Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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— Diga-lhe que o estúdio conseguiu falar comigo antes de você e que vim para cá imediatamente.

Desliguei o telefone e só então comecei a ficar com raiva. Eu não gostava de ser intimidada. Decidi telefonar de volta para Harry.

Alguma coisa errada, JeriLee?

— Há, sim. Não gosto de ser pressionada por nin­guém. Nem por Walter, nem por George, nem por você. Nem por ninguém. E não devo explicações a ninguém.

— Ei, vamos com calma! Não precisa ficar zangada comigo. Afinal, estou do seu lado.

—- Pois então diga-lhes a verdade. E se eles não gosta­rem, que vão para o diabo!

Senti-me melhor depois que desliguei. Vesti-me cui­dadosamente e cheguei ao estúdio por volta das seis e meia.

Durante as três horas seguintes, sete homens entraram no gabinete do produtor para falar comigo. Ao final desse tempo, a única coisa que eles ainda não sabiam era que eu tinha uma pinta no alto da nádega esquerda. Finalmente, todos se sentaram na sala, de frente para mim, formando um semicírculo.

O figurão em cuja sala estávamos disse finalmente:

— Acho que ela vai servir. O que me dizem, rapazes?

Houve um coro de assentimento.

— Mas que tipo de papel vou fazer? — consegui per­guntar.

— Um papel muito bom. Emocionante, entende? Um papel de verdade.

— Posso ler o roteiro?

— Claro que pode. Nós lhe daremos uma cópia ama­nhã de manhã.

— Mas estão querendo que eu comece a trabalhar amanhã de manhã!

— Exatamente.

— Como então poderei decorar minhas falas?

— Terá tempo suficiente para isso. Sua primeira fil­magem será de tarde. Poderá ler o roteiro enquanto estiver na seção de Vestuário e na de Maquilagem.

— Por que não posso ver o roteiro agora?

Uma expressão contrariada surgiu no rosto dele.

— Creio que ainda não recebemos as cópias finais.

— Posso ler uma anterior. Assim, pelo menos terei uma idéia da personagem que irei representar.

— É um bom papel — disse ele, na defensiva. — Não quer aceitar minha palavra?

— Claro que aceito.

— Assim é que se faz — disse ele, levantando-se. — Esteja aqui às sete horas da manhã e apresente-se no Ves­tuário.

— Não.

Ele ficou boquiaberto.



— Como?

— Eu disse não. Acho que tenho o direito de ler o roteiro, para saber se é um papel que eu possa e queira representar, antes de aceitar.

— Ninguém está querendo lhe tirar esse direito. Acon­tece que estamos numa emergência. Precisamos iniciar as filmagens e por isso temos que resolver tudo esta noite.

— Então, arrume-me um roteiro, Eu leio depressa.

Os olhos dele ficaram subitamente frios.

— É muito independente, não é mesmo, Srta. Randall?

— Absolutamente. Apenas acho que tenho direito à mesma consideração que lhe dispensei. Não concordaria em me dar o papel se eu não viesse até aqui e o deixasse exami­nar-me. Vim até aqui porque compreendi isso. Para mim, é uma questão de simples cortesia.

Ele me olhou furioso por um momento, depois sorriu e virou-se para o homem a seu lado.

— Vá buscar um roteiro para ela, Dan. — Dirigindo-se aos outros, disse em seguida: — Muito bem, rapazes, a reunião está terminada.

Enquanto eles saíam da sala, olhei para o homem atrás da escrivaninha e falei:

— Posso sair para ler o roteiro lá fora, se tiver algum trabalho a fazer.

— Pode ficar. Não vai atrapalhar-me.

Li o roteiro rapidamente. Meu instinto não me falhara. O papel era o de uma garota índia e eu seria o tipo menos indicado para representá-lo. Era um desses papéis com mui­tas cenas, mas praticamente sem diálogos. Na verdade, eu nem mesmo sabia por que eles precisavam da moça na his­tória. Ela não tinha nenhuma função definida, e teria sido melhor se ficasse de fora.

—- Acho que não vai dar — declarei, levantando-me.

Ele me fitou com uma expressão de desafio.

— Não é um papel dos mais importantes, mas vai ficar uma porção de tempo diante das câmaras.

— Nem ao menos tenho cabelos e olhos pretos.

— Isso não é problema. Uma peruca e lentes de con­tato podem corrigir esse detalhe.

— Não, obrigada.

— Pense só na publicidade. Vinte milhões de pessoas irão vê-la numa só noite.

— Eu não me sentiria à vontade no papel.

— Mas é uma grande oportunidade. Não a desperdice. Há muito trabalho por aqui. Sabe quantas garotas dariam qualquer coisa para estar em seu lugar?

—- Posso fazer uma idéia. E tenho certeza de que muitas delas seriam mais apropriadas para o papel do que eu.

— Mas é você que eu quero. Tive que me esforçar ao máximo para arrumar esse papel para você, pois achei que poderia dar-lhe um toque especial.

— Obrigada. Pode estar certo de que me sinto pro­fundamente grata pela lembrança.

— Olhe, já é bem tarde. Por que não vamos jantar juntos e conversamos a respeito?

— Sinto muito, mas já tenho um compromisso.

— Quer dizer então que não aceita mesmo?

— Não. — Coloquei o roteiro em cima da mesa, dian­te dele. — Posso telefonar para chamar um táxi?

Ele me olhou como se já tivesse se esquecido da minha presença.

— Claro, claro. Peça à minha secretária. Ela chamará um táxi para você.

— Obrigada. E boa noite.

Ele se limitou a assentir, em silêncio, enquanto eu saía da sala.

Já eram dez horas da noite quando voltei para a casa na praia. A essa altura, tudo saíra errado.




Capítulo doze

A porta foi aberta pelo assistente de direção que nos acompanhara nas filmagens em Nova York.

— Olá, JeriLee.

Em Nova York, ele me chamava de Srta. Randall.

— Olá. — Tentei recordar o nome dele, mas não consegui. Entrei na casa. Quando eu já ia me afastando, ele avisou:

— Vá devagar com ele. O chefe hoje está uma pilha. — Seu tom de voz deixava implícito que nos compreendía­mos mutuamente, éramos aliados. — Saiu tudo errado hoje. Acho que não conseguimos fazer nem dois minutos do fil­me. E ele ficou ainda mais furioso quando chegou a casa e não a encontrou.

— Por quê? Deixei um bilhete explicando para onde ia.

— Não sei se ele o recebeu.

— Explicarei a ele pessoalmente. Você vem comigo?

— Não Eu já estava de saída.

— Está bem. Boa noite.

John estava sentado no sofá, com um drinque na mão. Levantou os olhos quando entrei na sala. Inclinei-me e beijei-o no rosto.

— Olá, John. Desculpe ter chegado tão tarde.

— Onde diabo você estava?

— Na Universal. Deixei um bilhete.

— Pois não o recebi. E o que foi fazer lá?

— Expliquei tudo no bilhete. Eles telefonaram para me oferecer um papel.

— Telefonaram para cá?

Eu estava começando a ficar irritada com a infantili­dade dele.

— Não. Recebi a mensagem através de um pombo-correio.

— A quem mais você deu o meu telefone?

— Não dei seu telefone a ninguém. Meu agente des­cobriu sozinho onde eu estava.

— Então como é que todo mundo já sabe? Nas duas horas desde que voltei para casa, já atendi a meia dúzia de telefonemas para você. De sua mãe, de seu ex-marido, duas vezes de seu agente e duas vezes da Universal.

— Pois eu não dei seu telefone a ninguém.

— Então como é que todo mundo sabe?

— Não tenho a menor idéia. Peço que me desculpe. Eu não queria incomodá-lo.

— Mas que droga! — Levantou-se e foi até o bar, tornando a encher seu copo. — Era justamente isso o que eu estava precisando agora!

Fiquei observando-o tomar outro gole, sem dizer nada. Eu ainda não o tinha visto daquele jeito.

— A esta altura, toda a cidade já deve saber que você está aqui comigo.

— E que diferença isso pode fazer? Ninguém tem ne­nhum direito sobre nós.

— Sobre você, talvez não. Mas você se esquece que eu ainda sou casado.

— Você disse que era separado.

— Mas não divorciado. Sempre tomei todo o cuidado para não dar nenhum motivo para minha esposa proces­sar-me.

— Sinto muito. Nunca desejei criar-lhe nenhum trans­torno.

— Você não se lembra, mas eu lhe disse qual era a minha situação.

— Claro que disse. Mas só depois que cheguei aqui. Por que não me falou nada em Nova York? — Respirei fundo e respondi eu mesma, sem esperar que ele o fizesse: — Porque sabia que, se me dissesse antes, eu não teria vindo.

— Eu não imaginava que o mundo inteiro fosse co­meçar a telefonar para você.

— Acho melhor você chamar um táxi para mim. — Olhei furiosa para ele. — Será melhor, para nós dois, se eu for agora mesmo para um hotel.

Nesse momento, o telefone tocou. John atendeu, de­pois estendeu o fone para mim.

— É para você.

Era Harry.

— Que diabo você andou fazendo lá na Universal? Eles estão fervendo de raiva!

— Não fiz nada, Harry. Apenas disse a eles que nunca tinha ouvido falar em uma índia de olhos azuis.

— Eles querem você de qualquer maneira. Estão mu­dando o papel, para que você seja a filha adotiva do chefe da tribo, a única sobrevivente de uma caravana.

— Mesmo assim, o papel continua não prestando.

— Eles estão loucos por você. Prometeram também lhe arrumar outros papéis, se aceitar este,

— Sinto muito, Harry, mas não quero.

— Mas que diabo deu em você? — gritou ele, per­dendo a paciência. — Algumas semanas atrás, você estava implorando por trabalho. Disse que precisava de dinheiro. E agora, que conseguiu trabalhar duas semanas, age como se estivesse podre de rica!

— Não vou fazer aquele papel só para satisfazer o ego de algum produtor. Eles podem arrumar alguma outra ga­rota que goste de aparecer em cena com uma blusa índia toda rasgada e cara de boba.

— Já é uma hora da madrugada aqui. Estou morto de cansaço e vou dormir. Pense no assunto. Eu lhe tele­fonarei de manhã.

No momento em que pus o fone no gancho, a cam­painha tocou novamente. John atendeu com um berro:

— Alô! — No mesmo instante, sua voz mudou: — Como vai, Chad?

Ele escutou por um momento, depois olhou para mim, antes de falai:

— Você está absolutamente certo, Chad. Ela é uma garota e tanto. E também uma boa atriz.

Compreendi que ele estava falando a meu respeito e escutei o resto da conversa com uma espécie de fascinação aturdida. Era quase como se eu fosse propriedade dele.

— Não posso culpá-lo por isso, Chad. Ela parece per­feita para o papel... Claro que falarei com ela. Mas você sabe como são essas atrizes de Nova York. Elas têm idéias próprias... Claro, ela está bem aqui. Vou chamá-la. — Estendeu o fone para mim.

— Quem é? — perguntei.

— Chad Taylor.

— E quem é ele?

— Essa não! Você passa algumas horas na sala dele na Universal e depois não sabe nem quem é!

Peguei o telefone.

— Pois não?

— Já falou com Harry Gregg, JeriLee?

Ao sair da sala dele, eu ainda era a Srta. Randall. Aparentemente, de lá para cá havíamos virado velhos amigos.

— Já, Sr. Taylor.

— Ele lhe contou como resolvemos o seu problema?

Eu não sabia que o problema era meu.

— Contou, Sr. Taylor.

— É uma idéia infernal. O que achou?.

— Continuo a achar que o papel não presta, Sr. Taylor.

— Por que está sendo tão difícil, JeriLee?

— Não estou sendo difícil, Sr. Taylor. Apenas sei o que posso e o que não posso fazer.

— Se você não tomar nenhuma decisão precipitada — disse ele, em tom quase suplicante —, terei um roteiro re­visto para você ler, amanhã de manhã.

Subitamente, senti-me muito cansada. Já tivera dis­cussões demais para um único dia.

— Está certo, Sr. Taylor.

-— Pode estar aqui por volta das onze horas? Manda­rei um carro buscá-la.

— Não precisa preocupar-se. Posso pegar um táxi.

Desliguei. John me disse então:

— Você deve aceitar.

— Por quê? Leu por acaso o roteiro?

— Não. Mas a publicidade vai ser ótima para você. O público conhecerá seu nome. Talvez, assim, eu possa con­vencer meu irmão a aumentar seu nome nos créditos.

Outra lição. Eu estava aprendendo uma porção de coi­sas naquele dia. A publicidade é ótima, porque aumenta as possibilidades comerciais de outro produtor. Como eu não tinha mais nada a dizer, virei-me para sair da sala.

— Para onde você está indo? — perguntou ele.

— Vou fazer a mala.

— Espere um instante. Para que tanta pressa?

— Não quero que você seja processado — respondi, sarcasticamente.

— Eu disse isso só porque estava furioso. Debbie e eu temos um acordo. Ela não espera que eu leve uma existência virginal.

— Oh, merda!

— Mas que dia terrível eu tive! — murmurou ele. — Nada deu certo.

Não respondi.

— Vou preparar uns drinques para nos Depois, vamos tirar os sapatos e relaxar um pouco. — Ele foi ate o bar e de lá anunciou: — Maria fez um arroz con pollo. Aposto que você nunca provou nada tão gostoso em toda a sua

Continuei calada. Ele ligou a coqueteleira. O zumbido suave se espalhou pela sala.

— Você não tem idéia daquilo por que passei hoje.

— Não é fácil.

Ele não percebeu o sarcasmo.

— Vamos jantar e depois iremos direto para a cama.

— Será que terei tempo para tomar um banho pri­meiro?

— Claro. Mas essa é uma pergunta estranha. Por que quer saber?

— Porque me sinto suja.

Ele também não compreendeu.

Entrou no meu quarto cerca de uma hora depois de eu ter ido para a cama.

— Fiquei esperando por você — disse-me ele.

— Você vai ter que trabalhar amanhã bem cedo. Achei que seria melhor que dormisse um pouco.

— Não consigo dormir. Estou aceso demais.

— Sinto muito.

Ele fechou a porta e veio sentar-se na beira da cama.

— O que está fazendo, JeriLee?

— Nada. Estou apenas deitada aqui. Pensando.

— Em quê?

— Nas coisas. Nada de especial.

— Não está com vontade de conversar, não é mesmo?

Peguei um cigarro e vi o reflexo da luz do fósforo nos olhos dele.

— E você está? — perguntei.

— Você está zangada comigo.

— Não, não estou.

— O que há então?

— As coisas simplesmente não estão dando certo. Não estão seguindo o rumo que eu imaginava.

— Você não deveria ter saído. Estávamos muito bem ontem.

Era exatamente o tipo de coisa que Walter teria dito. Não fiz qualquer comentário.

— É isso mesmo. Se você não tivesse saído, eu teria oportunidade de absorver a situação. Não seria apanhado de surpresa.

— Não pensei que estivesse fazendo algo errado.

— Afinal de contas, você é minha hóspede. Fui eu quem a trouxe para cá.

Eu estava começando a entender. De certa forma, tinha sentido. Não um sentido real, mas sim um sentido absurdo. Tinha algo a ver com direitos de propriedade. Porque ele pagara o frete, eu lhe pertencia. Ele era mais parecido com Walter do que eu imaginara.

— Está entendendo o que quero dizer?

— Estou.

— Ótimo — disse ele, num tom satisfeito. Em seguida levantou-se. — Agora, esqueçamos tudo isso e vamos para a cama.

— Já estou na cama.

Um tom de raiva surgiu na voz dele:

— Não gosto de ser usado.

— Deixarei um cheque para cobrir a passagem do avião, antes de ir embora, amanhã de manhã. — Achei que tinha sido muito mais usada do que ele.

— Não se incomode — disse ele, com voz fria. — Já paguei muito mais a uma prostituta por uma noite de cama.

Ao sair, ele bateu a porta com toda a força. Lutei para conter as lágrimas, sentindo-me magoada demais para ficar com raiva. Não era justo. Simplesmente não era justo. Por que ele tinha que fazer uma coisa daquelas?

Não fui à Universal pela manhã. Em vez disso, peguei um avião de volta para Nova York, naquela mesma noite.


Capítulo treze

Harry viu-me através da divisória de vidro de seu cubículo e levantou-se abruptamente, sacudindo a cabeça.

— Você conseguiu, JeriLee. Você realmente conseguiu.

— Pensei bastante no assunto. Não ia mesmo querer o trabalho, não importava o que eles me dissessem.

— Você se estrepou completamente. Em apenas dois dias, conseguiu fazer o que a maioria das pessoas leva a vida inteira para conseguir. Você realmente se estrepou. — Havia um curioso tom de admiração na voz dele.

— Tudo o que fiz foi recusar um trabalho, Harry. Cheguei mesmo a ligar para o estúdio, comunicando que não iria comparecer ao encontro.

— Oh, Deus! A Universal começa a espalhar que com você é impossível fazer negócio e logo em seguida recebo um telefonema frenético de Tony Styles, dizendo que você arruinou o filme dele.

— Tony Styles? Mas nem o vi durante todo o tempo em que estive na Califórnia!

— Ele disse que você deixou o irmão dele transtorna­do. Foi obrigado a paralisar as filmagens durante dois dias, para John poder ficar de cama, recuperando-se. Tony falou que vai eliminá-la completamente do filme, mesmo que pre­cise filmar novamente algumas das cenas, com outra garota.

— Não estou entendendo mais nada.

— O que aconteceu entre você e John?

— Apenas não entramos em acordo e eu vim embora.

— Oh, Deus! — Ele pegou um pedaço de papel em cima da mesa e mostrou-me. — Recebi este memorando pouco antes de você chegar. George quer conversar comigo, a seu respeito.

— Se George quer falar comigo, basta ele dizer.

— Você não está entendendo. Não é mais responsa­bilidade direta dele. É agora responsabilidade minha. Ele me comunicará o que quer que deseje que seja feito ou dito e eu transmitirei a você.

— O que significa isso?

— George não gosta de confusões. George é o Sr. Bom Rapaz com todo mundo. . . com a Universal, com os irmãos Styles, com seu ex, até com o próprio Deus.

— E daí?


— E daí que estamos metidos na maior encrenca. George deve ter apanhado as sobras e não quer que nin­guém fique com raiva da agência.

— Isso significa que ele está a fim de me largar?

— Não sei. Mas se você tem alguns amigos a quem ele possa escutar, está na hora de pedir ajuda.

— Mas temos um contrato assinado!

— Devia ler todas as cláusulas atentamente. Eles po­dem largá-la no momento em que bem quiserem.

Fiquei calada.

— Será que seu ex intercederia a seu favor?

— Não quero procurá-lo. Levei muito tempo para sair de baixo das asas protetoras dele.

— Algum outro amigo?

— Guy Jackson — falei, depois de pensar por um momento.

— George o odeia. — Harry sacudiu a cabeça. — Ele assinou contrato com outra agência, depois que George fez tudo para trazê-lo para nós.

— Então não há ninguém.

— Acho melhor acabar com isso logo de uma vez — disse Harry, levantando-se.

— Quer que eu fique esperando?

— Tanto faz. — Deu de ombros. — Se ficar, pelo menos saberá da notícia ainda quentinha, saída do forno.

Quando ele voltou, meia hora depois, eu já tinha aca­bado meu maço de cigarros e estava começando a fumar do dele. Harry fechou a porta, foi para trás de sua escri­vaninha e desabou na cadeira.

— Oh, Deus! — Parecia ser o seu comentário predile­to naquele dia.

—- Conte logo de uma vez, Harry.

— Eles vão romper o seu contrato como atriz, mas continuarão com o contrato como escritora, apesar de todas as minhas tentativas para que cancelassem esse também.

— Pensei que fosse meu amigo, Harry — falei, sarcasticamente. — Afinal, meio pão é melhor do que nada.

— Você ainda tem muito que aprender. Se eles rom­pessem também o contrato como escritora, você teria algo para oferecer a outro agente. Você tem uma peça sendo produzida, que poderia proporcionar-lhe algum dinheiro. Mas, dessa maneira, nós ficamos com todo o dinheiro e você fica sem nada para usar como arma.

— Mas isso não é justo!

— Eu não disse que era.

— Vou subir para falar com ele.

— Não vai adiantar. Nunca conseguirá passar além da secretária de George. Ele transformou as manobras de es­quiva numa verdadeira arte.

— Há alguma coisa que eu possa fazer?

— Só posso imaginar uma coisa, mas tenho certeza de que você não aceitaria.

— O que é?

— É humilhar-se. Ligue para Chad Taylor, na Uni­versal. Explique que estava naquele período difícil do mês ou alegue qualquer outra desculpa bem feminina. Diga que pensou muito no assunto e decidiu que adoraria fazer o papel. Sei que eles ainda não escolheram ninguém para o lugar.

— Tem certeza?

— Tanta certeza quanto a de estar sentado aqui.

— Isso é idéia sua ou foi o que George mandou que me dissesse? — Percebi que ele estava corando.

— Foi idéia de George.

— E se eu não fizer isso, estarei liquidada aqui?

Ele assentiu, em silêncio. Senti-me encurralada. Era um jogo, e todos eles estavam no mesmo time. Eu jamais conse­guiria vencer.

— Está bem, Harry. Peça a ligação para mim, por favor.

Eu era melhor atriz do que pensava. Não apenas me humilhei, como também me refestelei na humilhação. E na­quela noite, no avião que me levava para a Califórnia, senti uma náusea no estômago, que não me deixava esquecer o que fizera.

Havia um carro no aeroporto para pegar-me e levar-me ao hotel. Antes mesmo de eu pegar minha bagagem, o mo­torista já me havia entregue um bilhete de Taylor.


"Cara JeriLee,


Prepare-se para o jantar. Será às oito e meia, com o roteiro. Vista-se para o Chasen's. Saudações,
Chad."
Sucinto e objetivo. Não havia dúvida sobre quem es­tava no comando. A essa altura, porém, eu já não me im­portava com isso. Estava tão cansada que queria apenas meter-me na cama e dormir.

O motorista levou-me a um hotel chamado Regency, no Hollywood Boulevard, entre Fairfax e o Laurel Canyon. Fiquei numa pequena suíte de dois aposentos, no segundo andar, dando para a piscina.

— Sempre trazemos o pessoal de Nova York para cá — explicou o motorista. — Há um atalho para o estúdio, por cima do Laurel Canyon.

Agradeci-lhe, enquanto ele deixava minha bagagem no quarto. Assim que ele saiu, tirei as roupas e fechei as corti­nas, vedando a passagem do sol. Depois, fui para a imensa cama e pedi à telefonista que me acordasse às sete e qua­renta e cinco. Eu estava começando a dormir, quando o tele­fone tocou. Era Chad Taylor.

— Está tudo bem?

— Está, sim.

— Ótimo — disse ele, parecendo satisfeito. — Vista-se bem bonita esta noite. Haverá gente da imprensa presente. É importante.

— Está bem.

— Até às oito e meia.

Ele desligou. Virei de lado e fechei os olhos. Mas o telefone tocou novamente. Atendi, desesperada.

— Alô?

— JeriLee? Aqui é John. — Não havia o menor indí­cio de raiva na voz dele. Era como se nada tivesse acon­tecido.



— Sim?

— Fico contente por ver que recuperou o juízo. Eu já estava começando a ficar preocupado com você.

— Estou muito bem.

— Achei que poderíamos jantar juntos. Lembrei-me de que você gosta de churrasco aos domingos.

— Já tenho um compromisso. O Sr. Taylor vai trazer-me o roteiro esta noite.

— E o que você vai fazer depois?

— Vou dormir. Estou exausta. — Voar de um lado para o outro do país não era propriamente a minha idéia de diversão.

— Tenho que vê-la, mesmo que seja só por um minuto.

— Vamos para o Chasens. O Sr. Taylor disse que haverá gente da imprensa lá. Não sei a que horas poderei voltar.

— Temos que aparar algumas arestas entre nos.

— Isso pode esperar até amanhã. Se eu não dormir um pouco, vou acabar morrendo.

— Está Certo — disse ele, finalmente. — Enquanto isso, há alguma coisa que eu possa fazer por você?

— Não — falei, mudando de idéia logo em seguida. — Isto é, há, sim. Pode pedir a seu irmão para parar de falar mal de mim para todo o país.

Desliguei. Mas, a essa altura, eu estava excitada de­mais para dormir. Tomei um Librium e fiquei esperando que fizesse efeito. Enquanto isso não acontecia, enchi a banheira e deitei-me nela. Senti a lassidão voltando. Enxu­guei-me rapidamente e fui para a cama. Dessa vez, consegui dormir. Mas não por muito tempo. Menos de uma hora depois, o telefone voltou a tocar. Era a telefonista me acor­dando, conforme eu pedira.



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