Tracy Hughes Uma rebelde procurando apaixonadamente por uma causa digna de sua natureza impetuosa



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JO
Tracy Hughes

Uma rebelde procurando apaixonadamente por uma causa digna de sua natureza impetuosa

Não havia obstáculos que detivessem Jo. Onde existisse injustiça, lá estava ela, lutando pelos direitos dos oprimidos, emprestando sua voz aos que não conseguiam ser ouvidos. E era à frente das multidões, linda e altiva com seus faiscantes olhos verdes, que Jo se tornava um perigo para seus inimigos. Como o fogo, ela nascera para atear incêndios!

Digitalização e Revisão: Nina

Querida leitora

Você tem em mãos Jo, o segundo livro de Quatro Destinos. Adorou o primeiro — Mariah —, não adorou? Agora você vai se deliciar com a história da combativa Jo, essa linda mulher que tem a ousadia de viver intensamente os próprio sonhos...

Lembre-se de que dentro de 15 dias sairá nas bancas o romance Tess, e após mais 15, Éden, concluindo assim esse magnífico retrato da fascinante vida das irmãs Calloway.

Envio-lhe um beijo super carinhoso.

Roberto Pellegrino Editor

Copyright © 1989 by Terri Herrington


Originalmente publicado em 1988 pela Harlequin Books,

Divisão da Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução

total ou parcial, sob qualquer forma.

Esta edição é publicada através de contrato com a

Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.
Título original: JO
Tradução: Cecília C. Bartalotti
Copyright para a língua portuguesa: 1995

EDITORA NOVA CULTURAL


1

A fúria na voz de Jo Calloway era como fogo arrastando-se sobre o auditório lotado. Fogo contagiante, fecundo, inquieto. Refulgente como a cor de seus cabelos ruivos, que emolduravam o rosto ardente e desciam em espirais sobre os ombros até a cintura. Veemente como seus olhos verde-oliva que irradiavam entusiasmo e convicção. Observando-se, o homem perguntou-se de onde viria toda aque­la fúria.

Procurando manter-se discreto entre o público atento, ele reparava que havia subestimado a mulher que vinha lhe dando tantas dores de cabeça. Esperava encontrar uma baixinha gorda com uma voz estridente e modos bruscos. Havia sido alertado de que ela era perigosa. Mas ninguém lhe contara que era tão bonita.

Jo não o notara sentado entre as pessoas que apoiavam sua causa. Mas, mesmo que reparasse nele, era pouco provável que pudesse reconhecê-lo. Ele desenvolvera a habilidade de misturar-se à multidão para passar despercebido. O anonimato às vezes era importante para manter sua sanidade mental. E não era tarefa difícil, principalmente quando encontrava-se fora de seu meio habitual. Bastava esconder-se atrás dos óculos escuros de aro marrom e pentear para trás os cabelos negros que, nas fotos, apareciam sempre revoltos. O disfarce com-pletava-se com uma velha camisa de flanela que mantinha-se em seu guarda-roupa havia onze anos, uma calça jeans e os ténis de dez dólares de que não tinha coragem de desfazer-se, apesar de estarem gastos de tanto uso. Tudo o que precisava fazer, na verdade, era ser ele mesmo. Já que ninguém o co­nhecia pelo que era de fato, podia ir a quase todos os lugares que quisesse sem ser perturbado. Até mesmo a um comício daquela ferazinha que queria derrubá-lo a seus pés.

Mas confessava que sentia-se preocupado ao ouvir a voz vibrante hipnotizar as trezentas pessoas no auditório. Ela era boa para lidar com as massas; tinha que admitir isso. As prob­abilidades pareciam todas contrárias ao sucesso de um grupo de cidadãos que pretendia aprovar no Congresso um projeto de lei instituindo a censura às letras de músicas de rock nos Estados Unidos. No entanto, ela parecia ser o tipo de pessoa capaz de desafiar as probabilidades, passando por cima da Constituição, do direito de livre expressão ou da própria de­mocracia. Sem dúvida, poderia alterar o curso de uma carreira profissional. Isso o assustava e, por esse motivo, decidira ouvi-la de perto.

— Estamos falando do tipo mais destrutivo de lavagem cerebral neste país. — Ela colocou a agulha da vitrola sobre o disco que girava no prato. — Esta música chama-se Jorrando, com autoria de E.Z. Ellis. Enquanto escutam, decidam se que­rem seus filhos cantarolando isso por aí. — Fez uma pausa, enquanto a canção, primeira colocada nas paradas de sucesso por cinco semanas consecutivas, ecoava no possante sistema de som. — A letra é sugestiva e muito clara. Se temos o direito de censurar programas de televisão neste país, por que não podemos censurar música? Será que nossos filhos são me­nos prejudicados pelo que ouvem do que pelo que vêem?

Aplausos encheram a sala. Incentivada pela receptividade do público, Jo atirou para trás os longos cabelos ruivos enca­racolados e dirigiu-se ao retroprojetor montado em um dos cantos da sala. Parou diante da luz do aparelho por um momento como um espírito flamejante exigindo respeito e ad­miração.

Na plateia, o homem imaginou se o efeito visual teria sido ensaiado diante do espelho. Sem dúvida, fora copiado de alguns dos shows de rock que ela tanto deplorava.

— Mas isso não é o pior — prosseguia Jo Calloway. — Há outras músicas mais perigosas, com letras que podem cor­roer tudo que um pai esforçou-se para ensinar ao filho e causar danos irreparáveis. — Ela saiu da frente da luz e a letra de outra canção surgiu na tela.

Irritado, ele observou a forma como ela tirara as palavras do contexto da música e as exibia como se fossem uma prova decisiva em um julgamento de assassinato.

— Esta é a letra de outra obra de E.Z. Ellis. Uso muito as músicas dele porque, no ano passado, a revista People deu-lhe o título de "O mais badalado superstar do rock" desta década. Devido a essa fama, as canções dele são ouvidas com mais frequência do que a de outros músicos. Ele tem a capacidade de causar muito mais prejuízos.

Jo enfiou as mãos nos bolsos e baixou os olhos para o chão. Depois de uma pausa longa e significativa, certamente estudada até o último segundo, tornou a fitar o público. Seu rosto de­notava uma completa vulnerabilidade. Ele pensou consigo mes­mo se aquilo também teria sido ensaiado.

— Alguns meses atrás, assisti ao drama de uma vizinha de catorze anos em Baton Rouge que, no período de poucas semanas, transformou-se de uma adolescente alegre e saudável em uma viciada em drogas, problemática e rebelde. Parece que se envolveu com um grupo cujo hino, ou música-tema, se preferirem, era esta canção, chamada Criança das Sombras. — Ela bateu o dedo na página iluminada pelo retroprojetor, lançando uma sombra sobre a tela. — Depois de várias passagens pela polícia e de ter abandonado a escola, ela acabou tentando o suicídio. — A voz de Jo embargou-se e seus olhos pareciam úmidos. Teria arrumado as luzes de forma a destacar as lágrimas produzidas, ele pensou, ou o assunto de fato a comovia? Não; disso ele duvidava. Ninguém era tão sincero assim. — Ela deixou um bilhete com um verso da música: "Fugir enquanto a lâmina ainda está afiada... a liberdade é uma porta aberta... Criança das Sombras."

A garganta dele apertou-se de raiva, como na primeira vez em que lera o que aquela mulher andava dizendo a seu respeito. Comprimiu os lábios, controlando-se para não levantar, gritar a todos quem era e correr até o retroprojetor para arrancar a canção da tela. Tinha vontade de dizer àquele bando de imbecis que, se abrissem um pouco suas mentes, iriam compreender o verdadeiro significado de Criança das Sombras e talvez isso lhes ensinasse algumas coisas. Em vez disso, porém, perma­neceu sentado, contendo a fúria, armazenando-a para o mo­mento certo. Teria sua chance de falar dali a cinco semanas, no dia vinte e cinco de maio, quando o Comité do Senado ouviria ambas as partes. Por enquanto, podia apenas tentar avaliar a força daquela mulher e preparar-se para a hora da verdade.

Escutou em silêncio, como o resto da multidão hipnotizada, enquanto ela lia as letras de outras músicas consideradas ofen­sivas, contava mais histórias tenebrosas e usava um equipa­mento especial para identificar mensagens subliminares escon­didas por trás das frases audíveis em discos de outros artistas. Embora ele considerasse deplorável que alguns músicos se dispusessem a descer tão baixo para vender discos, sentia que as técnicas persuasivas de controle emocional utilizadas por Jo Calloway eram igualmente danosas.

Ela encerrou a apresentação convidando o público a diri-gir-se à sala dos fundos, onde poderiam inscrever-se como membros do CPCLR; Comité Popular para Censura de Letras de Rock. As pessoas em torno dele levantaram-se, aplaudiram e caminharam para os corredores. Mas ele permaneceu imóvel, com o tornozelo apoiado sobre a outra perna, o braço apoiado na cadeira ao lado... observando-a.

Jo Calloway parecia orgulhosa de seu próprio desempenho e da admiração que despertara na audiência. Sorria ao apertar a mão das pessoas que haviam se adiantado para cumprimen­tá-la.

O homem continuou a observá-la quando a frente do salão ficou vazia e ela ocupava-se em desligar o equipamento e guardar os discos nas capas, enquanto chamava seus auxiliares para desmontarem o sistema de som. Ela era firme e resoluta... ardente e ativa... cheia de energia e determinada.

Era uma pena que desperdiçasse todo esse vigor de forma tão mesquinha.

Os olhos verdes de Jo Calloway brilharam ao ver as trezentas pessoas espremendo-se na sala dos fundos, ansiosas para erguer sua bandeira e aderir à sua causa. Era bom, ser capaz de causar tal impacto.

Tirou o disco da vitrola e guardou-o na capa, enquanto fitava as cadeiras vazias que, momentos antes, haviam sido ocupadas por uma audiência imobilizada por seu discurso persuasivo. Um homem permanecia ali. Ela o havia notado antes por sua falta de entusiasmo, seu olhar compenetrado, sua aparência vagamente familiar. A maneira como ele a observava agora a deixava pouco a vontade. Apesar dos óculos escuros, podia identificar um certo desprezo em sua expressão, talvez até re­pugnância.

Desviando o olhar, dirigiu-se à caixa onde guardava os dis­cos utilizados na apresentação. Enquanto a carregava até a mesa, tornou a fitar a plateia e soltou um suspiro aliviado ao ver que ele se fora. Sempre havia aqueles que não concordavam com ela e mostravam-se dispostos a fazê-la mudar sua visão do mundo em cinco minutos. Julgara estar diante de mais um desses mas, felizmente, parecia ter se enganado.

— Você é boa no que faz. — A voz grave soou atrás dela, fazendo-a virar-se.

Era o homem da plateia. Algo nele a intimidava. Os ombros largos, a postura confiante, a alta estatura... e mais alguma coisa que ela não conseguia precisar.



  • O quê?

  • Dizem que você é boa no que faz. Mas, às vezes, pessoas com esse dom de persuasão podem criar monstros. E não é fácil lidar com monstros.

Como sempre fazia ao sentir-se intimidada, o que não era frequente, Jo sorriu e ergueu o queixo.

  • Eu não crio monstros. Eu crio entusiasmo, informo, or­ganizo.

  • Sim. Hitler também fazia isso.

O sorriso de Jo diminuiu um pouco, mas não deixou seus lábios.

  • Não acha isso um pouco dramático? Hitler?

  • Diga você — ele a desafiou. — Afinal, não tem todas as respostas?

Ela parou de sorrir e apenas o fitou, atordoada, procurando um revide e frustrada por não encontrar nada à altura. Os olhos daquele homem pareciam enfeitiçá-la. Tinha a sensação de que já o vira antes. Talvez fosse um amigo de Mariah, enviado até ali para perturbá-la. Esse era um dos passatempos favoritos de sua irmã mais nova.

— Espere aí. Por acaso eu o conheço?

Ele riu e baixou os óculos, encarando-a sobre o aro.

— Pense bem. Você vai se lembrar.

Jo franziu a testa enquanto o observava afastar-se pelo cor­redor e sair do auditório. Mariah não teria preparado uma en­cenação tão vaga, pensou, intrigada. E havia algo estranho na maneira como ele a deixara sem jeito.

Era alguma coisa nos olhos dele que a perturbara. Olhos azuis, penetrantes, sensuais...

Tentando afastar a sensação incomoda, Jo pegou um disco sobre a mesa para guardá-lo na caixa. Fitou de relance a foto da capa, onde o ídolo posava sedutor para suas fãs, com seus olhos azuis, penetrantes, sensuais...

Jo levou um susto e ergueu a cabeça, mirando a direção em que o homem desaparecera. Os olhos na capa do disco eram os mesmos que ela tivera diante de si momentos antes.

Os olhos de E.Z. Ellis.

A casa estava toda iluminada quando Jo estacionou diante da varanda. O carro de Ford e Mariah, parado no meio do caminho, ocupava o espaço de três. Jo sorriu, certa de que sua irmã mais nova viera dirigindo. Mariah sempre tivera o hábito de largar o carro onde tivesse vontade, sem se preocupar com o resto do mundo.

Jo perguntava-se por que os recém-casados não vinham mo­rar ali de uma vez, já que apareciam quase todas as noites. Mariah achava a velha casa dos Calloway mais confortável do que o trailer deles, onde Ford ocupava uma metade da sala com a escrivaninha e a outra com suas pilhas de trabalho a ser feito. Éden lhe sugerira que redecorasse o ambiente mais a seu gosto, mas Mariah recusara a ideia, alegando que arru­mação de casa não era seu forte, já que nunca ficara em um só lugar por tempo suficiente sequer para colocar cortinas nas janelas.

Jo desceu do carro, pensando que Mariah nunca iria mudar, apesar de seu casamento com Ford Dunning, o pastor sensato e responsável que a ancorara e quase refreara seus ímpetos aventureiros. Pelo menos, agora sua irmã mais nova, que sem­pre fora livre e imprevisível como o vento, tinha uma base sólida onde pisar nos raros momentos em que descia das nu­vens.

Pegou tudo que seus braços conseguiam e caminhou até a porta. Incapaz de liberar uma. das mãos, bateu com o joelho. A porta abriu-se de imediato e Éden, a mais velha das irmãs, a recebeu com-uma agulha de costura e um jeans velho de Mariah nas mãos.

— Chegou tarde, Jo. O que houve?



Ela largou a caixa com os discos sobre a mesa e empurrou a porta com o pé para fechá-la. Reparou em Mariah, ao lado de Ford no sofá, com os pés apoiados na mesinha de café junto a uma lata aberta de refrigerante que parecia prestes a cair ao menor movimento.

  • Foi mais demorado que de hábito para todos assinarem. Trezentas pessoas. — Jo aproximou-se da mesinha e socorreu o refrigerante de Mariah.

  • Quer dizer que o comício Salvem as Baleias foi um sucesso? — Mariah indagou.

Jo nem se alterou. Estava acostumada com as provocações da irmã.

  • Não é Salvem as Baleias — disse apenas, levando a lata de refrigerante aos lábios e fazendo uma careta ao provar o líquido morno.

  • Ah, sim. Esse foi o do mês passado. Vejamos... Este mês é Salvem os Animaizinhos Peludos Usados para Fazer Casacos.

  • Mariah... — Ford a repreendeu.

  • Pode deixar, Ford — Jo interveio. — Mariah sabe muito bem no que estou trabalhando.

Mariah soltou uma risada alegre que costumava desarmar qualquer um que pensasse em ficar bravo com ela. Jo não era exceção.

  • Ah, claro. Agora estou lembrando. E Salvem as pobres Mentes Inocentes dos Horrores do Rock and Roll.

  • Pode rir à vontade — Jo revidou, enchendo a mão de pipocas da vasilha no colo de Mariah, para tirar da boca o gosto de refrigerante quente. — Mas estou conseguindo muito apoio. Na verdade, a publicidade tem sido tão grande que vocês nem podem imaginar quem apareceu por lá esta noite.

  • Edwin Messe? — Éden indagou, referindo-se ao procu­rador que vinha brigando há anos por uma censura mais rígida.

  • Não. Alguém bem menos simpático à minha causa. Ele me comparou a Hitler.

  • Hitler? — Ford tirou os olhos da televisão e dirigiu sua atenção à cunhada.

  • Sim. Disse que sou boa no que faço, mas que estou criando monstros. E acho que ele entende bem desse assunto. Afinal, já criou seus próprios monstros.

  • Mas ele... não iria até o comício... — Ford murmurou, pensativo.

Jo o encarou, tentando descobrir se falavam da mesma coisa. Não havia nada que detestasse mais do que ver alguém que­brando seu suspense antes da hora.

  • Quem? — Éden perguntou.

  • E.Z. Ellis? — Ford arriscou seu palpite.

  • E.Z. Ellis! — Mariah exclamou. — Jo!

  • Como você adivinhou? — O tom de Jo era quase de acusação. — Sabia que ele estava na cidade e não me avisou?

Ford ergueu as mãos, era um gesto de inocência.

  • Nunca imaginei que ele fosse aparecer...

  • Ei, espere aí! Éden interrompeu. — Estamos falando de E.Z. Ellis, o homem com aquele peito forte... o lenço de seda branca descendo quase até o chão... e aqueles olhos...? E esse E.Z. Ellis?

  • Esse mesmo — Jo confirmou, sem alterar-se. — Só que sem o peito, ou o lenço... bem, o peito estava coberto, e claro que os olhos... Ford, como você soube?

  • Isso deveria ser um segredo. — Ford passou a mão pelos cabelos escuros, refletindo sobre o que iria dizer.

  • Ele me pediu para não contar a ninguém sobre sua pre­sença na cidade. Queria ficar sossegado, descansando da última turnê e compondo músicas para o próximo disco. Nunca pensei que fosse aparecer em seu xomício.

  • Ele pediu a você para não contar? — Jo indagou, surpresa. — Desde quando é confidente de E.Z. Ellis?

  • Isso não importa — Ford impacientou-se. — Só não entendo o que ele foi fazer no comício. Poderia ser reconhecido.

  • Imagino que tenha ido preparar sua munição para a au­diência do Comité do Senado. — Jo sentou-se em uma poltrona diante do sofá e apoiou os pés sobre a mesinha de café.

  • É engraçado. Eu nem o reconheci quando conversamos. Ele estava de óculos escuros, com uma roupa comum e os cabelos penteados para trás.

  • Quer dizer que aqueles olhos hipnóticos não o entrega­ram? — Mariah indagou, incrédula. — Ora Jo, os olhos dele são inconfundíveis. Estão registrados na lista de armas letais do Pentágono. As mulheres simplesmente vão a nocaute quan­do ele as encara.

  • Nem todas fazem o tipo "fanzoca apaixonada", Mariah — Jo revidou, com um sorriso de superioridade. — Ele é apenas um homem como qualquer outro.

  • Será? Ta-tá, ta-tá, ta-tá — Maria cantarolou. — Bem-vindos à Região das Sombras, onde nada é previsível. Você ainda não foi testada. Pode acordar no meio da noite cami­nhando hipnotizada em direção a ele. Todas as pesquisas sobre as músicas sensuais talvez estejam, no seu subconsciente, em-purrando-a para ele neste momento. Empurrando-a para a Re­gião das Sombras na mente de E.Z. Ellis.

  • Muito engraçado, mas esse tipo de coisa não me atinge. O que há para comer? Jo indagou, mudando de assunto.

  • Um churrasquinho de linguiça delicioso — Mariah pro­vocou, sabendo dos hábitos vegetarianos da irmã.

Jo fez uma careta e desapareceu na cozinha.

Embora Jo detestasse admitir, os olhos de E.Z. Ellis de fato lhe tiraram o sono naquela noite. LeVantou-se da cama e caminhou até a janela que dava para os fundos da casa. O luar prateava o caramanchão florido que seu pai construíra muitos anos antes para a esposa e emprestava no jardim uma atmosfera romântica que lhe despertou pensamentos perturba­dores. Jo apoiou a testa na vidraça.

Mas por que perdia o sono por causa de um cantorzinho de rock que a chamara de Hitler? Não era uma fã deslumbrada. Aqueles olhos não a afetavam.

Hitler. Como pudera fazer tal comparação? Tudo o que ela queria era criar um mundo mais agradável de se viver, um lugar mais saudável para a juventude de seu país. Não se sur­preendia por E.Z. Ellis ter dificuldade em compreendê-la. Afi­nal, sua causa ameaçava-lhe a carreira, o talento.

Seu olhar pousou sobre a capa do disco que deixara sobre a penteadeira. E.Z. Ellis aparecia de peito nu, recostado a uma parede, com um colete de jeans desbotado que destacava o contorno dos bíceps, um lenço branco de seda enrolado no pescoço e descendo até o chão, calça jeans justa e botas de camurça com franjas. E os olhos... ah, meu Deus, aqueles olhos...

Jo voltou a fitar o jardim, furiosa consigo mesma. Afinal, não era por causa dos olhos dele que não conseguia dormir, mas apenas porque continuava intrigada com o fato de ele ter ido ao comício e escutado todas as acusações sem identificar-se ou esboçar alguma reação. Não era o tipo de atitude que teria esperado de um ídolo irreverente cujas fãs chegavam ao ponto de atirar roupas de baixo no palco.

Ouviu passos no corredor e olhou para a porta. Éden surgiu com os cabelos loiros-avermelhados despenteados, descendo até os ombros em ousada rebelião. Se os usasse sempre assim, Jo pensou, seria uma mulher muito atraente. Mas o estilo de Éden era muito mais recatado e sério.

—Não conseguiu dormir? — Éden perguntou.

—Não. Você também está com insónia?

Éden acendeu a luz e sentou-se na cama de casal que ambas haviam compartilhado quando crianças.



  • Tem sido difícil dormir direito desde que papai morreu. Eu estava acostumada a acordar durante a noite para ajudá-lo. Meu ritmo biológico ainda não se acomodou à nova situação. — Ela viu o disco sobre a penteadeira e dirigiu um olhar mais atento para a irmã. — E qual é a sua desculpa para estar acordada? E.Z. Ellis?

  • Não — Jo respondeu depressa. Mas sabia que não era fácil enganar Éden. — Eu fiquei pensando... Será que conse­guiria alguma coisa se falasse com ele outra vez? Talvez pu­desse chamá-lo à consciência.

  • Você deve estar brincando. — Éden deitou-se na cama e apoiou a cabeça no travesseiro.

  • Não. Acho que seria justo eu tentar antes de acusá-lo diante do Comité do Senado. Se eu estivesse no lugar dele, gostaria que me dessem essa chance.

  • Você acha mesmo que ele vai mudar o modo de pensar só porque Jo Caiioway lhe disse para fazer isso? Minha irmã, aceite o fato de que nem todos concordam com essa sua causa.

  • Nem você?

  • Conhece aquela frase famosa sobre não concordar com o que você diz mas lutar até a morte para que você tenha o direito de dizê-Io? E mais ou menos o que eu penso. Se bem que, para você, isso não parece funcionar. Sua briga é justa­mente para impedir que E.Z. Ellis tenha o direito de dizer o que quer.

  • Não é assim. Você não compreende. — A lógica de Éden sempre tivera o poder de colocar Jo contra a parede.

  • Uma típica resposta de Jo Calloway. Se alguém discorda de você, é porque não compreendeu suas intenções.

  • Não comece, Éden.

  • O quê? — Éden puxou o cobertor até os ombros e bo­cejou. — Se você está com vontade de vê-lo, então vá.

  • Ei, não durma na minha cama!

  • Não é sua — Éden murmurou, sem abrir os olhos. — Você nem mora mais aqui.

  • Mas você se mudou para o quarto de papai.

  • É. Levei trinta e três anos .para ter um quarto só meu e, agora, prefiro dormir outra vez aqui com você. A vida não é engraçada?

— Muito engraçada — Jo respondeu, melancólica.

Parada junto à janela, observou a irmã adormecer. Sempre fora assim. Éden dormia primeiro, enquanto Jò ficava acordada planejando, organizando... sempre lutando contra as injustiças do mundo. No seu lado do quarto, cuja decoração permanecera intacta desde o tempo do colégio, apesar de já não viver lá havia anos, as paredes estavam decoradas por páginas emol­duradas do jornal da escola, onde ela aparecia liderando uma manifestação nos corredores para que as meninas pudessem usar calças compridas nas salas de aula... ou brigando para que houvesse bailes todos os sábados no ginásio do colégio... ou exigindo a troca de algum professor. Jo ainda conseguia dar assunto para manchetes de jornal, mas isso nunca saciava a sua fome de... De quê? De algum tipo de justiça que pudesse trazer sentido a um mundo absurdo?

Desde que saíra, com grau de mestrado, da faculdade de ciências políticas, Jo buscava essa justiça impalpável em todas as causas difíceis e desafiadoras que abraçava. Gostava de achar que sua participação fazia alguma diferença na busca de um mundo.melhor. Em sua casa, sempre fora considerada a mais forte, a mais segura, aquela que acreditava em alguma coisa. Nunca fugia de uma briga, sempre lutava até vencer. E os famosos olhos azuis de E.Z. Ellis não mudaria isso.

Jo ergueu a vidraça e inclinou-se para fora, deixando o vento úmido de abril agitar-lhe os cabelos e refrescar o rosto. O pequeno regato que corria ao longo do jardim parecia mur­murejar para ela, lembrar-lhe por que começara aquela briga em particular. Pessoas haviam sido prejudicadas, alteradas, destruídas por algo fora do controle delas. Por isso, precisavam de ajuda.

O que um cantor de rock milionário poderia saber sobre injustiça? O que poderia saber sobre dor? Bem, talvez fosse hora de aprender. Afinal, ele a confrontara naquela noite por algum motivo. Era possível que quisesse um debate. E ela estaria dando um grande passo em defesa de sua causa se ao menos conseguisse fazê-lo pensar.

Ela fechou a janela e deitou-se na cama ao lado de Éden. Há muito tempo não dormia junto de alguém, e a sensação de volta ao lar era aconchegante. Nos últimos tempos, sua noção segura e quase infantil de família vinha se desintegran­do... com a morte de seu pai, o casamento de Mariah, o divórcio de sua irmã Tess. Era bom ter pelo menos uma coisa de volta ao que era... era bom estar em casa. Mesmo que fosse per­manecer ali apenas tempo suficiente para organizar o grupo local de defesa à censura de letras de músicas.

Jo acomodou a cabeça no travesseiro e tomou uma decisão. Iria procurar E.Z. Ellis no dia seguinte, assim que convencesse Ford a lhe fornecer o endereço do cantor.

O trailer de Ford e Mariah ficava abrigado entre altos pi­nheiros, afastado do barulho de rua. Jo estacionou o carro, desceu e bateu na porta.

— Entre! — respondeu uma voz arrastada e sonolenta.

Sorrindo, Jo abriu a porta e deu uma olhada. Mariah estava debruçada sobre uma xícara de chá, com os cabelos loiros platinados em completo desalinho e vestida em uma camisola vermelha de seda que encontrara em uma "pequena butique escondida na Chinatown de San Francisco". A julgar pelos olhos inchados, quem não a conhecesse pensaria que ela se recuperava de uma bebedeira de três dias. Mas Jo sabia que Mariah sempre ficava com aquela aparência de manhã.

— Ei, como ousa parecer tão animada a esta hora da madrugada? — Mariah observou a saia curta de malha e o blusão macio de angora que a irmã usava, antes de reparar na trança que descia pelas costas de Jo. — Isso não é natural. Nenhuma pessoa normal consegue fazer uma trança tão cedo. Jo pegou uma xícara e serviu-se de café.


  • Se acha tão pouco natural, por que levantou cedo? Você nunca fez isso antes.

  • Porque agora sou uma mulher casada, Jo. Se não levantar cedo, não vejo Ford sair para o trabalho. E se não o vir, fico com saudades.

  • Ah, entendo. E onde está esse ser miraculoso que con­segue fazer minha irmãzinha sair da cama antes do meio-dia? Preciso falar com ele.

  • Acabou de sair. O que é?

  • Nada importante..É só ... uma coisa. — Jo pegou o jornal e começou a ler as manchetes.

Um sorriso iluminou o rosto sonolento de Mariah e seus olhos verdes puseram-se a brilhar.

— E.Z. Ellis? Eu sabia que você ia aparecer para tentar descobrir mais coisas sobre ele. — Mariah riu e pousou a xícara. — Então minha irmã durona está interessada em um cantor de rock. Ah, estou adorando a ideia!

Jo fitou-a sobre o jornal. A imaginação de Mariah era mais potente do que cafeína.

— Não estou interessada em nenhum cantor de rock. Acontece que, se o sr. Ellis encontra-se na cidade, gostaria de lhe apresentar minhas objeções diretamente. É melhor do que ficar falando pelas costas.

— Claro, claro — Mariah comentou, rindo.

Percebendo que a conversa não as levaria a lugar algum,

Jo largou o jornal e dirigiu-se para a porta.

— Vou ver se encontro Ford na igreja.



  • Diga a ele que eu lhe pedi para ajudá-la. Quero ver se você consegue mesmo resistir àqueles olhos hipnóticos.

  • Mariah, estou, aqui a trabalho. Sou uma profissional contratada para realizar um serviço. Se você não consegue com­preender isso, eu sinto muito.

— Seja gentil com ele — Mariah recomendou, e sua risada alegre uma vez mais ecoou dentro do pequeno trailer.

Jo encontrou Ford trabalhando em seu escritório na igreja. Como a secretária não se encontrava por perto, ela bateu de leve na porta e a abriu devagar.

— Ford? Posso conversar com você um minuto?

Ele ergueu os olhos dos papéis e viu a cunhada.



  • Xi! — murmurou, enquanto Jo estava com a testa fran­zida.

  • Ei, isso é jeito de receber um parente?

  • Não. — Ford juntou depressa os papéis sobre a mesa, como se não quisesse que Jo os visse. — É que eu... estou esperando uma outra pessoa e...

  • Não se preocupe. Não vou demorar. — Jo fechou a porta atrás de si e sentou-se diante da mesa. — Só vim lhe perguntar sobre E.Z. Ellis. Onde ele está hospedado, Ford? Como faço para encontrá-lo?

  • E.Z. Ellis? — Ele riu. — Deve estar brincando. Acha que vou lhe dar essa informação? Você é a inimiga.

  • A inimiga?

  • É como ele a vê. — Ford consultou o relógio de pulso.

— Além do mais, ele quer manter-se em anonimato por aqui. Foi por isso que pediu minha ajuda.

— E o que acha que vou fazer? — ela revidou, indignada. — Convocar uma entrevista coletiva?



  • Não sei. Mas ele me pediu segredo. Quer apenas um tempo para trabalhar sossegado e em paz. Ele merece isso, Jo. É um bom rapaz, eu lhe garanto.

  • Ah, sim, tenho certeza disso. — Jo levantou-se e apoiou as mãos na mesa do cunhado. — Por que está ajudando esse sujeito? Seu senso de moral e decência deveria colocá-lo do meu lado.

  • Acontece que não concordo com censura de qualquer espécie. E meu senso de moral e decência não tem nada a ver com isso.

  • Como não? Você é um pastor!

  • Um pastor com valores determinados pela Bíblia, e não por você.

  • Pois bem, então não conte nada! Darei um jeito de en­contrar E.Z. Ellis sem sua ajuda. Aliás, nem solharia em pedir de novo sua colaboração.

  • Jo, às vezes você é tão dramática quanto Mariah.

Ela caminhou até a porta e lançou um olhar furioso para Ford.

— Vou fingir que você não disse isso.

Segurou a maçaneta, mas a porta moveu-se antes que ela a empurrasse. Jo afastou-se para que a pessoa do outro lado entrasse.

— Xi! — Ford murmurou outra vez.

Jo levantou os olhos. Para sua surpresa, viu-se cara a cara com E.Z. Ellis.




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