Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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W."

Senti um tom de aprovação afetuosa no bilhete. Mais tarde, no ensaio, descobri que todas as alterações já tinham sido incorporadas. Pela primeira vez, estávamos todos de acordo.

Só muito depois é que compreendi o que aquela tarde havia me custado. A essa altura, Beau e eu já tínhamos recebido os nossos Tonys, como melhor ator e melhor atriz coadjuvante, apesar de o prêmio pela melhor peça ter sido conferido a outro autor. Aconteceu na semana em que a peça encerrou sua carreira na Broadway, depois de um ano de apresentações.

Eu tinha uma sugestão a fazer sobre a nova peça que Walter estava escrevendo e fui ao gabinete dele. Ele me escutou impassivelmente. Quando terminei, pegou o roteiro que ainda estava em minha mão.

— Você não deveria ter lido isso.

— Eu não sabia, Walter. Encontrei a cópia no quarto e achei que não havia mal algum em lê-la.

— Eu simplesmente a tinha esquecido lá.

— Eu estava apenas querendo ajudar.

— Quando eu quiser sua ajuda, pode deixar que pe­direi.

Foi só então que compreendi que eles haviam encon­trado a única maneira de persuadir Walter a fazer as altera­ções. Ele não se importava com a verdade tanto quanto os outros que estavam naquele negócio. Todos eles estavam interessados exclusivamente em seus próprios egos.

— Desculpe, Walter. Isso não vai acontecer nova­mente.

— Não quis ser tão rude. Mas você não pode saber o que é escrever, até que o faça também. Talvez tenha uma idéia de como é difícil, pois já tentou ser escritora.

— E acho que vou tentar novamente. Agora que a peça acabou e terei algum tempo vago, vou tentar desenvolver uma idéia que tive.

— Ótimo. Se tiver alguma dificuldade, pode falar co­migo.

Não respondi. Mas quando deixei a sala, já havia to­mado uma decisão. Ele seria a última pessoa do mundo a quem eu iria pedir ajuda.

Isso tinha acontecido quatro anos antes e fora o prin­cípio do fim de nosso casamento. Depois disso, de mil maneiras sutis, comecei a perceber que Walter se sentia de­safiado. Agora estava tudo terminado. E eu esperava que ele não se achasse mais ameaçado.

Ouvi o telefone tocar lá embaixo e olhei para o relógio. Eram duas horas da madrugada. Eu estava sentada junto à janela há mais de uma hora. Um impulso levou-me a descer para atender. Meus pais eram antiquados o bastante para acharem que extensões telefônicas eram uma extravagância desnecessária.

A voz ao telefone era áspera e pareceu-me estranha­mente familiar.

— Verônica?

— Não. Aqui é JeriLee.

— Olá, JeriLee. Eu não sabia que você estava em casa. Aqui é o chefe Roberts. Você tem um Jaguar azul?

Meu coração disparou, mas procurei manter a voz calma:

— Tenho, sim.

— Houve um acidente.

— Oh, não!

Meus pais apareceram subitamente às minhas costas. Meu pai tirou o fone de minha mão.

— John Randall falando.

Ele escutou por um momento, empalidecendo.

— É melhor nos vestirmos depressa — disse ele, des­ligando. — Houve um acidente e Bobby está no hospital, em Jefferson.

Capítulo cinco

Meu irmão nunca foi para o Vietnam. O carro tinha saído da estrada na mesma curva que matara meu pai, quin­ze anos antes. Ele viveu apenas o suficiente para pedir des­culpas à minha mãe.

— Perdoe, mamãe — sussurrou ele, por entre o labi­rinto de tubos que entravam e saíam de seu corpo. — Acho que eu tinha bebido demais. . .

Depois, virou a cabeça para o lado e começou a dormir. E nunca mais acordou.

Mamãe ficou completamente atordoada. Para ela, deve ter sido como um pesadelo revivido. Não importa o que disséssemos ou tentássemos fazer, não obtínhamos qualquer resposta. Ela fez apenas uma pergunta ao chefe Roberts:

— Ele estava sozinho no carro?

— Estava, Verônica. Tinha deixado Anne em casa, quinze minutos antes. Ela disse que pediu a ele para saltar e tomar uma xícara de café, antes de voltar para casa. Mas Bobby falou que queria levar logo o carro de JeriLee de volta, para que a irmã não ficasse preocupada.

Mamãe assentiu, sem dizer mais nada.

— Anne disse que eles estavam planejando se casar, antes de Bobby seguir para o campo de treinamento. Sabia que ela está grávida?

Mamãe limitou-se a olhar fixamente para o chefe Roberts.

— Ele não nos contou nada — falou papai.

— Anne disse que Bobby ia contar-lhes tudo esta manhã.

— Falou com ela? — perguntou papai.

— A notícia do acidente foi transmitida pelo rádio de Jefferson. Anne telefonou imediatamente e eu falei com ela. A pobre moça está bastante abalada.

— Coitada dela. . . — murmurei. — Deve estar pro­fundamente chocada.

Mamãe virou-se para mim, com uma expressão irada.

— Não tenha pena daquela sem-vergonha! Bem que avisei a Bobby de que ela era capaz de fazer qualquer coisa para agarrá-lo!

— Não conheço a moça, mamãe, mas não pode ser. . .

— Pois eu conheço — interrompeu-me mamãe, com a voz extremamente fria. — E quase me sinto contente por Bobby estar agora fora do alcance das garras dela.

Senti o coração estofar e quase me sufocar. Subita­mente, percebi algo que nunca antes notara. Eu nunca tinha visto minha mãe chorar. Nem mesmo agora. Não pude con­ter as palavras:

— Você não sabe chorar, mamãe?

Ela me fitou por um momento, depois virou-se para papai. O tom era quase normal, como se eu não tivesse dito coisa alguma:

— Temos que tomar as providências para o enterro, John. . .

Não agüentei mais. Forcei o caminho para ficar entre eles e fitei-a nos olhos. As lágrimas escorriam pelo meu rosto.

— Bobby está morto, mamãe. Seu único filho está morto. Será que não pode derramar algumas lágrimas por ele?

A voz de mamãe era fria e calma:

— Você não tem o direito de falar-me desse jeito, JeriLee. Foi por sua culpa que isso aconteceu. Não deveria ter-lhe emprestado o carro.

Era demais para mim. Em lágrimas, virei-me e desci o lance de escadas para o andar térreo, saindo em seguida para a rua.

A madrugada vinha surgindo a leste. O ar da manhã era frio. Estremeci, mas não era de frio. Tirei um cigarro da bolsa e já ia acendê-lo quando uma mão grande e calosa estendeu-me um fósforo aceso. Era o chefe Roberts.

— Sinto muito, JeriLee. — A compaixão em seu tom de voz era autêntica.

— Obrigada.

— Não queria incomodá-la num momento como este, mas preciso saber de algumas coisas.

— Compreendo. Pode perguntar o que desejar.

— O carro estava segurado e registrado em seu nome?

— Estava.

— Terá que comunicar à companhia de seguros. De­terminei que o carro fosse rebocado para a garagem de Clancy, na Main Street.

Fiquei calada e ele acrescentou:

— O estrago é total. Eles não poderão fazer nada.

Continuei em silêncio.

— Poderei passar por sua casa mais tarde e levar o registro do acidente para você assinar. Assim não terá que voltar à delegacia.

— Obrigada.

Ele já ia se afastando quando o chamei: :

— Chefe Roberts. . .

— O que é, JeriLee?

— Essa moça, Anne. . . diga a ela para me telefonar. Talvez haja alguma coisa que eu possa fazer.

— Está certo, JeriLee. Eu a conheço há tanto tempo quanto conheço você. É uma boa moça.

— Não podia deixar de ser, se meu irmão a amava.

Ele assentiu, depois levantou os olhos para o céu.

— Vai fazer um lindo dia hoje.

— Vai, sim.

Fiquei observando o vulto atarracado se afastar, metido no uniforme azul-claro. Olhei também para o céu e vi que ele estava certo. Ia fazer um lindo dia. Não havia uma única nuvem.

O enterro foi na terça-feira. Walter mandou flores de Londres e Guy veio segurar minha mão. Quando voltamos para casa, mamãe subiu direto para seu quarto e fechou a porta.

— Acho que vou fazer as malas — falei para papai. — Guy ofereceu-se para levar-me de volta a Nova York, no carro dele.

— Está bem. — Ele parecia extremamente cansado. Eu sabia que não fora fácil para ele, pois também amava Bobby.

— Se quiser que eu fique, papai, não há problema.

— Não, JeriLee. Poderemos dar um jeito. Vai ficar tudo bem.

— E você, papai, será que também vai ficar bem?

Ele percebeu a insinuação na minha voz. Hesitou por um momento.

— Não se preocupe comigo. E peço que não fique muito zangada com sua mãe. Ela está sofrendo muito.

— Não estou zangada com ela. Apenas, não consigo compreender.

— Então seja caridosa. Não brigue com ela. Você agora é tudo o que resta à sua mãe.

— Não consigo dar-me bem com ela, papai. Você sabe perfeitamente quantas vezes eu tentei. Mas não pensamos nem nos sentimos da mesma forma em relação a nada.

— Continue tentando, JeriLee. O amor é justamente isso.

Aproximei-me dele e abracei-o.

— Você nunca pára de tentar, não é mesmo, papai? Deve amá-la muito.

— E amo-a mesmo, JeriLee. Conheço os defeitos dela. Mas acho que não têm importância. Conheço também suas qualidades, a força e a coragem que demonstrou, quando ficou sozinha, com duas crianças, depois da morte de seu pai. Sabe que ela me disse que não se casaria comigo, a menos que vocês concordassem? E disse também que jamais faria coisa alguma que pudesse deixá-los infelizes.

— Eu não sabia disso.

— Sua tia e seu tio queriam ficar com você e Bobby, a fim de que ela pudesse reconstituir a vida sozinha. Mas ela não quis. Disse a eles que vocês eram filhos dela, res­ponsabilidade dela, que iria tomar conta de vocês, custasse o que custasse. A primeira coisa que ela me perguntou, quando a pedi em casamento, foi como eu me sentia em relação a vocês.

Beijei-o no rosto. Ele era um homem maravilhoso. E muito ingênuo. Mas amava minha mãe. Ele mesmo o disse­ra. Assim, como eu poderia esperar que ele percebesse que todas aquelas coisas maravilhosas que ela dissera e fizera não fora porque nos amasse, mas sim porque achava que eram as coisas certas a fazer? Beijei-o novamente.

— Procurarei não esquecer o que acaba de me dizer, papai.

O telefone tocou. Ele atendeu, depois passou para mim.

— É para você.

Peguei o fone.

— Poderia oferecer um drinque a Guy, papai? Tenho a impressão de que ele está morrendo de sede.

— Estou bem — disse Guy, rapidamente.

Papai pegou o braço dele e levou-o para a sala de estar.

— Acho que eu também gostaria de tomar um drinque.

— Alô? — falei ao telefone.

— Sra. Thornton? — A voz era suave e juvenil, pare­cendo muito cansada.

— Ela mesma.

— Sou Anne Laren. O chefe Roberts deu-me seu re­cado. Estou telefonando para agradecer-lhe.

— Eu falei sério. Se houver alguma coisa que eu possa fazer. . .

— Não, não há nada. — Ela hesitou por um momento, antes de acrescentar: — Correu tudo bem? Minhas flores chegaram?

— Saiu tudo direito. E suas flores eram lindas. — Eu me lembrava das flores. Rosas amarelas, com um pe­queno cartão com o nome dela.

— Eu queria ir, mas o médico achou que não deveria sair da cama.

— Você está bem?

-— Agora, estou. — Novamente um momento de hesi­tação. — Sabe, perdi o bebê. . .

— Sinto muito.

— Talvez tenha sido melhor assim. Pelo menos, é o que todo mundo está dizendo.

— Talvez estejam certos. . .

— Mas eu queria o bebê! — Ela começou a chorar. — Não sabe como eu amava Bobby!

— Posso imaginar.

Ela parou de chorar. Senti que havia recuperado o controle.

— Desculpe. Sei que está sofrendo muito e não quero agravar sua dor. Eu queria apenas agradecer-lhe.

— Anne, quando estiver se sentindo melhor, telefone e vá visitar-me em Nova York. Poderemos almoçar juntas. Eu adoraria conhecê-la.

— Eu também gostaria. E pode estar certa de que irei mesmo.

Minha mãe estava parada ao pé da escada quando desliguei.

— Com quem estava falando, JeriLee?

— Com Anne.

Ela cerrou os lábios ligeiramente.

— Agradeceu-lhe as flores?

— Achei que você trataria disso, mamãe..

— Se ela o amava tanto como disse, por que não foi ao enterro?

— Por que não perguntou a ela?

— Telefonei. — Os olhos de mamãe se encontraram com os meus. — Mas ela não quis falar comigo. Acho que estava envergonhada demais do que fizera.

— Não foi esse o motivo, mamãe.

— Então qual foi?

— Ela provavelmente estava passando mal. Perdeu o bebê.

O rosto de minha mãe ficou subitamente pálido e ela pareceu cambalear. Estendi a mão para ampará-la.

— Oh, JeriLee, não tem idéia de como lamento. . .

Eu não disse nada. Lentamente, a cor foi retornando ao rosto de minha mãe. Ela era uma mulher muito forte.

— Agora, ele realmente se foi para sempre — dis­se ela.

Ficamos olhando uma para a outra durante um longo momento. Depois, hesitante, minha mãe deu um passo em minha direção. Abri os braços. E mamãe se jogou em meus braços como se fosse uma criança, as lágrimas finalmente lhe escorrendo pelo rosto.


Capítulo seis

Era quarta-feira, dia de matinê. O Sardi’s já estava apinhado, com as senhoras dos subúrbios.

O bar também estava apinhado, mas quase que total­mente com os clientes habituais. Cumprimentei diversos. O maître aproximou-se de mim, fazendo uma mesura.

— É um prazer vê-la novamente, Sra. Thornton. O Sr. Fannon já está esperando-a.

Segui-o até a mesa habitual de Fannon. Ficava junto à parede, separando o restaurante do bar — a localização mais importante da casa. Todos os que entravam ou saíam podiam ver ou ser vistos. Tinham-me dito que Fannon não faltava a um almoço ali, durante os dias úteis, há mais de quinze anos, a não ser quando fora parar num hospital . . . e mesmo nessa ocasião haviam despachado as refeições dele para lá.

Estava sentado num banquinho. Quando me aproximei, tentou levantar-se, mas a barriga protuberante, comprimindo-se contra a mesa, forçou-o a ficar numa posição meio encurvada, até que eu me sentasse a seu lado. Voltou a afun­dar no banco, com um suspiro de alívio, beijando-me no rosto.

— Você está linda, minha querida — disse ele, com sua voz rouca.

— Obrigada, Sr. Fannon.

— Adolph, minha querida. Chame-me de Adolph. Afi­nal de contas, somos velhos amigos.

Assenti. Havia quase dois anos que nos conhecíamos. Na Broadway, isso é muito tempo, mesmo para uma amizade.

— Obrigada, Adolph.

— Um coquetel de champanha para a Sra. Thornton. — O garçom afastou-se e ele virou-se para mim, radiante. — Para você, tem que ser sempre o melhor.

Eu gostava de champanha, mas os coquetéis de cham­panha sempre me deixavam enjoada. Não obstante, sorri.

— Obrigada, Adolph.

Quando o garçom voltou com o coquetel, Fannon disse:

— Prove para ver se está bom.

Comecei a levantar o copo.

— Espere um instante. Temos que fazer um brinde. — Pegou seu copo, que parecia estar cheio de vodca com gelo, como era sua intenção aparentar, embora todos soubes­sem que era apenas água. Ele não bebia álcool, por causa de suas úlceras. — À sua peça, minha querida.

Assenti e tomei um gole. O coquetel doce e enjoativo embrulhou-me o estômago, mas consegui sorrir.

— Está ótimo.

Uma expressão séria se estampou no rosto dele. Pondo a mão em meus joelhos, ele disse:

— Tenho uma comunicação muito importante a lhe fazer.

— Pois não, Adolph — falei, sem tirar os olhos do rosto dele.

— Decidi encenar sua peça. — A mão dele estava agora no meio de minha coxa. — Começaremos os ensaios em agosto. Eu gostaria de estreá-la em Nova York em outubro.

Subitamente, esqueci por completo a mão dele em mi­nha coxa.

— Está falando sério?

— Claro que estou. Adorei a peça com as modificações que você fez. Já enviei uma cópia para Anne Bancroft.

— E acha que ela vai aceitar?

— Creio que sim. Não encontrará outro papel melhor. Além disso, ela sempre quis atuar numa peça sob a direção de Guy.

— É ele quem vai dirigir?

— Exatamente. Telefonei para ele na Califórnia, esta manhã. E ele concordou.

A mão dele já percorrera o resto do caminho. Com duplo sentido intencional, eu disse então:

— Adolph, nunca conheci ninguém que agisse tão depressa.

Ele tossiu, embaraçado.

— Quando gosto de uma coisa, gosto mesmo. E não acredito em ficar com rodeios.

— Eu também não. Mas já estou toda molhada, e se você não tirar a mão imediatamente, vou acabar gozando aqui mesmo.

— Desculpe. — Ele corou e pôs a mão em cima da mesa. — No meu entusiasmo, esqueci tudo o mais.

— Não foi nada. Acontece apenas que sou muito excitável. E nunca antes conheci um homem como você.

— É mesmo?

— Você é diferente de todos os outros. Num negócio cheio de pessoas hesitantes, você tem a força de suas con­vicções.

— Eu sei tomar decisões — disse ele, parecendo satis­feito. — Como acabei de lhe dizer, sou um homem que sabe o que quer.

— É isso o que mais admiro em você.

— Vamos ver-nos com bastante freqüência, daqui por diante. Não sou do tipo de produtor que deixa tudo nas mãos do diretor. Sempre me envolvo a fundo com as mi­nhas peças.

— Eu sei. E é justamente por isso que estou contente por você ter resolvido encenar minha peça.

— É preciso fazer mais algumas alterações no roteiro. Vamos ter que começar a trabalhar nisso imediatamente. Eu gostaria de lhe expor minhas idéias, antes de Guy voltar da Califórnia.

— É só me avisar quando, para que eu possa cancelar outros compromissos.

— Ótimo. — Ele estava visivelmente deliciado com o rumo dos acontecimentos. Calculisticamente, eu lhe dissera tudo o que ele estava querendo ouvir. A mão dele pousou novamente em meu joelho. — Meu escritório já está prepa­rando o contrato. Achei que um adiantamento de dez mil dólares seria justo. É mais do dobro do que costumo dar por uma peça de estréia.

E era mesmo. Tanto Guy como meu agente haviam-me dito que não deveria esperar mais do que três mil e quinhen­tos dólares.

— Isso é ótimo, Adolph. Muito obrigada.

— Você merece — disse ele, sorrindo. — Além disso, pelo que ouvi dizer, está precisando do dinheiro. Parece que Walter não lhe deu nenhuma pensão.

— Eu não quis — apressei-me em dizer.

— A maioria das garotas neste negócio jamais faria tal coisa.

— É problema delas. Posso trabalhar e cuidar de mim mesma.

— É por isso que eu a respeito, minha querida. — A mão dele começou outra vez a viajar.

— Estou ficando com fome — disse eu, tentando dis­traí-lo. — Ainda não comi nada hoje.

— Nesse caso, vamos logo pedir.

Mas antes que ele pudesse chamar o garçom, Earl Wilson, do Post de Nova York, entrou e nos viu. Seu rosto redondo se abriu num sorriso.

— Adolph, JeriLee. O que vocês dois estão tramando?

— Tenho um furo para você, Earl. Vou encenar a nova peça de JeriLee.

— E qual é o tipo de papel que você vai representar desta vez, JeriLee?

— Ela não vai atuar na peça, Earl — disse Fannon. — JeriLee é que escreveu.

Earl assoviou, visivelmente impressionado.

— É um furo dos bons — disse ele, sorrindo para mim. — Teve alguma ajuda do seu ex, JeriLee?

— Walter não tem nada a ver com a peça — disse Fannon, rapidamente. — JeriLee já era escritora antes de se tornar atriz. Ela só subiu no palco porque Walter queria que atuasse na peça dele.

— Tem alguém em mente para o papel principal? — perguntou o colunista.

— Anne Bancroft.

— Como se sente? — perguntou Earl, virando-se para mim.

— Sinto-me emocionada!

Quase pulei da cadeira para provar que era verdade. Afinal, a mão de Fannon estava novamente explorando as chamadas partes íntimas.

A notícia foi a primeira da coluna de Earl Wilson, na edição do Post do dia seguinte:


"Adolph Fannon, conhecido produtor da Broadway, revelou-nos ontem, no Sardi's, que está planejando apresentar uma nova peça na Broadway, na próxima temporada. A peça é de autoria da ex-esposa de Walter Thornton. Ele contou-nos também que Anne Bancroft está sendo convidada para o papel principal".
A ex-esposa de Walter Thornton. . . Embora já estivés­semos divorciados há dois meses, meu nome nem sequer fora mencionado.

Deixei o jornal na mesa da cozinha e fui para a sala de estar, no momento em que o telefone começava a tocar. Era Guy, respondendo a meu telefonema, da Califórnia.

— Parabéns, JeriLee.

— Eu queria agradecer-lhe, Guy. Se não fosse pelo trabalho que você teve para fazer as alterações na peça, Fannon jamais a teria comprado.

— Apenas fiz algumas sugestões, JeriLee. Quem escre­veu foi você.

— Estou feliz porque você vai ser o diretor.

— E eu também.

— Fannon mandou o roteiro para Anne Bancroft.

— Ele lhe disse isso? — perguntou Guy, em tom cético.

— Sim. E disse-o também para Earl Wilson, que pu­blicou a notícia em sua coluna.

— Não acredite nisso. — Guy riu. —- Aposto dez contra um como Anne Bancroft não sabe de nada.

— Então, por que ele ia dizer uma coisa dessas?

— É um balão de ensaio. Fannon é muito esperto. Sabe que Anne Bancroft tomará conhecimento da notícia e pedirá a seu agente para lhe arrumar uma cópia. Dessa ma­neira, ela é que estará pedindo e não ele.

— Oh, Deus!

— Já assinou o contrato?

— Meu agente telefonou esta manhã. Já está tratando de tudo. Por falar nisso, vou receber um adiantamento de dez mil dólares.

— Mas isso é maravilhoso! Como os pagamentos estão programados?

— Não sei. Por quê?

— Fannon nunca paga mais de três mil e quinhentos dólares, até a peça estrear na Broadway. Você provavelmen­te receberá mil dólares na assinatura do contrato, outros mil quando começarmos os ensaios, mais mil e quinhentos quando iniciarmos as apresentações em tournée e o restante quando e se a peça for lançada em Nova York. Portanto, não vá gastando o dinheiro, enquanto não o receber.

— Mas ele me falou num adiantamento de dez mil dólares!

— Tudo o que você receber antes da estréia da peça na Broadway é considerado adiantamento. Verifique com seu agente.

— É o que vou fazer. Quando é que você vai voltar, Guy?

— Provavelmente dentro de um mês.

— Volte depressa, por favor. Estou sentindo muito sua falta.

Depois que Guy desligou, telefonei para o meu agente. O pagamento seria feito exatamente como Guy explicara. Eu ainda tinha muito que aprender.

Sentei novamente à mesa da cozinha, com o meu talão de cheques. Mesmo com os três mil e duzentos dólares que eu recebera da companhia de seguros pelo carro, meu saldo não ia além de quatro mil dólares. Gastara muito mais dinheiro do que imaginara para mobiliar o apartamento.

Fiz algumas contas. O apartamento me custava cerca de mil e cem dólares por mês, incluindo o gás, luz, telefone e uma empregada duas vezes por semana. Faltando cinco meses para a estréia na Broadway, eu ficaria quase sem dinheiro. E se a peça por acaso não chegasse à Broadway, eu estaria quebrada.

Não havia escapatória. Eu não podia ficar sentada, de braços cruzados, esperando que a peça se transformasse num sucesso. Precisava de algum trabalho como atriz, para atra­vessar o verão. E tinha que cuidar disso imediatamente.


Capítulo sete

Cheguei em cima da hora para o encontro marcado com George Fox, às dez horas da manhã seguinte. Fui introduzida no gabinete dele quase que imediatamente. George era vice-presidente da Artists Alliance, Inc. Walter era cliente pessoal dele.

Era um homem baixo e elegante, de cabelos grisalhos e sorriso fácil. Contornou a mesa e beijou-me no rosto.

— Parabéns, JeriLee. Fannon está realmente entusias­mado com sua peça.

— Obrigada — disse eu, sentando-me na cadeira diante da mesa. — Mas estou um pouco desapontada com os paga­mentos. Eu esperava receber tudo adiantado.



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