Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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Harold Robbins

A Mulher Só


Tradução de Nelson Rodrigues
Digitalização: Argo


Este livro é dedicado à memória de ]acqueline Susann e Cornelius Ryan, que não apenas tiveram o dom da vida como também a coragem de vivê-la até o fim. Sinto saudade de vocês, meus amigos.

"É terrível quando se é uma mulher orientada para a 'realização'. Por mais alto que seja o preço que se pague, está-se sempre sozinha quando se che­ga a qualquer lugar — e de uma forma que nenhum homem jamais terá de ficar."


Phyllis Chesler,

Women and madness

LIVRO UM
Cidade Pequena

Capítulo 1

Ela estava sentada no alto da escada e chorava.

Ao despertar da anestesia, JeriLee viu a garotinha cho­rando, o rosto coberto com as mãos, os cabelos dourados compridos. Ela já vira aquela imagem de si mesma milhares de vezes, no instante entre o despertar e o sono. E isso acontecia desde a morte do pai.

Sua visão se clareou e ela reconheceu o rosto do mé­dico fitando-a, sorridente.

— Está tudo bem, JeriLee.

Ela correu os olhos pelo quarto. Havia diversas outras mulheres em camas de rodinhas.

— O que era, doutor? Menino ou menina?

— Isso tem alguma importância agora?

— Para mim, tem.

— Ainda é muito cedo para dizer-lhe.

Uma sugestão de lágrimas surgiu nos cantos dos olhos de JeriLee.

— É terrível passar por tudo isso e depois não saber o que poderia ter sido.

— É melhor assim, JeriLee. Agora, procure descansar um pouco.

— Quando poderei sair daqui?

— Esta tarde, assim que eu tiver os resultados dos exames.

— Que exames?

— Exames de rotina. Achamos que você talvez tenha um problema de Rh. Se tiver mesmo, poderemos dar-lhe uma injeção, para que não tenha qualquer complicação na próxima gravidez.

JeriLee fitou-o em silêncio por um momento, antes de perguntar:

— Poderia ter havido complicações com esta gravidez?

— Havia uma possibilidade.

— Então deve ter sido melhor que eu tenha abortado.

— Provavelmente. Mas procure ser mais cuidadosa daqui por diante.

— Não haverá outro aborto — disse JeriLee, firme mente. — Da próxima vez, terei meu filho. E não me im­porta o que possam dizer. Se o pai não gostar, ele que vá para o inferno!

— Já fez seus planos, JeriLee?

— Não. Mas você não me deixa tomar pílula por causa do fator de coagulação, e continuo a rejeitar o DIU. Confesso que me sinto estúpida carregando um diafragma e um tubo de geléia na bolsa, o tempo inteiro.

— Não precisa ir para a cama com todo homem que conhece, JeriLee. Isso não prova coisa alguma.

— Não vou para a cama com todos os homens que conheço, doutor. Vou apenas com aqueles com quem eu quero.

O médico sacudiu a cabeça.

— Não consigo entendê-la, JeriLee. Você é inteligente demais para se meter nessas complicações.

Ela sorriu subitamente.

— É um dos riscos de ser mulher. Um homem pode trepar o quanto quiser e nada lhe acontece. Mas a mulher pode ficar grávida. Por isso, ela é que tem de tomar cuida­do. Pensei que a pílula fosse igualar a situação; Mas, por azar meu, não posso tomá-la.

O médico fez um gesto para uma enfermeira.

— Mas tenho uma pílula que você pode tomar — disse ele, rabiscando rapidamente num bloco de receitas. — Isso a ajudará a dormir um pouco.

— Poderei ir trabalhar amanhã?

— Preferiria que ficasse de repouso por alguns dias. Não fará mal algum, se ficar de cama mais um pouco. Ainda corre o risco de ter uma grande hemorragia. A enfermeira irá levá-la agora para seu quarto. Eu a verei mais tarde, quando lhe der alta.

A enfermeira pegou a receita e começou a empurrar a cama de JeriLee para fora.

— Espere um instante — pediu JeriLee. A enfermeira parou.

— Sam. . .

— O que é? — perguntou o médico, virando-se para ela.

— Obrigada.

Ele se limitou a assentir. A enfermeira recomeçou a empurrar a cama, passou pela porta de vaivém e atravessou um longo corredor até o elevador. Ali, apertou o botão de chamada e olhou para JeriLee, com um sorriso profissional.

— Não foi tão ruim assim, não é, meu bem?

JeriLee fitou-a com uma expressão furiosa. Com os olhos marejados de lágrimas, disse:

— Foi uma porcaria! Acabei de matar meu bebê!

— Por que está chorando, JeriLee? — perguntou-lhe a tia, ao sair do quarto da mãe e encontrá-la sentada nó alto da escada.

A menina levantou o rosto molhado de lágrimas.

— Papai não está morto?

A tia não respondeu.

— Ele não vai mais voltar, como mamãe tinha dito?

A mulher abaixou-se e abraçou-a, dizendo suavemente:

— Não, JeriLee, ele não vai mais voltar.

— Mamãe mentiu para mim — disse JeriLee, em tom acusador. As lágrimas cessaram.

— Sua mãe quis apenas poupá-la de sofrimentos, me­nina — disse a tia, com voz ainda mais suave. — Não queria que nada a magoasse.

— Mas não foi isso que ela me disse que eu devia fazer! Falou que eu devia sempre dizer a verdade, não im­portando o que pudesse acontecer.

— Venha, JeriLee. Vamos lavar seu rosto com água fria. Vai sentir-se melhor.

Obedientemente, JeriLee seguiu a tia até o banheiro.

— Mamãe vai dizer a Robbie? — perguntou ela, en­quanto seu rosto estava sendo lavado.

— Seu irmão tem apenas quatro anos, JeriLee. Não creio que tenha idade suficiente para compreender.

— E eu devo dizer a ele?

— O que acha que deve fazer agora, JeriLee? — per­guntou a tia, fitando-a nos olhos.

A menina sentiu a expressão de simpatia nos olhos da senhora. Pensativa, murmurou:

— Acho que não vou contar nada. Ele é muito pe­queno.

A tia sorriu e beijou-a no rosto.

— Tem toda a razão, JeriLee. É uma decisão muito adulta para uma menina de oito anos.

JeriLee sentiu-se satisfeita com a aprovação da tia. Anos mais tarde, porém, sentiu-se estranhamente arrependi­da. Havia sido a sua primeira decisão adulta, e fora uma concessão.

Naquela noite, deitada em sua cama, ainda acordada, JeriLee ouviu a mãe subir a escada e ir para o quarto dela. Ficou esperando ouvir os passos familiares do pai subindo a escada também, depois de ter apagado todas as luzes lá embaixo. Como os passos não soaram, compreendeu que nunca mais tornaria a ouvi-los. Virou o rosto para o travesseiro e começou a chorar pelo pai

JeriLee tinha pouco mais de três anos no dia em que a mãe a vestira cuidadosamente, num vestido branco de al­godão, ajeitando os cachos de cabelos dourados.

— Tome cuidado com seu vestido, querida. Quero que fique bem bonita hoje. Vamos encontrar papai no trem. Ele está voltando para casa.

— A guerra acabou, mamãe?

— Não. Mas papai não está mais no Exército. Ele deu baixa.

— Por quê, mamãe? Ele está ferido?

— Um pouquinho. Mas não é nada sério. Machucou a perna e anda coxeando. Mas você não deve falar nada sobre isso. Finja que não notou.

— Está bem, mamãe. — JeriLee virou-se e contem­plou-se no espelho. — Acha que papai vai me reconhecer, agora que já sou uma menina crescida?

— Claro que sim, querida — disse a mãe, rindo.

Numa cidade do tamanho de Port Clare, a volta do primeiro veterano que recebera baixa não podia passar des­percebida. O prefeito, o conselho municipal e a banda da escola secundária reuniram-se para a ocasião. Em frente à pequena estação de trem, estava pendurada uma faixa bran­ca bem grande, onde se lia, em letras vermelhas e azuis:
SEJA BEM-VINDO, BOBBY.
Era típico de Robert Gerraghty não saltar do trem pelo lado da estação, mas sim pelo outro lado, pois ficava mais perto de sua casa.

Freneticamente, a multidão esquadrinhou a plataforma da estação, à procura do herói desaparecido.

— Tem certeza de que ele vinha nesse trem? — per­guntou o prefeito à mãe de JeriLee, com uma frustração crescente.

A mãe da menina estava quase em lágrimas. O trem começava a deixar a estação.

— Foi o que ele disse na carta.

Nesse momento, na extremidade da plataforma, alguém gritou:

— Lá está ele!

Robert Gerraghty estava a quase meio quarteirão de distância, caminhando rapidamente na outra direção. Ao ouvir o grito, pôs a mala no chão, tirou o quepe do Exér­cito e coçou a cabeça.

A banda da escola secundária desandou a tocar Salve o herói conquistador. O prefeito, esquecendo a dignidade do cargo, saiu correndo por cima dos trilhos.

Na confusão, a multidão foi atrás. O prefeito, renun­ciando a todos os planos tão meticulosamente elaborados, fez o seu discurso no meio da rua empoeirada.

— Estamos aqui reunidos para saudar a volta de um dos nossos, um natural de Port Clare, um autêntico herói, ferido em defesa de seu país, o soldado de primeira classe Robert F. Gerraghty. . .

O barulho da banda era tão grande que o prefeito foi obrigado a parar o discurso.

O pai segurava JeriLee com um braço, enquanto o outro envolvia os ombros da mãe. JeriLee ficou puxando a manga da túnica dele. O pai virou-se para ela, sorrindo.

— O que é, JeriLee?

— Você levou um tiro na perna?

— Não, querida — respondeu ele, rindo.

— Mas mamãe disse que você foi ferido. Que andava coxeando!

— Isso é verdade. Mas não fui ferido em ação. — Ele viu a expressão de perplexidade no rosto de JeriLee e apres­sou-se em explicar: — Acho que seu pai foi estúpido o bastante para deixar-se atropelar por um caminhão.

— Então você não é um herói — murmurou JeriLee, desapontada.

Sorrindo, ele aproximou o rosto do dela, encostou um dedo nos lábios e sussurrou:

— Não vou contar a ninguém, se você também não contar.

JeriLee desatou a rir.

— Não vou contar, papai. — Um momento depois, ela acrescentou: — Mas posso contar para mamãe?

— Acho que mamãe já sabe. — Ele sorriu e beijou-a no rosto. — Ei, JeriLee, alguém já lhe disse que você se parece um bocado com Shirley Temple?

Ela sorriu, as covinhas aparecendo nas faces, e disse orgulhosamente:

— Todo mundo diz isso, papai. E mamãe diz que eu canto e danço melhor do que Shirley Temple.

— Você vai cantar e dançar para mim, quando chegar­mos a casa?

— Mas claro que sim, papai! — exclamou ela, abraçando-o pelo pescoço.

— Fiquem assim! — gritou um fotógrafo. — Quere­mos essa fotografia para sair no jornal.

JeriLee exibiu o seu mais puro sorriso de Shirley Temple. Mas, de alguma forma, o prefeito conseguiu pôr o rosto na frente dela. Quando a fotografia apareceu na pri­meira página do Weekly Bulletin, o jornal de Port Clare, tudo o que se podia ver de JeriLee eram os braços em torno do pescoço do pai.

JeriLee estava cochilando quando a enfermeira trouxe o almoço. Por um momento, ficou confusa. O dia anterior fora tão vivido em seus pensamentos que esse dia parecia agora uma intrusão indevida. O pai fora um homem muito especial, que ria do mundo que o cercava, da cidade de Port Clare e de todas as suas hipocrisias.

— Não há nada mais que tenha sentido, JeriLee — dissera ele, certa ocasião. — Algum dia, vão descobrir que a guerra realmente mudou o mundo por completo. A liber­dade é mais que uma simples palavra para as nações. Tor­nou-se algo realmente muito pessoal.

Na ocasião, JeriLee não compreendera o que o pai es­tava querendo dizer. Tudo o que ela sabia era que a mãe passava a maior parte do tempo zangada com o pai e fre­qüentemente descontava nela. O irmão menor, nascido me­nos de um ano depois da volta do pai, escapava às crises. Mas JeriLee estava crescendo, e a mãe muitas vezes lamen­tava que cada vez mais se parecesse com o pai, em muitas coisas.

A enfermeira entregou-lhe um cardápio.

— O doutor disse que pode comer o que desejar, con­tanto que não exagere.

— Não estou com fome.

— Mas deve comer alguma coisa. São ordens médicas.

JeriLee correu os olhos rapidamente pelo cardápio.

— Quero um sanduíche de rosbife quente. Sem molho. Depois, gelatina e café.

— Está bem. Agora, fique de lado e deixe-me aplicar-lhe esta injeção.

— Para que é isso? — perguntou JeriLee, olhando para a agulha.

— O doutor não lhe disse? É para o fator Rh. No caso de ficar grávida novamente, não terá nenhum problema com o bebê.

JeriLee virou-se de lado. A enfermeira foi rápida. A paciente nem sentiu a picada da agulha.

— Não pretendo ficar grávida novamente — murmu­rou JeriLee.

— É o que todas dizem, meu bem — falou a enfer­meira, rindo. — Mas não há uma só que não acabe voltando.

JeriLee ficou observando-a sair do quarto. Mas que cadela arrogante! Só porque veste um uniforme branco, acha que sabe de tudo. Recostou-se nos travesseiros. Sentia-se cansada, mas não tão fraca quanto imaginara. O que era mes­mo que lhe haviam falado sobre abortos? Atualmente não era pior do que tratar de um resfriado. Talvez estivessem certos.

Ela olhou pela janela. O nevoeiro matutino de Los Angeles já se dissipara e o dia era claro, de sol forte. Dese­jou ter pedido um telefone no quarto. Mas lhe haviam dito que passaria apenas algumas horas no hospital. Agora, com aquela história do fator Rh, teria que ficar quase o dia inteiro.

Pensou em como deveria estar transcorrendo a reu­nião. Seu agente deveria estar se encontrando com o produ­tor naquele exato momento. Ela queria muito fazer o roteiro do filme baseado em seu próprio livro. O primeiro roteirista contratado fizera um péssimo trabalho. Finalmente, haviam-na procurado.

O agente de JeriLee resolvera ser exigente. Sabia que o produtor estava enfrentando uma crise e decidira explorar ao máximo a situação. Estava pensando em pedir cem mil dólares. Ela achava que era uma loucura. Era muito mais dinheiro do que lhe haviam pago pelo livro, e estava dis­posta a escrever o roteiro até de graça.

— Deixe comigo — dissera o veterano agente, pro­curando tranqüilizá-la. — Esse é o meu negócio. Sei como tratar dessas coisas. Além do mais, se for mesmo necessário, sempre poderemos reduzir o preço.

— Está certo — concordara JeriLee afinal, embora ainda relutante. — Mas não estrague o negócio fazendo exi­gências demasiadas.

— Pode ficar tranqüila. Onde estará amanhã de tarde, caso eu precise falar-lhe?

— Provavelmente em casa.

— E se não estiver lá?

— Estarei em Cedars.

— E o que vai fazer lá? — perguntara ele, espantado.

— Um aborto.

— Você?


— E por que não? Afinal de contas, sou mulher. E as mulheres de vez em quando ficam grávidas, mesmo nos tem­pos atuais.

Ele se mostrara bastante solícito.

— Já providenciou tudo? Posso levá-la de carro e. . .

— Você está sendo maravilhoso, Mike. Mas já está tudo providenciado. Não precisa preocupar-se.

— Irá telefonar-me quando estiver tudo acabado?

— Ligarei para você assim que voltar para casa.

Ele se levantara e a seguira até a porta.

Tome cuidado, JeriLee.

— Fique tranqüilo.

A liberdade era uma coisa muito pessoal, dissera o pai. JeriLee tentou imaginar o que ele diria agora, se soubesse o que a filha acabara de fazer.

Provavelmente, procuraria apenas certificar-se de que ela fizera o que desejava, que aquela fora a sua opção pes­soal. Para ele, era isso que a liberdade significava.

Mas o mundo ainda não aceitara inteiramente o modo de pensar de Robert Gerraghty. A mãe dela, por exemplo, continuava a mesma de antes. Ficaria aterrorizada, se sou­besse. E o mesmo aconteceria com muitas outras pessoas. Mesmo entre as amigas de JeriLee supostamente liberadas, "aborto" ainda era uma palavra obscena.

Olhou para a bandeja com o almoço que estava à sua frente. O rosbife tinha uma anêmica cor pálida, típica da comida de hospital. Começou a cortar um pedaço da carne nervuda. Mas logo largou o garfo e a faca, repugnada. De qualquer maneira, não estava mesmo com fome.

Tornou a olhar pela janela, contemplando o dia de sol intenso da Califórnia. Era muito diferente de Port Clare em janeiro. Recordando um dia nevoso, com um vento ge­lado soprando pelo estreito, enquanto ela seguia pela estrada para pegar o ônibus para a escola, JeriLee estremeceu de verdade. A neve caíra durante toda a noite anterior e pare­cia quebradiça sob suas galochas, enquanto ela caminhava na calçada. Os tratores haviam trabalhado durante toda a noite, e a neve estava empilhada dos dois lados da estrada. JeriLee subiu no monte de neve e desceu para a estrada do outro lado. A neve ali estava ficando marrom, muito suja dos carros que passavam. O ônibus surgiu na estrada.

Parecia há tanto tempo atrás. . . Quase que outra era. E, de certa forma, era mesmo.


Capítulo dois

— Quase sempre se morre — disse o homem.

JeriLee tirou os olhos da janela do ônibus e fitou-o.

Há três meses que ela pegava aquele ônibus para a Escola Secundária de Port Clare, e o homem viajava sempre a seu lado. Era a primeira vez que ele lhe dirigia a palavra.

— Tem razão — disse ela, os olhos se enchendo de lágrimas, inesperadamente.

Ele olhou pela janela e tornou a falar, sem se dirigir a ninguém em particular:

— A neve. . . Por que tem sempre de ser a maldita neve? — O homem ficou em silêncio por um momento, acrescentando em seguida, distraidamente: — Eu vou morrer. . .

— Meu pai morreu — disse JeriLee.

Pela primeira vez, o homem olhou para ela. Um tom de embaraço surgiu na voz dele:

— Desculpe. Eu não sabia que estava falando em voz alta.

— Não foi nada.

— Eu não queria fazê-la chorar.

— Não estou chorando — afirmou JeriLee, em tom de desafio.

— Mas claro que não!

JeriLee sentiu uma estranha dor no estômago. Com uma sensação de vergonha, compreendeu que não pensava no pai há muito tempo. De certa forma, fora fácil demais para o padrasto assumir o lugar do pai, fazendo com que ela o esquecesse.

O rosto do homem era pálido e encovado.

— Você estuda na escola secundária?

— Estudo.

— E em que ano está?

— Estou no segundo ano.

— Parece mais velha. Pensei que já estivesse no final do curso. — Ele corou ligeiramente e acrescentou: — Eu... eu. . . eu não quis ofendê-la. Não sei direito como conversar com moças.

— Não foi nada. Todo mundo pensa que sou mais velha.

O homem sorriu, constatando que agradara a JeriLee.

— Seja como for, peço-lhe desculpas. Meu nome é Walter Thornton.

— É aquele. . .? — perguntou JeriLee, com os olhos arregalados.

Ele não deixou que JeriLee terminasse, dizendo rapi­damente:

— Sou esse mesmo Walter Thornton em que está pen­sando.

— Mas. . . anda de ônibus todas as manhãs!

— Conhece alguma maneira melhor de se chegar à estação? — perguntou ele, rindo.

— Mas tem duas peças na Broadway e um filme sendo apresentados simultaneamente.

— E também não sei guiar. Mas como é que sabe tanta coisa a meu respeito?

— Todo mundo o conhece!

— Não as moças da escola secundária. Elas sabem tudo sobre os atores, não sobre os escritores.

— É porque vou ser escritora.

— E por que não uma atriz? É bonita o suficiente para isso.

— Acha que é errado eu querer ser escritora? — per­guntou ela, corando.

— Claro que não. É apenas estranho. A maioria das moças deseja ir para Hollywood e tornar-se estrela do ci­nema.

— Talvez eu também faça isso.

O ônibus começou a diminuir a velocidade. Estavam chegando à estação ferroviária. Ele levantou-se e sorriu para JeriLee.

— Até amanhã. Poderemos conversar mais um pouco.

— Até amanhã.

Pela janela do ônibus, JeriLee ficou observando o vulto alto e magro, uma capa impermeável muito folgada, desapa­recer no trem à espera na estação, o expresso das 8h07 para Nova York.

O namorado dela, Bernie Murphy, estava esperando-a na frente da escola.

— Sabe com quem me encontrei hoje no ônibus? — disse JeriLee, muito excitada. — Com Walter Thornton! Imagine só! Há três meses que me sento todos os dias ao lado dele e nem sabia quem era!

— E quem é Walter Thornton?

Irritada, JeriLee respondeu com outra pergunta:

— E quem é Mickey Mantle?

Quando JeriLee tinha dez anos, aconteceram duas coi­sas que iriam mudar sua vida. A primeira foi a decisão da mãe de casar-se novamente. A segunda foi a história que ela mesma escreveu c depois adaptou como uma peça, para apresentação no espetáculo de encerramento do ano letivo.

O título era Um conto de fadas sangrento. E era real­mente. Quando a cortina se fechou ao término da peça, todas as personagens no palco já estavam mortas.

Como escritora, produtora e diretora, JeriLee ficara com o único papel duplo da peça, o da cozinheira que fora morta por ordem do rei e que se erguia do túmulo como uma feiticeira, voltando em busca de vingança.

JeriLee adorara a sensação de poder. Durante aquele breve período, foi a pessoa mais importante da quinta série.

Pela primeira vez, sentiu o impacto que tinha sobre as outras pessoas e instintivamente compreendeu que as pa­lavras que escrevera eram a fonte daquela inebriante sensa­ção de poder.

Mais tarde, segurando o prêmio que recebera por com­posição criativa, o rosto ainda sujo da fuligem de sua maquilagem de feiticeira, foi procurar a mãe e anunciou sua decisão:

— Vou ser escritora, mamãe.

A mãe, sentada ao lado do Sr. Randall, do Banco dos Fazendeiros, sorriu distraidamente. Ela mal assistira ao es­petáculo pensando na proposta que John Randall lhe fizera na noite anterior.

— Isso é ótimo, querida. Mas pensei que quisesse ser atriz.

— Era o que eu queria mesmo. Mas agora mudei de idéia.

— Achei-a linda no palco, JeriLee. Também não achou, John?

— Ela era a moça mais linda que havia aqui.

JeriLee fitou-os, espantada. Eles deviam estar cegos.

O objetivo da maquilagem fora fazer com que ela se pare­cesse com uma feiticeira horrível.

— Minha maquilagem estava horrível.

— Não se preocupe com isso, querida. — A mãe sorriu outra vez, como que a tranqüilizá-la. — Nós a achamos linda.

Mais tarde, foram jantar no Port Clare Inn, um res­taurante à luz de velas, de frente para o estreito.

— Temos algo muito importante para contar-lhe, que­rida — disse a mãe, na hora da sobremesa.

JeriLee não olhou para a mãe, pois estava ocupada em observar um casal embriagado que se acariciava na mesa do canto.

— JeriLee!

A menina finalmente olhou para a mãe.

— Eu disse que temos algo muito importante para contar-lhe.

Ela voltou a ser a menina submissa e obediente.

— Pois não, mamãe.

A mãe estava visivelmente constrangida.

— Desde que seu pai morreu. . . sabe como tem sido difícil para mim cuidar de você e de seu irmão, tendo que ir todos os dias trabalhar no banco.

JeriLee ficou calada. Estava começando a compreender.

Mas não sabia se iria gostar do que estava para lhe ser dito.

A mãe olhou para o Sr. Randall, em busca de apoio.

Ele meneou a cabeça, tranqüilizadoramente. Por baixo da mesa, a mão dela procurou a dele.

— Achamos que seria ótimo se você e seu irmão ti­vessem um pai novamente, JeriLee — acrescentou a mãe, rapidamente. — Bobby já está com quase seis anos, e um menino precisa de um pai para fazer-lhe companhia, jogar bola com ele, ir a pescarias, coisas assim. . .

JeriLee olhou para a mãe e em seguida fitara o Sr. Randall.

— Está querendo dizer que quer casar-se com ele, mamãe?

Havia um tom de incredulidade na voz de JeriLee. O Sr. Randall e o pai dela não eram em nada parecidos. O pai sempre fora um homem risonho, que gostava de se divertir, enquanto o Sr. Randall raramente sorria.



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