Dili possui cerca de 145 mil habitantes, em sua maioria centralizados em área urbana, morando em habitações populares reconstruídas em precárias condições. Trata-se de uma cidade de aspecto mediterrâneo, situada ao redor do porto natural; possui muitos prédios novos, uma vez que sofreu intensa destruição, não somente durante a segunda guerra mundial, mas com o massacre ocorrido em 07 de dezembro de 1975, data da invasão indonésia.
O fornecimento de luz elétrica é precário e irregular o suprimento de água. Não há serviço público de coleta de lixo. Não há sinais luminosos nem postes de iluminação pública. O aspecto geral da cidade revela que foi vítima de uma tragédia recente.
Uma importante característica de Dili tem sido acolher cidadãos timorenses migrantes, oriundos dos treze distritos do território. Um dos motivos para a saída da população dos seus distritos de origem, para a capital, se deve à busca de melhores condições de subsistência (educação, saúde, trabalho).

I – NOS CAMINHOS DA LEITURA


Este trabalho se propõe a uma reflexão orientada por dois caminhos: Um deles , se destina a compreender quais as estratégias e as possíveis leituras que o professor timorense realiza. Quem são estes professores na condição de leitores e escritores? Em que momentos esses professores lêem e escrevem com prazer? Que modelos de textos são esperados e poderão ser produzidos por eles? Qual o significado destes textos nas práticas de leitura e escrita do dia-a-dia? O outro caminho se destina a focalizar o aluno e a examinar as práticas de letramento, orais e escritas em que está inserido, tanto no que refere às atividades realizadas em sala de aula como fora dela.
Cumpre destacar que os professores envolvidos no Projeto Piloto Fase I e no Programa de Expansão – Fase II , além de mostrarem considerável aspiração pela profissão de educador revelam um compromisso de foro íntimo - vontade política - de resgatar a língua portuguesa que também é um dos instrumentos da resistência timorense. Ou seja, em Timor, parece que a leitura e escrita são estudadas, de forma concomitante, com fins sociais e políticos além de serem a busca de domínio de habilidades individuais.
...”O povo de Timor tinha [e tem] perfeita consciência da sua individualidade histórica e cultural e se assumia [e se assume] como um povo e não como um apêndice de um outro povo... (Tomás L.F.2000:25)
A continuidade do Programa de Educação de Pessoas Adultas se deu em agosto de 2001. Desde então, estamos acompanhando o trabalho através de encontros bimestrais, cuja duração média é de 10 dias.
A apresentação que ora fazemos apoia-se nos resultados do trabalho realizado no período de 2001 /2002, que constou da realização de Curso de Formação de Professores Educadores de pessoas adultas5 , e no desenvolvimento das aulas, implementadas em 130 salas, dispostas em diferentes locais, respondendo aos anseios das populações dos distritos timorenses, desejosas de resgatar a língua portuguesa.

Além dos dados obtidos pela observação direta às salas de aula, através de encontros bimestrais naquele país, analisamos também as observações registradas nos diários de campo dos professores, assim como outra importante fonte de exploração – o material dos alunos6.


Nosso objetivo nessa fase foi analisar como os textos em língua portuguesa são elaborados e trabalhados pelos professores, em sala de aula, com alunos adultos, de mais de 25 anos, falantes de língua portuguesa.
A experiência que temos vivenciado, com freqüência, em salas de aulas brasileiras, é aquela em que os professores deixam-se conduzir pelos manuais de livros didáticos e suas práticas de leitura e escrita tornam-se fatigantes, insatisfatórias, massificadoras e escravizantes. Como já afirmava Geraldi J.W (1984:121):
“...Na escola não se produzem textos em que o sujeito diz sua palavra, mas simula-se o uso da modalidade escrita, preparando-se para de fato usá-la no futuro. É ...a preparação para a vida, encarando-a hoje como a não-vida.”
Para romper e transformar gradativamente com tais práticas, elaboramos um roteiro de questões, buscando identificar, inicialmente, alguns traços sociológicos dos professores educadores, a cerca dos seguintes elementos: dados pessoais; modos de vida; contexto sócio-cultural, lingüístico e econômico; formação escolar; experiências de trabalho; experiências advindas do processo de alfabetização. O contato para colher estes dados foi feito através de entrevista individual.

O material dos alunos7 tem sido fundamental para o desenvolvimento da pesquisa. Trabalhamos com o seguinte critério de seleção: aqueles cadernos em que a constância e a regularidade possam ser observadas, comparando-se com o calendário escolar organizado pelo grupo de professores, no início das aulas.

Em relação aos dados coletados dos professores, estes traduzem-se em textos produzidos para o desenvolvimento das aulas. Tais textos foram elaborados por professores e discutidos coletivamente, visando também a possibilidade de criação de um material a ser publicado para a utilização na continuidade do trabalho nas 130 salas de aula dos 13 distritos. Os aspectos observados foram:



  • Os temas escolhidos;

  • Os tipos de textos produzidos;

  • Os temas trabalhados;

  • Os textos produzidos pelos alunos;

  • Os aspectos gramaticais trabalhados;

  • As atividades utilizadas em relação aos conteúdos;

  • O material didático de consulta

As classes de alfabetização estão situadas em sucos8 onde existem prédios escolares com precárias condições de instalação e de materiais. Tais classes funcionam com 20 alunos, em média, e os sujeitos interessados na alfabetização, são cidadãos e cidadãs leste – timorenses, falantes da língua portuguesa, internalizada há 25 anos atrás, antes da ocupação indonésia.


Assim sendo, como esses alunos são falantes de português, podem conversar, ouvir, discutir e entender o que estão falando, embora não saibam fazer decifrações9 . Muitos alunos foram alfabetizados em bahasa indonésia (língua oficial da Indonésia) e sabem fazer distinções entre o sistema da escrita em português e o sistema da escrita em bahasa indonésia.

II – UM POUCO DE HISTÓRIA

Cumpre notar que os leste – timorenses convivem há séculos com os portugueses. Segundo Pires M. L. (1991:19): “ Não foi possível, até hoje, fixar a data nem o autor da descoberta. Timor terá sido citado pela primeira vez em 06 de janeiro de 1514... É geralmente aceite que o descobrimento de Timor, pelos portugueses se efectuou entre 1521 e 1520.”
A bibliografia pesquisada sobre Timor Leste e as observações colhidas através dos professores revelam que, a convivência prolongada com a administração de Portugal e a evangelização católica, teve grande influência no povo leste – timorense. No momento em que a administração portuguesa afastou-se de Timor a Igreja Católica tornou-se o único ponto de apoio e de esperança, frente ao imenso desespero e ameaças constantes conduzidas pelas forças de ocupação. Nesse sentido, Lima, F (2002:293) ilustra com transparência: “ Abandonado por muitos de quem esperava apoio, o povo timorense não podia ser deixado à sua sorte enquanto fosse permitido à Igreja estar no terreno.”

Antes da ocupação indonésia de 07 de dezembro de 1975, o tétum, língua nacional de Timor Leste, era a língua usada nas situações da vida cotidiana (voltada para agricultura e atividades artesanais) e a língua portuguesa era empregada quando se precisava da escrita para atividades com finalidades culturais e administrativas. Os leste – timorenses usavam-na para resolver situações sociais e comunicativas diversas.


Segundo Costa L. (2000:7):

“ ... apesar de duas línguas distantes do ponto de vista tipológico e geográfico... [há] grande número de palavras que, do português, entraram em tétum, como por exemplo, as formas de saudação bom dia, bo tardi, bo noite, ou para continuar a citar apenas exemplos da letra B, bandera, bandeza, bandu, banku, baranda, bola, bonba, bonbeiru, bontadi, etc.”

Após a ocupação, a política adotada foi a de destimorização – especificamente com a imposição do idioma bahasa indonésia, assim como na perseguição do uso do tétum e do português. Tal perseguição imprimiu marcas psicológicas aos professores alfabetizadores talvez inesquecíveis porque foram intensamente castigados, pelo governo indonésio, por serem formados no sistema colonial português.
Cabe destacar que o corpo de professores do Programa Alfabetização Comunitária em Timor Leste se compõe de:
Professores intitulados como professores do posto escolar;

 professores intitulados professores catequistas;

 alfabetizadores com a 4ª classe ( escolaridade básica correspondente a 8ª série do sistema educacional brasileiro).
Os professores do posto escolar são aqueles que estudaram no colégio das freiras canossianas até a 4ª classe e, a seguir, fizeram um curso de 04 anos para formarem-se como professores dos postos escolares. Tal formação autorizava este profissional a lecionar o “ABC” e a “CARTILHA” até a 4ª classe.
Os professores que ensinavam no posto escolar tinham o seu dia dividido em duas partes:

De 8:00h as 12:00h - atividades em aula;

De 13:00H as 15:00h - atividades práticas (trabalho em viveiros, hortas, etc.)
Os professores catequistas além da função de educador tinham uma importância especial que era a de auxiliar na cristianização. Tais professores eram escolhidos pelo Vigário Geral. O professor (a) – catequista também realizava as funções de catequese, ou seja, ensinava ao povo a doutrina católica, orientava a oração do terço e tomava conta da igreja.
Os alfabetizadores com a 4ª classe interromperam os estudos no curso de formação de professores devido ao golpe de 1975, quando tiveram que fugir para as montanhas leste – timorenses.

III – CONSTRUINDO O PRESENTE, RESGATANDO O PASSADO

No início deste trabalho destacamos dois caminhos escolhidos e um deles se destinaria a compreender quem são os professores na condição de leitores e escritores. Nesse sentido, durante a realização do curso de formação de professores educadores de pessoas adultas, percebemos a dificuldade destes para trabalhar a linguagem de forma dinâmica e, como sugere Morin (1999): “...com uma dialética que não recusa a contradição e assume o paradoxo de que duas idéias possam estar certas ao mesmo tempo.” As preocupações destes professores se revelavam em questões do tipo “os métodos de alfabetização” as formas de “memorizar as atividades”. Pareciam valorizar a linguagem escrita mais do que a linguagem oral. Assim argumenta uma professora do grupo:
“ ...A escrita deixa claro que o sujeito sabe escrever com um pensamento como aqueles dos livros e não pode ter erros. Os erros na escrita não fazem bem para a cultura do povo timorense.”

Outros professores queriam trabalhar com cartilhas e para estes, não seguir métodos de alfabetização parecia ser uma tarefa impossível.


Em diversos momentos da realização do curso os professores perguntavam: “ Qual é o livro que vamos seguir?” “Quantos livros didáticos teremos?” “ Haverá um manual para o professor?” “ Haverá um método rápido para os alunos aprenderem?”
Nesse sentido Cagliari (1998:98) quando discute a questão das cartilhas destaca:
“A homogeneização das cartilhas destrói as iniciativas individuais partindo do princípio de que educar é fazer com que todo mundo saia da escola exatamente com a mesma cara.”

Este debate sobre o processo de ensino e aprendizagem que escolheríamos gerou grande polêmica. Depois de muito hesitarmos o grupo concordou que uma solução interessante seria já conhecida de todos, ou seja, escolher temas e textos que incentivassem os alunos a conversarem e expressarem suas opiniões.


Como argumenta Possenti (1998:16):


“ No domínio do ensino da língua materna... não se façam experiências... se o experimento fracassa, não se desperdiçam amostras de materiais, mas pedaços de vidas, partes de projetos dos alunos, às vezes vidas e projetos inteiros.”

A partir destas reflexões coletivas conduzimos nossa preocupações para a elaboração de alguns critérios que pudessem nortear as escolhas de temas e textos. Por exemplo decidimos que os textos deveriam:




  • Abordar a realidade do povo leste – timorense;

  • Favorecer o debate e a discussão democrática em que diferentes opiniões possam ser analisadas e respeitadas;

  • Despertar para a reflexão, a curiosidade, a pesquisa, a leitura;

  • Valorizar a organização de grupos para a realização de manifestações coletivas como: trabalhos de equipe, movimentos populares culturais ou reivindicatórios;

  • Enfatizar a causa dos acontecimentos, mostrando sua história ao longo do tempo;

  • Valorizar a mulher pelo seu papel importante na força produtiva e por sua atuação ativa na sociedade;

  • Contribuir para desenvolver a criatividade, o espírito crítico possibilitando a apropriação de novos conhecimentos.

A opção política escolhida pelo grupo, para articular as atividades da sala de aula e a produção de textos, foi aquela em que os falantes são os sujeitos. Nesse sentido Geraldi (2001;42) destaca:

“Estudar a língua é, então tentar detectar os compromissos que se criam por meio da fala e as condições que devem ser preenchidas por um falante para falar de certa forma, em determinada situação concreta de interação.”

Com esta linha de reflexão os textos escritos pelos professores foram produzidos pensando-se nos usos sociais, na história da cultura do povo leste – timorense.


Foram usados materiais bibliográficos pesquisados através de estudiosos de Portugal e publicação brasileira, sobre Timor, já que as bibliotecas públicas existentes naquele país ainda encontram-se em fase de organização.
Dos temas selecionados pelos professores – chamados de temas irradiadores de debates – produziram-se textos visando o ensino da leitura e da escrita, priorizando-se a leitura. No que se refere ao ensino da escrita, ficou decidido que esta seria ensinada em decorrência da leitura

“ Os ‘textos’, as ‘palavras’, as ‘letras’ daquele contexto se [encarnam] no canto dos pássaros...na dança das copas das árvores sopradas por fortes ventanias que [anunciam] tempestades, trovões, relâmpagos; as águas da chuva brincando de geografia: inventando lagos, ilhas, rios, riachos. Os ‘textos’, as ‘palavras’, as ‘letras’ daquele contexto se [encarnam] também no assobio do vento, nas nuvens do céu, nas suas cores, nos seus movimentos; na cor das folhagens, na casca dos frutos.”(Freire P. 1984:13)


Cita-se a seguir alguns temas escolhidos por todo o grupo que serviriam para incentivar as conversas e os debates:


  • A vida em Timor

  • O povo de Timor

  • A luta do povo de Timor

  • O mapa de Timor

  • A saúde do povo de Timor

  • A culinária de Timor

  • As ervas medicinais de Timor

  • As canções do povo de Timor

  • O passado do povo de Timor

  • A rede de Timor

  • O café de Timor

  • A arte do povo de Timor

  • A riqueza do povo de Timor

  • A chuva e a enchente em Timor

  • A casa da gente de Timor

  • A constituição de Timor

  • As formas de comunicação em Timor

  • Os mitos de Timor

  • Os ritos de Timor

  • O caminho da nação Timor Loro Sa’e

IV – O QUE ELES NOS DÃO PARA LER


Durante o processo de formação dos professores – tanto na Fase I como na Fase II quanto nos encontros bimestrais - , nosso objetivo era (e é) o de que os professores escrevessem textos de gêneros diversos e, na medida em que fossem ampliando esta forma de comunicação teriam a possibilidade de criar novas oportunidades de escrita para seus alunos.
“...uma professora... uma vez transformada em usuária da escrita [poderá] avaliar e repensar suas atividades de ensino dessa modalidade, criando situações para que os jovens e adultos não-alfabetizados [venham] à escrita.”

(Kleiman,2000:29)

Assim, na medida em que os professores trabalhavam na produção de textos, descobrimos que a narrativa demonstrou ter lugar de destaque na criação de contos, histórias, saberes populares, conhecimentos - heranças culturais do povo timorense.

Cumpre enfatizar que contar histórias e organizar reuniões para ouvir histórias era um costume outrora muito valorizado. O povo maubere10, especialmente através dos cidadãos velhos – as memórias do povo –, contavam e ouviam histórias sobre sua cultura e seu cotidiano.


Assim o conto, a história, as memórias, se constituem em fontes de aprendizagem e visam provocar reflexões através de sentimentos de ternura, indignação, espanto.

Como aponta Micheletti (2000:65):

“Contar histórias é uma atitude que nos vem dos primórdios da humanidade....contar histórias e ouvi-las era uma forma de ensinar e aprender. O narrador era alguém mais velho que transmitia o seu saber aos mais jovens.”

1 - O texto a seguir apresentado, das professoras M. e M., relata uma das riquezas de Timor que é a quantidade de línguas que possui, oriundas de diferentes ramos lingüísticos.


A ORIGEM E AS LÍNGUAS DE TIMOR


A POPULAÇÃO TIMORENSE É DE ORIGEM MALAIA11, PAPUA12 E MACÁCERES13. ESTA POPULAÇÃO POSSUI MODOS DE EXPRESSAR SUAS IDÉIAS. POR EXEMPLO:
EM DILI, SUAI, VIQUEQUE SE FALA TETUN;

EM DILI, MANATUTO, LACLUBAR SE FALA GALOLEN;

EM DILI, AILEU, ERMERA, SAME SE FALA MAMBAE;

EM LIQUIÇA SE FALA TOKODEDE;

EM BOBONARO SE FALA BUNAR E KEMAK;

EM BAUCAU, VIQUEQUE, SE FALA MACASSAE, NAUETI, WAIMUA E TETUM TERIK;

EM OE-CUSSE SE FALA BAIQUENO;

EM LAUTEM SE FALA DAGADA OU FATALUKU.


HÁ MUITOS QUE FALAM A BAHASA INDONÉSIA PORQUE DURANTE VINTE E QUATRO ANOS DE OCUPAÇÃO ESTUDARAM EM JACARTA.
ENTRETANTO O POVO QUER FALAR PORTUGUÊS COMO FORMA DE ULTRAPASSAREM AS DIVISÕES LINGÜÍSTICAS QUE JÁ EXISTEM E NÃO FACILITAM A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO PAÍS.

A LÍNGUA PORTUGUESA É UMA DAS MAIS IMPORTANTES ARMAS PACÍFICAS RESISTÊNCIA TIMORENSE

Segundo Marcos A.(1995:92):

“estimativas de 1974, para um número indicativo de população que se aproximava dos 700.000 habitantes, entre 35.000 e 70.000 leste – timorenses saberiam falar e escrever português; supõe que entre 100.000 e 140.000 pessoas entenderiam e falariam o português.”

O português assemelha-se a um “símbolo psicológico” e os professores o descrevem como a língua que revela traços individualizados da história de Timor e essencialmente porque oferece possibilidade de contraste com as línguas dos países vizinhos – a Indonésia e a Austrália – países balizados por fronteiras terrestres e/ou marítimas –.

2 - No texto, a seguir, das Professoras L. e R. pode-se depreender que conhecem, de certa forma, a política de migração entre as 13 ilhas.

A TERRA DO POVO DE TIMOR

TIMOR LESTE CONTINUARÁ SEMPRE A TER COMO VIZINHO UM DOS PAÍSES MAIS POPULOSOS DO MUNDO, COM UM EXÉRCITO FORTE E UMA POPULAÇÃO QUE SE ESPALHA POR TREZE ILHAS.


É PRECISO FORTALECER A PAZ PARA CONVIVER AMISTOSAMENTE COM NOSSOS VIZINHOS PARA QUE NÃO TENHAMOS QUE FUGIR DE NOVO PARA MONTANHA.

Alguns professores e professoras, por exemplo, são casados(as) com indonésios e possuem muitos filhos maubere.


Nesse sentido o prof. Luiz Felipe Cintra, em comunicado apresentado no Congresso Internacional da Língua Portuguesa, em Lisboa no mês de setembro de 1992, faz a seguinte afirmação:
“ Não é casual que nos destinos destas migrações, em especial de javaneses, estejam os territórios com evidentes manifestações de rebelião, como sejam Samatra e Timor Leste. No caso deste último sabemos que determinados naturais são afastados para outras ilhas do arquipélago. Inclusivamente haverá casos de que se fala muito pouco e cuja freqüência se desconhece, de militares indonésios que, finda as comissões na ilha roubam crianças do pais leste – timorense. Promover o desequilíbrio entre grupos populacionais é um instrumento do estado.”

Na bibliografia estudada sobre Timor Lorosa’e – a Nação do Sol Nascente – e através de dados colhidos, nesta fase do programa, pode-se identificar com clareza que, a dominação dos invasores ocorreu também no sistema escolar. Tal sistema foi obrigatoriamente uniformizado para falar e escrever a língua bahasa indonésia; assim, as línguas locais, incluindo-se nelas a língua portuguesa, foram brutalmente reprimidas.

3 - Veja-se a propósito o texto dos professores A e F:

O CAMINHO DA NAÇÃO TIMOR LORO´SAE


OS TIMORENSES QUEREM MANTER VIVA A SUA FÉ QUE, DURANTE VINTE E QUATRO ANOS DE OCUPAÇÃO, FOI E CONTINUA SENDO UM DOS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS DE RESISTÊNCIA, JUNTAMENTE COM A LÍNGUA PORTUGUESA.

O discurso dos professores revela ainda hoje que os cidadãos tem medo de falar português pois isto pode significar que são identificados com as guerrilhas, são contrários ao anexionismo e portanto identificados com a independência política14 de Timor.

4 - O texto “A Vida do Povo de Timor”, das professoras C e J reflete a compreensão delas sobre uma sociedade que, não possuindo a convivência com a escrita, contava com a riqueza da memória viva de sua cultura, que eram os velhos e todos, repentinamente, foram mortos.

A VIDA DO POVO DE TIMOR


NÃO É FÁCIL APAGAR A LEMBRANÇA DE CRIANÇAS, DE VELHOS E DE MULHERES A CHORAREM E A FUGIREM PARA AS MONTANHAS.

TODOS ERAM LEVADOS POR INIMIGOS PARA CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO, LONGE DAS SUAS CASAS, SEM NADA NAS MÃOS, SEM ROUPAS, SEM ALIMENTOS, SEM OBECTOS PESSOAIS, SEM ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO.

Como fazer para reconstruir os ritos e mitos que eram regulados e oficiados por aqueles que eram as figuras indicadoras da cultura?
Matar os sabedores das tradições, foi também para os timorenses destruir os referenciais psicológicos sagrados, representativos de sua cultura.

“ A Nação Maubere se encontra não só perante um genocídio físico mas também cultural, na medida em que os ocupantes forçaram ao abandono dos locais tradicionais de habitação e culto, tentando assim romper a cadeia humana constituída por uma comunidade de vivos, ligada aos seus antepassados, e também, na medida em que, tem tentado proibir o uso do tétum e do português, operando assim um corte profundo entre um passado... sem cadeias e um presente que os nega na sua identidade nacional. (Suplemento ao Jornal Lisboa Acadêmica, apud Marcos A. 1995:16)


5- O texto escolhido pelos profs .L.M. e N.G. assinala a importância dos mitos na cultura timorense.

O búfalo, o crocodilo e o macaco

Um búfalo tinha uma horta onde criava galinhas e cabras. Notou que lhe roubavam, de noite a criação. Pôs-se à espreita atrás dum gondoeiro. Descobriu que o larápio era um crocodilo. Investiu contra ele, quando o apanhou entretido a esfacelar um cabrito.

Vendo-se perdido e com a primeira cornada bem marcada na pele, o crocodilo falou, assim, ao búfalo, com um lágrima a luzir no canto dum olho.

- Se soubesse que o cabrito era teu, nunca teria pensado em matar com ele a fome. Agora, já que estamos juntos, aproveitemos a ocasião para nos tornarmos amigos.

- Sim. O melhor é sermos amigos. Vá! Acaba de comer o cabrito à vontade.

O crocodilo não se fez de rogado. devorou o que faltava. no fim, com modos de quem está muito grato mas matutando vingança, perguntou ao búfalo:

- não gostarias de ir a minha casa?

o búfalo perguntou-lhe:

- como hei-de ir se moras dentro da água? só estou habituado a andar em terra.

- LEVO-TE ÀS COSTAS. NÃO CUSTA NADA. VEM DAÍ!

LÁ FORAM ATÉ À PRAIA.

JÁ DENTRO DA ÁGUA, NA ORLA DA AREIA, DISSE O CROCODILO:

- SOBE PARA O MEU DORSO. FIRMA-TE BEM.

SEMPRE À TONA DA ÁGUA, COMO SE NADA LEVASSE, DESATOU A NADAR, COM QUANTAS FORÇAS TINHA, MAR EM FORA. A TERRA IA-SE AFASTANDO E QUANTO MAIS SE AFASTAVA, MAS ESTRANHAVA O BÚFALO A DISTÂNCIA A QUE FICAVA A CASA DO CROCODILO. ESTE BUAT-ÂMAC ENGANOU-ME – PENSAVA ELE NA BARRIGA. NÃO SE TEVE QUE NÃO PERGUNTASSE:

- A TUA CASA AINDA É LONGE?

- A MINHA CASA?! – ROSNOU O CROCODILO. SE TE TROUXE FOI PARA COMER.

ESPAVORIDO, O BÚFALO PROTESTOU:

- NÃO! ASSIM, DE GRAÇA, NÃO ME COMES TU SEM QUE SE FAÇA, PRIMEIRO, UM JULGAMENTO.

O BÚFALO PEDIU AO PRIMEIRO PEIXE GRANDE, COM QUE SE CRUZARAM, QUE SERVISSE DE JUIZ. CONTOU-LHE TUDO – QUE TINHA UMA CRIAÇÃO; QUE SURPREENDERA O CROCODILO, NO MEIO DELA, A ROUBÁ-LO; QUE INVESTIRA CONTRA ELE, DISPOSTO A MATÁ-LO MAS QUE, A SEU PEDIDO , LHE PERDOARA E O DEIXA COMER À VONTADE; QUE SE TINHAM FEITO AMIGOS E QUE SE ALI ESTAVA É PORQUE FORA CONVIDADO POR ELE PARA IR A SUA CASA. DEPOIS DE TER NARRADO TUDO ISTO, DISSE:

- PEIXE GRANDE, NA QUALIDADE DE JUIZ, VEJA SE SÃO COISAS QUE SE FAÇAM.

O PEIXE MOSTROU-SE FAVORÁVEL AO CROCODILO. O BÚFALO NÃO CONCORDOU. ENCONTROU MAIS ADIANTE UM BÚZIO ENORME. PEDIU-LHE QUE SERVISSE DE JUIZ. CONTOU-LHE TUDO, EXACTAMENTE COMO CONTARA AO PEIXE. O BÚZIO INCLINOU-SE A FAVOR DO CROCODILO.

- NÃO CURVO A CABEÇA À TUA SENTENÇA.

ASSIM LHE BERROU O BÚFALO, DANADO E COM OS OLHOS NUM MACACO, PENDURADO NUMA DAS ÁRVORES DA APRAIA QUE JÁ ESTAVA PRÓXIMA. PEDIU-LHE, MESMO DE LONGE, QUE DECIDISSE O PLEITO, DEPOIS DE TUDO LHE TER REFERIDO, GRITANDO, COM TODAS AS FORÇAS DOS PULMÕES, PARA QUE FOSSE BEM OUVIDO.

- NÃO OUÇO NADA, NADA! – RIPOSTOU O MACACO, CATANDO, DISTRAÍDO, UMA PULGA, NUMA COXA, COMO SE DE FACTO NADA TIVESSE OUVIDO. JÁ MAIS PERTO DA TERRA O BÚFALO REPETIU O MESMO PEDIDO AO MACACO, INDICANDO, DE NOVO OS MOTIVOS QUE O LEVAVAM A TER-SE NA CONTA DE VÍTIMA DE INJUSTIÇA E DE NEGRA INGRATIDÃO. ENTRE DUAS CARETEAS, O MACACO INSISTIU:

- NÃO TE OUÇO. CHEGA-TE MAIS PRA CÁ!

QUANDO O BÚFALO JÁ ESTAVA COM AS PATAS AO ALCANÇE DA AREIA, O MACACO DISSE-LHE:

- QUE QUERES? JÁ TE POSSO OUVIR.

- ARREBITA AS ORLHAS! LEVANTA A CAUDA! SAFA-TE!

NUM PULO, O BÚFALO GUINDOU-SE PARA A AREIA. DESEMBESTOU POR UM PALMAR FORA A TODO GALOPE. SÓ DIAS DEPOIS SE ENCONTROU COM O MACACO. SEGREDOU-LHE:

- QUERO PAGAR-TE A AJUDA QUE ME DESTE.

O MACACO RESPONDEU-LHE:

- NEM OURO NEM PRATA ME INTERESSAM. NÃO ME INTERESSAM LUAS NEM MOR’TÊEN. UMA SÓ COISA DESEJO – É SER O PRIMEIRO A COMER AS BANANAS E AS ABÓBORAS, O MILHO E PRODUTOS SEMELHANTES MAL AMADUREÇAM.

O BÚFALO ACHOU BEM. É POR ISSO QUE O MACACO, DESDE ENTÃO USA E ABUSA DESSE DIREITO.

6- Texto produzido por A. e A. sobre o tema Rede de Comunicação em Timor.
Segundo estes professores, para Timor, os meios de comunicação são importantes recursos para o fortalecimento do processo de aprendizagem da leitura e da escrita.

A REDE DE COMUNICAÇÃO EM TIMOR


OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO NÃO SERVEM APENAS PARA FALAR DE FUTEBOL, DE MODA, DE CRIMES.
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SERVEM TAMBÉM PARA AS GRANDES CAUSAS.
HOJE TODO O POVO DO MUNDO PERCEBE A IMPORTÂNCIA DOS CANAIS DE TELEVISÃO, DAS ESTAÇÕES DE RÁDIO E DOS JORNAIS, TODOS UNIDOS PARA DIZEREM A TIMOR LESTE , À SEU POVO, QUE NÃO ESTÃO SOZINHOS.

– A Resistência Maubere – imprensa organizada por grupos de jovens, elabora jornal redigido em português e organiza programas de rádio que são veiculados pela emissora de rádio local


Nos valemos aqui da análise de Orlandi E. (1988:79) que nos mostra:
“ O autor é, pois, o sujeito que, tendo o domínio de certos mecanismos discursivos, representa, pela linguagem, esse papel, na ordem social em que está inserido.

Não basta ‘falar’ para ser autor; falando ele é apenas falante. Não basta ‘dizer’ para ser autor; dizendo ele é apenas locutor. Também não basta enunciar algo para ser autor.”


6 – Texto produzido por JS e M
Os professores revelam que a opção por esse tema - A Arte do Povo de Timor - pode ser útil para fomentar o ânimo entre os grupos, visando manter a persistência, a perseverança e a luta pela independência.

A ARTE DO POVO DE TIMOR

FUNU É UM MODO DE ORGANIZAÇÃO GUERREIRA, QUE MOSTRA A GRANDE CAPACIDADE DOS TIMORENSES PARA LUTAR E RESISTIR.
OS TIMORENSES CONSTROEM ARMADILHAS NATURAIS QUE REVELAM UM PROFUNDO CONHECIMENTO DAS MONTANHAS.

“Se bem escolhidos e bem lidos [os textos] podem tornar-nos bons observadores dos fatos, em especial do que [os alunos] fazem diariamente. “(Possenti, 21:1998)


Considerações Finais
Embora esta investigação esteja em andamento, já foi possível reunir alguns resultados que permitem melhor dimensionar que a leitura e a escrita fazem parte das atividades cotidianas dos professores timorenses e, é também através delas que buscam conhecimento , informação e fundamentalmente o resgate da cultura das populações existentes em Timor Leste.

Acrescente-se que este grupo de professores vem debruçando-se, com pertinácia, constância e firmeza, no estudo sobre materiais existentes nas comunidades onde vivem, visando identificar atividades do cotidiano, como elementos de leitura e de escrita. Os elementos que vem despertando maior interesse são: os discursos políticos, as notícias divulgadas pelos jovens da Resistência Maubere, os modos de organização guerreira, os mitos, as lendas, as superstições, os ritos – as cerimônias e práticas simbólicas das comunidades, as histórias contadas pelos antigos.


Conforme sugere Certeau (1994:263) :
“(...) somente uma memória cultural, adquirida de ouvido, por tradição oral, permite e enriquece aos poucos as estratégias de interrogação semântica, cujas expectativas à decifração de um escrito afina, precisa ou corrige. Desde a leitura da criança, até a do cientista, ela é precedida e possibilitada pela comunicação oral ‘autoridade’ que os textos não citam quase nunca.”
Examinando os textos produzidos nesta segunda fase do programa Alfabetização Comunitária, notamos a presença de expressões e palavras provenientes do português de Portugal e de outros países lusófonos, provavelmente pela influência de representantes das forças de paz, dos sete países que falam a língua portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné – Bissau, Portugal, Moçambique, São Tomé e Príncipe).
Pode-se observar também que, embora existam várias publicações timorenses em forma de poesia, estes não foram escolhidos na primeira fase, mas passaram a ter grande importância, na continuidade das atividades educativas. A aproximação com este gênero literário vem contribuindo para fazer lembrar experiências do repertório consciente e inconsciente dos alunos, pois os timorenses possuem um conhecimento intuitivo, um desejo de mudança que lhes oportuniza voltar a falar português, apesar da cruel repressão sofrida ao longo dos últimos vinte e cinco anos e, partilham da convicção de que,
“ para que um projeto de ensino de língua seja bem sucedido, uma condição deve necessariamente ser preenchida, e com urgência: que haja uma concepção clara do que seja uma língua e do que seja um ser humano.” (Possenti, 1998:21)

NOTAS


# “Timur, no malaio, significa oriente... De Timur, palavra grave, os portugueses fizeram Timor, vocábulo agudo, mais ao jeito dos seus hábitos articulatórios, pelo qual passaram a designar a mesma ilha”. (Sá, A. B. 1961)

1 Cf. Foucambert J. A leitura em questão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994

2 O I Congresso da Juventude “Lorico Assuaen”, realizado de 05.07. a 10.07.1999, reuniu em Dili 600 estudantes, representantes de 13 distritos timorenses e apoiou a decisão de adotar a língua portuguesa como língua oficial e o tétum como Segunda língua, em um prazo de dez anos.

3 Ver Dados dos Alfabetizadores – Nota03

4 Ver Dados dos Alfabetizandos – Nota 04

5 Ver Programa do Curso –Nota 05

6 Ver Avaliação Dignóstica Programa Expansão Fase II – Nota 06

7 Ver Avaliação Final Programa de Expansãoa Fase II – Nota 07

8 Conjunto de aldeias reunidas sob a autoridade de um chefe, em Timor

9 Cf. Cagliari, L.C. Alfabetização sem bá-bé-bi-bó-bu. SP: Scipione,1998

10 A palavra maubere – leste timorense – soa desagradavelmente aos militares indonésios pois é usada como símbolo de independência. São muitas as personalidades que adotam a palavra maubere – sinônimo de identidade coletiva, orgulho e reivindicação. (Timor Timorense, 1995:121)

11 Malaio – dialeto do sul da Península Malaia que se tornou língua oficial da Indonésia, também chamado de bahasa-indonésia

12 Papua – povo negro da Oceania e que habita a Nova Guiné, Ilhas Fiji, etc.

13 Macaçarês – povo indonésio que vive no porto de Macaçar e regiões próximas

14 Proposta política básica – independência do povo timorense com sua identidade particular, democracia, pluralismo ou respeito pela diversidade, entendimento entre os leste – timorenses, abertura do país à cooperação com organismos internacionais, autodeterminação, política de paz e boa vizinhança com os países da área. (Marcos A. 1995:169)

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Abp.08.2003




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