Tire as mais de mim, olha so: Ele era mil (Calabar)



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Encontro29.07.2016
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Primeiro pra que possamos começar a entender a obra do Chico é importante ter em mente qual o contexto histórico, qual período da história ele está retratando na obra e através das suas músicas. A história de Calabar se passa no Brasil do século XVII, quando o Brasil, que ainda era colônia, sofreu as invasões holandesas. Durante esta invasão se destacou a figura de um mulato que se chamava Domingos Fernandes Calabar, que era casado e apaixonado pela esposa Bárbara. O Brasil se destacava cada vez mais por causa da cana de açúcar e isso chamava a atenção de inúmeras nações, com a Holanda não foi diferente. Os holandeses invadiram o nordeste do Brasil, chegando a uma localidade denominada “Arraial do Bom Jesus”, onde apareceu pela primeira vez a figura de Calabar, defendendo num primeiro momento a sua terra,mas mais tarde acabou lutando ao lado dos holandeses, o que lhe deu o título de traidor da pátria. Calabar foi entregue aos portugueses como traidor , já que Portugal era metrópole a portanto eram donos do Brasil. Foi entregue pelo próprio amigo, Sebastião Souto, simplesmente porque seu “amigo”era louco por Barbara, a esposa de Calabar.

A história é cheia de traições, Calabar trai os portugueses, Souto trai o amigo e Barbara por sua vez trai a memória de Calabar ficando com seu amigo, logo aquele que o delatou.( entregou)

Bárbara acabou indo viver com Souto, mas o martirizava o tempo todo por ter entregue o próprio amigo e fazia comparações de um com o outro o tempo inteiro, o que podemos ver na música Tire as mais de mim, olha so:

Ele era mil (Calabar)

Tu és nenhum (Souto)

Na guerra és vil (Souto)

Na cama és mocho (Souto)

Tira as mãos de mim (Bárbara)

Põe as mãos em mim (Bárbara)

E vê se o fogo dele (Calabar)

Guardado em mim (Bárbara)

Te incendeia um pouco (Souto)

Éramos nós (Bárbara e Calabar)

Estreitos nós (Bárbara e Calabar)

Enquanto tu (Souto)

És laço frouxo (Souto)

Tira as mãos de mim (Bárbara)

Põe as mãos em mim (Bárbara)

E vê se a febre dele (Calabar)

Guardada em mim (Bárbara)

Te contagia um pouco. (Souto)

Viu como ela menospreza Souto o tempo inteiro? Bárbara é a narradora, a história gira em torno destes três personagens principais, embora apareçam outros como a prostituta Ana de Amsterdam, obviamente holandesa que por fim se apaixona por Barbara, Ana era lésbica, achei até um pouco forte passarem pra vcs este texto, mas...

Bárbara sabe do poder que tem sobre Souto que é apaixonado por ela e pra puni-lo por ter entregue o seu amor que era Calabar ela fica com ele mas o despreza ao mesmo tempo e faz com que ele sinta remorso pelo que fez, foi a maneira que ela encontrou de se vingar.

Barbara é quem conduz a historia e fica dividida entre a lealdade e traição.

Na musica Tatuagem acredito que a própria palavra tatuagem é uma forma de marcar a ferro e fogo a paixão e a fidelidade dos amantes, já que Barbara tentou, embora tenha sido em vão salvar Calabar da prisão e do esquartejamento, porque ele acabou sendo morto de qualquer jeito.

Como a tatuagem é um desenho permanente é uma maneira dela mostrar quem é dona daquele corpo. A tatuagem estabelece uma relação de fidelidade entre os amantes, embora quando cita as serpentes refere-se a traições inconfessas, guardadas a sete chaves com cada um, segredos que morreriam com eles.

Há um sedutor paradoxo nesta música tbm quando ela diz: “tambem pra me perpetuar tua escrava”, na verdade não se sabe quem é escravo de quem , pelo que pude perceber. Tem tbm um embate erótico quando diz: “cruz nas tuas costas, que te retalha em postas, mas no fundo gostas”, Quem diz querer ser tatuagem a meu ver é Barbara no corpo de Calabar, mas no fundo isso é o que menos importa, porque o que chama a atenção são a posse e o desejo absurdamente passionais tanto de um quanto do outro que deseja viver na carne do outro sujeito, porque assim estarão para sempre juntos.

A canção nos lembra o domínio dos afetos, que marcam a alma da gente, marcam a carne e nos deixam lembranças como um doce canto de sereia.



Já na música Não existe pecado ao sul do equador , fica bem claro que a intenção do autor foi mostrar como na época da colonização do Brasil a sexualidade aqui era permissiva e até incentivada pelos portugueses, que não tinham populações o suficiente aqui para colonizar, os portugueses especialmente envolviam-se com as índias e daí surgia a nossa miscigenação Portugal sabia muito bem o que acontecia aqui abaixo da linha do Equador, os portugueses se divertiam com as índias e dessa relação surgiam muitos filhos que mais tarde foram vistos pela Igreja Católica como filhos do pecado, vindos de uma relação pecaminosa e os portugueses colonizadores passaram a enviar órfãs portuguesas para evitar que os homens de Portugal se deixassem levar pelas índias.

A ordem que vinha de cima da linha do equador agora era que os portugueses deveriam fazer sexo com as órfãs vindas de Portugal, ate com as próprias mães, filhas, irmãs, incentivavam as relações incestuosas tudo com o propósito de evitar a mistura de raças, e diziam que não seria visto como pecado este tipo de relação entre familiares , a Igreja faria vista grossa porque o importante era evitar a miscigenação, daí a expressão”não existe pecado ao sul do equador”. Aos olhos da Igreja e dos colonizadores o sexo entre brancos ainda que mães e filhos não seria pecado, maior pecado seria misturar as raças.


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