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PRÓLOGO



...qual é o centro de gravidade da descoberta freudiana? Qual é sua filosofia? Não que Freud tenha feito filosofia, ele sempre negou que fosse filósofo. Mas pôr uma questão já é sê-lo, mesmo se não se sabe que ela está sendo posta. Portanto, Freud, o filósofo, que ensina ele? Para deixar em sua proporção, em seu lugar, as verdades positivas que ele nos ensinou, não esqueçamos que sua inspiração é fundamentalmente pessimista. Ele nega qualquer tendência ao progresso. Ele é fundamentalmente anti-humanista, na medida em que há no humanista esse romantismo que gostaria de fazer do espírito a flôr da vida. Freud deve ser situado numa tradição realista e trágica, o que explica que é à sua luz que podemos hoje compreender os trágicos gregos.1

Para investigar a relação entre a psicanálise e a tragédia, parto da idéia de que a difícil apreensão da ética da psicanálise, tanto no que concerne às formulações teóricas quanto no que diz respeito às intervenções clínicas, encontra na estética do trágico elementos fundamentais que nos mostram onde aquela ética encontra suas raízes. Eis o que quero apresentar neste trabalho.

O homem tem sempre uma relação problemática com a sua ação. Nunca sabe se ela está verdadeiramente correta e vacila quanto a seu objetivo. Facilmente desconfiamos daquilo que fazemos de nossas vidas. Temos freqüentemente uma certa impressão de que poderíamos fazer melhor, ou de forma mais feliz, o que nos faz deslizar irrefletidamente rumo à posição muito íntima de suplicantes. Isto porque estamos sempre em defasagem em relação à quota de gozo que acreditamos que nos pertence, mas não sabemos como agir para obtê-la.

Tocado por està problemática da ação humana, Freud, em 1920, em Além do princípio do prazer2, levando em conta a insistência do mal-estar na vida, formula sua teoria da pulsão de morte. Esta, juntamente com a pulsão de vida, compõe a dualidade de forças que disputam a regência do psiquismo. Assim, enquanto a pulsão de vida faz apelo ao universo das identificações, da representação, da ordem do prazer, a pulsão de morte subverte as coisas e se endereça ao universo da disrupção, da separação, da destruição.

Lacan aborda as implicações da pulsão de morte para nelas enfatizar não tanto uma forma de maldade humana original, que impele à destruição, mas a dimensão da intervenção de um campo situado além daquilo que pode ser apreendido pela representação. Ele visa apontar para o vazio em torno do qual a representação se constitui, para nele assinalar a fonte do caráter de insatisfação presente na demanda do sujeito. Tal demanda expressa-se na clínica psicanalítica como demanda de amor. Esta, enquanto articulada em linguagem, sofre de uma limitação, na apreensão dessa dimensão do mais além, que é visada pela pulsão de morte. É por esse viés que tentarei mostrar que a tragédia, sobretudo na contemporaneidade, traz à luz “a face oculta do amor”.

Como buscarei explicitar mais adiante, este vazio, ao qual me referi, ou este Nada, se assim se preferir designá-lo, não tem em psicanálise a mesma condição que na filosofia existencialista. Nesta, ele é designado sob a forma da negatividade ou da nadificação do Ser na existência3. A respeito disso, Lacan afirma: “ nós chamamos a isto, - , isto é o que Freud indicou como sendo o essencial da marca sobre o homem de sua relação ao Logos, isto é, a castração, aqui efetivamente assumida sobre o plano imaginário.”4 Então, este ‘‘, este signo que indica um a menos em relação ao phallus, este ponto de incidência da negatividade, não é uma nadificação que o sujeito humano introduz no real que é sempre pleno porque é o que é, mas, designa, sobretudo, o essencial da marca sobre o homem do que ele pode apreender de sua relação ao Logos.

Neste livro tento contribuir para o esclarecimento da razão pela qual a psicanálise aborda as coisas dessa maneira, e como a tragédia de Édipo, mais particularmente, e, de uma certa forma, todas as tragédias, servem para colocar em relevo os elementos estruturais que sustentam a psicanálise como uma teoria que traz importantes reflexões acerca da condição humana.

Na próxima ação deste Prólogo tecerei algumas considerações que põem em relevo a dimensão trágica da vida humana, segundo a psicanálise, como prévia do que será aqui desenvolvido. Na segunda seção apresentarei um panorama geral de autores que abordaram o tema do trágico; na terceira situarei a minha proposta de aproximação entre a psicanálise e a tragédia a partir dos elementos estruturais desses dois campos.

Outro fragmento:

c) A tragédia e a psicanálise



De que maneira a questão da tragédia se apresenta na psicanálise? Em que medida a própria criação da psicanálise pode ser considerada um ressurgimento particular de elementos fundamentais da tragédia grega? Estará a estrutura que sustenta o pensamento psicanalítico ancorada nos mesmos eixos dos quais se assenta o pensamento trágico em sua problematização da condição humana? Abrigará a obra psicanalítica elementos suficientes para que nela possamos distinguir uma conceituação própria do trágico? E, ainda, na dimensão ética, será que uma afirmação trágica da existência é o que é visado pela psicanálise? E em que sentido?

Apesar das inúmeras referências de Freud e Lacan à tragédia, não creio que tenham sido suficientemente exploradas a amplitude da relação entre esta e a psicanálise, seus fundamentos essenciais, suas conseqüências práticas e suas referências conceituais. Por isso, para lançar as bases iniciais de uma pesquisa nesse campo, optei por abordar os seminários de Lacan que permitem uma apreensão mais aprofundada da dimensão trágica da psicanálise.

Parto da idéia de que as inúmeras referências à tragédia na psicanálise não indicam, simplesmente, um recurso figurativo que Freud, e, sobretudo, Lacan, teriam utilizado para representar questões psicanalíticas. A referência ao complexo de Édipo, enquanto uma estrutura, revela uma conexão bem mais essencial. Parece-me que na idéia de um herói trágico há uma afinidade estrutural entre o que constitui o pensamento psicanalítico e a tragédia. A tragédia, seja ela qual for, aqui abordada como gênero de arte, implica uma produção particular do pensamento sobre a condição humana, sem entretanto, fazer disso uma concepção totalizadora do mundo. Como afirma Lacan:

a tragédia está presente no primeiro plano de nossa experiência, a dos analistas, como é manifesto nas referências que Freud  impelido pela necessidade dos bens oferecidos por seu conteúdo mítico  encontrou em Édipo, mas também em outras tragédias.5

Para enfocar especialmente a tragédia grega, privilegiei o momento no qual, no seminário A ética da psicanálise, Lacan trabalha mais extensamente sua interpretação do que seria a essência da tragédia. Eis aí o meu ponto de partida. E ao longo deste escrito, entrevi no seminário A transferência a opção de trabalhar com três dimensões da tragédia, a grega, a moderna e a contemporânea, para apreender as proposições particulares que lhes concernem na ótica da psicanálise. Vale observar que é em torno de três seminários consecutivos de Lacan que esta pesquisa tomará seu curso, apesar de não se restringir a eles, considerando que tenha sido rastreada a quase totalidade dos seminários de que temos conhecimento. Esses três seminários são aqueles proferidos de 1958 a 1961, momento em que Lacan começa a se valer cada vez mais da topologia.

Em 1958, Lacan dedica um largo período do seu seminário O desejo e sua interpretação para tecer comentários sobre Hamlet, de Shakespeare. No seminário seguinte, A ética da psicanálise, encontra-se a maior parte de suas proposições sobre a tragédia, sobretudo a grega, através da análise de Édipo e de Antígona. O passo seguinte, no que concerne à tragédia, é exposto por suas observações sobre a trilogia de Claudel, Os Coûfontaines no seminário A transferência.

Assim, como disse acima, decidi estruturar o rastreamento das proposições de Freud e Lacan, fazendo dos seminários citados o fio condutor de todas as outras indicações que se estendem pela obra desses autores. Da mesma forma procedi com relação à obra de filósofos e historiadores: para não me perder no vasto universo das tragédias, optei por explorar somente aquelas sobre as quais recaem as análises de Freud, e, sobretudo de Lacan, dada a extensão da abordagem deste último.

Então, para percorrer as pistas para o estabelecimento de uma conceituação de trágico na psicanálise, dividi esta investigação em três capítulos, correspondentes aos três tempos citados. Com o objetivo de me servir de uma linguagem mais próxima da terminologia do teatro, e já que se trata aqui de nos reportarmos à questão da ética, onde a ação humana faz a cena, tomei a libertade de fazer a divisão acima mencionada em “atos”. Eis então a seqüência de meus atos.

No primeiro, a tragédia grega e o apelo à lei, serão privilegiadas as análises de Freud e de Lacan sobre as peças do conjunto da trilogia tebana de Sófocles: Édipo-Rei, Édipo em Colona e Antígona. A função do pai, tão destacada na psicanálise desde Freud, com seu texto Totem e Tabu, fornece a chave para abrir a porta de entrada para o domínio das reflexões sobre a cultura, e nesta direção se chegará à articulação entre a morte do herói trágico e as abordagens do que designo como a queda do pai.

A função do pai, que não é uma função natural, como em certa medida o é a da mãe, tem um papel fundamental na constituição da cultura. Ela é constitutiva do sujeito, e baliza sua relação à toda possibilidade de ordenação simbólica do mundo. Ao longo deste trabalho, diversos níveis de incidência da queda do pai serão abordados. Com efeito, se a psicanálise aponta primeiramente a importância da morte do pai totêmico para a constituição da cultura — e o complexo de Édipo testemunha isso —, no final desta pesquisa se verá que é preciso que se dê um passo além do Édipo, para se entrar efetivamente no domínio mais original da psicanálise. A psicanálise não é a apologia do pai e das leis que sua função sustenta, como alguns autores equivocadamente compreenderam, sobretudo a partir da obra de Lacan. Desenvolvo a idéia de que a noção de tragédia, que diz respeito ao contexto psicanalítico, focaliza justamente este mais-além do Édipo, atestado pela queda mais radical do pai. Aí não basta a sua morte, como tentarei mostrar. Na tragédia grega, assinalarei especialmente a importância dada à relação do homem com a lei, seja ela divina ou não, e as conseqüências do império da arbitrariedade que esta também abriga.

Meu segundo ato, a tragédia moderna e o apelo à razão, encontra no Hamlet de Shakespeare o ponto central para as análises de nossos autores. A relação à idade moderna, eu a depreendo dos temas que são tão caros a Shakespeare, como a discussão em torno da razão, e, conseqüentemente, de sua contrapartida, a loucura, agregada à questão da consciência de si. Assim, Descartes, o pai da idade moderna, será lembrado para que se realize tais articulações. Seguindo as pistas dadas por Lacan, a tragédia Atália, de Racine, consideravelmente abordada no seminário mais inicial, o das Psicoses, também servirá para indicar os impasses da racionalidade do sentido, sempre submisso à linguagem, e, por conseguinte, à sua arbitrariedade.

Quanto ao meu terceiro ato, a tragédia contemporânea e o apelo à libido, penso que a discussão tecida por Lacan em torno da trilogia de Paul Claudel, Os Coûfontaines, sublinha o caráter central tomado pelo amor na contemporaneidade. Introduzo a idéia de que os esforços de conjugação do amor com a sexualidade são o tema pivô para as tragédias contemporâneas. Suponho que esta inflação da economia libidinal, pivô do discurso do homem contemporâneo, tem como uma de suas expressões o acento desmedido colocado em nossa época sobre a economia propriamente dita. Proporei a idéia que o imperialismo econômico é uma expressão desta loucura de amor que nos concerne na contemporaneidade, e que toma a forma da loucura pelos objetos. Tentarei mostrar que não é por acaso que é nesses tempos de loucura de amor — manifestada também no apego desmedido aos objetos, reduzidos à seu valor em mercadorias, com o advento da sociedade produtiva —, tempos que fazem prevalecer esta forma de subjetividade, que a psicanálise toma sua razão de existir. É a transferência, ou seja, o amor analítico, que vem funcionar como operador fundamental no processo psicanalítico.

Na conclusão, o último ato, uma série de possibilidades de desenvolvimentos de pesquisas serão propostos. Chego aí à dois planos de deduções, logo, a duas “cenas”. A primeira focaliza mais precisamente a função teórica e clínica de uma concepção psicanalítica da tragédia; a segunda se vale de tal concepção para desenvolver suas contribuições no campo da filosofia da cultura. Para essa segunda cena, serão de grande proveito as recorrências à obra de Foucault, a fim de articular os diferentes temas que suponho funcionarem como pivôs nos diversos momentos da produção trágica, entrecruzada pelas vicissitudes dos valores implicados nas diferentes idades da história da cultura. Eis aí o panorama da minha empreitada. É preciso agora acionar os refletores para focalizá-la em detalhes.
Terceiro Fragmento:

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