Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



Baixar 2.48 Mb.
Página12/27
Encontro29.07.2016
Tamanho2.48 Mb.
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   27

Não consegui deixar de recordar o tempo em que está­vamos juntos. O sexo era melhor quando estávamos um pouco altos. Walter não parecia tão tenso e levava mais tempo. Normalmente, ele gozava quase no mesmo instante em que entrava em mim, ou então tinha dificuldades em ficar com ereção. Mas mesmo isso não tinha muita impor­tância. Eu o amava e era feliz. E quando ficava tensa de­mais, podia aliviar-me sozinha. Era algo em que eu podia confiar, algo que vinha fazendo desde os quinze anos de idade.

Corri os olhos novamente pela cama vazia. Eu não podia deixar de ter algum problema. Outras garotas con­seguiam sem a menor dificuldade. Mas isso não acontecia comigo. Eu chegara mesmo a tornar uma nova pílula anti­concepcional, lançada um ano antes, pensando que isso me libertaria das inibições. Mas de nada adiantara.

Eu sabia que era atraente. Todos diziam que eu era sensual, mas ninguém tomava a iniciativa, ninguém me to­cava. Havia alguma coisa em mim que repelia os homens. Até mesmo Beau Drake, que fazia amor com toda mulher que passasse na sua frente, jamais me pusera as mãos.

Lembrei-me de uma tarde, durante o café, no inter­valo entre as apresentações da tarde e da noite, quando Beau fizera uma descrição detalhada do que faria comigo, se estivéssemos a sós. A descrição fora tão nítida que, ao chegar a meu camarim, descobri que minha calcinha estava toda molhada. Aliviei um pouco a tensão com um banho, de chuveiro frio, mas atravessei toda a apresentação noturna num estado de excitação sexual.

Ao chegar a casa, naquela noite, eu estava em fogo. Havia um bilhete de Walter, na mesinha-de-cabeceira, in­formando que ele estava jantando no 21, com George Fox e um produtor.

Não pude esperar. Tirei as roupas, estendi-me nua na cama e peguei na mesinha-de-cabeceira o pequeno "Besouro Verde". .. o nome que dávamos ao vibrador. Liguei-o. O ruído familiar encheu o quarto e pus a mão entre as pernas.

Não sei quanto tempo fiquei deitada assim. Mas, subi­tamente, percebi que Walter tinha entrado no quarto. Abri os olhos. Ele estava de pé ao lado da cama, olhando para mim, com uma expressão estranha no rosto.

— Walter. . . eu. ..

— Não pare.

— Eu... quero... — Não pude acabar, pois tive outro orgasmo. Ele se ajoelhou ao lado da cama, o rosto muito perto de mim, mas sem me tocar.

— Por que ficou tão acesa, JeriLee?

— Não sei. Estava pensando em você. Eu. . . queria. . .

— Então é isso — disse ele, suavemente.

— Eu quero você, Walter! Dê-me seu pau, Walter, por favor!

Ele levantou-se lentamente e ficou olhando para mim.

Baixei o zíper da calça dele e puxei-o para fora. Beijei-o gentilmente, mas, por mais que eu fizesse, nada aconteceu. Depois de algum tempo, ele segurou minha cabeça entre as suas mãos.

— Sinto muito, JeriLee. Estou cansado e bebi demais.

Fiquei calada.

— Às vezes sinto que sou velho demais para você. Eu não a culparia, se arrumasse outro homem.

— Não, Walter, não! — Enterrei o rosto na calça dele. — Eu quero você e mais ninguém!

Comecei a chorar. Distraidamente, ele afagou-me os cabelos.

— Está bem, querida. Compreendo. . .

Mas ele realmente não compreendia. Sabia apenas o suficiente para manipular o meu sentimento de culpa. E, no final, eu compreendi até isso.

Mas que droga! Olhei para a cama vazia, depois to­quei-me, sentindo os terminais nervosos do corpo. Meu com­panheiro, o "Besouro Verde", chamou-me, da mesinha-de-cabeceira:

Ei, boneca! Estou sempre pronto, à sua disposição.

Eu disse em voz alta:

— Mas você não é de verdade. Não está vivo.

Não exagere, boneca. Você não pode ter tudo.

— E por que não? Eu quero, tudo!

Isso também não é humano, boneca.

Sacudi a cabeça. Devia estar maluca, para conversar com um vibrador. Subitamente, eu estava sozinha. O apar­tamento estava vazio. Não sentia mais nada.

Saí da cama, acendi um cigarro e fui para a sala de estar. Olhei pela janela, mas não havia nada para ver, exceto os prédios de apartamentos do outro lado da rua. Não era como o meu antigo apartamento, de onde eu descortinava o Central Park e a cidade a se estender pela noite afora.

Olhei para o relógio. Eram duas horas da madrugada. O problema de se estar sozinha é não se ter com quem con­versar. Perguntei-me se, por trás das janelas às escuras es­palhadas pela cidade, não haveria outras pessoas como eu. Sozinhas, sem ninguém com quem conversar.

Eram onze horas na Califórnia. Guy devia ainda estar acordado. Fiz a ligação. Mas ninguém atendeu no quanta dele. Guy ainda não voltara do jantar.

Fiquei sentada ali, com o telefone na mão. De repente, sem pensar, disquei um número. No segundo toque da campainha, eu tinha mudado de idéia e já ia desligar, quando ele atendeu.

— Desculpe telefonar a esta hora. Eu o acordei?

— Não — disse John. — Eu estava lendo.

— Sua oferta ainda está de pé?

— Está.

— Está achando que sou louca?



— Claro que não.

— De repente, senti que preciso sair de Nova York de qualquer maneira.

— Fico contente por isso.

— Quando vamos partir?

— No vôo de meio-dia, no domingo. Passarei para apanhá-la às dez e meia.

— Pode fazer uma reserva para mim no Beverly Hills Hotel?

— Para quê? Você vai ficar em minha casa.

— Não quero incomodá-lo.

— Não é incômodo algum. Tenho uma casa grande e uma empregada que não tem nada que fazer.

Quando desliguei, meu coração estava disparando, como se eu tivesse acabado de subir cinco lances de escada. Mas quando voltei para o quarto e deitei-me novamente, dormi no mesmo instante, profundamente, como um bebê.




Capítulo dez

A casa ficava numa elevação, em Malibu, alguns qui­lômetros ao norte da colônia mais exclusiva. Uma escada estreita, talhada na rocha, levava até a praia, cerca de trinta metros abaixo. A praia era uma enseada estreita, entre duas formações rochosas, tornando-a quase inacessível ao banhis­ta errante. Na beira do penhasco, cercada por flores, ficava a piscina. Dentro dela, tinha-se a impressão de se estar na­dando no céu.

Um carro do estúdio tinha nos apanhado no aeroporto e levado até a casa. Fomos recebidos na porta pela empre­gada dele, uma mulher pequena e sorridente, de ascendência mexicana. Ela não demonstrou a menor surpresa pela minha chegada. John disse algo a ela em espanhol. Ela assentiu e levou-me para um quarto.

Era um quarto de quina, com uma visão do mar por dois lados. Estava decorado ao estilo mexicano. A cama era imensa, ao melhor estilo de Hollywood, parecendo ter sido construída para caberem seis pessoas. A mulher colocou mi­nha mala numa mesinha encostada na parede e disse-me algo que não entendi.

Assim que ela se retirou, John apareceu na porta.

— Gosta?


— Adoro. É simplesmente maravilhoso.

-— É tudo muito simples — disse ele, parecendo sa­tisfeito com a minha reação. — Fui eu que escolhi tudo. E é exatamente o que sempre desejei.

— Já tem esta casa há muito tempo?

— Há dois anos. Desde que me separei. Minha esposa e as crianças ficaram na casa em Bel Air.

Fiquei olhando para ele, em silêncio.

— Eu tinha de contar-lhe, JeriLee. Queria que sou­besse qual é a situação.

— Obrigada. — Gostei da honestidade dele.

O telefone, o rádio e o controle remoto da TV estão do lado da cama. —Ele encaminhou-se para uma pe­quena porta que havia do outro lado do quarto. — O ba­nheiro é aqui.

Passei pela porta que ele abriu para mim. Era um banheiro grande, de pia dupla, banheira afundada no chão, boxe de chuveiro, vaso e bidê. Olhei para a porta oposta àquela pela qual havíamos entrado.

— Aquela porta dá para o outro quarto de hóspedes. Mas, para todos os efeitos, o banheiro é todo seu. Fiz desse jeito para que as crianças possam partilhar o banheiro, quando ficam aqui.

— Quantos filhos você tem?

— Três. Dois meninos e uma menina. A menina está com catorze anos e os meninos, gêmeos, com doze. Você está no quarto dela.

Assenti e segui-o de volta ao quarto. Ele virou-se para mim.

— Sugiro que tire um cochilo antes do jantar. A mu­dança de horário é sempre cansativa.

— Não estou me sentindo cansada.

— Mas vai sentir-se. O cansaço geralmente aparece na hora do jantar.— Foi até a porta do quarto. — Vamos jantar às oito horas, se você concordar.

—- Por mim, está ótimo.

— Até já — disse ele, sorrindo.

Quando abri os olhos, o quarto estava banhado por luzes de tons púrpura e violeta. Olhei para o meu relógio. Ainda estava marcando a hora de Nova York. Dez horas. Acertei-o e saí da cama. Ele tinha razão. A mudança de horário me deixara cansada.

Fui para o banheiro e abri a água da banheira. Fiquei olhando para o jato de água. Pus um pouco de sais de banho. Depois, tirei as roupas e entrei na banheira, no momento em que as duchas automáticas começaram a funcionar.

Era delicioso. Um dos jatos parecia estar dirigido dire­tamente para a região entre as minhas pernas. Era mara­vilhoso, muito melhor do que o "Besouro Verde".

De repente, percebi que o telefone estava tocando, no banheiro. Ergui-me e atendi.

— Alô?

— Você está acordada?



— Estou, sim. E na banheira.

— Não há pressa. O jantar será servido quando você estiver pronta.

— Talvez eu decida jantar na banheira — falei, não podendo conter o riso.

— Está gostando?

— E como! As duchas são maravilhosas. Talvez eu acabe me casando com elas.

— Divirta-se. — Ele riu também. — Ficarei esperando.

Repus o fone no gancho. Mas a água já estava fria e decidi sair da banheira. Peguei uma toalha tamanho gigante e enxuguei-me alegremente. Tudo na Califórnia era grande — as camas, as banheiras, até mesmo as toalhas. Perguntei-me se isso não significaria alguma coisa. Mas desisti de pen­sar no assunto, vesti uma calça comprida e uma blusa e desci.

A mesa estava posta ao lado da porta aberta do pátio. Havia um prato de madeira, com salada, no meio da mesa. Lá fora, havia um fogo de carvão na churrasqueira. Parei no meio da sala, farejando.

— O que é isso?

— Batata assada no carvão. Espero que goste.

— Vamos ter um churrasco? Adoro!

Ele sorriu e foi para o bar. Ligou a coqueteleira auto­mática.

— Tenho duas especialidades. Preparo o melhor margarita e também o melhor churrasco do mundo. — Tirou os copos de coquetel do balde de gelo e rapidamente passou sal nas bordas. Depois, parou a máquina e encheu os copos.

— Seja bem-vinda à Califórnia — disse ele, no momento em que peguei o copo.

O margarita desceu como um fogo líquido, espalhando uma onda de calor por meu corpo.

— Mas é incrível! — murmurei. Ele não podia saber que eu nunca antes bebera um margarita.

— Vou pôr os bifes na churrasqueira. Quando termi­narmos a segunda dose, eles já estarão no ponto.

Como que por uma deixa, a empregada entrou na sala nesse momento, trazendo uma travessa de madeira, com dois bifes imensos, entregando-a a John.

Buenas noches — disse ela.

Sorri e sacudi a cabeça, enquanto ela se retirava.

— Normalmente ela está de folga aos domingos — disse John. — Só ficou hoje para que saísse tudo direito.

Segui-o até a churrasqueira e fiquei observando-o pôr os bifes sobre a grelha. Houve um silvo quando a gordura caiu nos carvões em brasa.

— Os bifes foram marinados em azeite, vinagre e alho — informou John. — Isso dá um sabor especial. Gosta malpassado?

Assenti.


— Ótimo. Eu também.

Quando os bifes ficaram no ponto, eu me sentia muito bem, um pouco inebriada, mas perfeitamente lúcida. Sus­pirei de alívio ao sentar-me à mesa. Fiquei observando-o acender as velas e servir o vinho. O copo de vinho era muito pesado e tive dificuldades em levantá-lo. Depois da tequila, o vinho tinto era bastante suave.

— Delicioso — murmurei, pondo o copo de vinho em cima da mesa.

— Acho que exagerei nos margaritas — disse ele.

— Nada disso.

— Está se sentindo bem?

— Muito bem. Só estou um pouco embriagada.

-— Vai sentir-se melhor depois de comer alguma coisa.

Ele tinha razão. O bife, a salada e as batatas assadas estavam deliciosos. Na hora do café, eu já estava nova­mente sóbria.

— Você fuma? — perguntou ele, depois que tomamos o café.

Disse que sim.

— Fume um destes. É estrangeiro. Vai muito bem com conhaque. É forte, não se incomoda?

— Você já me viu tonta antes.

Segui-o até o sofá. Ele abriu uma caixa de madeira que estava sobre a mesinha. Acendeu o cigarro e entregou-me, enquanto ia buscar o conhaque. Dei uma tragada longa e deixei a fumaça penetrar pelos pulmões.

— É forte, John!

— O melhor que existe. — Pegou o cigarro e deu uma tragada. Observei-o empurrar a fumaça pela garganta abaixo com o conhaque. — Experimente fazer desse jeito, JeriLee.

Segui o exemplo dele. Era dinamite pura. Comecei a rir.

Qué pasa? — perguntou ele.

— Ainda não estou acreditando.

— Acreditando em quê?

— Que estou aqui. Você. Eu.

Ele pegou o cigarro da minha mão. Uma tragada, um gole de conhaque. Devolveu-me.

— Não é tão difícil assim de acreditar.

— Nunca fui antes a lugar nenhum com outro homem que não o meu marido. E aqui estou eu agora, depois de voar pelo país inteiro com você.

— Está arrependida?

— Não.


— Não quero que fique.

— E não estou.

— Assim é que eu gosto — disse ele, rindo.

— Estou me sentindo maravilhosamente bem — mur­murei, recostando-me nas almofadas. — Você sabe como tratar uma garota.

Ele não disse nada.

— Sinto-me relaxada, preguiçosa. . .

— Se ficar cansada, pode ir deitar-se. Não se preocupe comigo.

— Você é um homem maravilhoso, John Styles. -— Obrigado.

— Um perfeito cavalheiro...

Ele ficou calado. De repente, senti calor. Olhei para a piscina lá fora e levantei-me.

— Posso nadar um pouco?

— Faça o que quiser. Há alguns biquínis no vestiário. Deve encontrar um do seu tamanho.

— E é preciso? — perguntei, fitando-o nos olhos.

Ele meneou a cabeça, em silêncio.

Saí da sala, tirei as roupas ao lado da piscina e mer­gulhei. A água estava fria, refrescante. Quando subi à tona, ele ainda estava lá dentro, sentado no sofá.

— Venha também, John. Está delicioso.

Ele se aproximou da piscina, hesitou por um momento, depois despiu-se também e entrou na água.

— Não está achando maravilhoso, John? Parece que estou flutuando no céu.

Dentro da casa, o telefone começou a tocar. Olhei para ele. O telefone tocou novamente. Ele começou a sair da piscina.

— Não precisa atender, John — falei.

— Eu estava esperando esse telefonema. É o meu di­retor administrativo, para me dar a programação de amanhã.

Fiquei observando-o sair da piscina e correr para o telefone, pingando água, Ele ficou ao telefone durante quase quinze minutos.

— Meu dia amanhã vai começar às seis horas — dis­se ele.

— Quer ir para a cama?

— Acho melhor. Caso contrário, vou passar o dia inteiro com sono, sem conseguir pensar direito.

Saí da piscina e meti-me em outra das imensas toalhas da Califórnia, que ele enrolou em mim, tão cuidadosamente como se eu fosse um bebê. Peguei minhas roupas, enquanto ele se enrolava também numa toalha. Subimos a escada.

Parei diante da porta do meu quarto e virei-me para ele. John inclinou-se para a frente e beijou-me no rosto.

— Durma bem. Deixei as chaves no conversível para você. Se precisar de alguma coisa, basta pedir a Maria. Vou sair de casa às cinco horas da manhã. Assim, só voltarei a vê-la quando voltar para casa de noite.

Fiquei parada na porta, observando-o percorrer o cor­redor, entrar em seu quarto e fechar a porta.

Fui para o banheiro, deixei cair a toalha, acendi um cigarro e contemplei-me no espelho. Tinha que haver alguma coisa errada comigo. Eu não compreendia. Podia compreen­der a frieza de um homem, mas a dele era demais. Tinha que ser eu.

— Diabo! — disse para a minha imagem no espelho. Voltei para o quarto e tirei o "Besouro Verde" da mala. Corri os olhos ao redor, procurando uma tomada. Encontrei uma atrás da cama. Mas não houve jeito de conseguir alcan­çá-la. Isso resolvia o problema.

Joguei o vibrador em cima da cama, saí do quarto e atravessei o corredor. Abri a porta do quarto dele, sem bater. Ele saiu do banheiro, com a toalha ainda enrolada na cintura, e ficou olhando para mim.

Vislumbrei minha imagem, parada na porta, nua, no espelho da parede do outro lado.

— Será que há alguma coisa errada comigo? — per­guntei, não esperando resposta para acrescentar: — Ou será que devo acreditar que me trouxe de avião através do país, por quase cinco mil quilômetros, só para não dormir comigo na Califórnia?



Capítulo onze

Dentro do quarto, havia uma pequena luz acesa do outro lado. Fora, havia a escuridão da noite e o barulho constante e tranqüilo das ondas. Eu estava do lado da cama mais próximo da janela aberta. Ele estava do lado da parede, meio oculto nas sombras.

— Que horas são, John?

— Quatro horas. — A ponta do cigarro luziu na es­curidão. — Está na hora de eu me levantar.

— Desculpe.

— Desculpe o quê?

— Por mantê-lo acordado. E você ter que ir trabalhar sem dormir.

Ele ficou calado por um momento.

— Não há problema. Um banho de chuveiro e um café podem produzir resultados maravilhosos.

— É engraçado, mas não estou com sono. E estava exausta quando saltamos do avião. Agora, não sinto o menor cansaço.

— Isso se chama juventude — disse ele, com um sorriso.

— Isso é tudo?

— Não sei.

— É sempre assim?

Ele se virou para,mim, mas não lhe pude ver os olhos.

— Sempre assim como?

— A primeira vez. A noite toda.

— Não.


Tirei o cigarro da mão dele, depois ri e o devolvi.

— Por que você riu?

— Por causa do hábito. Eu realmente não estava com vontade de fumar, mas costumava tirar o cigarro de Walter, fingindo que queria, porque ele não deve fumar. —

— Hum, hum. . .

— Ele tem enfisema.

John saiu da cama, sem dizer nada.

— Está zangado comigo porque falei sobre Walter?

— Não.


— E está arrependido de ter me trazido com você? — perguntei, sentando-me na cama.

— Você está arrependida de ter vindo?

— Não. Mas você não respondeu à minha pergunta.

— Não estou arrependido.

— Foi tudo direito? Isto é, foi bom para você?

— Não me ouviu fazer nenhuma queixa — falou, sor­rindo.

— Quero que seja tão bom para você quanto é para mim.

O sorriso dele se ampliou.

— Se ficar ainda melhor, acabarei indo parar num hospital em menos de uma semana.

— Nunca imaginei que pudesse ser tão bom. Não que­ria mais parar.

— Percebi que você não se satisfazia há muito tempo. Quando foi o seu divórcio?

— Já faz quase cinco meses.

— É muito tempo para uma garota tão sensual corno você. Não houve nenhum homem desde então?

— Não. — Não disse a ele que também não tivera muito sexo durante meu casamento. Walter era inflexível em suas rotinas. E eu não conhecia nada melhor.

— Acho bom eu começar a me vestir — disse ele, seguindo para o banheiro.

— Vou descer e preparar um café.

— Sabe onde fica a cozinha?

-— Encontrarei.

Voltei para o meu quarto, pus um roupão e desci. A empregada há muito que já tinha ido embora. A cozinha estava arrumada, impecável. A cafeteira estava pronta para ser usada. Abri a geladeira. Quando John desceu, eu já tinha posto na mesa ovos com bacon e torradas, além do café.

— Não precisava fazer isso, JeriLee.

— Mas eu quis fazer.

Ele quase não comeu, mas eu comi como um motorista de caminhão. Estava faminta.

— O que pretende fazer hoje? — perguntou ele.

— Não sei. Dormir um pouco. Talvez tomar um pouco de sol.

— Quer jantar em casa ou num restaurante?

— Vamos jantar aqui mesmo e ir cedo para a cama.

Ele sorriu. Senti que fiquei corada e procurei corri­gir-me:

— Você precisa descansar um pouco. Não pode passar a vida sem dormir.

— Deverei estar de volta em torno das oito horas. — Levantou-se. — Tenho que dar uma olhada em alguns ro­teiros esta noite.

— Estarei esperando-o — disse eu, começando a levan­tar-me também.

— Não precisa acompanhar-me. Até de noite.

Fiquei observando-o partir, depois terminei meu café e empilhei os pratos na cozinha. Subi para o quarto. Caí no sono no instante mesmo em que encostei a cabeça no tra­vesseiro.

O telefone ao lado da cama estava zumbindo, zum­bindo, zumbindo. . . Rolei na cama e abri os olhos. Fechei-os imediatamente, diante do clarão ofuscante do sol. O tele­fone continuou a tocar. Fui abrindo os olhos lentamente, acostumando-me à claridade. Finalmente, atendi.

— Alô?


Senorita, para usted. — A voz da empregada era jovial.

— Obrigada. — Olhei para o telefone, imaginando que devia ser mamãe, ansiosa em falar comigo. Apertei o botão. Mas não era mamãe e sim Harry Gregg.

— O que está fazendo aí? — perguntou ele, abrup­tamente.

— Estava dormindo quando você me acordou — res­pondi, sarcasticamente. — Como é que soube onde eu estava?

— Pelo amor de Deus! São três da tarde aí! Que diabo andou fazendo a noite toda?

— Trepando, se isso é da sua conta! — Eu estava começando a sentir que tudo o que diziam a respeito dos agentes era verdade. Assim que arrumavam um trabalho para um cliente, achavam-se donos dele. — Como foi que descobriu onde eu estava?

— Seu serviço de recados telefônicos informou-me que você não estava em Nova York. Por isso, telefonei para sua mãe e ela me disse. — Ele fez uma pausa. Quando tornou a falar, sua voz tinha um tom de conspiração: — Acabei de receber um telefonema de Fox. Ele queria saber onde você estava. Seu ex está à sua procura.

— E daí?


— Não disse nada a ele. Acha que sua mãe poderia contar?

— Não. Minha mãe jamais faria tal coisa. Ela nunca iria admitir que sua filhinha atravessara o país na compa­nhia de um homem. E mesmo que contasse, que diferença isso podia fazer? Walter não tem nenhum direito sobre mim. Foi por isso que me telefonou?

— Não —- disse Harry, a voz voltando ao normal. — Arrumei outro trabalho para você. E é ótimo que já esteja na Califórnia.

— Não estou entendendo.

— Arrumei-lhe um papel de atriz convidada em O Ho­mem de Virgínia. Estão à sua espera na Universal, esta tarde. São três mil e quinhentos dólares por uma semana de tra­balho.

— Como foi que isso aconteceu?

— Eles viram algumas das cenas que você filmou em Nova York na semana passada.

— Já é muito tarde, Harry. Terei que me aprontar, fazer o cabelo, maquilagem e tudo o mais. Não vai dar. Será que não posso deixar o encontro para amanhã?

— Insistiram para que seja hoje. Telefonaram-me de manhã bem cedo, pedindo que a embarcasse no primeiro avião para a Califórnia. Disseram que ficarão esperando por você, no estúdio, até oito da noite.

Fiquei calada.

— É uma boa oportunidade. A Universal faz uma por­ção de filmes. Se gostarem de você, não lhe faltará mais trabalho.

— Está certo. A quem devo procurar?

Ele deu-me a informação e depois sua voz voltou a assumir o tom de conspiração:

— O que devo dizer a Fox? Amanhã de manhã, ele já terá sabido que você esteve na Universal.

— Imagine alguma desculpa. Mas não me importo absolutamente com o que ele possa dizer a Walter.

— Pois é melhor se importar. George vai tornar as coisas muito difíceis para você, se Walter ficar furioso.



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   27


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal