Tradução de Cristina Nastasi 1995 Impressão w roth s. A. Indústria Gráfica



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James Blish
e J. H. Laurence
Star Trek

EPISÓDIOS DA SÉRIE CLÁSSICA


Tradução de Cristina Nastasi
1995





Impressão w ROTH S.A. Indústria Gráfica

Título original: Star Trek: The Classic Episodes

Copyright © Paramount Pictures Corporation,

Desilu Productions Inc. e Bantam Books

1967, 1968,1969,1971,1972,1973,1974,1975,1977

Todos os direitos reservados.

Publicado mediante contrato firmado com Bantam Books, uma divisão

da Bantam Doubleday Dell Publishing Group Inc.

STAR TREK® é marca registrada da Paramount Pictures Corporation.

Editor:

Silvio Alexandre

Revisão e colaboração:

Georges Ribeiro, Sylvio Gonçalves

Isabel Grau e Cristina Segnin

Capa:

Maria Amélia de Azevedo

Produção Editorial:

Lolita Sierra

Produção Gráfica:

Leonardo Bussadori

Assistente de Produção:

Daniela Shimabukuro
ISBN 85-7272-084-7
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Blish, James Benjamin, 1921 - 1975

Star Trek: episódios da série clássica / adaptado por James Blish com J. A. Lawrence; tradução Cristina Nastasi. São Paulo: Mercuryo, 1995(Unicórnio Azul; 3)

1. Ficção científica norte-americana 2. Ficção norte-americana I Lawrence, J.A I. Título. II. Série.

95-3981 CDD-813.5

índice para catálogo sistemático:

1. Ficção : Século 20 : Literatura norte-americana

813.5

2. Século 20 : Ficção : Literatura norte-americana



813.5
Todos os direitos desta edição reservados à
Editora Mercúrio Ltda.

Al. dos Guaramomis, 1267 – Moema CEP 04076-012 – São Paulo - SP



Prefacio

do Livro 5
Depois do anúncio feito em Star Trek Quatro de que eu estaria fazendo mais destes livros durante um ano, os fãs começaram a escrever ainda mais cartas sugerindo as histórias que eu deveria incluir — e, por causa disso, mais uma vez agradeço a colaboração — assim como estão pedindo a divulgação das datas em que os livros serão lançados.

Essa é uma pergunta que não posso responder. Escrevo em tempo integral e, nesse exato momento, tenho dez livros na fila de espera, contando com este. Todos eles têm um prazo de entrega, dois dos quais já estão atrasados, graças aos compromissos sociais e todos os outros pequenos problemas do dia-a-dia. Estou trabalhando em dois ou três livros simultaneamente, mas só posso terminar um de cada vez, e, depois de trinta anos nesse negócio, continuo sem saber quanto tempo um livro vai levar para ser concluído.

Tudo que posso garantir é que fui contratado para fazer mais quatro livros de Star Trek no próximo ano, e vou entregá-los — mas exatamente quando é algo impossível de dizer. Estou com todos os roteiros e vou escrever os livros, mas vou ter de fazê-los ficar na expectativa.

Gostaria também de lembrá-los que a correspondência que tenho recebido em função desses livros é algo sem precedentes em minha vida, e algo com que não posso lidar como deveria. Leio todas as cartas com atenção e alegria por tê-las recebido; mas se fosse tentar respondê-las não poderia mais escrever livros. Por favor, não parem de escrever, mas aceitem minhas desculpas por não responder. Como Hipócrates falou da Medicina: "A arte é eterna, o tempo é fugaz".


James Blish

Treetops

Woodlands Road

Harpsden (Henley)

Oxon, Inglaterra

Arena

Título da adaptação: Arena

Título do episódio: Arena

Título em português: Arena (nas duas versões)
Data da primeira exibição: 19/01/67

Data estelar: 3045.6


História de Gene L. Coon e Frederick L. Brown

Direção de Joseph Pevney


Atores convidados:

Metron: Carole Shelyne

Gorn: Gary Coombs e Bobby Clark

Arena

DO capitão James Kirk, da USS Enterprise, era o senhor absoluto da maior e mais moderna nave da Frota Estelar. Era também o responsável por todo seu complexo aparato científico e militar e pelos 430 oficiais altamente qualificados que formavam a tripulação.

Mas, naquele exato momento, ele era apenas um homem encalhado num asteróide quase estéril, de localização desconhecida, enfrentando uma criatura muito parecida com um lagarto, a quem precisava matar para sobreviver. E tinha como arma apenas um pequeno aparelho tradutor que era, nessas circunstâncias, da mais completa inutilidade.

A situação chegara a esse ponto com espantosa rapidez. Tudo começou quando a Enterprise recebeu um chamado de Cestus III, um posto avançado terrestre situado num quadrante distante e inexplorado da Galáxia. O comandante da base, um velho militar chamado Travers, pedira a Kirk para descer com uma equipe tática da Enterprise. Como a situação era muito tranqüila nesse setor e Travers era famoso na Frota por ser um anfitrião sempre disposto a oferecer uma excelente refeição — de verdade, não-sintetizada —, seis homens aceitaram descer à colônia com o maior prazer.

Mas o convite revelara-se uma armadilha, uma armadilha feita através de uma mensagem pré-gravada. Tudo o que eles encontraram foi uma base ardendo em chamas, completamente em ruínas, com todo o pessoal morto. Minutos depois da chegada ao local da tragédia, o grupo de descida foi surpreendido com um ataque. Em órbita, a Enterprise também travava batalha com uma nave alienígena.

Era evidente que o misterioso inimigo não possuía teletransporte e não tinha idéia das capacidades do processo; depois de cinco minutos de troca às cegas de disparos, Kirk e seus homens foram levados a bordo sãos e salvos. A nave alienígena cessou o ataque e partiu, numa aceleração de incrível velocidade.

Mas Kirk não tinha a intenção de deixar o ato de agressão passar em brancas nuvens. Parecia óbvio que o objetivo do inimigo era emboscar o capitão e a equipe tática da Enterprise e, então, destruir a nave, o que poderia representar o início de uma invasão em grande escala. Além do mais, o inimigo possuía um bom armamento — os danos sofridos pela nave inimiga eram mínimos, apesar da retirada precipitada — e seu ímpeto era implacável, a julgar como conduziram a destruição de 512 pessoas num inofensivo posto científico, que serviu de isca. Como o oficial de ciências Spock bem observara, não podiam deixar a nave atacante voltar para casa, pois quanto mais tempo aquele povo desconhecido ficasse alheio a informações sobre o potencial da Federação, por mais tempo seria adiado um novo ataque, dando condições à Frota Estelar de elaborar um plano de defesa.

O inimigo também parecia ansioso por impedir que a Enterprise voltasse para casa. Sua nave adotou uma complexa ação evasiva, beneficiada por uma velocidade incrível; a Enterprise teve muita dificuldade em segui-la de perto, mesmo à velocidade de dobra oito, dois fatores acima da velocidade máxima de segurança.

E, de repente, tudo parou.

Era simplesmente impossível, mas foi o que aconteceu. Num momento, as duas naves estavam atravessando o subespaço cem vezes acima a velocidade da luz e, no momento seguinte, ambas vagavam em espaço normal, imobilizadas próximas a um pequeno sistema solar, com seus motores inoperantes, todas as armas desativadas.

— Relatório! — ordenou Kirk.

Mas não havia danos, nada anormal — exceto que a Enterprise não podia mover-se, assim como, aparentemente, o inimigo também não.

— Estamos sendo sondados, senhor — avisou a oficial de comunicações Uhura.

— Pela nave alienígena?

— Não, senhor. O sinal vem do sistema solar à nossa frente. Não é hostil, não são sondas-tratores ou radares de armamento, apenas estamos sendo sondados.

— Devemos considerar hostil a forma com que fomos detidos aqui — disse Kirk, secamente.

— Captando algo, capitão. Uma modulação de alta freqüência...

De repente, as luzes a bordo diminuíram e a tela principal da ponte emitiu sons desconhecidos. O visual cheio de estrelas do espaço exterior dissolveu-se numa turva, confusa massa de cores e linhas. Ao mesmo tempo, uma voz humanóide, forte, embora jovem, preencheu o ar da ponte.

— Nós somos os Metrons.

Kirk e Spock trocaram olhares especulativos. O oficial de ciências falou, como sempre sereno. — Como vai?

A voz pareceu não prestar atenção. E prosseguiu:

— Vocês são uma das duas naves que entraram em nosso espaço com uma missão de violência. Isso não é permitido. Nossas análises informam que sua tendência à violência é algo inato a vocês. Portanto, vamos solucionar seu conflito de um modo adequado a suas naturezas. Capitão James Kirk!

— Aqui é o capitão Kirk — disse, depois de um momento de hesitação.

— Preparamos um planetóide com atmosfera, temperatura e gravidade adequadas. Será levado até lá, assim como o capitão da nave Gorn, à qual estava perseguindo. Você e seu oponente receberão um gravador tradutor, através do qual poderão registrar seus movimentos ou então se comunicar entre si. Mas não o farão com suas naves. Estarão totalmente sós e prosseguirão com sua disputa sozinhos.

— E o que o faz pensar que pode interferir... — começou Kirk, aborrecido.

— É você quem está interferindo. Nós simplesmente vamos dar um fim a isso, conforme seus referenciais de violência. O lugar que preparamos para você contém os recursos necessários para que os dois adversários construam armas letais e que lhe sejam úteis. Ao vencedor dessa contenda será permitido prosseguir viagem sem qualquer prejuízo. O perdedor, assim como sua nave, será destruído no interesse da paz. A contenda será de engenhosidade contra engenhosidade, força bruta contra força bruta. O resultado será definitivo e final.

Com isso, num total silêncio, a ponte em torno de Kirk desapareceu por completo.



A primeira coisa que ele viu foi o Gorn. Era um réptil, um bípede, um lagarto que caminhava como um homem. Tinha cerca de dois metros de altura, com uma musculatura invejável, uma pele com aparência de grossa carapaça e a espinha dorsal dentilhada e que terminava numa forte e enorme cauda. Essa cauda não parecia pênsil; ao contrário, tinha a aparência de ser um órgão de equilíbrio, que permitia à criatura correr tão velozmente quanto desejasse. Na cabeça havia apenas dois pequenos orifícios servindo como ouvidos e, na boca, duas fileiras de dentes afiados.

Esse, então, era o inimigo, o atacante, o destruidor de Cestus III. Estava usando uma espécie de túnica curta, presa por um cinto, que segurava um objeto eletrônico. Não estava calçado; as garras de seus membros inferiores marcavam a terra sob as patas, indicando um peso considerável. Lançando um rápido olhar para si mesmo, Kirk notou que sua própria vestimenta e equipamento eram idênticos.

Kirk e o Gorn fitaram-se fixamente. Em torno deles, havia um terreno rochoso e estéril, um céu cinza esverdeado e alguns vestígios de vegetação, alguns até de bom tamanho, mas nada familiares. O ar era frio e seco.

Kirk imaginou se o Gorn estaria se sentindo tão desconfortável quanto ele. Provavelmente por razões diferentes. Os intrometidos Metrons certamente não permitiriam a nenhum deles ter vantagens em relação ao meio ambiente; acima de tudo, este planetóide era artificial, sem dúvida construído como a arena para uma contenda de campeões, nada mais do que isso.

O Gorn moveu-se. Aproximava-se de Kirk. Parecia capaz de poder matá-lo apenas com as mãos. Kirk afastou-se para o lado, cauteloso e desconfiado.

O Gorn não estava disposto a correr riscos. Circulou um objeto ressecado que parecia uma pequena árvore e cujo tronco talvez tivesse uns trinta centímetros de circunferência e uns três metros de altura. Lançando um rápido olhar para Kirk, silvou suavemente e quebrou um dos galhos mais grossos da árvore. O gesto necessitou de muito pouco esforço, e Kirk duvidou que pudesse fazer o mesmo.

De repente, segurando o galho como um clava, o Gorn o atacou.

Kirk esquivou-se bem a tempo. No momento em que o Gorn passou por ele, meio desequilibrado, Kirk aproveitou para desfechar um golpe certeiro em seu peito. O impacto quase quebrou sua mão, mas não causou qualquer efeito na fera. A clava atingiu direto o capitão, que caiu esparramado de encontro às rochas.

O Gorn girou, desajeitado, mas com agilidade, e lançou-se a um novo ataque. Kirk, tonto, tentou um golpe de antebraço contra a garganta do monstro, mas era como bater num elefante. A criatura, por sua vez, o agarrou num forte abraço, com a força de um urso. O braço de Kirk só conseguia manter os dentes da criatura longe de seu alcance, mas, na posição em que estava, sua coluna estava prestes a partir ao meio.

Libertando os braços num rápido movimento, Kirk aplicou um "telefone" nos ouvidos do oponente. O Gorn gritou e recuou, sacudindo a imensa cabeça. Recuperando o equilíbrio, Kirk agarrou uma rocha tão grande quanto a cabeça da criatura e a arremessou com toda sua força.

A pedra atingiu o Gorn no peito, fazendo-o balançar, mas sem evidenciar que o tivesse ferido. Com um silvo ainda mais agudo, a criatura abaixou-se para também pegar uma rocha. A escolhida parecia pesar mais de quinhentos quilos e foi erguida com incrível facilidade.

Kirk fugiu.

A rocha atirada não chegou a atingi-lo, mas o impacto fez com que uma das lascas desprendidas varasse a perna do humano como um estilhaço. Mancando, continuou correndo, a toda hora olhando para trás.

Mas o Gorn não o estava mais seguindo. Ao invés disso, procurava por outra rocha. Percebendo, no entanto, que Kirk estava fora de alcance, deixou a busca de lado. Parecia sorrir, o que Kirk não podia identificar, uma vez que não o vira variar muito a expressão.

O humano olhou para os lados, ofegante. Descobriu-se em meio a uma vala, embora não houvesse sinal algum de água correndo por lá. Mas lá havia pedras por todos os lados, várias delas muito brilhantes e coloridas e algumas com traços de cristal quartzo. Também havia uma vegetação escassa, lembrando cactos, arbustos ressecados e até mesmo alguns bambus. Não existia qualquer coisa que pudesse ser transformada numa arma, independente do que o Metron havia dito.

Kirk sentou-se, esfregando a perna ferida e, tomando o cuidado de a todo instante observar o Gorn agora distante, olhou para o aparelho preso a seu cinto. O mesmo parecia um tricorder, muito menor e muito mais simples, mas era evidente que não se tratava de um. Kirk apertou o botão e resolveu arriscar:

— Chamando a Enterprise. Capitão James Kirk chamando a Enteprise.

Por um momento, não houve resposta. Mas o instrumento começou a emitir um som, uma voz que falava num inglês formal:

— Esqueceu, capitão? Não podemos contatar nossas naves. Estamos sós aqui, você e eu... apenas um contra o outro.

Kirk olhou para trás, para o caminho pelo qual tinha vindo. Ao longe, o Gorn parecia falar no objeto que estava em sua mão.

Kirk, obviamente, não tinha esquecido que não podia contatar sua nave; apenas queria testar se era verdade. O que havia esquecido era que o instrumento também servia de tradutor, assim como gravador. Tomaria cuidado de não falar consigo mesmo, em voz alta, depois disso.

Após um momento, resolveu arriscar:

— Preste atenção, Gom, isso tudo é uma loucura. Não podemos tentar algum tipo de trégua?

— Fora de questão — emitiu o tradutor. — Isso faria com que ficássemos aqui até morrermos de fome. Não posso falar por você, mas não vejo água, nem nada o que comer... a não ser você, é claro.

— Eu também não — admitiu Kirk.

— Então não vamos perder tempo em esperanças tolas. A regra é uma só: um de nós tem de matar o outro.

Kirk colocou o instrumento de volta a seu cinto. O Gorn estava certo.

Ainda mancando bastante, Kirk resolveu dar uma olhada nas plantas que pareciam bambus. Cada caule tinha cerca de dez centímetros de diâmetro e, conforme descobriu em seguida, tentando parti-lo ao meio, era duro como ferro. Batendo-se nele com uma pedra, produzia-se um tinir metálico. Talvez esses caules extraíssem ferro do solo. De qualquer maneira, de nada lhe seria útil.

Decidiu que era hora de sair da vala, que era cada vez mais funda e percebeu que havia perdido o Gorn de vista. Era uma risco a correr: ficar onde estava não o levaria a lugar algum.

Kirk agora estava próximo de uma espécie de aterro formado por uma argila azulada. De um lado, o declive era íngreme, mas do outro havia uma ladeira que não apresentava dificuldade, caso decidisse escalá-la. Em meio à argila, era possível ver um monte de formações de cristal. Esperançoso, arrancou uma delas, a que tinha o tamanho de um ovo de galinha e brilhava mesmo sob um céu sem sol. O formato e o brilho eram inconfundíveis: tratava-se de um diamante e um diamante que poderia fazer qualquer outra jóia mais famosa de seu mundo parecer uma mera pedrinha preciosa. E os diamantes não existiam apenas no meio da argila, pois espalhavam-se por toda a vala, nos mais variados tamanhos.

Uma fortuna inacreditável e, mesmo assim, completamente inútil para ele. Nenhuma das gemas era afiada o suficiente para ser usada como uma arma, nem havia como cortá-las. Tinham apenas uma única utilidade: mostrar que esse planeta tinha sido mesmo artificialmente construído. Se pudesse, Kirk trocaria todas essas jóias por um único feiser ou então um bom arco e algumas flechas!

Havia uma curva mais à frente. Jogando o diamante fora, seguiu por ela. O Metron disse que no planeta existia material bruto para fazer armas e se ele pudesse encontrar algo...

Em seu passo seguinte, tropeçou numa espécie de cipó estrategicamente estirado e foi, ao chão. No mesmo momento, ouviu-se o som de madeira quebrando e toda uma encosta da vala parecia desabar sobre ele, com um estrondo.

Kirk rolou como um desesperado para outra direção, mas não foi rápido o bastante para evitar que uma rocha o atingisse no peito. Sentiu uma costela quebrar. Cambaleando à procura de um abrigo, encontrou uma saliência na rocha e que parecia uma gruta. Refugiou-se lá, respirando com dificuldade, e passou a examinar o estado de seu osso quebrado. Na verdade, todo seu corpo parecia uma única e imensa ferida. Foi quando prestou atenção na corda da armadilha que quase custara sua vida.

De repente, surgiu uma idéia, bem simples e engenhosa: um pedaço de cipó esticado, um pedaço de galho curvado e um punhado de pedras prontas para serem disparadas numa espécie de arco improvisado.

Perto do local da armadilha, Kirk ouviu o som de garras afiadas roçando o chão de rocha e um silvo enfurecido, num claro sinal de desapontamento. Kirk sorriu com amargura. A criatura estava muito perto. O capitão arriscou dar uma olhada para fora de seu abrigo na hora em que pode ver o Gorn do outro lado da vala. Seu inimigo carregava algo longo e brilhante nas mãos. Kirk não sabia dizer exatamente o que era, mas o fato de o Gorn ter rasgado um pedaço de sua túnica para enfaixar uma das mãos já era uma pista óbvia. Tratava-se de um espécie de faca, cinzelada com um vidro obisidiano.

Nesse momento, a criatura desapareceu. Kirk não se sentia nada seguro. Além do mais, o Gorn estava muito à sua frente, não apenas na força física, como na engenhosidade. Primeiro uma armadilha, agora uma faca.

Bom, então de volta à Idade da Pedra. Se Kirk pudesse achar uma pedra pontuda, um pedaço de cipó e uma vara longa, poderia fazer uma lança. Isso lhe daria uma vantagem sobre a faca de Gorn. Por outro lado, será que uma lança penetraria aquela carapaça? Só havia um meio de descobrir.

Não havia, no entanto, a rocha da qual tanto precisava. A única coisa visível ao redor era um monte de pó amarelado e brilhante.

O pó parecia familiar e, num pressentimento, Kirk pegou um punhado dele e sentiu seu cheiro. O odor era característico de flores de enxofre quando umedecidas.

Kirk fez uma careta, incomodado com o cheiro. Que planeta maluco. Areia de puro enxofre, um terreno inteiro de diamantes, bambus de ferro concentrado e, ao fundo da gruta, um monte de rochas cobertas por uma coisa amarelo-esbranquiçada parecida com salitre. A única maneira de fazer qualquer tipo de arma com uma mistura destas teria de ser através de uma fornalha e de uma forja...

Mas espera um pouco, pensou Kirk. Havia uma lembrança no fundo de sua memória... algo muito antigo...

Num ímpeto de esperança, Kirk correu até o local onde havia os tais bambus rígidos.

Com uma rocha afiada, conseguiu quebrar um tubo de mais ou menos um metro, partindo em uma de suas junções. O tubo ficou dessa forma. Estava vedado de um lado e aberto no outro. Perfeito!

Em seguida, os diamantes. Ele recolheu, apenas os menores, os quase em pó, e usando as mãos como um recipiente, encheu o tubo com esse material. Agora estava na dependência apenas de sua memória para acertar nas proporções corretas... setenta e cinco por cento, quinze, dez... Nas condições em que estava, era uma questão apenas de tentar uma aproximação, pois a precisão total era impossível. O passo seguinte foi encontrar um diamante do tamanho adequado, o qual guardou na própria boca, uma vez que sua túnica era desprovida de bolsos.

Kirk voltou à vala pelo mesmo caminho. No tubo, colocou enxofre e salitre. Tapando sua abertura, sacudiu o bambu para misturar o material até conseguir dar uma consistência mais homogênea possível a ele.

Depois enfiou com dificuldade uma pedra pontuda até o final do bambu, rasgou um pedaço da túnica e também o colocou dentro do tubo, empurrando-o com uma vara. Aí foi a vez do diamante gigante, mais um pedaço de pano e, finalmente, mais uma pedra, de tamanho não muito grande.

— Capitão — a voz vinha pelo tradutor em seu cinto. Kirk não respondeu.

— Capitão, seja razoável. Esconder-se não é bom para você. Se quer competir para ver quem sobrevive, então devo lembrá-lo de que sou mais resistente. Por que não aparece e morre como um guerreiro?

Kirk o ignorou, pois já estava empenhado no próximo passo de seu plano. Um outro pedaço rasgado da roupa estava no chão e, junto a ele, Kirk esfregava uma pedra e o tradutor — que finalmente estava servindo para alguma coisa! —, na tentativa de produzir algumas centelhas que ateassem fogo ao pedaço de trapo. As faíscas resultantes, no entanto, eram insuficientes...

— Não tem condições de me destruir — continuou o Gorn.

— Vamos acabar logo com isso. Serei misericordioso.

— Como foi em Cestus III?

— Vocês invadiram nosso espaço e estabeleceram um posto nele. É claro que o destruímos.

Kirk ainda tentava friccionar a pedra e o metal para criar fogo, mas agora estava pensativo. O que o Gorn dizia tinha um fundo de razão, de acordo com seu ponto de vista. Muito pouco se sabia sobre aquela região da Galáxia; talvez o Gorn tivesse o direito de reclamá-la como sua e ficar alarmado ao descobrir uma base alienígena estabelecida em seu espaço e ver que uma nave do tamanho da Enteprise também o tinha invadido.

Uma pequena fumaça desprendeu-se do trapo. Kirk começou a soprar suavemente, avivando a fraca chama.

— Está certo, Gorn. Venha até aqui e vamos ver se você pode mesmo comigo. Estou abaixo da saliência, um pouco depois de onde colocou aquela armadilha.

O tradutor reproduziu o som de um silvo exultante e das patas da criatura pisando forte nas pedras. Kirk percebeu que havia calculado mal o tempo e que o Gorn estava mais perto do que pensara, aproximando-se bem rápido. Com desespero, começou a ajeitar seu tubo de bambu.

O Gorn agora estava em seu campo de visão e trazia na mão a faca ameaçadora. Kirk levou o pano em chamas até o orifício aberto de seu canhão improvisado. A explosão nocauteou Kirk, que foi jogado ao chão. O ar encheu-se de uma fumaça meio acre.

Kirk conseguiu levantar-se e, passada a fumaça, viu o Gorn caído junto a uma das encostas da vala. O diamante arremessado o atingira em cheio no ombro direito, dilacerando-o, mas havia ferimentos espalhados por todo o corpo, causados por outros estilhaços.

A faca estava caída no meio do caminho entre os dois contendores. Kirk pulou, agarrou-a e aproximou-se do alienígena caído ao chão. O humano a posicionou bem sobre uma das feridas da criatura.

— Agora — disse Kirk, resfolegante — vamos ver se seu casco é resistente mesmo!

O Gorn não respondeu. Embora consciente, parecia estar em choque. E isso era tudo. Kirk agora só tinha de cravar a faca no inimigo.

— Não — disse, por fim. — Estamos no mesmo barco. Estava tentando salvar sua nave, assim como eu. Não vou matá-lo por causa disso.

De repente, enfurecido, Kirk olhou para o céu esverdeado:

— Estão ouvindo? — gritou. — Não vou matá-lo! Vocês vão ter que encontrar divertimento em outro lugar!

Houve uma longa pausa. Kirk olhou para o alienígena ferido; o Gorn retribuiu o olhar. Seu tradutor havia sido destruído pelo impacto e talvez não estivesse entendendo o que Kirk dizia. Mesmo assim, não parecia estar sentindo medo.

Nesse momento, a criatura desapareceu diante de seus olhos.

Kirk sentou-se, abatido, dominado pelo cansaço. Certo ou errado, acabara de perder sua oportunidade. Os Metrons haviam poupado o Gorn.

Foi quando o mesmo som, o que ouvira na ponte da nave pouco antes de ser trazido a este asteróide, invadiu o ar e anunciou uma materialização. A aparência do recém-chegado nada tinha a ver com o temor e o respeito inspirados por sua voz. Era um rapaz muito jovem, de uma beleza comovente, tão imaculada quanto a de um anjo.

— Você é um Metron — concluiu Kirk, indiferente.

— Sim. Você nos surpreendeu, capitão.

— Como? — perguntou Kirk, ainda mais desinteressado. — Por ganhar?

— Não. Não tínhamos preconceito contra a forma com que poderia ganhar. Você nos surpreendeu por recusar-se a matar, embora tenha perseguido a nave Gorn através de nosso espaço com a intenção de destruí-la.

— Era diferente. Aquilo foi uma coisa necessária.

— Talvez tenha sido. É um novo pensamento para nós. Sob as circunstâncias, devemos dizer a você que não falamos a verdade.

— Como assim?

— Dissemos que a nave do perdedor seria destruída. Na realidade, seria a do vencedor, o mais forte, o mais engenhoso, o que mais representaria uma ameaça para nós. Era o vencedor a quem pretendíamos destruir.

Kirk levantou-se. — Minha nave, não — avisou, ameaçador.

— Não, capitão. Mudamos de idéia. Ao ter poupado seu inimigo, que o teria matado, se pudesse, você demonstrou um avançado grau de misericórdia. Não esperávamos por isso e, portanto, não existe um vencedor de verdade.

— O que fez com o Gorn?

— Ele foi devolvido a nave dele. E, no seu caso, interpretamos errados seus motivos. Vocês sinceramente acreditavam que, destruindo a nave Gorn, estariam mantendo a paz. Se quiser, nós o destruiremos para vocês.

— Não! Isso não é necessário. Foi um... um mal-entendido. Agora que fizemos contato, vamos conversar com os Gorns... chegar a um entendimento.

— Muito bom. Talvez nos encontremos de novo, em alguns milhões de anos. Enquanto isso, há esperança para vocês.

De repente, Kirk estava de volta à Enterprise.



O tumulto tomou conta da ponte. O dr. McCoy foi o primeiro a alcançar Kirk.

— Jim! Você está bem?

— Para ser honesto, — disse Kirk, ainda meio confuso — não sei. Só gostaria de não ficar sumindo e aparecendo toda hora.

— Deduzo que o senhor venceu a disputa — disse Spock. — Como conseguiu?

— Sim, acho que venci... só não sei como. Pensei que fosse pela pólvora que eu reinventei. Mas os Metrons acharam que venci por ser uma surpresa para eles. Não sei qual é a verdade. Tudo o que os Metrons disseram é que nós somos uma espécie promissora... ainda que predadora.

— Eu mesmo não caracterizaria tão bem — observou Spock. — Mas, capitão, estou muito interessado e gostaria de falar sobre sua experiência, quando o senhor se sentir pronto para fazer isso, é claro.

— Sim, é claro. Por enquanto, todos a seus postos. É hora de voltar ao trabalho. E, sr. Spock, sobre minha experiência...

— Sim, senhor?

— Sugiro que o senhor faça a mesma pergunta daqui, vamos dizer... uns mil anos.

— Sim, senhor.

A coisa mais engraçada sobre Spock, pensou o capitão, é que o vulcano iria mesmo esperar todo esse tempo para repetir a pergunta, se pudesse descobrir um meio de viver tanto, é claro. E, quando esse tempo passasse e a hora chegasse, Spock ia se lembrar de fazer a pergunta de novo. Kirk só esperava ter uma resposta para dar.




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