Trabalho, educaçÃo e formaçÃo profissional na área de enfermagem (1960- 1985) Beatriz Lemos Stutz Universidade Federal de Uberlândia- escola Técnica de Saúde Carlos Alberto Lucena Universidade Federal de Uberlândia- faculdade de Educação



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TRABALHO, EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL NA ÁREA DE ENFERMAGEM (1960- 1985)
Beatriz Lemos Stutz

Universidade Federal de Uberlândia- Escola Técnica de Saúde
Carlos Alberto Lucena

Universidade Federal de Uberlândia- Faculdade de Educação


Introdução
O presente trabalho é parte de pesquisa de doutorado em andamento, ligada à Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia e intitulada Técnico em Enfermagem no município de Uberlândia- a construção histórica de uma profissão e a primeira instituição escolar. Por estar relacionado a uma instituição voltada para a formação profissional na área de enfermagem, o debate sobre o trabalho e o conhecimento acerca do universo em que se efetiva a prática da saúde, exerce, na atualidade, importante papel no sentido de contribuir para a elucidação e transformações na organização e construção de ações voltadas para a educação e formação desses profissionais. A contextualização dessa prática diante das mudanças pelas quais vêm passando o mundo do trabalho e os determinantes e condicionantes das relações que envolvem as atividades laborais nas instituições é importante requisito para a construção da trajetória histórica de uma profissão, não apenas registrando fatos, mas interpretando-os e avaliando-os à luz dos movimentos educacionais e sociais mais amplos em sua concretude. A correlação de tais movimentos ao contexto de sua produção poderá contribuir não apenas para repensar, mas, fundamentalmente, para compreender o presente. Tal abordagem é evidenciada por Araújo e Inácio Filho (2005), ao dizerem de suas preocupações em realizar estudos da realidade regional, vinculados a interpretações mais abrangentes que envolvem a história da educação brasileira, promovendo a aproximação do panorama estabelecido por esta às especificidades e singularidades locais. Pensamento este convergente com as reflexões de Manacorda (1996) já que a história, enquanto “palavras do tempo” prescinde da inter-relação dos aspectos cotidianos, técnicos e materiais dos processos de instrução com o desenvolvimento produtivo, social e político.
Sobre a primeira escola técnica de enfermagem no município de Uberlândia
A primeira escola técnica de enfermagem no município de Uberlândia tem sua trajetória marcada por mudanças significativas enquanto instituição educacional, com início na década de 70 do século XX, como uma escola privada de enfermagem de nível médio, denominada Escola Técnica de Enfermagem Carlos Chagas (ETECC), atendendo, a uma demanda por profissionais nessa área, tanto do Hospital de Clínicas da Fundação da Escola de Medicina e Cirurgia de Uberlândia (FEMECIU), quanto de hospitais e clínicas da cidade e região (Faleiros, 1996, p. 58). Assim, no ano de 1973 do século XX, período caracterizado pela ditadura militar no país, a ETECC inicia suas atividades, ligada à Escola de Medicina e Cirurgia de Uberlândia, com recursos financeiros da FEMECIU e do então Ministério da Educação e Cultura, como também contribuições dos alunos e comunidade local. Anos mais tarde, em 1981, após a federalização da Universidade de Uberlândia, ocorrida em 1978 pelo decreto nº. 6532, consolida-se como uma Escola desta instituição. Em decorrência de sua integração à Universidade, com a aprovação de seu Regimento Interno e o reconhecimento da habilitação do Técnico de Enfermagem por meio da Portaria MEC nº. 090 de 29 de outubro/1981, ampliam-se as perspectivas para abertura de novos cursos, estimulada também por uma demanda social diante de novas oportunidades no mercado de trabalho. A partir daí, no ano de 1984, a Escola passou a oferecer o Curso Técnico em Laboratório de Prótese Odontológica, tendo sido aprovado pelo Conselho de Ensino e Pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia em 16 de agosto de 1983 e reconhecido pelo MEC/SESG por meio da Portaria nº. 5, em março de 1987.

Tal fato marca a mudança na denominação da Escola que, em 14 de fevereiro de 1984, passa a ser chamada de Escola Técnica de Segundo Grau da Universidade Federal de Uberlândia. Avançando ainda mais na oferta de novos cursos para a comunidade local e regional, em 1988, são criados os Cursos Técnicos de Patologia Clínica e Higiene Dental. Diante de tais mudanças, com maior grau de complexidade, a Escola passa a ter sua imagem identificada enquanto instituição educacional formadora de profissionais Auxiliares e Técnicos na área de Saúde, recebendo em 30 de setembro de 1991, pelo Conselho Universitário da Universidade Federal de Uberlândia, mediante a Resolução nº. 09/91, o nome de Escola Técnica de Saúde da Universidade Federal de Uberlândia (ESTES). Nomenclatura esta que permanece até os dias atuais.


História de Instituições Escolares
Para Magalhães, a história é parte integrante nas decisões e reflexões quanto ao presente e ao futuro da vida das sociedades, das instituições e das pessoas, constituindo-se como fator de identidade e principais argumentos da ação educativa. Para ele ainda, a história da educação é apresentada como um discurso científico sobre o passado educacional sendo, além de memória, um paradigma.

É memória educacional enquanto preservação, organização e comunicação de materiais museológicos e arquivístivos, e enquanto repositório de recordações e representações verbais (orais e escritas), emocionais, afetivas, fisiológicas, organizadas, quer em quadros biográficos e grupais, quer tomando por base referentes institucionais e sócio-comunitários (MAGALHÃES, 2005, p.97-98).


Araújo e Inácio Filho (2005), ao discorrerem sobre a produção histórico-educacional na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, ressaltam a importância da pesquisa em história das instituições escolares tornando-se o resgate do processo de escolarização uma temática fecunda e das mais promissoras nessa área. Tais autores apresentam em sua obra as pesquisas da história de instituições escolares existentes nessa região, dentre elas a dissertação de mestrado relativa ao curso de enfermagem da Escola Técnica de Saúde/UFU, com periodização referente de 1971 a 1995 (Faleiros, 1997). Vale ressaltar que até o momento esta é a única pesquisa existente sobre esta instituição de ensino, cuja temática tem como foco o Curso Técnico em Enfermagem. Há, portanto, uma trajetória não registrada e colocada em evidência, em que transformações histórico-educacionais, sociais, políticas e econômicas continuaram traçando os caminhos do Curso Técnico em Enfermagem da ESTES e de alunos egressos, cujos depoimentos muito têm a nos dizer sobre o exercício de uma profissão em que as mudanças no mundo do trabalho permeiam uma história não acabada. Portanto, ao contá-la, o trabalho e a educação profissional estarão também lado a lado. Da mesma forma, torna-se importante a análise de fontes primárias e secundárias que permitam a problematização das relações e contradições dos governos militares na formação desses profissionais, considerando-se o momento político em que surgiu a instituição pesquisada.
A categoria trabalho
O trabalho, enquanto categoria de análise em pesquisas na área de história da educação, reveste-se de fundamental importância para a compreensão da realidade educacional no país, uma vez que está presente na vida do homem o qual, enquanto sujeito, produz sua própria história na práxis cotidiana. O trabalho, inexoravelmente presente na vida dos indivíduos, é a base de produção dos meios para sua subsistência. Ao realizá-lo, o homem produz não apenas os meios e as condições materiais da vida em sociedade como também sua própria existência. Se podemos então considerar o trabalho como um momento fundante da vida humana, a sociedade capitalista o transforma em um trabalho assalariado, alienado e fetichizado.1 Nesse processo, há um estranhamento em relação a ele mesmo, havendo, segundo Antunes (2004), uma conversão em desrealização do ser social. No trabalho fetichizado os produtos parecem ter vida própria, sendo fruto de um movimento sobrenatural e não do desenvolvimento e envolvimento humano.

Engels (2004), ao abordar o papel do trabalho na história da humanidade, aponta que é por meio dele que o homem, à diferença dos animais, adquiriu domínio sobre a natureza, produzindo instrumentos para colocá-la a seu serviço. Portanto, o trabalho tem sua origem na criação de instrumentos que, inicialmente rudimentares, foram sendo aperfeiçoados e modificados, atingindo sofisticação tal que colocou o homem a serviço do próprio homem. Nesse sentido, formas mais elevadas de produção ocasionaram conseqüências sociais com o aparecimento de diferentes classes.

O homem se faz homem a partir do trabalho, assim, é por meio dele que assegura sua existência, transformando a natureza para satisfazer suas necessidades. Neste processo de produção de si mesmo, o homem aprende a lidar com a natureza, estando aí implícito, necessariamente, um processo educativo2. Por este prisma, trabalho e educação não se separam e, historicamente, a transmissão de técnicas e formas efetivas de produção apresenta-se como garantia de continuidade e desenvolvimento humano, assim como de sua existência enquanto ser social. Contudo, com esse aparecimento de diferentes classes que emergem com a propriedade privada, gera-se também a divisão da educação, à medida que já é possível ao homem viver do trabalho alheio e, conseqüentemente, permitido a alguns outra forma de produção: produção de tempo ocioso. Esta ociosidade, no sentido de já não ser mais necessário ao homem, ou a todos os homens, trabalhar com as próprias mãos, transformando a matéria presente na natureza, ocasiona a separação entre educação e trabalho. Cria-se a educação escolarizada, em que o processo educativo não mais se constitui em uma ação espontânea e a existência humana deixa de ser caracterizada pelo modo coletivo de produção.3 Este fato fundamenta a origem da escola na sociedade escravista, como forma de educação de homens livres, na qual não havia lugar para os escravos, sendo estes educados fora dela, por meio da práxis produtiva. O advento do feudalismo, entretanto, provoca uma ruptura desse modo de produção, o que por sua vez gera profundas mudanças na educação. Esta, diferente da educação característica da Antiguidade, passa na Idade Média a ter a presença marcante da Igreja Católica. A histórica sofisticação dos meios de produção e das relações de dominação, características da exploração do homem pelo homem, coloca, na Modernidade, o Estado no centro das questões educacionais e a escola como irradiadora de sua ideologia. Isso, segundo Saviani:

[...] sugere o peso decisivo, senão exclusivo da escola na responsabilidade pela reprodução do modo de produção capitalista. E a via para o cumprimento desse papel reprodutor é o desenvolvimento da escola como instituição apartada do trabalho produtivo. [...] a separação entre instrução e trabalho. (SAVIANI, 2007, p.7)


Para Marx (1980), o trabalho só é trabalho se gera valor-de-uso e esse valor só pode existir se o objeto ou aquilo que se produz for útil à sociedade, dando, portanto origem ao valor-de-uso social, seja qual for a natureza da necessidade humana, incluindo-se aí, além de objetos concretos, as fantasias. Dessa forma, a destreza média dos trabalhadores, o grau de desenvolvimento da ciência e sua aplicação tecnológica, a organização social do processo de produção, o volume e eficácia dos meios de produção como também as condições naturais em que o trabalho se desenvolve são circunstâncias que, para esse autor, determinam sua produtividade.

O processo de transformação é inerente ao homem e à sociedade por ele construída. Tal transformação só é possível mediante a ação humana que pode ser traduzida pelo trabalho enquanto um processo do qual:

[...] participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecias e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais. (MARX, 1980, p. 202).
A história, não como algo abstrato, mas concretamente construída no e pelo fazer humano, é permeada de lutas, interesses econômicos, políticos, sociais e individuais. Nesse sentido, é também inerente a esse processo articulações entre três instâncias, a saber: trabalho, ciência e educação. Tais instâncias devem ser entendidas como ações humanas que se manifestam por meio de distintas visões de mundo em que não há uma unicidade pacífica e sem contradições, constituindo-se pela heterogeneidade econômica, política e cultural as quais se manifestam em distintos projetos das classes sociais.4

Para Nosella (Mímeo), um processo de investigação com base no marxismo investigativo, coloca a história dos homens suscetível a vários desdobramentos, marcado por questões econômicas, lutas e vontades humanas, cuja compreensão pode ser obtida por meio de contínuas pesquisas e análises, encontrando-se o referencial no método dialético. Tal pressuposto marxista5 contrapõe uma concepção histórica em que a produção da vida real aparece como algo separado da vida cotidiana assim como, um distanciamento da relação do homem com a natureza. Nesse sentido, a relação do homem com a natureza não é excluída da história e esta, por sua vez, não se resume a uma sucessão de fatos sem nexo. Ao contrário, a história é feita pelo homem em sua relação com a natureza, mediante a produção material de vida, em que o mundo sensível não é algo dado, mas um produto histórico, resultado da atividade de várias gerações que modificam a ordem social.

Na relação homem com a natureza, o trabalho emerge como um processo em que a ação do primeiro, de acordo com Marx (1980), põe em movimento as forças naturais de seu corpo, apropriando-se dos recursos da natureza, modificando-os e transformando-os em algo de utilidade para si e para os outros, ao mesmo tempo em que transforma a si mesmo. Na história dessa relação, portanto, o trabalho surge como categoria central, cuja compreensão requer uma análise do mundo produtivo e das circunstâncias em que se dá essa produção, assim como suas implicações na vida do indivíduo que produz e da sociedade de modo geral. Se vivemos em uma sociedade marcadamente dominada pelo capital e por aqueles que detêm os meios de produção, torna-se necessária a discussão em torno das circunstâncias em que se realiza determinado trabalho, a organização social do processo produtivo, o desenvolvimento da ciência e sua aplicação tecnológica, o grau de envolvimento do sujeito no ato de produzir e as implicações da venda da força de trabalho sobre ele.
O trabalho na sociedade capitalista

O trabalho, enquanto ação humana desenvolvida em um contexto social, resulta em uma interação entre aquele que trabalha e os meios de produção, sofrendo influências e determinações políticas, sociais e econômicas que, em um movimento dialético, constroem a história da humanidade, sendo influenciado e exercendo influências no meio ao qual está inserido.

Em uma sociedade profundamente marcada pelo capitalismo, as formas de produção e organização do trabalho impõem desafios ao homem enquanto ser dependente da atividade laboral, não apenas para sua sobrevivência, mas também como elemento indispensável à construção de sua identidade e cidadania. Dessa forma, a profissão de um indivíduo está relacionada ao reconhecimento social dos saberes que adquiriu em seu processo de formação, assim como, dos serviços ou produtos que oferece, mediante sua inserção no mercado de trabalho (Franzoi, 2003, p.66).

Alterações nos modos de vida e consumo da sociedade têm provocado profundas mudanças nas atividades de trabalho, não podendo estas serem mais consideradas apenas como execução de papéis profissionais (Laudares e Tomasi, 2003). Os novos modelos organizacionais, em substituição ao modelo Taylorista, evidenciados a partir da década de 1970, colocam o trabalho como instrumento de transformação do mundo, cujo sistema de produção é pressionado por um mercado sem fronteiras.

Para Kuenzer (2000), uma nova concepção de empregabilidade vem sendo construída como resultante do esforço individual, fundamentada na flexibilidade enquanto capacidade para adequação a mudanças.

Ao refletir sobre trabalho e comunicação, Markert (2002) chama atenção para o processo de reestruturação produtiva como conseqüência da acirrada competição nos mercados internacionais, gerando dificuldades na manutenção e aumento de lucros pelas empresas, passando a fazer parte do cotidiano dos trabalhadores as demissões, sendo possível apenas a alguns usufruir das vantagens de qualificação e ocupação no novo sistema produtivo. Da mesma forma, surge um novo tipo de “servidor produtivo”, conseqüência dos avanços tecnológicos e em específico da informatização, que deve ser capaz de conhecer o processo organizacional do trabalho e desenvolver a capacidade de comunicação.

Outra referência ao tema é feita por Maluf, relacionando o profissional solicitado e o ensino técnico diante das transformações vivenciadas pela sociedade:

As mudanças vivenciadas pela sociedade no mercado de trabalho e nas empresas industriais requereram nova postura do ensino técnico. Por outro lado, as transformações tecnológicas, além de serem consideravelmente mais rápidas, demonstraram possuir características bem diferentes, tendo por base a capacidade de cooperação e trabalho em equipe. (MALUF, 1998, p.26)


Com a crise do capitalismo monopolista nos anos 70, houve uma mudança radical no mercado de trabalho, com aumento do desemprego, da precarização e desqualificação dos processos de trabalho, em que programas de formação profissional vão ao encontro de teses neoliberais, direcionadas para o livre mercado e o desmantelamento do setor público (Lucena, 2001).

Para Stutz (1999), o processo de globalização e o acelerado ritmo dos avanços científicos e tecnológicos têm exigido do homem um esforço cada vez maior no sentido de assimilar, incorporar e adaptar-se às mudanças crescentes. Como conseqüência, podem ser observados graves problemas sociais com o aumento do desemprego e crise nos setores de habitação, saúde e educação.

O fato é que a sociedade contemporânea vive sob a égide de um capitalismo voraz, cujas implicações sobre os trabalhadores têm suas raízes já no século XIX, com o aumento vertiginoso do número de pessoas que ganhavam a vida em troca de um salário, especialmente nos países industrializados, onde a urbanização avançava rapidamente, e emigrantes transferiam-se para o trabalho não-agrícola como conseqüência do processo de modernização da lavoura (Hobsbawm, 2003).

Podemos encontrar ainda hoje, na realidade enfrentada pelos trabalhadores, pressupostos da economia política apresentados por Marx tais como, o trabalhador enquanto mercadoria e a objetivação do trabalho. Para Marx (1983), quanto mais mercadorias cria, mais o trabalhador se transforma em mercadoria barata e quanto maior a valorização do mundo das coisas, maior é a desvalorização do mundo humano. Relacionando com o produto de seu trabalho como com um objeto alheio, o trabalhador tem seu mundo interior empobrecido. Portanto, quanto mais se gasta trabalhando, mais poderoso se torna o mundo objetivo alheio criado por ele.

O sofrimento advindo da relação homem-trabalho é apontado por Marx, ao discutir em que consiste a exteriorização do trabalho:

Ora, em que consiste a exteriorização do trabalho? Primeiro que, o trabalho é exterior ao trabalhador, ou seja, não pertence à sua essência, que portanto ele não se afirma, mas se nega em seu trabalho, que não se sente bem, mas infeliz, que não desenvolve energia mental e física livre, mas mortifica a sua physis e arruína a sua mente. Daí que o trabalhador só se sinta junto a si fora do trabalho e fora de si no trabalho. Sente-se em casa quando não trabalha e quando trabalha não se sente em casa (MARX, 1983, p.153).


Com a industrialização, a expansão econômica provocou o aumento do número de proletários diante da demanda irracional por força de trabalho, empregando um contingente de pessoas sem qualificações especiais, uma vez que a mecanização do trabalho industrial apenas engatinhava. Ao final do século XIX, segundo Hobsbawm:

..., não havia país industrializado, em fase de industrialização ou de urbanização que pudesse deixar de tomar consciência dessas massas de trabalhadores, historicamente sem precedentes e aparentemente anônimas e desenraizadas, que tornavam uma proporção crescente de seus povos e, ao que parecia, em aumento inevitável; dentro em pouco, provavelmente, seria uma maioria (HOBSBAWM, 2003, p.168).


Em uma sociedade capitalista, marcada na primeira metade do século XX por duas grandes guerras, vivemos na atualidade, à sombra de movimentos históricos como o fordismo e o toyotismo, este último, ganhando força na segunda metade desse século, cujas influências no mundo do trabalho sofremos até hoje.

Para Lucena (2004), o fordismo concretizou-se como um projeto que afetou o modo de viver da sociedade, e não simplesmente enquanto expressão de uma sociedade baseada na produção e no consumo de mercadorias em larga escala. Teve forte significado no pós-guerra, redefinindo o papel das grandes coletividades na sociedade capitalista, servindo de suporte para a democracia aos moldes do capital e a regulação da economia nos termos do consumo em massa.

O fordismo representou, para a sociedade industrial moderna, a consolidação de um novo padrão de organização e gestão do trabalho, enquanto modelo de industrialização, que como dito acima, uma vez voltado para a produção e o consumo em massa, abre as portas para a separação entre o trabalho intelectual e físico, com planejadores controlando e fiscalizando as atividades exercidas pelos trabalhadores, visando maior eficiência e produtividade (Sobrinho et al, 2004).

É interessante notar que nesse período, no Brasil, esse modelo de organização e gestão do trabalho provoca mudanças nas práticas do setor de saúde, onde a força de trabalho assalariado se faz notar, havendo controle sobre as atividades dos profissionais, com redução de sua autonomia, sendo isto, ao mesmo tempo, compensado por estabilidade no emprego, melhores condições de trabalho e vencimentos por produtividade.

Contudo, como aponta Antunes (2000), o fordismo manteve-se forte até por volta da década de 70. A partir daí, inicia-se o processo de transição no interior do sistema. Exige-se um novo perfil de trabalhador tendo em vista que a produção deve se sustentar em um processo flexível, em que um operário possa lidar com várias máquinas, não mais a relação um homem por máquina, transformando-se em trabalhador multifuncional. Nesse contexto, surge o Toyotismo, enquanto um sistema produtivo que, utilizando um número mínimo de mão-de-obra, incentiva horas-extras de trabalho, contratações temporárias ou subcontratações, de acordo com as necessidades de mercado.

Com o advento da globalização, a expansão em escala mundial do modelo de produtividade japonês atinge nos anos 80 e 90 características avassaladoras para a sociedade, uma vez que, além da diminuição dos postos de trabalho, traz em seu bojo a cooptação e manipulação de trabalhadores e suas organizações, minando seu poder de luta na reivindicação por melhores salários e condições de trabalho. Um contingente expressivo de desempregados acaba sendo utilizado por empregadores como forma de pressão àqueles que permanecem em seus postos de trabalho, uma vez que a facilidade de substituição de mão-de-obra torna-se uma ameaça constante. Mesmo em países onde o capitalismo se desenvolveu, a dificuldade de criação de postos de trabalho é uma realidade cujas implicações refletem-se no aumento, não só de desemprego, mas do aumento do tempo em que se fica desempregado, causando um grave problema social a partir da desestabilização da relação homem-sociedade. Nesse cenário, discute-se a redução da jornada de trabalho como alternativa para esta crise. Contudo, Lucena (2004), ao abordar as influências neoliberais sobre o desemprego e a precariedade do trabalho, chama a atenção para a complexidade que se esconde atrás dessa alternativa. Já na década de 70, o neoliberalismo sugeria o estabelecimento da individualidade em detrimento da coletividade, a “socialização” do capital, a defesa da livre concorrência e auto-regulação do mercado e, fundamentalmente, a privatização do Estado, transferindo as responsabilidades públicas para a rede privada. Nessa perspectiva, a criação de empregos torna-se possível somente com a deterioração destes e a redução dos custos de trabalho. O desemprego, nessa visão, passa a ser de responsabilidade de cada indivíduo. Como conseqüência disso, o trabalhador, tornando-se responsável por sua empregabilidade, torna-se também responsável por sue formação profissional e requalificação. Na visão ainda desse autor:

Essas ações do governo e das empresas estão levando ao aumento da degradação da qualidade do emprego, pois a qualidade dos empregos criados é indiferente aos eliminados. Esses processos estão criando uma força de trabalho descartável, comprometendo a qualificação futura da força de trabalho, visto que a verdadeira qualificação requer formação básica e tempo de preparo. (LUCENA, 2004, p. 176)
Tudo isso tem levado aos que têm emprego formas desumanas de tratamento, com desrespeito aos direitos sociais, baixa remuneração, deterioração das relações de trabalho, inexpressividade sindical, sofrimento psíquico intenso, segregação e exclusão (Peres et al., 2003).

Não há dúvidas do grande impacto causado pelas décadas de 80 e 90 sobre a economia mundial e as relações de trabalho, como também não há dúvidas sobre os grandes desafios que a humanidade está enfrentando diante da herança que recebeu. Para Hobsbawn, a partir dos anos 90, uma nova era começou:

Não sabemos o que virá a seguir, nem como será o segundo milênio, embora possamos ter certeza de que ele terá sido moldado pelo Breve Século XX. Contudo, não há como duvidar seriamente de que em fins da década de 1980 e início da década de 1990 uma era se encerrou e outra nova começou. (HOBSBAWM, 2005, p. 15)
Sobre tais perspectivas, Pizzoli (2005) enfatiza que ao contrário do que se esperava, o mundo contemporâneo é marcado não por um domínio sereno das ciências, mas por eventos político-religiosos desafiadores, com poder de destruição, mostrando que os avanços tecnológicos não foram suficientes para garantirem uma melhora da consciência social. Tais aspectos se refletem de forma intensa também nas relações de trabalho.

Se, ao longo da década de 90, como afirma Nunes (2003), houve a inclusão de mais de três milhões de trabalhadores ao universo de desempregados, em decorrência da abertura comercial brasileira e do processo de privatizações, a perda de nossa capacidade de criar empregos formais atinge principalmente aquela parcela da população sem qualificação profissional que, em décadas anteriores, era absorvida pela indústria em atividades rotineiras, sem grandes exigências quanto à sua formação educacional, principalmente a população migratória do campo para os grandes centros urbanos.

A enfermagem, como atividade laboral, circunscrita a uma área diretamente atingida pelas instâncias sócio-econômicas e políticas, coloca mais do que quaisquer outras questões, a qualificação profissional, a ciência e a tecnologia no centro das discussões, com graves problemas a serem solucionados, para os quais a educação, por si só, tem- se revelado insuficiente.
O trabalho e as transformações no ato de educar
Assim como o ato de trabalhar, o ato de educar esteve sempre presente na relação do homem com a sociedade e, embora um esteja imbricado ao outro, os fundamentos histórico-ontológicos inerentes a essa díade nos alerta, segundo Saviani (2007), para a necessidade de compreender como se produziu a separação entre ambos em nossa sociedade. Tal separação surgiu à medida que ao produzir não apenas os meios para sua subsistência, mediante aceleração da produção e acumulação de mais-valia, o homem, com a apropriação privada da terra, já não mais promove a apropriação coletiva dos meios de produção. Ao contrário, estabelece uma divisão de classes que possibilita a alguns viver do trabalho alheio. Nesse momento, a educação que nas sociedades primitivas era inseparável do ato de trabalhar passa a não identificar-se mais plenamente com o próprio ato de trabalhar. Surge então uma educação para a classe de proprietários e outra distinta para os não-proprietários. Ao abordar esse tema, Saviani esclarece:

[...] o controle privado da terra onde os homens vivem coletivamente tornou possível aos proprietários viver do trabalho alheio; do trabalho dos não-proprietários que passaram a ter obrigação de, com seu trabalho, manterem-se a si mesmos e ao dono da terra, convertido em seu senhor. [...] Ora, essa divisão dos homens em classes irá provocar uma divisão também na educação. Introduz-se, assim, uma cisão na unidade da educação antes identificada plenamente com o próprio processo do trabalho. [...] Desenvolveu-se, a partir daí, uma forma específica de educação, em contraposição àquela inerente ao processo produtivo. Pela sua especificidade, essa nova forma de educação passou a ser identificada com a educação propriamente dita, perpetrando-se a separação entre educação e trabalho. (SAVIANI, 2007, p.5)


O surgimento do modo de produção capitalista com a geração sistemática de excedentes e a organização da produção voltada para a troca, que determina o consumo, desloca o eixo do processo produtivo do campo para a cidade. A indústria aos poucos, vai assumindo papel predominante na sociedade, inclusive a agrária que passa, cada vez mais e de forma acelerada, a perder espaço para a indústria. A chamada Revolução Industrial, iniciada ao final do século XVIII, marcada pela introdução da maquinaria, ou seja, pela mecanização das operações manuais, ocasionou também a necessidade de uma qualificação mínima do indivíduo para integrar-se ao processo produtivo, colocando a escola como forma predominante de educação. Contudo, surge também a separação no sistema de ensino, em que escolas de formação geral são destinadas às classes dirigentes, às profissões intelectuais e escolas de formação profissional para os trabalhadores.

Nas páginas da história da educação brasileira, tem sido notória a discussão em torno do desenvolvimento econômico e o papel do ensino em relação à consolidação de uma nação forte, com indivíduos preparados para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças no mercado produtivo e a exigência de qualificação dos trabalhadores. Paralelas a isto, discussões em torno de uma escola única, democrática, que possibilite oportunidades iguais para todos também ocupou o centro das atenções durante todo o século XX e pode-se dizer que ainda permanece no cenário atual. Contudo, não se tem mais a certeza da escola como redentora dos males que afligem a sociedade nem tampouco de que seja ela capaz de, por si só, diminuir a pobreza e as desigualdades entre os homens. Uma análise da legislação educacional brasileira nos mostra que sempre houve um distanciamento entre esta e a realidade nacional, como enfatiza Stutz (1998), ao discutir a instituição do ensino profissional compulsório nas escolas de ensino médio pela Lei Nº. 5692/71:

Essa medida surgiu como uma forma de solucionar a pressão da demanda para o ensino do 3º grau, acreditando-se que, uma vez de posse da habilitação, o técnico seria absorvido pelo mercado de trabalho. Assumindo a dupla função de formar mão-de-obra qualificada e reduzir a pressão da classe média sobre a universidade, a profissionalização não alcançou tais objetivos, pois a parcela de jovens que tinham acesso ao 2º grau continuou a mesma, podendo ser considerada de elite, não se interessando por profissões manuais e técnicas. (STUTZ, 1998, p.17).
Pode-se dizer que a realidade acima explicitada não é diferente do cenário percebido hoje no que diz respeito à educação. Desse período para cá mudanças na legislação educacional brasileira continuaram ocorrendo e, em específico, no que diz respeito à profissionalização via instituição de ensino, sem, contudo, concretizar-se a idéia de uma escola única para todos.

Diante do aqui exposto, a abordagem da categoria trabalho, além de estar diretamente relacionada à educação, requer também uma discussão entre esta e o conhecimento que, por sua vez, inscreve-se na área da ciência e da tecnologia. Sobre isto, falaremos a seguir.


Trabalho, tecnologias e as relações entre conhecimento e educação
O debate sobre trabalho, tecnologias e suas relações com o conhecimento e a educação tem tido, mais do que nunca, a atenção de pesquisadores que vêm na categoria aqui discutida o centro de desenvolvimento da sociedade, uma vez que sem a atividade laboral nenhum homem, nenhuma sociedade pode sobreviver. Paradoxalmente, o trabalho ao mesmo tempo em que é fonte de vida por proporcionar ao indivíduo os meios pelos quais é capaz de existir, é também fonte de desprazer e dor. Na era do capital, cuja característica é trabalho morto que como um vampiro se reanima sugando o trabalho vivo e quanto mais o suga mais forte se torna6, a exploração da força de trabalho humano transforma de modo cruel o sujeito em objeto, na medida em que este se submete às exigências do mercado, colocando sua força de trabalho à venda. Essa venda da força de trabalho tem longa história e insere-se em um amplo quadro político-econômico nacional e internacional, cujas nuanças são apresentadas por Lucena ao abordar as transformações advindas da crise econômica, política e social inerentes ao capitalismo monopolista nas últimas décadas:

A ausência de crescimento econômico atrelado à não redução da jornada de trabalho, articulada ainda ao crescimento do desemprego, tem levado milhares de trabalhadores ao desespero. Os empregados, com medo de perder essa condição, submetem-se a qualquer situação de trabalho para permanecer no emprego. [...] Consolida-se um período denominado “tempos de destruição”, com alicerces baseados no caos, no crime, na violência, na (des)qualificação profissional e na decadência das estruturas sociais.[...] Aqueles que vendem a sua força de trabalho passam a lutar pelo direito de serem explorados. (LUCENA, 2004, p.13).


Apesar do acelerado processo dos avanços científico-tecnológicos presenciado pela humanidade nos últimos tempos, poucos são aqueles que podem usufruir de seus benefícios e inúmeros são aqueles que, sem trabalho, não têm sequer o mínimo para sua subsistência. Paralelo a isso, a tecnologia ao mesmo tempo em que acelera a produção e aumenta a oferta de mercadorias passa a ser forte concorrente da mão humana na corrida por postos de trabalho à medida que, com a introdução de novas maquinarias reduz em muitos setores a oferta de vagas. Essa racionalização e aumento da produção possibilitada pelas tecnologias e ao mesmo tempo, a diminuição de ofertas de emprego, gera por outro lado, uma contradição e abre uma crise dentro do próprio capital. Se este se mantém pelo consumo das mercadorias que produz, tão importante quanto a crescente troca e circulação de mercadorias é a existência de consumidores para sustentar esse processo. O aumento do desemprego gerado pela redução de postos de trabalho afeta diretamente o número de consumidores de mercadorias, tornando, portanto, necessário ao capital buscar saídas para a crise, inserindo-se entre uma delas, como aponta Lucena (2006), o obsoletismo de bens de consumo duráveis e o abandono deliberado de bens e serviços, com o aumento na velocidade da troca de produtos por aqueles que ainda podem consumir.

Tal problemática acima explicitada, sob uma visão dialética, cria também graves problemas sociais uma vez que, em uma sociedade marcada pelo consumo, aqueles que coexistem ao lado do processo de produção ampliam o número de excluídos, sem acesso à condições mínimas de sobrevivência e às tecnologias que lhes permitam ampliar sua qualidade de vida, uma vez que esta só se torna possível por meio de utilização, não apenas dos bens de consumo, mas, fundamentalmente, a apropriação conhecimento produzido. Nesse cenário, a crise econômica, política e social gerada no interior do capitalismo causa também impactos na formação profissional, gerando discursos acusatórios à educação no sentido de colocá-la como incapaz de promover a formação de sujeitos capazes de atenderem às necessidades do mercado. O que se vê na realidade é que as exigências quanto ao nível de escolaridade e formação dos trabalhadores muda conforme a região de um país, levando-se em consideração aspectos como seu desenvolvimento político-econômico, oferta de mão-de-obra e tecnologias disponíveis.

Kuenzer et. al (2007), ao discutirem a função mediadora da educação em relação à articulação entre conhecimento tácito e inovação tecnológica, apontam que há uma articulação dialética entre estes, uma vez que são categorias que se complementam quando se trata de atender às necessidades produtivas. Percebe-se, no debate promovido por esses autores, a relevância do conhecimento científico e, por conseguinte, da formação escolar no exercício prático da profissão, por possibilitar o desenvolvimento de linguagens e do raciocínio que estão diretamente ligados ao conhecimento tácito, tornando a execução das atividades daquele que trabalha na linha de frente mais eficiente e adequada às exigências e flexibilidade de suas funções. Pode-se dizer então que há estreita relação entre conhecimento científico e tácito na criação de soluções inovadoras, no exercício profissional. Por esse prisma, fica clara a articulação entre teoria e prática, tornando-se importante ferramenta para um desempenho profissional de melhor resolutividade e qualidade, como se vê na afirmação a seguir:

[...] a dinamicidade e a complexidade do trabalho conduzem a uma relação mais estreita entre conhecimento tácito e científico; quanto mais dinâmico e complexo o trabalho, ou seja, quanto mais situações que fogem da normalidade (eventos) ele produz, mais impacta a relação entre conhecimento tácito e científico, levando o trabalhador a buscar os fundamentos de sua experiência para criar soluções inovadoras; ao contrário, o trabalho simplificado, repetitivo, leva ao desenvolvimento de um conhecimento tácito pouco complexo, fundado na prática, suficiente para resolver situações rotineiras e de baixa complexidade. (KUENZER et. al. , 2007, p.470).


Ao que tudo indica, o desenvolvimento tecnológico, ao mesmo tempo em que provoca transformações no setor produtivo e força aquele que detém os meios de produção a investir capital na aquisição de maquinarias, provoca, por sua vez, crises sociais colocando-se no centro da trama do desemprego. Por conseguinte, a escola por si só não é capaz de romper com esse complexo processo. Quando está em jogo a reprodução do capital nem sempre uma maquinaria mais sofisticada requer um trabalhador mais especializado para operá-la. Da mesma forma, como se viu acima, nem sempre o conhecimento prático desenvolvido no cotidiano do trabalho é suficiente para cumprir as exigências do mercado, o que pode ser verificado com freqüência também pelos meios de comunicação ao revelarem que muitas vagas não são preenchidas por falta de pessoal qualificado.
Considerações Finais
Como se percebe, a educação enquanto leitura concreta do mundo, a partir das relações sociais da humanidade, é parte de um conjunto de desdobramentos políticos, econômicos e culturais que não podem ser negligenciados. Da mesma forma, quando se trata de discutir formação profissional e história da educação, a categoria trabalho não pode ser apêndice, devendo, sim, ser um dos temas centrais do debate. O estudo sobre instituições escolares, principalmente aquelas voltadas para a qualificação de trabalhadores, requer a compreensão das nuanças subjacentes ao trabalho e às relações produtivas, como também das influências dos processos políticos, científicos e tecnológicos sobre as escolas, para que se possa construir uma ação educativa capaz de contribuir efetivamente para solução dos inúmeros conflitos advindos do processo de precarização aqui abordado. Assim, ao tratar da história da Escola Técnica de Saúde/UFU e o exercício profissional da enfermagem na pesquisa inicialmente citada, torna-se também relevante situar o momento político em que essa instituição surgiu, as influências externas sobre sua estrutura pedagógico- administrativa e sobre os sujeitos a ela ligados.

A Escola Técnica de Saúde da Universidade Federal de Uberlândia, enquanto primeira e, até o momento, única instituição pública escolar formadora do técnico em enfermagem na região, mantém estreita relação com as categorias educação profissional, trabalho e tecnologia. Visto que o conceito das transformações do trabalho é amplo e complexo, a construção histórica de dados sobre a ESTES e o exercício dessa profissão é um desafio científico em que a concepção dialética, enquanto construção da história em movimento, é o caminho de escolha e para a qual as visões marxistas dão o fundamento.


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1 Antunes, Ricardo. 2004, p. 8.

2 Saviani, Demerval. 2007, p.155.

3 Idem

4 LUCENA, Carlos. Mímeo, p.2.

5 Marx, Carl; Engels, Friedrich. 1979, p.57.

6 Marx, Karl. 1980, p.263.


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