Trabalhando com conservação com base comunitária e en­foque de gênero: um guia



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Estudo de Caso No. 3

Junho/2000



Trabalhando com conservação com base comunitária e en­foque de gênero: um guia.
Mary Hill Rojas



Gênero, Participação Comunitária e Manejo de Recursos Naturais

Série Estudos de Caso



Publicação


Merge (Manejo de Ecossistemas e Recursos com Ênfase em Gênero) ,

Tropical Conservation and Development Program

Center for Latin American Studies

University of Florida

P.O. Box 115531

Gainesville, FL 32611

E-mail: tcd@tcd.ufl.edu

Apoio Financeiro:


Fundação John D. and Catherine T. MacArthur

WIDTECH


Universidade da Flórida

Editora da Série:


Marianne Schmink (Universidade da Flórida)

Conselho Editorial:


Constance Campbell (The Nature Conservancy)

Avecita Chicchón (MacArthur Foundation)

Maria Cristina Espinosa (IUCN)

Denise Garrafiel (Pesacre)

Susan V. Poats (Flacso - Equador)

Mary Rojas (WIDTECH)


Assistentes Editoriais:


Eliana Kämpf Binelli

Richard Wallace

Ronaldo Weigand Jr.

Mariana Varese


Instituições Colaboradoras:


Universidade da Flórida

Pesacre – Grupo de Pesquisa e Extensão em Sistemas Agroflorestais do Acre

WIDTECH - A Women in Development

Technical Assistance Project

FVA – Fundação Vitória Amazônica

USAID/Brasil – Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional

Fundação John D. e Catherine T. MacArthur

Flacso/Equador - Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais

PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

The Nature Conservancy

Conservation International - Peru

A Série de Estudos de Caso do Merge sobre Gênero, Participação Comunitária e Manejo de Recursos Naturais, apoiada por doações da Fundação John D. e Catherine T. MacArthur, e do Widtech, foi planejada para mostrar como um foco em gênero tem sido relevante e útil em projetos de manejo dos recursos naturais. Os casos enfocam exemplos concretos de extensão, pesquisa aplicada, e atividades de planejamento participativo envolvendo comunidades rurais, especialmente aquelas dentro e no entorno de áreas protegidas na Améria Latina com as quais o programa Merge tem colaborado. O formato serve para aplicações práticas assim como para o treinamento em gênero e manejo dos recursos naturais. Os casos são publicados em três idiomas (inglês, português e espanhol), e estão disponíveis na Internet (http://www.tcd.ufl.edu).


A seguir, são apresentados os primeiros Estudos de Caso da Série:

  1. Modelo Conceitual sobre Gênero e Conservação com Base Comunitária, por Marianne Schmink, 1999.

  2. Gênero, Conservação e Participação Comunitária: o Caso do Parque do Jaú, Brasil, por Regina Oliveira e Suely Anderson, 1999.

  3. Trabalhando com conservação com base comunitária e en­foque de gênero: um guia, por Mary Hill Rojas, 2000.



Série Estudos de Caso sobre Gênero, Participação Communitária e Manejo de Recursos Naturais, No. 3

Trabalhando com conservação com base comunitária e en­foque de gênero: um guia.
Mary Hill Rojas

Tradução de Eliana Kämpf Binelli

Junho/2000

Trabalhando com conservação com base comunitária e en­foque de gênero: um guia.

M
O projeto WIDTECH, patrocinado pelo Escritório de Mulheres em Desenvolvimento (Office of Women in Development) (G/WID) da Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID), oferece assistência técnica e capacitação em assuntos que envolvam gênero para escritórios e missões da USAID. No primeiro semestre de 1998, à pedido de Eric Fajer, da Agência USAID na América Latina e Caribe, eu servi como membro da equipe de avaliação do Projeto Parques em Perigo (Parks in Peril – PIP). A equipe de avaliação consistiu de Laurence Hausman (líder de equipe e responsável pelas relações e fortalecimento institucionais), Allen Putney (responsável pelo manejo de áreas de proteção), Mary Hill Rojas (desenvolvimento de comunidades, participação e gênero), e Lorenzo Rosenzweig (aspectos financeiros de conservação).

A presente avaliação revisou o andamento do Projeto Parques em Perigo, uma colaboração entre The Nature Conservancy (TNC) e a USAID. A avaliação incluiu visitas de campo a sete áreas de proteção no México (La Encrucijada, El Ocote, e Sian Kaán), Equador (Machalilla), Perú (Bahuaja-Sonene), Costa Rica (Talamanca), Guatemala (Sierra de Las Minas), e discussões com funcionários nos escritórios centrais do USAID e TNC em Washington, D.C.

O objetivo da equipe foi “avaliar a performance total do projeto PIP em relação ao seu propósito e resultados, assim como delineados no Marco de Resultados Conceituais da USAID.” O objetivo estratégico do programa é a “proteção de parques e reservas na América Latina e no Caribe, selecionados de acordo com a sua importância na conservação da diversidade biológica do hemisfério”.

O propósito da avaliação não foi avaliar os locais individualmente, mas sim avaliar o projeto PIP na sua totalidade. Dessa forma, as observações feitas durante as visitas de campo a cada local foram usados como exemplos que ilustram assuntos mais amplos. Esse guia baseia-se nos resultados dessa avaliação e usa exemplos das visitais locais para sugerir maneiras nais quais os integrantes do projeto PIP possam facilmente, eficientemente e equalitariamente integrar gênero ao seu trabalho.

WIDTECH vem colaborando com MERGE em muitos programas relacionados com conservação com base comunitária, gênero, e áreas de proteção. Continuando com esta tradição, é uma satisfação para mim que este guia possa fazer parte da série de estudos de caso do MERGE.

Agradeço Eric Fajer, LAC/USAID e Constance Campbell, TNC, e Marianne Schmink, MERGE/University of Florida pelo apoio a este projeto. Agradeço também os funcionários do TNC e seus colaboradores que trabalham com PIP. Agradeço também aos homens e mulheres locais que moram no entorno das áreas de proteção, que forneceram os exemplos de gênero usados nesse documento.


Mary Hill Rojas

Washington, D.C.

Dezembro de 1998


ary Hill Rojas

Introdução


O Projeto Parques em Perigo (Parks in Peril - PIP) foi desenvolvido para conservar ecossistemas ameaçados na América Latina e no Caribe para “guarantir o manejo local de áreas oficialmente designadas de proteção e que contenham diversidade biológica de importância global”. "Parques em Perigo" é um termo usado pelo The Nature Conser­vancy (TNC) em aproximadamente 55 áreas de con­servação na América Latina e no Caribe. Até então, a Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID) forneceu apoio financeiro a 28 dessas áreas, com planos de adicionar novas áreas num futuro próximo.

Com o apoio da agência central da USAID em Washington e seus escritórios regionais em cada país, a TNC trabalha com um ou mais colaboradores e com organizações não-governamentais (ONGs), em cada local. Em 1998, os colaboradores nas áreas visitadas durante a avaliação, foram:



  • La Encrucijada, México: Intituto de História Natural de Chiapas;

  • El Ocote, México: Intituto de História Natural de Chiapas;

  • Sian Ka’an, México: Amigos de Sian Ka’an;

  • Machalilla, Equador: Fundación Natura e The Conservation Data Center;

  • Bahuaja-Sonene, Perú: Pró Naturaleza;

  • Talamanca, Costa Rica: Comissão Caribenha do Corredor Biológico de Talamanca;

  • Sierra de las Minas, Guatemala: De­fensores de la Naturaleza.

Todos esses colaboradores tra­balharam, por sua vez, com outras ONGs locais. Um dos colabora­dores, a Co­missão Caribenha do Corredor Biológico de Talamanca, é composto de catorze or­ganizações locais de comunidade de base. Essas sete áreas men­cionadas acima con­tém ecossistemas sumamente di­versos, de reservas costais a florestas tropicais, sa­vanas e florestas de altitude. A meta principal do PIP é obter apoio e envol­vimento das comunidades locais que vivem dentro e ao redor dos parques e reservas, de modo que eles também tenham atuação e voz ativa na conserva­ção de biodiversidade.



A meta principal do PIP é obter apoio e envolvimento das comunidades locais que vivem dentro e ao redor dos parques e reservas, de modo que eles também tenham atuação e voz ativa na conservação de biodiversidade.
Propósito do Guia


Atenção a gênero é uma parte importante da conservação de recursos naturais com base comu­nitária e das políticas públicas e programas que apóiam a conservação. Este guia, desenvolvido através de exemplos e lições aprendidas durante a avaliação meio termo do PIP, estabelece seis passos para começar a entender a análise de gênero e sua importância para a conservação. O guia é destinado aos funcionários das áreas de proteção, seus parcei­ros locais e outros trabalhando com conservação com base comunitária, seja no campo, dentro das insti­tuições, ou no nível de políticas públicas.

Como Utilizar o Guia


Este guia pode ser tanto utilizado na sua integri­dade, sob a forma de curtas oficinas de gênero (duas à três horas), ou como parte da agenda de reuniões de funcionários (20-30 minutos). Em ambos, um facili­tador prepara o “treino.” Cada passo do guia começa com uma “discussão conceitual relacionando gênero à conservação. A discussão conceitual é seguida de um exercício direcionado aos participantes da oficina. O facilitador pode copiar e mandar previamente cada “passo” aos participantes ou pode apresentá-los na oficina ou reunião. Cada “passo” apresenta um exer­cício para engajar os participantes na discussão do material. Cada exercício resulta em um produto con­creto, um raciocínio para conservação com base co­munitária, ou uma habilidade específica, como por exemplo, uma rápida análise de gênero a ser con­duzida nas instituições ou no campo. O objetivo principal não é a transmissão de conheci­mento. A informação deve ser sim com­partilhada através de atividades estru­turadas para grupos pequenos e o conhe­cimento deve ser construído através de dis­cussões em grupos grandes e exercícios interativos.

Ao completar o treinamento, os par­ticipantes serão capazes de:



  • Desenvolver em sua instituição um raciocínio para incluir gênero em conser­vação com base comunitária;

  • Analisar o papel da mulher e do homem e suas relações com o manejo de recursos naturais;

  • Destacar as realizações de mulheres e homens em documentos organizacionais e materiais de educação ambiental;

  • Analisar os grupos de mulheres e sua con­tribuição potencial à conservação;

  • Articular a importância da participa­ção de mulheres nos esforços de conser­vação, os obstácu­los enfrentados por elas, e maneiras de removê-los; e

  • Promover trabalhos inter-setoriais em educação e democracia e gestão como um meio de discutir questões ambientais.

Passo Um: Desenvolver uma Lógica que Preste Atenção em Gênero

Discussão Conceitual


“Porque se preocupar com gênero?” A conser­vação da biodiversidade depende do envolvimento de pessoas, de todos os setores da comunidade, tanto homens como mulheres, cujos interesses e perspecti­vas em relação ao meio ambiente podem ser bastante diferentes. Entretanto, as mulheres são freqüente­mente sub-representadas ou mesmo não são repre­sentadas no nível local, dentro de instituições e no nível das políticas públicas, onde as decisões são to­madas. Para incorporar gênero ao seu trabalho, os integrantes do projeto PIP necessitam desenvolver e articular uma lógica que integre gênero à conservação com base comunitária. A seguir, um exemplo de tal lógica:

“O Programa Parques em Perigo está em sin­cronia com a política do primeiro Congresso Latino-Americano de Parques Nacionais e Outras Áreas de Proteção, realizado em Santa Marta, Colômbia (1997), a qual reconhece a conservação como um assunto social. Dentro do Programa PIP, reconhece-se que envolver as comunidades para promover a conservação da biodiversidade e o bem-estar das áreas de proteção é muito importante para a viabili­dade das reservas a longo-prazo, especialmente quando a fome e a pobreza se encontram próximas aos limites da reserva. Alimentação, meios de vida, habitat e saúde dependem de um meio ambiente saudável.”

Aqueles que trabalham com conser­vação da biodiversidade reconhecem a diversidade das partes interessadas e os vários níveis e definições de comu­nidade – aqueles dentro das áreas de proteção ou nas suas fronteiras, as populações ur­banas, e no nível mais amplo, as comuni­dades regionais, nacionais e interna­cionais que apóiam as reservas. Gênero é central para essa perspectiva, afetando como comuni­dades e domicílios estão organizados e, por sua vez, como estes se relacionam com o meio ambiente em que estão inseridos.

A perspectiva de conservação com base comu­nitária se desenvolve a partir dos papéis vitais que mulheres e homens possuem na compreensão e no manejo do meio ambi­ente ao seu redor, tanto em áreas rurais como ur­banas.



A perspectiva de conservação com base comunitária se desenvolve a partir dos papéis vitais que mulheres e homens possuem na compreensão e no manejo do meio ambiente ao seu redor
A Abordagem


  • Fomenta decisões ambientais, liderança, e par­ticipação de mulheres e homens na sociedade civil, para que eles possam servir como defen­sores de questões ambientais de seu interesse, e de interesse de suas famílias e comunidades.

  • Desenvolve estratégias para conservação e manejo de recursos baseadas em princípios de­mocráticos, e técnicas participativas de cidadania plena.

  • Aumenta a compreensão de como o gênero de­lineia o acesso, a participação e o programa de atividades coletivas que afetam o meio ambiente.

  • Discute especificamente as limitações econômi­cas, sociais, institucionais e legais no manejo efetivo de recursos naturais realizado por homens e mulheres.

Como parte dessa abordagem geral, a análise de gênero é um instrumento de conservação bastante útil, já que ela:




  • Auxilia na dissolução de estereótipos: A docu­mentação da presença de mulheres ocupando cargos de diretoras de reservas e de guardas flo­restais no Perú serve para refutar a opinião geral de que áreas de proteção são muito remotas para atrair profissionais do gênero feminino. (TRD 1998:22 e 31)

  • Desvenda papéis que são negligenciados: Fre­qüentemente, as mulheres são definidas, e se auto-definem, como donas-de-casa, mascarando seus papéis de gerentes diárias de recursos naturais, fornecendo água e lenha para suas famílias, cuidando de hortas e po­mares, elimi­nando lixo e criando animais.

  • Ajuda assegurar a representação da diversidade em materiais de educação ambiental: As mulheres têm um papel central na educação am­biental já que suas relações pessoais com suas comunidades e famílias fornecem um meio ideal para a difusão de mensagens ambientais. No entanto, as mensagens de educação ambi­ental retratam os homens de uma maneira excessiva no manejo de recursos naturais.

  • Representa as comunidades e as in­stituições que as apóiam: As normas in­stitutionais (tais como parentesco, ca­samento, religião, etnia ou classe) fre­qüentemente determinam quem toma as de­cisões sobre como utilizar os recursos naturais em uma comunidade. Essas normas são baseadas nas relações de gênero. Por exemplo, as mulheres geralmente têm uma presença política pequena nos conselhos comunitários. Reuniões locais são freqüentemente tidas como espaços masculinos e as organizações e insti­tuições locais podem ser baseadas em hierarquias masculinas. Essas barreiras institucionais preci­sam ser reconhecidas na mobilização de apoio público para melhorias ambientais.

A inclusão de mulheres e homens locais em atividades pode melhorar os resultados ambientais de um projeto, enquanto que a exclusão destes pode, muitas vezes, condenar uma intervenção. De fato, isso é verdadeiro em relação às mulheres em par­ticular, já que são mais invisíveis que os homens e são geralmente excluídas. Um recente estudo con­duzido em um ecossistema de mangue no Golfo da Fonseca, fronteira entre a Nicarágua, El Salvador e Honduras, ilustra esse ponto (Quadro 1).



Exercício


Distribua uma cópia do raciocínio acima aos participantes antes da reunião ou oficina. Discuta o raciocínio em pequenos grupos. À seguir, cada grupo pequeno relata suas idéias para o grupo todo. O ob­jetivo final é obter, por consenso, um marco aceitável para se trabalhar com gênero na área de proteção. No caso de não ser possível obter um consenso geral, este marco pode incluir a opinião de uma minoria.

Passo Dois: Desconstruir Termos para Compreender Papéis e Relações de Gênero


Quadro 1: Uso de um ecossistema de manguezais no Golfo da Fonseca, fronteira entre a Nicarágua, El Salva­dor e Honduras.

Numa tentativa de conservar os manguezais, foram impostas restrições à pesca nos estuários, além de tentati­vas de preservar a reserva madeireira e limitar o uso de lenha. A maioria das mulheres pescam nos estuários, en­quanto os homens pescam no mar aberto. Os papéis das mulheres em relação à pesca não foram entendidos e as restrições limitaram seus direitos de acesso. A fonte vital de proteína e a fonte de renda domiciliar foram perdi­das. A mulheres também coletam ma­deira para lenha. Indivíduos continuam a pescar no estuário secretamente e a coletar lenha para uso próprio ou para venda. “Isso destaca uma importante lição de conservação: as tentativas de mudança de uso de recursos podem não ser bem sucedidas a menos que se considere as limitações que os in­divíduos e as comunidades encontram ao modificá-los” (Gammage et al. 1999:4).


Discussão Conceitual


A linguagem freqüente­mente mascara o trabalho re­alizado pelas mulheres. Muitos termos usados em diversos idiomas, tais como “agricul­tor,” “silvicul­tor,” e “médico,” retratam uma imagem mascu­lina. “ O agricultor usou um vestido” é uma frase surpreen­dente. Ao se desconstruir ter­mos, o trabalho femi­nino fica mais visível e incentiva-se a conservação.

As mulheres que vivem ao redor de áreas de proteção muitas vezes se auto definem e são defini­das por familiares, funcionários de áreas de pro­teção e outros, como “donas-de-casa”. Os homens possuem títulos mais descritivos, como “pescador”, “agricultor”, “queijeiro,” os quais retratam mais claramente sua relação com os recursos naturais. É importante desconstruir o termo “dona-de-casa” para que se entenda como as mulheres interagem com o mundo natu­ral à sua volta.


Exercício


Antes da oficina, peça aos funcionários e outros que, quando estiverem no campo, perguntem sobre o que as mulheres e os homens fazem em diferentes épocas do ano ou durante um dia típico. Posterior­mente, os participantes levam essa informação cole­tada à oficina para compartilhar com o resto do grupo.

Um primeiro exemplo vem de Bahuaja-Sonene cuja duas maiores ameaças à conservação são o garimpo de ouro e a coleta ilegal de castanha-do-Bra­sil. As mulheres foram identificadas como “donas-de-casa” e os homens como “mineradores” e “coletores de castanha”. A diretora de uma ONG local – uma mulher – analisou o termo “dona-de-casa” para esclarecer os papéis das mulheres nessas atividades:



  • Coleta de Castanhas do Brasil. Tanto as mulheres como os homens se deslocam para a flo­resta para coletar castanhas durante a época de colheita. As mulheres coletam, secam, des­cascam e, freqüentemente, vendem as castanhas. A maioria dos contratos para coleta das cas­tanhas estão sob o nome de mulheres. Os homens também coletam as castanhas; quebram a casca para retirar a castanha usando a machete; carregam os sacos de castanhas (geralmente 75 quilos) nas costas para fora da floresta; e as transportam por barco até o mercado.

  • Garimpo de Ouro. Tanto as mulheres como os homens montam acampamento na flo­resta perto da área de minera­ção. A mulher compra a co­mida e a prepara e, geralmente, monta a “casa” temporária. Muitas vezes a mulher é re­sponsável pelo contrato para explorar o ouro e vendê-lo. Garimpagem de ouro é um tra­balho bastante árduo e os homens escavam e processam o ouro.

Um segundo exemplo foi fornecido por uma agente de extensão, a qual rapidamente listou as tarefas que colocam a dona-de-casa em contato direto com os recursos naturais dentro e nos arredores da área de pro­teção em El Ocote:



  • Pesca. Algumas mulheres pescam mas todas cozinham, limpam, vendem e preservam o pescado.

  • Ervas. As mulheres cultivam ervas (chipitin; hierba santa; achiote; pimienta) para adorno, uso medicinal e alimentício.

  • Colheita.

  • Milho. As mulheres armazenam o milho, maceram-no e diariamente preparam a tor­tilla e o atol.

  • Café. Algumas mulheres plantam e ajudam com a colheita. Todas as mulheres proces­sam (selecionam, lavam, debulham, secam e empacotam) os grãos após a coleta. Os homens vendem o café. As mulheres tor­ram, maceram e preparam o café para o uso doméstico.

  • Chili. As mulheres preparam as sementei­ras, transplantam, controlam os insetos, e cuidam das plantas. Elas cortam e sele­cionam o chili de acordo com o tamanho e a cor, empacotado-os e vendendo-os no mercado.

  • A Horta. A mulher é responsável pela horta, a qual fornece alimentos tanto para a família como para o mercado (tomates, hierba santa, hierba buena).

  • Animais. As mulheres criam galinhas e perus para uso doméstico e permuta.

  • Frutas. As mulheres coletam nance, laranjas, limões, e limas para venda no mercado ou para fazer conservas.

  • Água e Madeira. As mulheres são responsáveis pela coleta de água e lenha para atender às ne­cessidades da família.

Um exemplo final, no Quadro 2, ilustra a im­portância de desconstruir os termos para definir como a mulher se enquadra no manejo dos recursos naturais.


Passo Três: Destacar Mulheres como Participantes do PIP

Discussão Conceitual



Quadro 2: Criação de Iguanas.

O trabalho feminino pode ser negli­genciado quando termos são definidos de uma maneira restrita. A criação de iguana em El Ocote foi definido como um trabalho executado pelos homens. Porém, quando definido mais ampla­mente, incluindo o abate, a retirada de pele, e o preparo dos animais, as mulheres desempenharam um papel igual aos homens embora nem sempre recebam os benefícios do projeto. Descontruir termos não somente destrói estereótipos mas também oferece visões importantes quanto ao uso dos recursos naturais. Tais reflexões podem direcionar o planejamento estratégico e a tomada de decisões quanto à conser­vação.


É importante que o envolvimento de mulheres se torne visível durante todo o projeto PIP, a fim de que se atribua crédito às reali­zações alcançadas e para que as lições aprendidas durante o processo sejam documentadas.

Esposas e Mães


Além da participação di­reta das mulheres nas ativida­des do PIP, as mulheres se or­gulham de seus papéis como esposas e mães. Esses papéis são importantes para mulheres e homens e podem ser de utili­dade para a conservação de recursos naturais.

Um exemplo vem de Sierra de las Minas. Don Juan é um catequizador que vive com sua família perto da re­serva e é respeitado pela co­munidade local. Eles possuem um sítio misto que é um modelo de agricultura susten­tável: compostagem de minhocas, curvas de nível com cardamomo e café, árvores frutíferas e um lago para criação de tilápias. A placa na porta da casa diz “a floresta é vida – cuide dela para seus filhos”. Sua esposa apóia seu trabalho, auxiliando-o principalmente com o cultivo de plantas nativas e plantas medicinais. Ela conhece as plantas para curar doenças infantis e viaja com o marido para compartilhar esse conhecimento com os vizinhos.



Um segundo exemplo vem de Sian Ka’an. A reserva patrocina um viveiro de plantas que resgata as antigas tradições Maias de conservação de solo, proteção à floresta e cultivo de plantas nativas e medicinais. Um homem local administra o viveiro, conduz pesquisa básica e serve como agente de ex­tensão. Sua esposa também trabalha no viveiro e conhece as plantas usadas para tratar picadas e mor­didas, gastrite, artrite e partos. Nesse caso, a esposa auxilia seu marido sem pagamento. É necessário reconhecer o valor do trabalho da equipe marido/esposa na conservação dos recursos naturais.

Líderes e Profissionais


As mulheres são visíveis em vários papéis de liderança e como profissionais em toda as áreas do projeto PIP. Elas ocupam vários cargos, tais como chefia no Ministério do Meio Ambiente (México); fundadoras de ONGs parceiras (Sian Ka’an); agentes de extensão (La Encrucijada; El Ocote); líderes de conselho na reserva (Talamanca); guardas e diretoras do parque (Bahuaja-Sonene); diretoras de ONGs par­ceiras; líderes de grupos indígenas (Sierra de las Mi­nas); líderes de atividades promovidas pelo PIP (Machalilla); funcionárias-chefe das agências e escritórios do USAID; e membros do con­selho de diretoras da TNC.
Tornando-se tais mulheres visíveis em publicações, mate­riais de educação ambiental, relatórios anuais e apresenta­ções públicas, outras mulheres são encorajadas e estereótipos são derrubados. Por exemplo, em Bahuaja-Sonene, a presença evidente de mulheres que ocu­param cargos no passado de diretoras de parques, guardas florestais, trabalhadoras na área de saúde comunitária, e guar­das florestais voluntárias, serve para banir a noção tão comum de que áreas de proteção são muito remotas para atrair pro­fissionais do sexo feminino.

Exercício



A placa na porta da casa diz “a flo­resta é vida – cuide dela para seus filhos”.
Distribua a cada participante um exemplo diferente de materiais de educação ambiental, ou outras publicações sobre conservação. Peça aos par­ticipantes que façam uma análise individual dos ma­teriais para determinar a freqüência em que homens e mulheres são representados de forma escrita e gráfica. Cada indivíduo relata seus resultados ao grupo inteiro. De uma maneira geral, os homens são retratados massivamente em ambas formas. A maneira pela qual o gênero é abordado nestes materiais reflete a atenção dada à diversidade. Por sua vez, a diversidade é um indicador de inclusividade, que é im­portante para a participação da comuni­dade em nome da conservação. Os resul­tados desse exercício deverão ser utili­zados por aqueles que estão desenvol­vendo materiais educacionais, destinadas às áreas de proteção ou parceiros comu­nitários.


Passo Quatro: Construir a Partir da Experiência Individual e em Grupo de Mulheres

Discussão Conceitual


A experiência mostra que, geralmente é mais efetivo integrar mulheres às atividades centrais dos projetos ao invés de "esforços" direcionados somente à mulheres. Entretanto, isso pode variar, especial­mente em áreas onde existe uma tradição de trabalho em grupos das mulheres ou tabús contra mulheres e homens sem parentesco trabalhando juntos. Às vezes, esforços extras devem ser dirigidos às mulheres para superar discriminações sofridas no passado ou para auxiliar as mulheres a desenvol­verem a autoconfiança necessária para evitar confli­tos ou competição com os homens (Dixon-Mueller e Anker 1998). Dirigir atividades às mulheres separadamente dos homens pode ter sentido em re­giões onde muitos dos domicílios são dirigidos por mulheres ou em lugares onde as mulheres se espe­cializam em tarefas que poderiam ser mais produtivas caso houvesse assistência específica direcionada à elas.
Surgiram vários padrões de mulheres que tra­balham em grupos separadamente dos homens nas áreas do PIP:

Padrão Um: Atividades Econômicas de Mulheres


Dois exemplos ilustram as várias atividades econômicas ao redor e dentro das áreas de proteção do PIP:

  • O Comitê de Mulheres, fundado em 1996 em Machalilla, tem criado galinhas para venda a hotéis locais com sucesso. Essas mulheres são de meia-idade. Segundo elas, as mulheres mais jovens não participam devido ao ciúme dos maridos ou à responsabilidade de criar filhos. O projeto tem fornecido capacitação especializada em gerenciamento de microempresas, tais como contabilidade, cálculo de custos e administração. O projeto também provê assistência técnica para serviços veterinários e cria­ção de galinhas.

  • Um grupo de mulheres em Sierra de las Minas vem trabalhado conjuntamente por seis anos com o objetivo de obter renda. Elas começaram com projetos de costura direcionados tanto ao uso doméstico como ao mercado, com pouco sucesso. Com ajuda do Corpo de Paz (Peace Corps), elas começaram a preparar bis­coitos e vendê-los. Através de uma agência gover­namental, elas estabeleceram contatos com outros grupos de mulheres e obtiveram bolsas de estudo para continuar seus estudos escolares. As mulheres também iniciaram uma horta e tinham planos de fornecer serviços alimentícios aos turis­tas. Nenhum desses empreendimentos foram economicamente bem sucedidos até hoje. Uma iniciativa recente de cultivar café orgânico parece promissora, já que existe uma vantagem competitiva pois o café é um produto comercializável e que possui um valor agregado.

Exercício


Peça a um funcionário que trabalhe diretamente com atividades econômicas de mulheres para que apresente um breve estudo de caso. Após a apresen­tação, peça aos participantes que avaliem a atividade. Como a atividade em questão se relaciona com a con­servação de biodiversidade? Existe uma vantagem competitiva e um produto de valor agregado? Esse produto tem potencial comercial? As mulheres pos­suem as habilidades e ferramentas necessárias para gerenciar uma microempresa? O PIP subsidia a atividade de forma que esta não é sustentável sem esses subsídios?

Padrão Dois: Mulheres como Pioneiras


Na área de proteção Sian Ka’an em Punta Allen, existe uma apreensão e certa urgência para transfor­mar pescadores em guias turísticos antes que os corais da região morram. Iniciaram-se aulas para ensinar Inglês e outras habilidades necessárias para esses guias turísticos. Uma mulher participa das au­las de guia turísticos. Embora não seja pescadora, ela foi aceita pelo grupo pelo seu carisma e entusiasmo em participar e fazer parte do grupo. Ela representa um modelo a ser seguido por outras mulheres. Mui­tas vezes, as mulheres que rompem com a tradição são ora destacadas com orgulho, ora com desprezo. Elas são agentes de mudança.

Exercício


Durante uma reunião de funcionários, promova uma "chuva-de-idéias" para discutir quem são as mulheres pioneiras dentro da comunidade. Discuta se elas são líderes comunitárias. Discuta como elas podem ser colaboradoras efetivas na conservação de recursos naturais.

Padrão Três: O Departamento ou Sessão de Mulheres de uma Or­ganização


Perto de Bahuaja-Sonene, existe um sindicato de trabalhadores rurais. A equipe do sindicato tenta incorporar mulheres na associação através do uso de linguagem sensível a gênero e destacando homens e mulheres em suas publicações e programas. Ao mesmo tempo, há um componente pró-mulheres que inclui uma agente de extensão trabalhando com mulheres e com atividades do sindicato direcionadas especificamente a elas. O debate a respeito de se ter um componente específico pró-mulheres ou integrá-las completamente às atividades principais da organização existe há muito tempo. Uma combinação das duas alternativas parece ser a mais produtiva.


O debate a respeito de se ter um componente específico pró-mulheres ou integrá-las completamente às atividades principais da organização existe há muito tempo.
Exercício


Antes da oficina, peça para cada participante fazer uma breve análise institucional de uma organi­zação ou agência que trabalhe perto ou dentro das áreas de proteção do PIP. Essa análise deve incluir as seguintes etapas: identificar os agentes de tomada de decisão e avaliar a proporção de homens e mulheres; no componente pró-mulheres (se houver algum) analisar sua produtividade, programas, políticas e estrutura de poder; entrevistar informalmente homens e mulheres sobre sua avaliação da participação de mulheres naquela instituição; e, observar quem faz parte da sua afiliação e a quem esta oferece serviços. Cada participante leva os resultados de sua análise à oficina para ser compartilhada com os demais par­ticipantes do grupo. No grupo grande, peça aos par­ticipantes para responder à seguinte pergunta: Como os resultados da análise podem ser úteis?

Passo Cinco: Remover Barreiras à Participação

Discussão Conceitual


No Peru, Rosa Barrantes do Instituto de Saber, escreve “…se existisse uma política pública na qual as mulheres pudessem participar com voz própria e tivessem poderes para tomada de decisões, seria possível enfrentar muitos dos grandes problemas que afetam o meio ambiente” (Marin 1991:31).

Conversando com funcionários e moradores lo­cais durante a avaliação do PIP, surgiu um raciocínio sobre a importância da participação de mulheres nos esforços de conservação:



  • As mulheres são líderes comunitários, mas freqüentemente são invisíveis aos olhos de visitantes;

  • São as mulheres que, na maioria das vezes, organizam eventos ambientais, desde o resgate de tartarugas até a comemoração de ritos e valores tradi­cionais;

  • As mulheres gerenciam recursos naturais diariamente – tais como hortas, coleta de lenha, plantas e ervas medicinais – e desempenham papéis centrais na agri­cultura, pesca e caça;

  • As mulheres desempenham papel fundamental na criação de crianças, as quais trasmitem mensagens de caráter ambiental;

  • As mulheres não "bebem" os lucros das atividades econômicas nem gastam o dinheiro em seu próprio proveito como os homens. Ao contrário, as mulheres utilizam essa fonte de renda para a educação das crianças ou em ítens para o lar.

Entretanto, em todas as áreas visitadas durante a avaliação, várias razões foram levantadas para justifi­car porque as mulheres não participam mais no tra­balho do PIP. Essas barreiras à participação das mulheres mencionadas acima incluíram uma mistura de fatores culturais e institucionais:




  • As mulheres indígenas não falam espanhol;

  • As mulheres não saem da comunidade e não pos­suem tanta mobilidade quanto os homens;

  • As mulheres devem ficar em casa;

  • As mulheres não participam de reuniões públi­cas;

  • As mulheres casam-se jovens e desistem da escola mais jovens do que os homens;

  • As mulheres não são procuradas pelos fun­cionários do PIP;

  • Há uma prevalência de machismo;

  • Existe ciúme dentro da comunidade caso uma mulher local seja empregada como agente de extensão;

  • Existe uma idéia errônea de que as mulheres não querem participar em atividades de capacitação e treinamento; na verdade, muitas vezes, elas estão animadas para participar;

  • As mulheres são vistas somente como donas-de-casa; e

  • Pouco valor é dado ao trabalho e aos papéis das mulheres com recursos naturais.


Existe uma idéia errônea de que as mulheres não querem participar em atividades de capacitação e trei­namento; na ver­dade, muitas vezes, elas estão animadas para participar
Existem idéias preconcebidas sobre quais atividades as mulheres poderão execu­tar ou não. Em El Ocote, a apicul­tura foi adotada, mas pensava-se que as mulheres não deveriam cuidar das colméias pois a abelhas eram muito agres­sivas. Entanto, os homens abandonam as atividades de apicultura assim que o café estiver pronto a ser colhido.

Muitos dos obstáculos são específi­cos à cultura, país ou região em particular. Na Guatemala, funcionários públicos estavam satisfeitos pelo fato de que viúvas de um grupo indígena perto de Sierra de las Minas iriam receber títulos de pro­priedades por serem consideradas chefes de família. Entretanto, essas mulheres estavam envergonhadas de tomar posse dos títulos em público. Se a literatura mundial servir como guia, essa vergonha pode estar relacionada à noção de que a mulher fracassou em manter seus maridos vivos e está morando em um domicílio onde não há um homem (ver Owens 1996, e Chen and Dreuze 1992, por exemplo, sobre a grave situação das viúvas do mundo inteiro).

Dado que a conservação depende da participa­ção de ambos homens e mulheres; dado que as mulheres participam menos que os homens por uma série de barreiras e dado que muitas dessas barreiras são específicas a determinadas culturas, uma estraté­gia simples para direcioná-las é contar com a ex­periência e conhecimento de ONGs locais que tra­balham com mulheres e assuntos relacionados ao gênero.

Em todos os países onde há áreas do projeto Parques em Perigo (Parks in Peril), existem organi­zações trabalhando em prol das mulheres. Somente no México existem aproximadamente 370 organiza­ções de mulheres. Existem redes regionais de or­ganizações de mulheres, tais como a “Red de Mujeres Afrocaribeñas y Afrolatinoamericanas” sediada na Costa Rica. Existem grupos indígenas, tais como as mulheres Ayamara da Bolívia, que formaram organi­zações para defender sua cultura, terras e territórios. Muitas dessas organizações direcionam seus esforços particularmente a gênero e meio ambiente ou em maneiras de envolver mulheres no desenvolvimento comunitário. O tema da primeira conferência inter­nacional sobre mulheres da floresta amazônica, sediada em Rio Branco, Brasil, em 1999, foi mulheres, desenvolvimento e meio ambiente. A con­ferência proporcionou novas parcerias e contatos além de reforçar antigas alianças.


Exercício


Durante uma reunião, promova uma chuva de idéias para identificar grupos locais e designe a cada participante um grupo para pesquisar e fazer contato. Muitos desses grupos poderão ser poten­ciais colaboradores em conservação, os quais possuem técnicas e experiência para chegar às mulheres e superar as barreiras de participação que muitas delas enfren­tam.

Passo Seis: Trabalhar Intersetorialmente

Discussão Conceitual


Uma abordagem de proteção ambiental e manejo sustentável de recursos naturais com base comunitária reconhece a interação entre meio am­biente, uso de recursos naturais, e as forças políticas, econômicas e sociais. A interação entre conservação da biodiversidade e educação e a interação entre con­servação, democracia e gestão são de importância vital para o PIP.

Educação


Entre 1970 e 1990, o analfabetismo na América Latina decresceu, muitas vezes dramaticamente, mas com variações entre os países. Por exemplo, entre os países visitados pela equipe de avaliação do PIP, somente a Costa Rica possui um índice de analfa­betismo abaixo de 10%. México, Equador e Peru possuem índices entre 10% e 20%. Na Guatemala, existem mais de 20% de analfabetos. Em todos os países visitados, com exceção da Costa Rica, existem mais mulheres analfabetas do que homens. Na Gua­temala, Peru e Equador, existem diferenças significa­tivas no número de homens e mulheres analfabetos. O número de mulheres analfabetas é muito maior que o número de homens analfabetos. Grupos indígenas e rurais freqüentemente apresentam maior analfa­betismo do que a população em geral e maiores dis­crepâncias de analfabetismo entre homens e mulheres (Valdez Gomariz 1995:98).

Em um levantamento nacional sobre a consciência ambiental da população no Peru, houve diferen­ças significativas entre homens e mulheres em relação ao conhecimento de assuntos ambientais, incluindo conservação de biodiversidade e áreas de proteção. Quando comparados, as mulheres tinham um conhecimento menor do que os homens. Entre­tanto, essas diferenças desapareceram quando a edu­cação foi levada em conta. Dessa maneira, os resul­tados desse levantamento demonstraram a importância vital da educação no debate de questões ambientais, incluindo conser­vação. A hipótese foi: a) dado que o conhe­cimento sobre os problemas am­bientais e as medidas necessárias para superá-las aumenta com a educação; b) dado que nos próximos anos, o nível de educação dos peruanos aumentará; c) dado que a diferença entre a educação de homens e mulheres diminuirá, pode-se esperar que o conhecimento ambiental da população irá aumentar. Assim, o apoio à educação e, principalmente, o apoio à educação de mulheres, é importante para a proteção ambiental (Rojas 1998:6).



O apoio à educação e, principalmente, o apoio à educação de mulheres, é importante para a proteção ambiental
Democracia e Gestão


Sabe-se que a conservação de biodiversidade, a saúde e o bem-estar das áreas de proteção são fre­qüentemente dependentes de soluções locais oriundas de iniciativas comunitárias.

  • Em Machalilla, as estratégias adotadas pelos funcionários da reserva variaram desde a ex­clusão de pessoas das áreas de proteção (através de policiamento) até o planejamento participa­tivo com as comunidades no manejo da reserva.

  • Em La Gandoca, parte do Corredor Ecológico de Talamanca, as terras da área de proteção per­tencem aos membros da comunidade. Sem o seu apoio e participação no manejo, não existe área de proteção.

No entanto, enfoques comunitários podem agir contra os interesses das mulheres. Por exemplo, no mundo inteiro, freqüentemente as mulheres têm uma presença política pequena nos conselhos comu­nitários. Reuniões públicas são muitas vezes vistas como espaços masculinos. Em La Encrucijada, uma reunião pública para os avaliadores do PIP numa pe­quena aldeia atraiu somente os pescadores homens. As mulheres estavam trabalhando em outros lugares. Uma mulher comentou, “Muitos programas não têm mulheres. Muitos funcionários não conversam com elas. Elas são mulheres.” Essas são barreiras co­muns e existem estratégias simples para superá-las:

  • Mulheres em várias culturas do mundo inteiro se sentem mais à vontade para conversar entre si e em algumas culturas mulheres conversando com homens fora de suas famílias não são bem vistas. Em El Ocote, La Encrucijada, Machalilla, fun­cionários do PIP fazer chegar suas mensagens às mulheres usando mulheres locais como líderes comunitários e agentes de extensão.

  • Para fazer as mensagens e programas de conser­vação chegar às mulheres é importante identifi­car onde elas se encontram. Muitas vezes, os espaços públicos não são espaços para mulheres. As mulheres criarão seus próprios espaços de reunião, se sua participação e opinião forem valorizadas. Também, é importante identificar quais recursos estão sob a in­fluência dos homens e quais estão sob influência das mulheres. Freqüentemente, os recursos naturais são estratificados por gênero; um exemplo são as mulheres tendo o controle do fruto mas não da ár­vore frutífera.

  • Em algumas das áreas do PIP exite um ambiente de pós-conflito, um período de transição que vai desde um estado de conflito até uma crescente democracia e descentralização. Por exemplo, a guerra na Guatemala ironica­mente deu às mulheres um espaço público maior, especialmente através do notório Comitê Na­cional de Coordenação de Mulheres e através de líderes indígenas tais como Rigoberta Manchú e Rosalina Tuyuc. O Acordo de Paz da Guatemala enfatizou o apoio às mulheres maias. Essas aberturas democráticas fornecem um fórum para que as mulheres discutam muitos assuntos de interesse, incluindo aqueles relacionados ao meio ambiente.

Exercício


  • Discuta como o apoio à educação, especialmente à educação de mulheres, pode ser um instru­mento de conservação. Nesse âmbito, o apoio de programas do USAID, tais como o Programa Educacional de Meninas e Mulheres do Es­critório de Mulheres em Desenvolvimento (Girl’s and Women’s Education Program of the Office of Women in Development) são vistos como atividades que apóiam os objetivos am­bientais e de recursos naturais.

  • Discuta em grupos pequenos como os processos participativos do PIP não somente promovem a conservação e o apoio às áreas de proteção mas também são vitais para o fortalecimento de or­ganizações sociais e instituições democráticas, incluindo os direitos das mulheres. Com o grupo inteiro discuta em livre debate como aqueles tra­balhando com assuntos de democracia e gestão podem colaborar com o setor ambiental para fins de aprendizado e apoio mútuo.

Conclusão


Este guia de capacitação foi escrito como resul­tado da avaliação de meio termo do Projeto Parques em Perigo, e responde a uma das recomendações de tal avaliação, “documentar a experiência do PIP com temas de gênero” (TRD 1998). Dessa avaliação surgiram vários exemplos valiosos da im­portância de gênero para a conservação. Ao com­pletar os exercícios do guia, os funcionários das áreas de proteção e seus parceiros locais nas reservas e seus entornos começarão a captar a riqueza conceitual e os métodos participativos que o enfoque de gênero pode fornecer à conservação da biodiversidade. Essa ca­pacitação gera habilidades valiosas, que vão desde a desconstrução da linguagem, a qual evita uma com­preensão completa da forma em que homens e mulheres usam os recursos naturais, até a investiga­ção das estruturas institucionais que excluem as mulheres. Apesar dos exemplos usados neste guia serem da América Latina, os conceitos e exercícios aqui apresentados são apropriados para qualquer lugar do mundo. Não resta dúvida de que a variável gênero é um componente central para aqueles que trabalham com conservação com base comunitária.

Bibliografia


Chen, Marty e J. Dreuze

1992 Widows and Well-Being in Rural North India. Discussion paper No. 40: London School of Economics.

Dixon-Mueller, R. e R. Anker

1988 Assessing Women’s Economic Contri­butions to Development. International Labor Organization: Geneva.

Gammage, Sarah et.al.

1999 Population, Consumption, and Environ­mental Linkages in a Mangrove Ecosys­tem in the Gulf of Fonseca. International Center for Research on Women: Wash­ington, D.C.

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1991 Mujer y Medio Ambiente. Fundacion Natura-CEPLAES: Quito, Ecuador.

Owen, Margaret

1996 A World of Widows. Zed Books: Lon­don.

Rojas, Mary Hill

1998 A Gender-Focused Analysis of the Peru Environment and Natural Resources Survey and the Design of a Public Pres­entation of the Survey. WIDTECH/USAID:Washington, D.C.

Tropical Research and Development, Inc. (TRD)

1998 Parks in Peril: External Evaluation of LAC Region. Gainesville, Florida: USAID and Tropical Research and De­velopment Inc.

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1995 Latin American Women. Instituto de la Mujer de Espana and FLACSO: Santi­ago, Chile.




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