Todas as mensagens dos mestres vêm da mesma fonte? Raul Branco1



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TODAS AS MENSAGENS DOS MESTRES

VÊM DA MESMA FONTE?

Raul Branco1

raulbranco38@gmail.com

O homem moderno não tem tempo a perder. Tudo deve ser eficiente e rápido. As pessoas sentem que as vinte e quatro horas do dia não são suficientes para realizar tudo o que desejam. A conseqüência dessa estressante corrida contra o tempo é uma preocupação crescente, quase obsessiva, com a eficiência, com formas de fazer com que as coisas possam ser realizadas mais rapidamente e com menos dispêndio de energia. Para satisfazer esse anseio por uma gratificação instantânea aparece o produto instantâneo. Surgiram então o café, o chá, o leite em pó, o chocolate e toda uma extensa gama de produtos industrializados instantâneos visando acelerar o processo de preparação e consumo dos alimentos. Esses produtos tiveram aceitação imediata pelos modernos neuróticos que acreditam no lema introduzido pelos americanos: “time is money,” tempo é dinheiro.

Mas a tendência para agilizar, acelerar e tornar quase instantânea a gratificação do consumidor não ficou restrita aos produtos industrializados. Os serviços também entraram na onda da aceleração, capitaneados pela comida rápida (fast food) oferecida pelas cadeias de restaurantes, e seguida por um número crescente de serviços, incluindo os bancários e os meios de comunicação. Mais rápido, menos esforço, maior satisfação. Esse é o lema da vida moderna.

Não é de se estranhar que a pressão para a aceleração dos resultados tenha chegado também à vida espiritual. Um número crescente de instrutores e mensageiros estão oferecendo práticas espirituais que prometem acelerar o processo evolutivo, queimando etapas e transmutando o carma. Alguns gurus prometem aos seus seguidores que poderão alcançar a iluminação em pouco tempo, às vezes em até mesmo um fim de semana, seguindo suas instruções, simplificadas e adaptadas às demandas da nova era.

É nesse contexto que verificamos o aparecimento de uma literatura especial, atribuída a Mestres Ascensos, que oferece novas instruções e regras especiais para o discípulo moderno. Com isso, o discipulado fica ao alcance de todos os interessados, sem os inconvenientes dos requisitos tradicionais de purificação e disciplina, que sempre demandaram total dedicação por longos anos, quando não muitas vidas. De acordo com essa nova dispensação, o carma poderia ser agora transcendido em poucos anos, e não precisaria mais ser inteiramente equacionado para que a Iniciação máxima fosse alcançada, permitindo ao discípulo “Ascender.”

Milhares de pessoas em todo mundo passaram a se afiliar a esses novos grupos. O processo de democratização, que inicialmente restringiu-se à universalização do voto, sendo mais tarde estendido para a universalização do ensino e das oportunidades profissionais para todos, estaria chegando agora ao último reduto tradicionalmente conservador, a vida espiritual. Essa crescente hoste de entusiastas da nova espiritualidade, demonstra o mesmo entusiasmo e dedicação dos recém convertidos das religiões proféticas, e fala com otimismo sobre seu progresso espiritual e a perspectiva de talvez ascender nesta mesma vida.

Todos nós sabemos, por experiência própria, como é difícil encontrar todos os elementos e informações necessárias para fazermos as melhores escolhas em nossa vida, em todos os níveis, inclusive o espiritual. Essa dificuldade é especialmente crítica para aqueles que recém despertaram para a vida espiritual. Tudo é novidade! O objetivo deste ensaio é examinar as implicações dessas promessas de aceleração do progresso espiritual, comparando as instruções da milenar tradição do caminho do discipulado que leva a Iniciações progressivas, com as doutrinas e práticas apresentadas nas mensagens atribuídas aos Mestres Ascensos.


CONHECIMENTO DOS MESTRES

Até meados do século XIX muito pouco era conhecido no Ocidente sobre os Grandes Seres, chamados no Oriente de Mahatmas, ou Mestres de Sabedoria. No Oriente, principalmente na Índia, os Mestres já eram conhecidos há milênios nos meios dos devotos e iogues. No Ocidente, no entanto, somente os discípulos aceitos (uma diminuta parcela da população) conheciam seus Mestres, guardando essa informação de forma reservada, por respeito a esses Santos Seres e para a proteção deles.

Foi somente a partir do final do século XIX, com a fundação da Sociedade Teosófica e posteriormente com a divulgação dos escritos de H. P. Blavatsky, que o conhecimento da existência dos Mestres se espalhou nos meios esotéricos e filosóficos na Europa e nas Américas. Alguns colaboradores de Blavatsky foram contrários a essa divulgação, em virtude da tradicional reserva observada pelos discípulos com relação a comentários públicos sobre a existência de seus instrutores. Mas os tempos eram outros e os próprios Mestres contribuíram indiretamente para que sua existência fosse amplamente divulgada no Ocidente.
AS CARTAS DOS MESTRES

O principal meio de divulgação da existência e do trabalho dos Mestres foi a publicação, no início do século XX, de uma longa série de cartas escritas pelos Mestres,2 entre 1880 a 1886, a dois ingleses, A. O. Hume e A. P. Sinnett, sendo a maior parte dirigida a esse último. Sinnett, mais tarde, utilizou o material contido nas cartas para escrever dois livros muito comentados na época: Budismo Esotérico e Mundo Oculto. Os Mestres também enviaram cartas, em menor número, a outros colaboradores seus, sendo muitas dessas coligidas e publicadas por C. Jinarajadasa, com o título de Cartas dos Mestres de Sabedoria.3

Essas cartas são marcos para o estabelecimento de parâmetros sobre os ensinamentos desses Grandes Seres e para o conhecimento de seus métodos de comunicação com aqueles poucos aspirantes que, apesar de não terem sido treinados no caminho ocultista, de alguma forma mereceram recebê-las. Seu valor especial está no fato de serem reconhecidas por quase todos os estudiosos como sendo de autoria dos Mestres. Algumas foram recebidas poucos minutos depois de terem sido escritas por Sinnett, no próprio verso do papel em que as perguntas tinham sido feitas. É importante frisar que a maioria das cartas foi precipitada. O Mahatma K.H. respondendo a Sinnett sobre esse processo disse: “Devo pensar bem, fotografando cuidadosamente cada palavra e frase no meu cérebro antes que possa ser repetida por ‘precipitação’.”4 Blavatsky comentou sobre esse processo que: “O trabalho de escrever as cartas em questão é efetuado por um tipo de telegrafia psíquica; os Mahatmas raramente escrevem suas cartas da forma usual. Uma conexão eletro-magnética, por assim dizer, existe no plano psíquico entre um Mahatma e seus chelas, um dos quais age como seu secretário.”5 O curioso é que, não importa qual chela venha a escrever manualmente a carta, a letra será sempre exatamente a do Mestre. Um fato que ainda não foi explicado pela ciência moderna é como a tinta foi colocada, não na superfície do papel, mas no seu interior. Permanece inexplicável, também, como estrias, feitas com a mesma tinta com que a carta foi escrita, foram incorporadas a espaços regulares no papel. Esses e muitos outros detalhes técnicos foram estudados em profundidade por um dos maiores especialistas em grafologia e falsificações, Vernon Harrison,6 ex-gerente de pesquisas da Thomas De La Rue (equivalente à Casa da Moeda Britânica). Essas cartas encontram-se no Museu Britânico.

A Summit Lighthouse, uma das principais fontes de canalização de mensagens atribuídas aos Mestres Ascensos, confirma a existência e autenticidade dessas cartas: “a fundação da Sociedade Teosófica deve-se aos Mestres Morya e Koot Hoomi, que a utilizaram para difundir seus ensinamentos para o Ocidente, em parte por meio de cartas pessoais dirigidas a um punhado de alunos teosóficos.”7

É interessante notar que Sinnett nunca chegou a ver fisicamente nenhum dos dois Mestres com quem manteve extensa correspondência. Apesar do interesse de Sinnett em tornar-se um discípulo aceito do Mestre Koot Hoomi, geralmente referido como K.H., seu principal correspondente, foi-lhe dito que ele não tinha os requisitos para ser um discípulo, ou chela, como são conhecidos na Índia. Seus hábitos de vida e, principalmente, seus condicionamentos mentais, militavam contra a simplicidade e disciplina necessárias à vida de um chela. Sem essa disciplina e reorientação de vida, seria impossível para ele passar nos duros testes a que todos os discípulos são submetidos.8 Noutra ocasião, explicando a natureza do treinamento dos discípulos e como eles deviam arcar com as conseqüências de seu carma, disse: “Não guiamos nunca nossos chelas (mesmo os mais avançados) nem os advertimos previamente, deixando que os efeitos produzidos pelas causas que eles próprios criaram, lhes ensinem pela melhor experiência.”9 Ao solicitar uma comunicação direta com o Mestre sem comprometer-se a nenhuma mudança em sua vida, recebeu como resposta: “Aquele que quiser erguer alto a bandeira do misticismo e proclamar que o seu reino está próximo tem que dar o exemplo aos outros. Ele deve ser o primeiro a mudar os seus próprios modos de vida.”10 Quando a correspondência terminou em 1886, depois de seis anos, Sinnett sentiu-se deprimido e, ao que tudo indica, acabou sendo vítima de seu excessivo anseio pela palavra dos Mestres.

Sinnett confessou em sua Autobiografia que, poucos anos após o término da correspondência, conheceu em Londres uma senhora com dons psíquicos que o teria colocado em contato com os Mestres outra vez. Ele jamais divulgou o nome da senhora, referindo-se a ela simplesmente como Mary. Esse “contato” foi mantido em segredo de seus amigos e colaboradores, ‘em conformidade com o desejo do Mestre.’ ‘Foi informado que se H.P.B. viesse a saber sobre Mary, poderia usar seus extensos poderes ocultistas para interferir no contato com o Mestre.’11 No entanto, com o passar do tempo, foi a própria Mary que mostrou interesse em conhecer Blavatsky, aparentemente recebendo permissão para isto. Quando a reunião finalmente ocorreu, Sinnett escreveu em sua Autobiografia que, ‘H.P.B. não prestou atenção a Mary e não demonstrou nenhuma suspeita sobre suas características.’12 Ora, Blavatsky era uma discípula avançada, possuía poderosos dons psíquicos, mantinha-se constantemente em contato com seus Instrutores e demonstrou repetidamente ao longo de sua vida total lealdade e obediência aos Mestres. Como esses sempre demonstraram ter total confiança nela, é altamente improvável que Mary fosse realmente um “canal” para o verdadeiro Mestre K.H., como Sinnett acreditava.

Vale mencionar, que esse período final da vida de Sinnett, supostamente em contato com o Mestre através do “canal” Mary, foi o período mais árido e penoso de sua vida. Passou por sérias dificuldades financeiras, sofrendo a humilhação de ter que se valer da ajuda material de vários de seus antigos amigos para sua sobrevivência. Perdeu seu filho com tuberculose e sua mulher com câncer. Em virtude de divergências com a direção da Sociedade Teosófica em Londres, afastou-se da Sociedade, fundando outra entidade, a “Elusinian Society”, que desfez poucos anos depois para retornar à Sociedade Teosófica, onde serviu como Vice-Presidente da Loja de Londres. Apesar do suposto contato com o Mestre, através do “canal” Mary, não publicou mais nada de caráter técnico ocultista, exceto um livro de teor histórico, Os Primeiros Tempos da Teosofia na Europa.
OUTRAS FONTES DE INFORMAÇÕES SOBRE OS MESTRES

A partir de então, a literatura esotérica em geral e a teosófica em particular, passou a referir-se extensamente aos Mestres. Informações esparsas divulgadas por alguns de seus discípulos eram repetidas nos círculos esotéricos, nem sempre com a exatidão devida, contribuindo para a criação de certas lendas e imagens distorcidas sobre esses Grandes Seres. Essa situação foi amenizada a partir de 1925, com a publicação do livro, Os Mestres e a Senda, de autoria de C. W. Leadbeater, que era discípulo do Mestre K.H. Leadbeater conhecia pessoalmente seu Mestre bem como alguns outros membros da Grande Fraternidade Branca, como a Comunidade desses Grandes Seres é geralmente conhecida no Oriente, referida na tradição cristã como a Comunhão dos Santos. A obra ajudou a colocar muitos fatos em perspectiva. Leadbeater, era um vidente avançado, conseguindo comunicar-se com vários Mestres, tanto no plano físico como em outros planos. Por ser um discípulo Iniciado, teve acesso direto a um grande número de informações até então desconhecidas no Ocidente. Dentre as revelações de seu livro vale a pena mencionar a estrutura da hierarquia dos Mahatmas, seu modo de operação no mundo e seu processo de treinamento de discípulos.

Como tudo na vida tem seu lado sombra, ou o reverso da medalha, o livro Os Mestres e a Senda também contribuiu para alimentar as fantasias e ilusões de pessoas encarnadas e desencarnadas. A partir das informações contidas nesse livro, várias entidades do astral começaram a enviar mensagens atribuídas aos Mestres. Essas comunicações geralmente oferecem mensagens calcadas em palavras de solidariedade humana e amor ao próximo. Muitas chamam a atenção para uma eminente crise que deverá se abater sobre nosso planeta se os homens não se regenerarem e atenderem aos apelos dos Mestres para uma mudança de vida. Para aqueles que conhecem a literatura espírita, essas comunicações atribuídas aos Mestres guardam um estreito paralelo com as comunicações de entidades desencarnadas, os “espíritos,” conhecidos dos médiuns desde tempos imemoriais, mas que a partir do século XIX aparentemente passaram a se comunicar com muito maior freqüência, sendo muitas dessas comunicações registradas e levadas ao conhecimento do grande público.

Em virtude do teor aparentemente benéfico dessas comunicações, muitas pessoas poderiam questionar por que nos preocuparmos com a autoria dessas mensagens. Se elas estão estimulando as pessoas para uma vida mais ética e amorosa, o que importa se essa atribuição aos Mestres é correta ou não? Porém, devemos nos lembrar que o objetivo da vida espiritual é o conhecimento da verdade, objetivo esse indicado por Jesus quando nos disse: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). Mas não é só isso. Apesar do teor adocicado das mensagens em pauta, elas trazem em seu bojo três grandes perigos de distorção: sobre a maneira como os Mestres atuam no mundo, a natureza do progresso espiritual dos discípulos e alguns aspectos da vida oculta.


RELACIONAMENTO E COMUNICAÇÃO ENTRE MESTRE E DISCÍPULO

Em primeiro lugar, a atribuição dessas mensagens aos Mestres cria uma idéia errônea sobre o método de operação dos Mahatmas no mundo. Provavelmente ainda são válidas as palavras do Mestre K.H. enviadas a Sinnett e aos teosofistas europeus no século XIX: “Nenhum de vocês jamais conseguiu formar uma idéia acurada dos ‘Mestres’ ou das leis do Ocultismo pelas quais eles são guiados.”13 Os Mestres sempre indicaram que sua latitude para ação no mundo material é consideravelmente limitada e que agem, via de regra, por meio de seus discípulos no mundo e não por meio de comunicações bombásticas ou de fenômenos para-normais, geralmente chamados de milagres.

Isso ficou claro no caso clássico de Sinnett que, ao longo de sua extensa correspondência, instou os Mestres a demonstrarem cabalmente ao mundo sua existência por meio de algum fenômeno incontestável, como a materialização de um exemplar do jornal The Pioneer em Londres, no mesmo dia de sua publicação na Índia, e do Times em Simla, na Índia, no mesmo dia de sua publicação em Londres. Em virtude dos meios de transporte da época, a realização desse feito seria um verdadeiro “milagre.” O Mestre K.H. pacientemente explicou a Sinnett: “Justamente porque o teste com o jornal de Londres fecharia a boca dos céticos – ele é impensável... A verdade é que nós trabalhamos usando leis e meios naturais e não sobrenaturais... Você diz que metade de Londres seria convertida se você pudesse entregar ao público de lá o jornal Pioneer no mesmo dia da sua publicação. Permita-me dizer que, se as pessoas acreditassem que a coisa era verdadeira, elas o matariam antes que pudesse dar uma volta no Hyde Park, e se elas não acreditassem, o mínimo que poderia acontecer seria a perda da sua reputação e de seu bom nome, por propagar tais idéias.”14 O Mestre continuou a carta por várias páginas, apresentando seus argumentos com extrema sabedoria e lucidez, provando a Sinnett que a experiência milenar da Fraternidade comprova que a humanidade sempre resiste aos fenômenos que não consegue explicar, endeusando ou matando aqueles que os apresentam.

Os Mestres, portanto, agem no mundo através de seus discípulos. Projetos, mensagens ou ações que desejam realizar para a humanidade são efetuados por seus colaboradores no mundo material, sendo atribuídos a esses colaboradores. Esse é um ponto básico, como podemos verificar com obras ‘inspiradas’ como Luz no Caminho, A Doutrina Secreta e tantas outras, que são sempre publicadas em nome do discípulo. O Mestre solicita ou inspira seu discípulo a agir da forma desejada. Mas, deve ficar claro aqui, que o Mestre quando muito solicita, sem jamais atropelar ou forçar o livre arbítrio do ser humano. Os irmãos das trevas agem de forma diferente, manipulando, hipnotizando ou forçando as pessoas, de uma forma ou outra, sem respeitar sua vontade própria.15 Para os agentes das trevas os fins justificam os meios, para os Seres de Luz isso seria inadmissível.

Isso nos remete à questão da preparação dos discípulos. Um discípulo é um Mestre em preparação. Está sendo habilmente conduzido a trilhar o caminho da perfeição, como indicou Jesus: “Sede vós perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5:48). Por isso, um dos objetivos do treinamento é tornar o discípulo cada vez mais auto-suficiente, capaz de trilhar o Caminho com suas próprias pernas e sem ajuda externa. Tanto é assim, que geralmente os Mestres só aceitam como discípulos aqueles aspirantes que já fizeram contato com seu mestre interior, ou seja, sua alma. É por essa razão que a credibilidade e total confiança nas comunicações atribuídas aos Mestres oferece um grande risco, ou seja, de tornar o aspirante dependente das comunicações externas, de guias, rituais e práticas exteriores. Retornaremos a este ponto mais adiante.

Não queremos dizer com isto que nenhuma comunicação é feita a aspirantes e discípulos no mundo. Certamente que não. A comunicação por cartas, como efetuado com Sinnett, Hume e uns poucos outros, no século XIX, realmente é muito rara. Mas os Mestres comunicam-se com freqüência com seus discípulos por telepatia. Os discípulos mais avançados são treinados nesta forma de comunicação, podendo utilizá-la com seus instrutores e outros discípulos avançados. Mas os colaboradores ainda não admitidos como chelas e os discípulos mais jovens, ainda incapazes de uma comunicação direta com seus instrutores, também têm a oportunidade de contatos com os Mestres. Existem, em diversos países, vários grupos fechados em comunicação com os Grandes Instrutores, geralmente voltados para o treinamento de seus membros e a preparação de certas ações no mundo. Os membros desses grupos são escolhidos por sua comprovada dedicação à causa do bem da humanidade. Para serem aceitos, fazem um voto de segredo sobre suas atividades. Essa é a razão destes grupos raramente serem conhecidos do público.

Mas os outros aspirantes? Este é um ponto delicado que inicialmente causa frustração aos que procuram seguir o caminho do ocultismo. Para que possamos entender melhor essa questão devemos levar em consideração o papel dos Mestres em relação à humanidade. Sabemos que os Mahatmas são seres que por suas realizações mereceram entrar no Nirvana, ou seja, naquele estado de bem-aventurança divina absolutamente incompreensível a nós seres humanos. No entanto, movidos por uma profunda compaixão, optaram por permanecer na esfera terrena,16 até que o último ser humano fosse liberto do sofrimento, ajudando neste processo, sempre e em todos os casos de acordo com as leis universais do carma e do livre arbítrio.

Dentro desses parâmetros, e levando em conta a experiência dos membros da Fraternidade, acumulada ao longo de incontáveis milênios de atuação no mundo, os Mestres sabem exatamente o que pode ser feito e o que deve ser feito para ajudar cada indivíduo no seu estágio atual de evolução. Jamais agem baseados em personalismos e preferências, mas sempre de acordo com os méritos das pessoas, de suas condições cármicas e das oportunidades para estender o maior benefício ao maior número possível de pessoas, por meio das ações a serem realizadas por seus colaboradores no mundo.

Quando estudamos o maravilhoso trabalho dos Mestres, podemos imaginar que o mundo seria totalmente diferente se uma grande parte da humanidade conhecesse esses Grandes Seres. Isso nos levaria a pensar que um movimento de conscientização popular do trabalho dos Mestres poderia ser um grande facilitador para a evolução. Somos informados, porém, que justamente o contrário é verdadeiro. A última carta escrita pelo Mestre K.H, em 1900, a Annie Besant, então Presidente da Sociedade Teosófica, urgia ação muito específica a esse respeito: “Muito poucos são aqueles que podem saber qualquer coisa a nosso respeito... O falatório acerca dos ‘Mestres’ deve ser silenciosa mas firmemente eliminado. Que a devoção e o serviço sejam somente para aquele Supremo Espírito, do qual cada um é uma parte. Nós trabalhamos anônima e silenciosamente, e a contínua referência a nós mesmos e a repetição de nossos nomes gera uma aura confusa que atrapalha nosso trabalho.”17
A INSPIRAÇÃO DE COLABORADORES DOS MESTRES

Quando as condições dos aspirantes não permitem um contato direto, os Mestres “inspiram” e ajudam de forma indireta aqueles que se oferecem para servir. Por exemplo, aqueles que estão atuando na comunicação das verdades espirituais, são seguidamente ajudados com idéias, conceitos, argumentos e fatos que simplesmente aparecem em sua mente. Como o plano mental está repleto de formas pensamentos18 um Mahatma pode facilmente direcionar uma forma pensamento poderosa com as idéias ou conceitos que poderão ajudar naquele momento seu colaborador no plano terreno. O aspirante terá sempre a possibilidade de usar seu discernimento para decidir se adota a idéia ou não. Todos os escritores e oradores sabem, por experiência própria, que quando engajados num projeto altruísta ou que pode trazer benefícios à sociedade, seguidamente as idéias aparecem como se caíssem do céu. Além disso, o que Jung chamou de sincronicidade19 começa a ocorrer. O indivíduo entra numa livraria e encontra um livro versando exatamente sobre o tema que estava pesquisando. Às vezes a “coincidência” é tal que, ao folhear o livro, abre exatamente na página tratando do assunto de seu interesse imediato.

Deve ficar claro, porém, que nem todas as “inspirações” têm sua origem nos Mestres. Provavelmente a principal fonte de inspiração é o próprio mestre interior, ou seja, o Eu Superior. Na verdade, nossa natureza superior é a expressão de Deus em nós, conhecida nos meios ocultos como EU SOU, e referida pelos teólogos como a natureza imanente de Deus. Portanto, o Eu Superior é sempre imensamente mais sábio do que nossa personalidade e, ademais, tem acesso à Mente Divina, chamada muito apropriadamente por Jung de inconsciente coletivo. Por isso, quando estamos devidamente concentrados, podemos entrar em contato com nosso Eu Superior, ainda que não tenhamos consciência disso.

Outra fonte possível de inspiração são os anjos. Os videntes que desenvolveram a visão espiritual e são capazes de perceber a atividade dos seres normalmente invisíveis aos nossos órgãos de percepção externos, sabem que os anjos estão sempre buscando oportunidades para cooperar com o bem estar e o progresso da humanidade. Em contraste com os seres humanos, em nosso atual estágio evolutivo, que estão sempre procurando tirar proveito próprio de todas as situações, é da natureza dos seres angélicos servir e agir de forma altruísta. Sendo inteiramente desprovidos de ego, não podem agir de forma egoísta, sendo o seu progresso evolutivo função da extensão de seu sacrifício inteligente em prol da evolução em seu plano.20 Portanto, os anjos do plano mental seguidamente direcionam idéias e pensamentos apropriados para as pessoas que estão engajadas na busca da verdade e, principalmente, para aqueles que estão trabalhando em obras que podem contribuir para a evolução da humanidade.




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