Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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Tonta de sono, tomei um estimulante e meti-me de­baixo do chuveiro frio. Depois, iniciei o lento processo de voltar a ser eu mesma.

A campainha da porta tocou exatamente às oito e meia. Abri a porta.

— Entre, Sr. Taylor. Estarei pronta dentro de mais alguns minutos.

— Trouxe o roteiro comigo.

— Fique à vontade.

Eu estava ainda de roupão. Comecei a voltar para o quarto, a fim de vestir-me. Ele acompanhou-me até a porta.

— Minhas flores já chegaram?

— Não vi.

— Elas deveriam estar aqui quando você chegasse. Diabo de secretária! Importa-se que eu use o telefone?

— À vontade.

Ele voltou para a sala, enquanto eu entrava no ba­nheiro. Pus dois cílios postiços, passei sombra nos olhos e contemplei-me no espelho. Não estava nada mal, para um trabalho feito às pressas. Quando voltei para o quarto, ele estava novamente parado na porta.

— Ela disse que encomendou.

— Não se preocupe. As flores acabarão chegando. De qualquer forma, obrigada.

— Ninguém faz mais nada certo atualmente. A gente tem que viver em cima dos outros, se quer que alguma coisa saia direito.

Ele não saía da porta, e algo me disse que não pre­tendia fazê-lo. Abri a porta do armário e fiquei atrás, en­quanto punha o vestido. Era um vestido preto comprido, de seda, que se colava no corpo. Quando saí de trás da porta, ele deixou escapar um assovio.

— Nada mau. . .

— Acho que estou horrível.

— Pois não parece.

— Obrigada. — Tirei da mala minha estola branca de angorá e ajeitei-a nos ombros. — Já estou pronta.

Ficou me olhando, com uma expressão crítica.

— Algo errado? — perguntei.

— Você não tem uma pele?

— Tenho. Mas gosto do angorá branco com a seda preta.

— Use a pele. Afinal, vamos para o Chasen's.

Fitei-o em silêncio por um minuto, depois tirei a estola e pus um casaco de chinchila.

— Assim está melhor — disse ele. — Classe é tudo.

Vi o roteiro na mesa diante do sofá quando íamos saindo.

— Não quer levar o roteiro? — indaguei. — Podere­mos discuti-lo durante o jantar.

— Haverá gente demais lá — disse ele, meneando a cabeça. — Examinaremos o roteiro quando voltarmos. — Não me deu oportunidade de responder, acrescentando ime­diatamente: —- O carro está parado bem em frente.

— Gosta? — perguntou, ao abrir a porta do carro.

— É lindo.

— É um clássico. — Sorriu. — Um Bentley-Conti­nental 55, conversível. Só fizeram quinze iguais a este. E há apenas cinco em perfeitas condições. Este é um deles.

— É espetacular.

Era uma noite de terça-feira e o Chasen's estava repleto. Mas tínhamos reservado uma mesa grande, perto da porta, onde poderíamos ser vistos por todos os que entrassem ou saíssem. Notei que havia só dois lugares postos a mesa.

— Pensei que haveria outras pessoas presentes, pelo que me disse — comentei, ao sentar-me.

— O restaurante está cheio. Não dá para se falar de negócios. Mas todo mundo vai parar aqui. Você vai ver.

Ele tinha razão quanto a isso. Se tivesse me exibido numa vitrina da Macy's, não teria sido tão vista.

— O melhor prato daqui é costela apimentada. Mas como acaba logo, tratei de pedir de antemão. E pedi tam­bém um prato de chili. O que acha?

— Para mim, está ótimo. — Àquela altura dos acon­tecimentos, eu seria capaz até de comer a toalha da mesa.

Ele fez sinal para o garçom. Primeiro, comemos siri com mostarda e molho de tomate, depois a costela. Entre os vinhos e o estimulante que eu tomara, minha cabeça estava girando. Mas, de alguma forma, consegui manter a conversa pelo menos razoavelmente inteligível. Porém, pro­vavelmente não teria feito a menor diferença se eu só dis­sesse asneiras. Ele não parava nunca de falar sobre sua carreira e o fato de que a Universal jamais teria conseguido crescer sem sua participação.

Tomamos três cafés irlandeses. Quando nos prepara­mos para ir embora, à uma da madrugada, eu mal conseguia ficar de pé. Assim que voltamos para a suíte, ele acomodou-se no sofá e pegou o roteiro.

— Agora, podemos começar a trabalhar.

Eu não podia acreditar em meus ouvidos.

— Melhoramos bastante o roteiro — disse ele. — Mas isso não é o importante. Tenho outros planos para você. Planos grandes. Está me entendendo?

Pude apenas sacudir a cabeça. Não estava entendendo.

— No momento em que você entrou no meu gabinete compreendi que era a garota que estava procurando. — Fez uma pausa para deixar que eu sentisse a excepcional importância de sua declaração. — Não pretendo ficar apenas Neste filme de TV. Estou preparando um filme. Um grande filme. O negocio já está quase fechado.

— Parabéns — consegui balbuciar.

— E você é a garota para o meu filme. O papel principal. O protótipo da mulher moderna. Independente. Dura. Sensual. Inteligente. Por isso é que é tão importante que eu a encaixe nesse filme de TV. Eu tinha que mostrar a eles o que posso fazer com você.

Fiquei calada. Havia um zumbido cada vez maior em minha cabeça. Ele abriu o roteiro.

— Agora, vamos examinar isto aqui.

Havia martelos batendo freneticamente em meu crânio.

— Chad. . . Sr. Taylor. . .

Ele me olhou, com uma expressão perplexa. Procuran­do falar o mais claramente possível, murmurei:

— Não é que eu não me sinta grata. . . estou real­mente ... e muito. . . mas se não me deixar ir para a cama.. . vou acabar desmaiando aqui mesmo. . .

A expressão dele se desanuviou. Com um sorriso triste, ele se levantou.

— Mas é claro! Eu tinha esquecido o dia terrível que você teve.

Acompanhei-o até a porta.

— Eu a verei amanhã de manhã — disse ele. Eu estava cada vez mais tonta.

— Não precisa preocupar-se com a ida para o estúdio. Mandarei um motorista vir buscá-la de carro, às sete horas.

Consegui dizer que sim.

Ele me deu um beijo rápido no rosto.

— Boa noite — falou, dando um passo para trás e me contemplando. — Da próxima vez em que sairmos para jantar, não use um vestido tão decotado. Eu mal me agüen­tava, e na metade do tempo nem sabia o que estava di­zendo.

Fechei a porta e senti a náusea subir pela garganta. Mal consegui chegar ao banheiro a tempo. Depois, ainda vestida, joguei-me em cima da cama e apaguei.

Capítulo catorze

Eu estava nua e todos estavam me olhando, como se eu fosse uma posta de carne. Tentei esconder-me por trás das mãos. Mas, para qualquer lado que me virasse, não con­seguia escapar aos olhos deles. Os refletores implacáveis me iluminavam de todos os lados.

Entre todos os homens ali reunidos, eu não me impor­tava muito com os estranhos, mas sim com aqueles que conhecia. Não parecia importar-me nem mesmo com a ma­neira como todos eles estavam vestidos, em uniformes de futebol americano, de capacete, protetores de rosto, camisas vermelhas com os números em preto. E todos eles estavam usando o mesmo número: 1. Talvez o mais estranho de tudo fosse o fato de as calças acolchoadas do uniforme não terem frente, os membros imensos pendendo para fora, até quase os joelhos.

Subitamente, todos eles se reuniram num bloco com­pacto. Tentei escutar o que estavam sussurrando, mas as palavras se perdiam ao vento. Depois, eles se dispersaram e entraram em formação clássica para o início da partida. O único homem que reconheci na linha de frente foi Harry Gregg, bem no centro. Por trás dele, eu podia ver os rostos dos que estavam mais atrás, George Fox, Chad e John, e até mesmo Walter, como fullback.

George empertigou-se e gesticulou furiosamente na mi­nha direção, apontando em seguida para Harry. Reagindo a uma compulsão que não entendi, adiantei-me na direção da linha do meio de campo, fiquei de joelhos e depois rastejei por entre as pernas de Harry. Enroscando-me como uma bola fetal, comprimi os joelhos contra o peito e pus o rosto encostado nas coxas.

Ouvi Harry resmungar, ao abaixar-se ainda mais, for­çando as mãos imensas entre os meus braços, até que cada uma delas estivesse apertando firmemente meus seios. Ele cutucou minhas nádegas com os joelhos e eu me ergui ligei­ramente. Ele resmungou novamente e senti seu aríete entrar em mim por trás. Era estranho, mas não senti nada. Nem surpresa, nem ressentimento, nem excitação. Depois, ele explodiu dentro de mim e senti o sêmen escorrendo pelas pernas. George gritou "Upa!", numa voz rouca, muito es­tranha.

Abruptamente, fui lançada para trás, por entre as per­nas de Harry, para as mãos de George. Eram mãos rudes e calosas, muito diferentes das mãos macias e bem-cuidadas que eu sabia que ele possuía. Eu estava ainda enrascada na posição fetal. Senti suas mãos pesadas me agarrarem os seios, forçando-me de encontro a seu pênis. Depois, ele estava correndo, o pênis a entrar e sair de dentro de mim a cada movimento. Um momento depois, ouvi a voz de Walter gritando:

— Livre-se dela! Mas que diabo! Livre-se dela!

O orgasmo de George jorrou dentro de mim, disparando-me para o ar como um foguete. Senti-me girando de lado, interminavelmente, o ar muito frio de encontro à minha pele.

Eu estava agora flutuando acima deles e sentia-me livre.

Havia muitas vantagens em subir tão alto quanto um passarinho. Nada podia tocar-me, a não ser o vento. E o vento me amava. Eu estava segura. Foi então que comecei a cair.

Olhei para baixo. Chad e John estavam correndo na direção do centro do campo.

Senti o medo me embrulhar o estômago. Podia ouvir-me gritando, dentro da cabeça, mas nenhum som saía. De­sejei que o vento continuasse a me manter no alto. Mas continuava a cair, na direção deles, até poder ver-lhes os rostos sombrios, por trás dos protetores. O grito finalmente saiu-me da garganta:

— Não! Não! Isto não é um jogo! Não sou uma bola!

Foi então que acordei, suando frio, tremendo, as lágri­mas escorrendo-me pelo rosto. Por um momento, fiquei imó­vel, olhando para a escuridão. Depois, ainda tremendo, estendi a mão e acendi o abajur.

Os fantasmas do meu sonho fugiram diante da luz. Olhei-me. O vestido estava totalmente amarrotado e a saia, rasgada do lado, pois se prendera no salto do sapato, en­quanto eu dormia.

Olhei para o relógio. Quase cinco horas. Mais duas horas e o carro chegaria para levar-me ao estúdio. Eu sentia a boca muito seca. Saí da cama e fui para o banheiro.

Meus olhos estavam inchados, o rosto estava pálido e vincado. Contemplei-me, desolada. Levaria pelo menos duas horas para fazer-me apresentável. Abri a água da banheira e peguei um pote de creme para remover a maquilagem.

Percebi que minhas mãos ainda estavam tremendo. Sem pensar, estendi a mão para pegar um tranqüilizante. Parei no meio do gesto. Entre as pílulas e a bebida, eu me lançara naquele estado. Não havia qualquer outra explicação para o meu pesadelo absurdo.

Deixei o tranqüilizante no vidro. Tinha que haver uma maneira melhor de agüentar.

Passei duas horas na Maquilagem e no Penteado. Es­cureceram o louro dos cabelos e das sobrancelhas e co­briram meu corpo com uma maquilagem escura, deixando minha pele com uma cor de cobre fosca. Depois, veio a seleção do meu traje: um vestido largo de camurça, com algumas contas coloridas. Chamavam o traje de Debra Paget. Ela o usara pela última vez quando representara o papel da mãe de Cochise, num velho filme de Jeff Chandler. Às dez horas, fui levada para os fundos do estúdio, onde estavam realizando as filmagens.

Chad aproximou-se do carro no momento em que sal­tei. Ele beijou-me no rosto e disse:

— Você está sensacional. Dormiu bem?

Assenti.


— Ótimo.

Chad apresentou-me então ao homem que vinha che­gando para junto de nós.

— Este é seu diretor, Marty Ryan., JeriLee Randall.

Ryan estava usando uma camisa azul desbotada e blue jeans de vaqueiro. Seu aperto de mão era bastante firme.

— Prazer em conhecê-la, JeriLee — disse ele, com o sotaque anasalado do oeste.

— O prazer é meu.

— Está pronta para o trabalho?

Assenti novamente.

— Ótimo. Já estamos prontos para filmar sua primeira cena.

Senti um momento de pânico.

— Mas só recebi o roteiro ontem à noite! Ainda não tive oportunidade de lê-lo. Não conheço minhas falas.

— Não há problema. Você não tem mesmo nenhum diálogo nas cenas que vamos filmar. Venha comigo.

Eu o segui até o caminhão de filmagens, parado diante do acampamento índio. Diversos homens, vestidos de índios, estavam sentados em torno de um caixote de madeira, jo­gando cartas. Perto do curral, dois vaqueiros estavam cui­dando dos cavalos.

— Ei, Terry, traga o cavalo dela até aqui! — gritou o diretor.

O vaqueiro menor tirou um imenso cavalo branco do meio dos outros e começou a puxá-lo para o lugar em que eu estava. O diretor virou-se novamente para mim.

— É uma cena bem simples. Você vem daquela tenda ali, olha ao redor por um momento, depois corre até o ca­valo, pula em cima dele e sai a galope.

Fiquei olhando para ele, aturdida demais para conse­guir falar, Ele interpretou meu silêncio como confusão e explicou gentilmente:

— Parece mais complicado do que é na realidade.

— Alguém cometeu um tremendo erro — murmurei, sacudindo a cabeça.

— Como assim? — perguntou ele, atônito.

— O roteiro que eu li não falava em nenhuma cena a cavalo.

— Nós reescrevemos o roteiro para aumentar o seu papel. Agora, você tem um dos papéis principais. É prati­camente a chefe da tribo. Está no comando, porque seu pai foi ferido.

— Parece ótimo. Só há um problema: eu não sei montar.

— O que foi que disse?

— Eu não sei montar.

Ficou me olhando com uma expressão atarantada. Chad aproximou-se, sentindo que alguma coisa estava errada, e perguntou:

— Qual é o problema?

O diretor virou-se para ele.

— Ela não sabe montar.

— Você não sabe montar? — disse Chad, olhando para mim.

— Nunca montei um cavalo — respondi, sacudindo a cabeça.

— Mas que merda! — explodiu Chad. — Por que dia­bo não me disse nada?

— Nunca me perguntou. Além do mais, o roteiro que eu li não fazia a menor menção de cenas a cavalo.

— O que vamos fazer agora? — perguntou o diretor a Chad.

— Vamos usar doublé.

— Não há a menor possibilidade — disse o diretor, firmemente. —- Estamos filmando para a televisão. Todas as cenas são praticamente em primeiro plano. Não há con­dição de disfarçar.

Chad virou-se para o vaqueiro.

— Quanto tempo acha que levaria para ensiná-la a montar?

O pequeno vaqueiro fitou-me com os olhos semicerrados, passou o naco de fumo de um canto para o outro da boca e cuspiu no chão.

— Se ela for capaz de aprender depressa, em uma semana poderei ensinar-lhe tudo o que o roteiro exige.

— Estamos perdidos! — gritou o diretor, desolado, afastando-se em seguida.

— Eu sabia! — gritou Chad. — Eu sabia! No mo­mento em que você entrou em meu gabinete, senti o cheiro de encrenca.

— Não me culpe! — reagi imediatamente, furiosa. — Para começar, eu não queria esse maldito papel. Mas você não pôde aceitar um "não" como resposta.

— Como diabo eu ia adivinhar que você não sabe montar?

— Os únicos cavalos que já vi na vida estavam para­dos diante do Plaza Hotel, em Nova York, atrelados em charretes.

— Oh, Deus, mas que azar! — exclamou Chad.

— O que quer que eu faça com a Queenie? — per­guntou o vaqueiro.

Chad lançou-lhe um olhar que não deixava a menor duvida sobre o que gostaria que o vaqueiro fizesse. Virei-me para o vaqueiro.

— Esse cavalo é manso?

Queenie é como um bebê. Ama todo mundo.

— Então ajude-me a subir. Quero ver como é.

Ele abaixou-se ao lado do cavalo, unindo as duas mãos em concha.

— Ponha seu pé esquerdo aqui e passe a perna direita por cima do lombo.

— Está certo.

Segui as instruções dele e estava tudo indo muito bem, até que o cavalo andou, no momento em que me encarapitei em seu lombo. Continuei no impulso e fui cair numa poça de lama do outro lado.

— Você está bem? — perguntou-me Chad, com a voz assustada.

Soergui-me, apoiada no cotovelo. Meu rosto e o ves­tido estavam completamente sujos de lama. Olhei para eles e disse:

Sinto muito, pessoal. — Compreendi, então, todo o absurdo da situação e desatei a rir. Pensando que eu esti­vesse tendo um ataque histérico, eles rapidamente me aju­daram a levantar.

— Chamem um médico! — berrou Chad, virando-se em seguida para mim. — Não se preocupe. Por favor, não se preocupe. Vai ficar tudo bem.

Mas não consegui parar de rir. Naquela noite, estava definitivamente fora do filme.




Capítulo quinze

Chad levou-me de volta ao motel. No caminho, parou numa mercearia e comprou uma garrafa de scotch. Uma hora depois de chegarmos a meu quarto, ele já consumira metade da garrafa. Eram quase oito horas quando ele finalmente se levantou, oscilando perigosamente.

— É melhor arrumarmos alguma coisa para comer.

Ele não estava em condições de guiar, e por isso sugeri:

— Talvez seja melhor pedirmos alguma coisa aqui mesmo.

— Eles não têm nada para comer. Acha mesmo que o estúdio iria colocá-la num lugar em que pudesse aumentar a conta com o serviço da copa?

Não respondi.

— Vamos sair para comer algo.

— Não quero que você guie.

— Podemos ir a pé. Há alguns restaurantes neste quar­teirão, lá no Sunset.

— Vamos, então.

Fomos para um restaurante do lado norte da rua, em frente a uma drugstore. Era um lugar mal-iluminado, como a maioria dos restaurantes da Califórnia, com um pianista sentado na área do bar, perto da entrada. Umas poucas pes­soas sentadas em torno do piano, curtindo seus drinques. Passamos por elas e um maître levou-nos até uma mesa.

— O contrafilé está muito bom — disse ele.

Chad olhou para mim e eu assenti.

— Traga dois. Mas, primeiro, quero um scotch duplo, só com gelo.

A carne estava realmente muito boa, como o homem garantira. Mas Chad deixou seu prato intocado, preferindo beber em vez de comer.

— Não está comendo, Chad.

— Não banque a mulher para cima de mim.

Fiquei calada até terminar de comer. O garçom trouxe café e Chad tomou um gole.

— Quais são seus planos agora? — perguntou ele.

— Provavelmente voltarei para Nova York amanhã.

— Tem algo em mira para fazer lá?

— Começarei novamente a perseguir meu agente.

— Lamento muito o que aconteceu.

— Não foi nada.

— Quero agradecer-lhe por haver tentado montar aque­le cavalo. Se não o tivesse feito, eu estaria perdido.

Não entendi, mas não fiz qualquer pergunta.

— Foi uma saída perfeita para nós. O médico classi­ficou aquilo de acidente. O seguro cobriu o atraso nas filma­gens. Assim, o estúdio não perdeu um tostão e todo mundo ficou feliz.

Continuei calada. Ele me fitou nos olhos.

— Exceto eu. Ainda sinto que poderíamos ter feito grandes coisas juntos.

— Talvez ainda façamos, algum dia. . .

— Não —- disse ele, meneando a cabeça tristemente. — Não é assim que a coisa funciona. A pressão é muito grande. A cada semana, é preciso ter um espetáculo novo. Não se pode parar.

— E aquele filme sobre o qual me falou? Talvez ainda possamos tentar isso.

— Talvez. Mas era justamente por isso que eu queria você na televisão. O estúdio gosta de aproveitar as pessoas de suas próprias produções.

— Sinto muito.

— Não foi culpa sua. Você bem que tentou.

O garçom voltou e tornou a encher nossas xícaras.

— Já esteve alguma vez em Las Vegas? — perguntou Chad.

— Não.

— Por que então não fica mais um pouco? Temos uma turma que vai para lá amanhã de noite, a fim de assistirmos à estréia de Sinatra. Poderemos divertir-nos um pouco e você pegará um avião lá para voltar a Nova York.



— Acho que não vou.

— Não se preocupe. Não vou querer fazer nada com você. Ficará sozinha num quarto.

— Não, obrigada. Não estou com a menor disposição. Vou voltar para casa e passar os próximos dias na cama.

— Há algo mais sério entre você e John? — perguntou ele, após uma pequena pausa.

— Não.

— Não precisava responder. Não era da minha conta.



— Mas já respondi.

— Não quero que você vá embora.

— Por quê?

— Se você for, sentirei que fracassei. E não gosto de fracassar.

Eu estava começando a ficar irritada.

— Está querendo dizer-me que não quer que eu parta enquanto não dormir comigo, não é mesmo?

— Não exatamente. Ou melhor, talvez. Não sei direito.

— Por que não pode dizer exatamente o que está pensando? Ou será que é assim que os homens daqui cos­tumam agir?

— Não estou querendo insinuar nada — falou ele, na defensiva.

— Então, o que está pensando?

— Não vejo nenhuma razão pela qual eu deva ser inquirido desse jeito. Não estou em julgamento.

— Tem toda a razão. Peço desculpas.

— Não precisa pedir desculpas. — Ele relaxou e sor­riu. — Você tinha toda a razão. O que eu queria mesmo era dormir com você.

Como eu não respondesse, ele fez um sinal pedindo a conta. De volta ao motel, ele seguiu-me até o quarto e começou a tirar o casaco. Detive-o.

— Somos amigos?

— Somos.


— Poderia compreender se eu lhe dissesse que minha cabeça ainda não está preparada para você? Tenho muita coisa na cabeça e preciso livrar-me de tudo, antes de ir para a cama com você.

Ele ficou calado por um minuto, pensando.

— Não está me enganando?

— Estou sendo franca. Gosto de você. Apenas ainda não estou preparada.

Ele voltou a enfiar o braço na manga do casaco.

— Vão pensar que estou louco, mas acredito em você.

Obrigada, Chad.

— Posso visitá-la, se eu for a Nova York?

— Ficarei triste se não o fizer — disse eu acompanhando-o até a porta.

— Vê-la-ei então — falou Chad, beijando-me de leve.

O telefone começou a tocar quase no instante mesmo em que fechei a porta. Era John.

— Telefonei a noite inteira, JeriLee.

— Acabei de voltar do jantar.

— Tenho que vê-la de qualquer maneira.

— Estou fazendo as malas. Vou voltar para Nova York no primeiro vôo da manhã.

— Soube do que aconteceu no estúdio. Quero apenas alguns minutos, JeriLee. Não pode ir embora sem me dar uma oportunidade de explicar.

— Quanto tempo demorará para chegar até aqui? — falei, após um momento de hesitação.

— Um minuto. Estou aqui na portaria.

Ele estava batendo na porta no instante em que repus o fone no gancho.

— Entre, John.

Seguiu-me até o quarto. Apontei para a garrafa de scotch pela metade que Chad deixara.

— Aceita um drinque?

— Aceito, sim, obrigado.

Tirei alguns cubos de gelo da geladeira e servi-lhe um drinque reforçado. Ele parecia cansado, o rosto vincado. Tomou um grande gole e um pouco de cor voltou-lhe ao rosto. Apontei para o sofá e sentei-me na poltrona em frente a ele.

— Não sei o que deu em mim, JeriLee. Normalmente, não sou assim.

Fiquei calada.

— Quero pedir-lhe desculpas.

— Não precisa. Foi tanto culpa minha quanto sua. Eu não conhecia as regras do jogo.

— Não era um jogo. Gosto de você. Gosto de verdade. Não havia nada que eu pudesse dizer. Ele tomou outro gole de scotch.

— Não quero que você volte amanhã. Quero que volte para a praia comigo, a fim de podermos recomeçar tudo. E desta vez prometo que dará tudo certo.

— Não, John. Não vai dar certo — disse eu, gentil­mente. — Sei disso agora.

— Vai dar, sim, JeriLee. — A voz dele tornou-se mais determinada. — Tenho certeza de que vai dar certo. Lem­bra-se de como foi maravilhoso naquela primeira noite? Pois será sempre assim, se você quiser dar-me uma chance.

Fiquei olhando-o, pensando que havia muitas coisas que ele jamais compreenderia. Tudo de que ele conseguia lembrar-se era como se sentira naquela noite. Por alguma estranha necessidade de evasão, ele parecia ter apagado completamente tudo o que acontecera depois.



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