Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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Mas eu não poderia fazer a mesma coisa. Tudo o que acontecera entre nós somava-se na maneira como eu o via agora. E o que eu sentia por ele mudara completamente. Mas vendo-o tão abatido, compreendi que não adiantava dizer-lhe a verdade. Só serviria para deixá-lo ainda mais abatido. Por isso, decidi mentir.

— Tenho que voltar, John. Fannon e Guy tem algu­mas idéias sobre as quais querem que eu comece a trabalhar imediatamente. Eles vão tentar estrear a peça um mês antes do que haviam planejado.

Ele respirou fundo. Percebi que um pouco da tensão deixava seu rosto. Aquele era o tipo de rejeição que ele podia aceitar. Era por causa de negócios, nada pessoal.

— Também foi maravilhoso para você, JeriLee?

— Foi, John, também foi maravilhoso para mim — respondi, ficando de pé.

Ele levantou-se também e estendeu os braços em mi­nha direção. Pus a mão no braço dele, detendo-o.

— Não, John.

Ele fitou-me inquisitivamente.

— Estou exausta. Eu não seria nada boa esta noite. — Lembrei-me de meu pesadelo e acrescentei: — Tenho corrido tanto de um lado para outro, nos dois últimos dias, que me sinto como uma bola de futebol.

Ele não disse nada.

— Está me compreendendo, não é, John? Não sou uma máquina. Sou humana. E preciso ter algum descanso.

— Estou sempre esquecendo — assentiu ele. — As mulheres não se adaptam à mudança de horário tão depressa quanto os homens.

Aquilo não tinha o menor sentido. Mas, àquela altura, tudo o que eu queria era ir para a cama. Por isso, concordei.

— Vou deixá-la então descansar um pouco, JeriLee.

Ele beijou-me. Não senti nada, mas ele aparentemente não percebeu.

— Ficaremos em contato, JeriLee.

— Isso mesmo.

— Fico contente por podermos conversar desse jeito — disse ele, sorrindo.

— Eu também.

— Telefone-me quando tiver tempo.

Ele beijou-me novamente e saiu. Fechei a porta, fui até o banheiro e olhei para a garrafa de uísque. Peguei-a e larguei-a na cesta de papéis. Depois, voltei para o quarto e despi-me. Aninhei-me nua por baixo dos lençóis e fechei os olhos. Lembro-me ainda do último pensamento que tive antes de cair no sono.

Oh, merda!

Homens...


Capítulo dezesseis

A neve ainda caía quando saímos do teatro às escuras. Max, o gerente da companhia, baixo e gordo, veio correndo em nossa direção, através do saguão.

— O Sr. Fannon voltou com a limusine para o hotel. Tinha que dar alguns telefonemas importantes. E disse que mandaria o carro apanhá-los imediatamente. — Max estava resfolegando com o exercício. — O carro não deve demorar.

— Está com disposição para andar? — perguntei a Guy.

— A neve vai acabar nos cobrindo.

— Mas que diabo, Guy! São apenas três quarteirões. Além disso, acho que irá me fazer bem.

— Está certo — disse Guy, virando-se em seguida para Max. — Segure o carro para o elenco.

— Pois não, Sr. Jackson.

De cabeça abaixada, andamos quase dois quarteirões sem trocarmos nenhuma palavra. Um trator passou por nós, tirando a neve da rua e espalhando-a nas calçadas. Paramos na esquina e ficamos esperando que o trator passasse.

Mentalmente, eu ia reconstituindo tudo, o eco das vozes dos atores no teatro quase vazio, as risadas que nunca soa­ram, as falas que pareceram ocas, os olhos dos críticos se desviando de nós ao saírem.

— A peça não presta, Guy.

— Não está sendo justa consigo mesma. Pense só no que tivemos de enfrentar nesta estréia. A pior tempestade de neve em cinco anos.

— Não estava nevando dentro do teatro. Nada deu certo. E o elenco ainda se deu ao luxo de perder as deixas, uma depois da outra.

— Eles estavam nervosos. Mas amanhã de noite será melhor. É por isso que nunca lançamos os espetáculos novos diretamente na Broadway. É preciso tempo para corrigir as falhas.

Estávamos quase chegando ao hotel.

— A peça é longa demais, Guy. Se eu tirasse cinco minutos de cada ato, acho que ajudaria bastante.

— Tire dez minutos do primeiro ato. É aí que está o nosso grande problema. Não prendemos a atenção do público desde o início.

Abrimos a porta e fomos atingidos pela lufada de ar quente que saiu do saguão.

— Está com disposição para trabalhar esta noite? — perguntou ele, ao seguirmos para o balcão a fim de pegarmos as chaves.

— É por isso que estou aqui.

— No seu quarto ou no meu? — perguntou ele, sor­rindo.

— No seu. Levarei a máquina de escrever.

Diretores e estrelas tinham direito a suítes. Os autores estavam embaixo do totem e só mereciam quartos simples. A menos que fossem como o meu ex-marido. Seguimos para o elevador.

— Vou pedir alguns sanduíches e café, JeriLee.

— Dê-me meia hora para tomar um banho de chuveiro e vestir roupas secas.

— Está bem.

Ao entrar no quarto, a primeira coisa que vi foi a imen­sa corbeille de flores, em cima da cômoda. Li o cartão:
"Amor e sucesso.

Estamos orgulhosos da nossa garotinha.

Mamãe e papai".
Olhei pela janela, para a cortina de neve que caía. Depois, voltei a olhar para as flores. E comecei a chorar.

Estávamos trabalhando há quase três horas quando bateram na porta. Era Max.

— Lamento incomodá-lo, Sr. Jackson, mas o Sr. Fannon quer vê-lo imediatamente, na suíte dele.

— Diga-lhe que já vou — disse Guy.

— O que será que ele está querendo a esta hora?

— Não tenho a menor idéia. Provavelmente quer me dizer que a peça precisa de modificações, e o que deve ser modificado. — Guy vestiu um casaco de lã. — Termine essas mudanças no primeiro ato, JeriLee. Acho que já o melhoramos bastante. Voltarei num instante.

Meia hora se passou antes que ele voltasse. A essa altura, eu já terminara de reescrever o primeiro ato e estava trabalhando no segundo. Ao ver o rosto dele, compreendi que trazia más notícias.

— Ele quer suspender a peça, JeriLee.

— Mas ele não pode fazer isso! Temos direito a mais do que uma única noite!

— Ele é o produtor e pode fazer o que bem quiser. É ele quem controla o dinheiro.

— Mas por quê? Ainda nem vimos as primeiras crí­ticas!

— Ele já sabe de todas elas. Tem espiões nos jornais. Recebeu provas tipográficas de todas as críticas, exatamente como sairão nos jornais da manhã.

— E o que dizem as críticas?

— São uma carnificina. Todas elas. Uma carnificina sangrenta.

— Você disse a ele o que estávamos fazendo?

— Disse. Mas ele falou que deveríamos ter pensado nisso antes da estréia. Consegui arrancar uma única coisa dele. Pedi-lhe que não tomasse uma decisão definitiva en­quanto não conversasse com você. Afinal, a peça é sua.

— Ele quer falar comigo agora?

Guy assentiu.

— E o que devo dizer a ele?

— Explique-lhe novamente o que estamos fazendo. Tem que convencê-lo de que a peça tem uma chance. Você sabe que estamos no caminho certo. Não o deixe parar-nos no meio do caminho. Temos que levar a peça até Nova York.

— E se ele não quiser me atender? — perguntei, levantando-me da cadeira.

Pela primeira vez, em todos aqueles anos em que eu o conhecia, vi a verdadeira natureza de Guy se revelar. Ele repuxou os lábios por cima dos dentes, num sorriso desdenhoso. Inconscientemente, sua voz tornou-se um pouco mais estridente:

— Pelo amor de Deus, JeriLee! Se ele gostasse de homem, eu daria um jeito para fazer com que a peça fosse levada à Broadway. Tem que valer pelo menos isso para você. Não se esqueça de que você é mulher. Apenas por esta vez, tente usar a xoxota em vez da cabeça.

A caminho da suíte presidencial, onde Fannon estava hospedado, as palavras de Guy foram martelando-me a ca­beça. Para mim, não era apenas o dinheiro. Se a peça continuasse em cartaz, eu estaria viva na agência. Sem ela, eu estava morta.

Fannon abriu a porta. Usava um roupão de veludo ver­melho que eu pensava só existir nos filmes antigos.

— Olá, minha querida.

Inclinei-me ligeiramente, a fim de que ele não tivesse que se esticar todo para beijar-me o rosto.

— Adolph...

— Tenho uma garrafa de champanha gelada. Descobri que sempre ajuda a levantar um pouco o ânimo, quando se tem de enfrentar os fatos da vida.

Segui-o para o quarto, sem dizer nada. O champanha estava num balde de gelo, ao lado da janela. Solenemente, ele encheu duas taças, entregando-me uma.

— A nós!

Bebemos.


— Dom Pérignon — disse ele. — Eu me contento facilmente com o melhor.

— Guy lhe falou das modificações que estamos fa­zendo? — perguntei.

— Falou. Mas não creio que adiante. Comédia não dá certo numa casa vazia. É por isso que, na televisão, eles usam trilhas sonoras de risadas. É uma. pena que não possa­mos fazer a mesma coisa no teatro. — Ele tornou a encher as taças. — Você não está sendo realista. Acredite em mim, minha querida. Tenho muitos anos de experiência. As coisas nunca correm bem depois de uma estréia como esta.

— Mas sei que vai dar certo, Sr. Fannon. Tenho cer­teza absoluta. Guy e eu estamos reescrevendo. Já tiramos todos os defeitos do primeiro ato e podemos enxugar os outros também.

Ele tomou outro gole de champanha. Perguntei-me se ele teria ouvido o que eu dissera.

— Tem que nos dar uma chance!

Foi então que, contra a vontade, desatei a chorar. Ele levou-me para o sofá, pegou alguns lenços de papel em cima da mesa e os colocou na minha mão.

— Calma, calma, minha querida, Não deve encarar as coisas tão tragicamente. Deve pensar nisto como experiência. Afinal de contas, é a sua primeira peça. Haverá outras.

— Mas vai dar certo! Eu sei que vai! — falei, sem conseguir parar de chorar.

Ele sentou-se no sofá a meu lado e puxou minha cabeça de encontro ao seu peito. Afagou meus cabelos gentilmente.

— Escute com atenção as palavras de um homem com idade quase suficiente para ser seu pai. Sei como você se sente. Afinal de contas, eu também não estou me sentindo nada bem. Não gosto de perder oitenta mil dólares. Mas é melhor do que levar a peça para Nova York e perder outros setenta mil. Um homem tem que saber quando deve reduzir seu prejuízo. E, de certa forma, é também isso o que você está fazendo. Ninguém se lembrará das críticas que você teve em New Haven, quando sua próxima peça for encena­da. Mas se você tiver críticas adversas em Nova York, eles jamais esquecerão.

— Não me importo! Sei que a peça vai fazer sucesso!

Ele continuou a afagar meus cabelos, enquanto o braço em torno da minha cintura ia subindo lentamente na dire­ção dos seios. Virei-me e deixei que meus seios ocupassem totalmente a mão dele.

— Adolph, acho que não sabe o quanto sempre admi­rei sua coragem como produtor. Foi o único homem que sempre achei que jamais me abandonaria.

—- E não a estou abandonando — disse ele, tossindo ligeiramente. — Estou apenas procurando ser prático.

Deixei que ele me tateasse ambos os seios. O rosto dele ficou cheio de curiosas manchas vermelhas. Subitamente, ele se levantou. Pegou as taças de champanha e entregou-me uma.

— Beba.

Havia algo na voz dele que eu nunca ouvira antes. De repente, compreendi que aquele pequeno monstro era, no fundo, um homem. Esvaziei minha taça.



— Quero ir para a cama com você, JeriLee. E sei que está disposta a fazer o mesmo comigo. Mas ainda estaria disposta, se eu suspendesse a produção?

— Não — respondi, fitando-o nos olhos.

Ficou me olhando em silêncio por um instante, depois esvaziou sua taça. De repente, sorriu e afagou-me o rosto

— Gosto de você, JeriLee. Pelo menos, é franca.

— Obrigada. E o que me diz do espetáculo?

— Vou cancelá-lo. Mas uma coisa lhe prometo. Se você escrever outra peça, traga-a para mim. Faremos outra tentativa.

Levantei-me. Subitamente, eu já não me sentia mais vulgar e barata.

— Obrigada, Adolph. Você é um cavalheiro de verdade.

Ele abriu a porta para que eu passasse. Baixei o rosto para o beijo de despedida dele e depois desci para o meu quarto. Não havia motivo algum para que eu fosse ver Guy.

O espetáculo foi encerrado em New Haven.



Capítulo dezessete

— Móveis modernos não valem nada no mercado de segunda mão — disse o homem.

Não respondi. Todos os negociantes de móveis usados haviam feito o mesmo comentário, ao chegar ao meu apar­tamento.

— Os tapetes lhe pertencem?

Assenti. Ele olhou para baixo, com uma expressão desaprovadora.

— Branco e bege. . . Péssimas cores. São difíceis de se manter limpas.

Eu também já tinha ouvido antes aquele comentário. O telefone tocou. Fui atender, na esperança de que fosse meu novo agente, para falar sobre a entrevista que estava tentando arrumar para mim com um produtor italiano.

Era da companhia telefônica, cobrando a conta, que já estava quase dois meses atrasada. Eles se mostraram muito gentis, mas disseram que teriam de desligar o aparelho, se não recebessem um cheque até a manhã seguinte. Falei que já havia despachado o cheque pelo correio e desliguei. Não era verdade, mas isso não tinha a menor importância. No dia seguinte, de qualquer forma, eu não estaria mais mo­rando ali.

O negociante de móveis usados estava saindo do quarto.

— Já tirou alguns móveis — disse ele, em tom acusa­dor. — Pude ver pelas marcas no tapete. E também não vi prataria, louça ou panelas.

— O que está aqui é o que está à venda. — Perguntei-me se ele não estaria pensando que eu iria viver dentro de uma valise. As coisas de que eu precisava já estavam no pequeno apartamento-estúdio que eu alugara, no West Side.

— Não sei. . . — disse ele. — É uma mercadoria difícil de vender.

— A mobília está praticamente nova. Só tem um ano de uso. E comprei o melhor. Custou-me nove mil dólares.

— Deveria ter ido procurar-nos. Poderíamos fazer com que economizasse uma porção de dinheiro.

— Eu não os conhecia naquela ocasião.

— Esse é o problema com as pessoas. Nunca apren­dem, até já ser tarde demais. — Fez um gesto na direção do sofá. — Quanto quer por tudo?

— Cinco mil dólares.

— Nunca vai conseguir.

— Então faça uma oferta.

— Mil dólares,

—- Esqueça — disse eu, encaminhando-me para a por­ta. — Obrigada por ter vindo.

— Espere um instante. Teve uma oferta melhor?

— Tive. Muito melhor.

— Melhor em quanto? Em cem dólares? Em du­zentos?

Não respondi.

— Se Hammersmith esteve aqui, ele não lhe deve ter oferecido mais do que mil e duzentos dólares.

Ele conhecia a concorrência. Fora exatamente essa a quantia que me fora oferecida.

— Correrei o risco — disse ele. — Eu lhe darei mil e trezentos dólares. E nem um tostão a mais.

— Não, obrigada — respondi, fitando-o firmemente e mantendo a porta aberta.

Ele avaliou a sala outra vez, rapidamente.

— Quando posso pegar a mercadoria?

— Por mim, pode levá-la imediatamente.

— Esta tarde?

— Se quiser.

— Não há penhor, nenhuma prestação em atraso? A mercadoria está livre, sem qualquer ônus? Pode assinar um documento?

— Claro.


Ele deixou escapar um suspiro relutante.

— Meu sócio vai achar que fiquei doido, mas lhe darei mil e quinhentos dólares. E, definitivamente, essa é a minha última oferta.

Eram mais trezentos dólares do que qualquer outra oferta que eu já recebera anteriormente. E ele era o quarto negociante que me procurava.

— Em dinheiro vivo — falei. — Não quero cheque. — Um cheque não cobriria minha conta no banco a tempo do desconto do cheque com que eu fizera o pagamento do aluguel e do depósito do novo apartamento.

— Claro — disse ele.

-— Está vendido.

— Posso usar seu telefone? Meu caminhão poderá estar aqui dentro de uma hora, se quiser esperar.

— Esperarei.

Cheguei ao banco pouco antes das três horas. Depois de fazer o depósito, saí para a tarde agradável de maio. Como não havia recebido qualquer notícia de meu agente, decidi que iria visitá-lo. No ônibus, fiz alguns cálculos. Depois de pagas todas as minhas contas, ainda me restariam cerca de oitocentos dólares.

O ruidoso escritório de Lou Bradley, no Brill Building, era muito diferente do primoroso escritório da Artists Alliance.

E Lou não era exatamente o tipo de agente que eu teria preferido. Mas não tivera alternativa. Visitara todos os grandes agentes, William Morris, A. F. A., C. M. A., antes de ir procurá-lo. Haviam se mostrado atenciosos, mas não estavam interessados. Era como se eu de repente me tivesse transformado numa intocável. Tentei encarar a situação de maneira realista. Afinal de contas, ninguém queria ligar-se ao fracasso. E quer fosse culpa minha ou não, o fato é que eu tinha três fracassos a meu crédito. E dos bons. Apesar do que John me garantira, o irmão dele efetivamente redu­zira ao máximo o meu papel no filme. Depois, havia o epi­sódio da Universal. E por último, embora não o menor, havia também a peça.

Era a peça que mais doía, não apenas porque fora retirada de cartaz depois de uma única apresentação, como também porque Guy estava atribuindo toda a culpa a mim, espalhando pela cidade que eu não quisera cooperar e me recusara a fazer as alterações que ele sugerira. Tentei falar com ele pelo telefone, convencida de que poderia fazê-lo parar de falar. Mas ele simplesmente não me atendera. Logo depois de minha volta a Nova York, eu havia recebido um comunicado da Artists Alliance, cancelando meu contrato.

Fiquei aturdida. Harry Gregg nada me dissera a esse respeito. Peguei o telefone e liguei para ele. Sua voz era cautelosa.

— O que deseja?

— Deve haver um erro. Acabei de receber um aviso de que meu contrato foi cancelado. E você não me tinha falado nada a esse respeito.

— Essa não é minha função. O pessoal lá de cima é que resolve esses assuntos.

— Mas você sabia?

— Sabia — respondeu ele, após um instante de he­sitação.

— Então por que não disse nada? Pensei que fosse meu amigo.

— E sou. Mas também tenho um emprego aqui. Não me meto em assuntos que não me dizem respeito.

— Mas fizemos tantos planos, conversamos sobre as coisas que iríamos fazer... E durante todo o tempo você sabia que não ia fazer nenhuma daquelas coisas!

— O que esperava que eu dissesse? Não me chateie, boneca, que você vai ser chutada?

— Poderia ter dito alguma coisa.

— Está bem. Então vou dizer agora. Não me chateie, boneca, que você foi chutada.

O telefone ficou mudo em minha mão. Eu estava ma­goada e com raiva, mas não tinha tempo para lágrimas. Precisava de outro agente e de outro trabalho, o mais de­pressa possível.

Mas não encontrei nenhum dos dois tão rapidamente quanto desejava. O dinheiro do último pagamento da peça acabou muito antes que eu percebesse. Acho que meus pais devem ter sentido que alguma coisa estava errada, porque, no meu vigésimo quinto aniversário, mandaram-me de pre­sente um cheque de dois mil e quinhentos dólares. Foi então que chorei.

Tive que esperar meia hora para que Lou largasse o telefone. Sob esse aspecto, ele não era diferente de nenhum outro agente. Eram todos maníacos por telefones. Finalmen­te, a secretária dele me avisou que podia entrar na sala.

Ele fitou-me com seus olhos azuis, muito claros, encra­vados num rosto magro.

— Olá, boneca. Estive pensando em você. Sabe, ainda não consegui pegar o filho da mãe no telefone. — Ele gritou pela porta aberta: — Ei, Shirley, tente novamente DaCosta para mim. — Em seguida sua voz baixou para um sussurro confidencial: — Acho que ele está com os rapazes.

Fiquei perplexa.

— Quem? .

A voz dele se tornou ainda mais baixa:

— Sabe muito bem o que estou querendo dizer. Os rapazes! Big Frank, Joe. Onde pensa que esses produtores bisonhos conseguem arrumar dinheiro?

— Está se referindo aos gângsteres?

— Psiu! Não usamos essa palavra por aqui. Os ra­pazes são todos ótimas pessoas. Amigos. Está me enten­dendo. . .

O telefone tocou e ele disse jovialmente:

— Ei, Vincenzo, como tem passado?

Escutou por um momento, depois tornou a falar:

— Parece mesmo muito bom. A propósito, está aqui no meu escritório aquela jovem de quem lhe falei. Será que você não poderia marcar um encontro com ela?

Olhou para mim e assentiu para o telefone.

— Acha que eu iria dar-lhe um palpite errado? E ela é uma beleza. Tem muita experiência. Broadway, filmes, Hollywood, tudo, tudo!

Cobriu o bocal com a mão.

— Ele disse que está ocupado nos próximos dois dias. E depois vai voltar para a Itália. Você está livre para jantar esta noite?

Hesitei.


— Não precisa preocupar-se com ele. É um perfeito cavalheiro.

Assenti. Mesmo que eu não conseguisse trabalho, o jantar seria melhor do que comer um hambúrguer sozinha.

— Ela diz que está livre — disse Lou ao telefone, logo voltando a cobrir o bocal com a mão. — Ele quer saber se você tem algum amigo.

Sacudi a cabeça.

— Ela disse que não. Mas não se preocupe. Mandarei alguém. Está certo. Às oito horas, na sua suíte no Saint Regis.

— Tem muita sorte — disse ele solenemente, depois de desligar. — Um cara como ele geralmente não sai de seus hábitos para receber ninguém. Ele tem à sua disposição todas as atrizes italianas que desejar. Loren, Lollobrigida, Mangano. O único problema é que o inglês delas não é bom.

— Que tipo de papel é?

— Como diabo vou saber? Não se pede a produtores e diretores estrangeiros que mandem o roteiro. Eles pensa­riam que enlouquecemos ou algo assim. A maioria desses caras faz seus filmes sem roteiro nenhum. E acabam ganhan­do todos os prêmios.

— Talvez eu não seja o tipo que ele está procurando.

— Você não é americana?

Assenti.

— Não é atriz?

Assenti novamente.

— Então você é perfeita para o papel. Exatamente o que ele me pediu: uma atriz americana. — Lou levantou-se e, segurando-me o braço, conduziu-me até a porta. — Agora vá para casa, tome um banho quente e faça-se o mais bonita possível. Use um vestido longo, bastante sensual. Esses caras jantam todas as noites vestidos a rigor. — Ele abriu a porta que dava para o corredor externo. — Não se esqueça. Oito horas, na suíte dele, no Saint Regis. Não chegue atrasada. Esses caras são muito pontuais.

— Certo. Mas você está se esquecendo de uma coisa.

— O que é?

— De dizer-me o nome dele.

— Oh! DaCosta, Vincent DaCosta,

DaCosta... O nome era-me vagamente familiar, mas não consegui lembrar-me de onde já o ouvira antes.


Capítulo dezoito


A medida que eu avançava pelo corredor atapetado, na direção da suíte, o barulho ia se tornando mais alto. Era um barulho vulgar, em meio à nobreza esmaecida dos cor­redores do Saint Regis. Parei diante da porta dupla e bati. Os gritos continuaram. Pude distinguir uma voz de mulher. Mas não compreendi o que ela estava dizendo, porque falava em italiano. Pensando que não tinham me ouvido, bati novamente.

A porta foi aberta quase imediatamente por um jovem alto e bem-apessoado, de cabelos pretos, usando um terno escuro conservador, camisa branca e gravata também branca. Não havia o menor sinal de que ele estivesse esperando por alguém.

— Sr. DaCosta?

Ele assentiu.

— Sou JeriLee Randall. O Sr. Bradley pediu-me que estivesse aqui às oito horas.

O rosto dele se desanuviou, abrindo-se num sorriso, de dentes muito brancos e iguais.

— Foi Luigi quem a mandou! Vamos, entre. — Não havia o menor vestígio de sotaque no inglês dele.

Segui-o através do pequeno vestíbulo até a sala de estar bastante grande. Havia dois homens sentados no sofá, mas não olharam para mim. Estavam contemplando a mulher numa combinação muito fina, que gritava com um velho calvo.

Fiquei parada à entrada da sala por um momento, sem saber se deveria ou não entrar. Subitamente, reconheci a mulher: Carla Maria Perino. Apenas dois anos antes, ela ganhara um prêmio da Academia por seu desempenho em Refugos de Guerra. Depois, reconheci o homem calvo que estava no sofá. Era o marido dela, Dino Paoluzzi, que pro­duzira e dirigira o filme.

De repente, os olhos de Paoluzzi brilharam e ele se levantou. Era uma cabeça mais baixo do que ela, mas des­prendia-se dele uma estranha sensação de poder, que o fazia parecer mais alto do que qualquer um dos presentes. Sua mão moveu-se velozmente. Houve o estalo agudo da bofeta­da no rosto dela e o som áspero e gutural da voz dele gritando:

Putana!

Abruptamente, ela se calou e depois desmanchou-se em lágrimas. Ele virou-se e atravessou a sala, em minha direção. O outro homem levantou-se também do sofá e seguiu-o.

DaCosta interpôs-se entre nós.

— Este é o Sr. Paoluzzi, o famoso diretor — disse ele, dirigindo-se a mim. — Ele não fala nenhuma palavra de inglês. — Olhou para o diretor e disse: — Io presento Jeri-Lee Randall.

Paoluzzi sorriu e estendi-lhe a mão. Ele fez uma mesura e beijou-me a mão, de tal forma que seus lábios pareceram roçar a sua própria mão, que cobria a minha.

Olhando para mim, DaCosta estalou os dedos.

— Eu a conheço! — disse ele, excitado. — Você não ganhou um Tony, há cerca de cinco anos?

Assenti.


— Vi aquela peça. Você esteve fantástica. Virou-se para Paoluzzi e começou a falar rapidamente em italiano. Pude compreender apenas umas poucas palavras Broadway. Tony. Walter Thornton.

Paoluzzi assentiu e fitou-me com uma expressão de respeito. Disse alguma coisa em italiano. DaCosta traduziu:

— O maestro diz que já ouviu falar de você. Sente-se honrado em conhecê-la.

— Obrigada.

DaCosta apresentou-me ao outro homem, que era alto, de cabelos grisalhos e barrigudo.

— Piero Guercio.

Novamente, o estranho beijo de mão.

— Como tem passado? — disse ele, num inglês com forte sotaque.

— O Signor Guercio é o consigliere do maestro — disse DaCosta. Ao notar a expressão de perplexidade em meu rosto, apressou-se a explicar: — O advogado.

— Gino!


A voz dela era um grito lamentoso. Era quase como se eles tivessem esquecido que ela continuava na sala. O marido disse alguma coisa para ela. A mulher sacudiu a cabeça e olhou-me com uma expressão avaliadora. Paoluzzi voltou a falar. Dessa vez, adivinhei que ele estava lhe falando a meu respeito. Depois de um momento, ela aproximou-se de nós.

Mia sposa — disse-me ele.

Apertamo-nos as mãos. Fiquei surpresa com a força que havia nos dedos esguios dela. Virei-me para DaCosta.

— Diga-lhe que sou sua admiradora. Adorei o desem­penho dela no filme.

DaCosta traduziu e ela sorriu.

Grazie.

Depois, Carla saiu da sala.

— Ela estava furiosa porque a empregada queimou-lhe o vestido, quando o estava passando a ferro — explicou-me DaCosta.

Se isso era o suficiente para provocar uma explosão daquelas, então eu não gostaria de estar por perto quando realmente algo grave acontecesse.

— Aceita um drinque? — perguntou-me DaCosta. — Temos de tudo.

— Um copo de vinho branco?

— Certo.


Peguei o copo que ele me estendeu e sentei-me no sofá, no lugar indicado. Os homens sentaram-se em cadeiras, for­mando um semicírculo à minha frente.

— Está trabalhando neste momento em alguma coisa? — perguntou-me DaCosta, traduzindo as palavras de Pao­luzzi.

— Não, mas estou estudando algumas propostas.

Paoluzzi assentiu, como se tivesse compreendido.

— Prefere teatro ou cinema? — perguntou DaCosta, novamente traduzindo Paoluzzi.

— Não posso dizer. Nunca fiz realmente um filme em que julgasse o meu papel satisfatório.

Paoluzzi assentiu, depois tornou a falar. DaCosta tra­duziu :

— O maestro diz que Hollywood destruiu a indústria cinematográfica americana, com a ênfase dada à televisão. Houve um momento em que eles lideraram o mundo, mas agora a liderança passou para a Europa. Os europeus são os únicos que fazem filmes com valores reais ou artísticos

Tomei um gole de vinho e ficamos sentados num silên­cio constrangedor por alguns instantes, até que houve uma batida na porta. DaCosta levantou-se imediatamente e foi até o vestíbulo. Voltou em companhia de uma mulher alta, de cabelos ruivos, usando um vestido de noite verde, cheio de contas, com uma comprida estola preta de marta. Os homens se levantaram e repetiram o mesmo ritual de beija-mão, como haviam feito comigo. Depois, DaCosta olhou para mim.

— Marge Small, JeriLee Randall.

Havia uma expressão de antagonismo nos olhos dela.

— Olá — disse ela.

— Olá.

— Você fica com o consigliere — disse-lhe DaCosta, apontando para Guercio.



Ela assentiu, indiferente.

— Está bem.

O advogado sorriu para ela.

— Aceita um drinque?

— Aceito. Tem champanha?

Ele assentiu e ela seguiu-o até o bar. Guercio encheu duas taças, uma para ela e outra para si. Os dois ficaram lá, conversando em voz baixa. Perguntei-me o que estariam dizendo. DaCosta interrompeu meus pensamentos:

— O maestro quer saber se já cogitou alguma vez de trabalhar na Itália.

— Ninguém jamais me convidou.

— Ele diz que você se dará muito bem lá. É justa­mente o tipo que estão procurando.

— Diga-lhe que estou disponível.

Paoluzzi sorriu, depois se levantou e desapareceu rapi­damente no quarto ao lado. DaCosta pegou o telefone.

— Portaria, por favor. Diga ao motorista do Sr. Pao­luzzi que desceremos dentro de dez minutos.

— Há quanto tempo está com Lou? — perguntou-me, ao desligar.

— Há uma semana.

— Não sei como o filho da mãe consegue, mas está sempre arrumando uma vencedora — disse ele, com um sorriso.

— Estou um pouco confusa. O Sr. Bradley disse-me que o senhor era produtor.

— Ele nunca entende as coisas direito. — DaCosta riu. — Sou um representante de produtor. Paoluzzi é que é o produtor.

— Entendo — falei, embora realmente não estivesse atendendo. — Sobre o que é o filme?

— Não tenho a menor idéia. A cada reunião, ele nos conta uma história diferente. Estou quase apostando que nenhuma delas é a que ele vai terminar filmando. Ele tem medo que alguém lhe roube a idéia, se contar a verdadeira história. E posso afirmar-lhe que isso não facilita nada a minha vida.

— Por quê?

— Tenho a incumbência de levantar financiamento americano para ele, e os nossos homens do dinheiro sim­plesmente não aceitam esse esquema de trabalho. Querem saber exatamente aquilo em que estão se metendo.

— É italiano?

— Não, sou americano. Meus pais são italianos.

— É de Nova York mesmo?

— Brooklyn. Meu pai e meus irmãos ainda estão no negócio lá.

De repente, lembrei-me por que o nome dele me pare­cera familiar. A família DaCosta. Eles certamente estavam em atividade no Brooklyn. Eram os donos do cais. Uma das cinco famílias entre as quais Nova York estava dividida. Agora eu compreendia o que Bradley quisera dizer.

Ele sorriu, como se estivesse lendo meus pensamentos.

— Sou a ovelha negra da família. Não quis entrar no negócio. Todos eles pensam que sou muito estúpido por ficar desperdiçando o meu talento no show business.

Simpatizei com ele. Tinha uma franqueza direta que era muito atraente.

— Pois eu não acho — falei.

A porta do quarto se abriu e os Paoluzzi saíram. Não pude deixar de contemplá-la, quase boquiaberta. Nenhuma das fotografias que eu tinha visto lhe fizera justiça. Sem qualquer sombra de dúvida, ela era a mulher mais linda que eu já conhecera.

Reparei no olhar rápido e avaliador que ela lançou para Marge Small. No momento seguinte, virou-se para mim e compreendi que Marge fora descartada de seus pensamentos como se nunca tivesse existido.

— Desculpe a demora — disse ela, numa voz suave e agradável, com um ligeiro sotaque.

— Não foi nada.

DaCosta seguiu na frente até o carro e abriu a porta O carro era uma limusine. DaCosta sentou-se na frente, ao lado do motorista. O advogado e Marge ficaram nos banquinhos laterais. O maestro sentou-se entre mim e a esposa. Fomos para o Romeo Salta's, um restaurante que ficava a apenas dois quarteirões do hotel.

Durante o jantar, não havia como se equivocar sobre quem era a estrela. Ocupamos a melhor mesa e Carla Maria ficou no melhor lugar. Ela recebeu o mesmo tratamento em El Morocco, para onde fomos depois do jantar. Misteriosa­mente, fotógrafos apareciam em todo lugar aonde íamos. De maneira curiosa, aquilo me pareceu bom, mesmo sabendo que não era para mim. Fazia muito tempo que eu não me via envolvida naquele tipo de excitamento do show business.

— Quer dançar? — convidou-me DaCosta.

Fomos para a pequena e apinhada pista de danças. A música era serena. Só depois de uma hora da madrugada é que eles começavam a tocar rock. Ele me apertava firme, enquanto nos movíamos lentamente, ao som de um disco de Sinatra, no sistema estereofônico.

— Está gostando? — perguntou ele.

Assenti.


— Tem realmente alguns trabalhos em vista?

— Não.


— Era o que eu pensava.

— Por que diz isso?

— Você não estaria com Luigi se tivesse. Normalmen­te, ele é uma área de desespero. Mas você tem talento, talen­to de verdade. O que saiu errado?

— Não sei. — Hesitei por um instante. — Tudo. É como. .. Um dia estava tudo ali e no dia seguinte.. . nada.

— Isso acontece de vez em quando.

Fiquei calada.

— Carla Maria simpatizou com você.

— Também simpatizei com ela — disse eu, satisfeita. — É realmente uma mulher fantástica. Pode lhe falar que eu disse isso.

— O maestro também simpatizou com você.

— Ótimo. Ele deve ter um imenso talento.

DaCosta encontrou uma brecha entre a multidão e guiou-me até um canto da pista de danças, perto da parede.

— Ele gostaria de saber se você estaria interessada em fazer uma cena com Carla Maria.

— Claro que sim — respondi, rapidamente. Olhei então para o rosto dele e compreendi que não estávamos falando sobre a mesma coisa. Senti que estava ficando ver­melha. Não sabia o que dizer.

— Não há problema — disse ele, finalmente. — Você não tem nada que fazer.

— Estou surpresa. É que simplesmente não estava esperando por isso.

— Eles têm idéias próprias sobre diversões. Estou ape­nas dando o recado.

— Isso faz parte também do seu trabalho?

— Isso e uma porção de outras coisas.

Quando voltamos para a mesa, Guercio e a outra mulher não estavam mais lá. Surpreendi um sinal furtivo, trocado entre DaCosta e Paoluzzi. Depois, o produtor levan­tou-se e disse algo em italiano. DaCosta olhou para mim.

— O maestro pede desculpas, mas já está na hora de partir. Ele tem compromissos bem cedo, amanhã.

Todos nos levantamos, o que quase causou uma colisão entre maîtres e garçons, correndo para afastar a mesa do caminho. Carla Maria e o marido seguiram na frente, DaCosta e eu na retaguarda.

A limusine se aproximou no momento em que saímos pela porta. DaCosta perguntou-me:

— O maestro deseja saber se podemos deixá-la no ca­minho de volta ao hotel.

— Obrigada, mas não é possível. Moro no West Side. Diga-lhe que pegarei um táxi. E que lhe agradeço muito por uma noite maravilhosa.

DaCosta repetiu minhas palavras em italiano. Paoluzzi sorriu, fez uma reverência e beijou-me a mão novamente. Depois, fitou-me nos olhos e disse alguma coisa. DaCosta traduziu:

— Ele diz que espera ter a sorte de algum dia traba­lhar com você.

— É o que também espero.

Estendi a mão para Carla Maria. Ela sorriu e disse:

— Não é assim que nos despedimos na Itália. Inclinou-se para a frente, apertando o rosto contra as minhas duas faces e fazendo ruídos de beijos.

Ciao — disse ela.

Ciao.

Eles entraram na limusine. DaCosta acompanhou-me ate o táxi e pôs uma nota em minha mão. — Para pagar o táxi.

— Não, obrigada — disse eu, tentando devolver-lhe o dinheiro.

— Fique com o dinheiro. É da conta de despesas. — Ele fechou a porta do táxi antes que eu pudesse protestar novamente. — Boa noite.

— Boa noite — respondi, no momento em que o táxi se afastou do meio-fio.

— Para onde vamos, senhora? — perguntou o mo­torista.

Dei-lhe o endereço.

— Era Carla Maria Perino quem estava entrando na­quela limusine?

— Era, sim.

A voz dele se encheu de admiração:

— Não acha que ela é uma mulher e tanto?

— Acho, sim — respondi, falando sinceramente. Recordei-me então da nota que tinha na mão. Ao olhá-la, por um momento não pude acreditar em meus olhos.

Eu nunca vira antes uma nota de quinhentos dólares.


Capítulo dezenove

Telefonei-lhe às nove horas da manhã seguinte. Ele parecia sonolento.

— Aqui é JeriLee Randall. Não pretendia acordá-lo.

— Não há problema.

— Queria apenas informar que deixei o dinheiro que me deu num envelope na portaria, em seu nome. De qual­quer forma, obrigada.

— Ei, espere um instante! — disse ele, parecendo agora inteiramente desperto. — De onde é que você está telefonando?

— Aqui do saguão.

— Não saia daí! Descerei dentro de um minuto. Pode­mos tomar um café ou comer alguma coisa.

— Não quero incomodá-lo.

— Preciso falar com você.

Desliguei e fiquei esperando. Menos de três minutos depois, ele saiu do elevador. Não estivera dormindo como eu pensava. Já estava barbeado e vestido. Não me disse nada até estarmos sentados no restaurante, com café à nossa frente.

— Não precisava ter feito isso — disse ele.

— Nem você.

— Acho que não está entendendo. Isso faz parte do negócio.

— Só que não é esse o meu negócio.

— Você é realmente uma moça antiquada, não é?

— Ao contrário. Sou até muito avançada. Não acre­dito em aceitar dinheiro que não tenha ganho com o meu trabalho.

— E o que pretende fazer para encontrar trabalho?

— Continuar procurando.

— Conversarei com Luigi a seu respeito. Para assegu­rar que ele não a deixe de lado.

— Não vou voltar para ele. — Hesitei por um instante, mas terminei perguntando: — Paoluzzi pretende realmente produzir um filme para o qual necessita de uma atriz ame­ricana?

— Paoluzzi está interessado apenas em fazer filmes com a esposa.

— Então não existe nenhum trabalho para mim?

— Não.


— Foi a conclusão a que só agora cheguei. Acho que sou estúpida demais.

— Esse é um negócio por demais estúpido. Há milhões de garotas à procura e bem poucas oportunidades. Até mes­mo as que possuem talento raramente conseguem alguma coisa.

— Pois eu conseguirei. Já consegui uma vez.

— Você não foi casada com Walter Thornton?

Eu sabia aonde ele estava querendo chegar.

— Eles me deram o Tony pelo meu trabalho e não porque meu marido escreveu a peça.

— Mas todo mundo precisa de um amigo. Pelo menos assim se consegue passar além das secretárias.

— Aonde está querendo chegar?

— Paoluzzi me fez ficar acordado a noite inteira, fa­lando a seu respeito. Ele disse que poderá conseguir mais trabalho do que terá condições de aceitar, na Itália. . . des­de que tenha o patrocinador certo.

— Ou seja, ele próprio?

DaCosta assentiu.

— Não, obrigada.

Comecei a levantar-me. Ele pôs a mão em meu braço, para deter-me.

— Não seja tola. Eu poderia dizer os nomes de meia dúzia de estrelas que começaram desse jeito, inclusive a própria Carla Maria. E ela tinha apenas dezessete anos quan­do Paoluzzi a conheceu, há cerca de doze anos, em Nápoles.

— Não é o meu estilo. Cheguei muito perto uma vez e isso deixou-me com o sentimento de que posso ser um ser humano ao menos pela metade.

— A independência já não é uma qualidade tão exal­tada como antigamente. A maioria das pessoas independentes que conheço está na pior.

— E o que me diz de você? Pelo que sei, não quis entrar no negócio da família.

— Isso é diferente — falou ele, um tanto vermelho.

— E por que é diferente?

— Porque eu sou um homem e você é mulher. Posso tomar conta de mim mesmo melhor do que você.

— Talvez esteja com a razão, neste momento. Mas vou aprender. E quando o fizer, não haverá a menor diferença.

— O mundo não vai mudar. Se você for esperta, tra­tará de arrumar um bom sujeito, irá casar-se com ele e terá um casal de filhos.

— É a única resposta que tem para mim?

— Ou esta ou a outra. E já disse que não está inte­ressada na outra.

— O que está dizendo, em suma, é que uma mulher só pode tornar-se uma esposa ou uma prostituta. Acha mes­mo que não tenho nenhuma outra chance?

— Praticamente nenhuma. Talvez uma chance em um milhão.

— É assim mesmo que eu gosto. Obrigada pelo café.

— Gosto de você — disse, segurando minha mão. — E gostaria de tornar a vê-la.

— Eu também gostaria de vê-lo novamente. Mas com uma condição.

— Qual?


— Não vamos tratar de negócios.

— Está combinado. — Sorriu. — Como posso entrar em contato com você?

Dei-lhe o telefone e seguimos juntos para ó saguão.

— Eu lhe telefonarei na semana que vem, depois que eles forem embora de Nova York.

— Ficarei esperando.

Apertamo-nos as mãos e saí do hotel. O sol estava bri­lhando, o dia era quente. De repente, sem saber por quê, eu me senti mais animada.

Não tornei a vê-lo durante três meses. A essa altura, as coisas já estavam bastante diferentes para ambos. Meu pai morreu naquele verão e, pela primeira vez na vida, senti o que realmente significava estar sozinha.

Não encontrei trabalho naquele verão, nem mesmo no elenco dos espetáculos de curta duração. Todos os dias eu fazia a ronda das agências de empregos, lendo o Casting News e comparecendo a todas as chamadas. Mas, sem um agente, eu não tinha condições de arrumar coisa alguma. Até mesmo para os comerciais de televisão era preciso contar com um agente, para se passar pela porta das agências de publicidade.

Todas as noites, eu voltava exausta para o meu pe­queno apartamento. Mas depois de umas poucas horas de sono, despertava e não conseguia mais dormir. Trabalhava em minha nova peça, mas isso também não estava indo muito bem. Tudo o que eu escrevia parecia forçado e artificial. Depois de algum tempo, deixei até mesmo de escrever. Fica­va sentada diante da máquina de escrever, olhando pela janela para a rua escura, sem nem mesmo pensar.

De algum modo, meu pai sentiu o que estava aconte­cendo. E um dia, sem dar qualquer explicação, enviou-me um cheque de cem dólares. E a partir desse momento, passei a receber um cheque todas as segundas-feiras. Sem isso, eu não teria conseguido sobreviver.

Um dia tentei conversar com meu pai a esse respeito, mas ele se recusou a falar no assunto, dizendo apenas que era uma coisa que ele e minha mãe queriam fazer, por­que me amavam e tinham fé em mim. Quando fui agradecer a minha mãe, ela me fitou friamente e disse:

— É idéia de seu pai. Acho que você deve voltar para casa e viver conosco. Não me agrada a idéia de uma moça vivendo sozinha em Nova York.

Tornei-me ainda mais determinada, só para mostrar a mamãe. Ataquei a máquina de escrever com renovada dis­posição. Mas de nada adiantou. Não consegui produzir nada bom.

Eu me sentia totalmente sozinha. Não tinha amigos, nem do sexo masculino nem do feminino. A famosa camara­dagem do show Business não parecia existir no nível em que eu me encontrava. . . ou pelo menos não para mim. E então, subitamente, descobri algo mais, e de maneira brutal: que eu não era mais jovem.

Compareci a um chamado de moças que representariam pequenos papéis e seriam extras em cenas de praia de um filme que estava sendo realizado em Long Island. O teste foi realizado no salão de bailes Roseland, na Broadway. Todas nós deveríamos nos apresentar de maiô e biquíni. Eu era quase a última numa fila de trinta moças. Fiquei esperando o momento de desfilar diante do diretor de elenco e do produtor, torcendo para que ainda restasse uma vaga, quando chegasse a minha vez.

Eu sabia que sempre tivera um corpo bonito. E para conservá-lo assim, todas as manhãs fazia meia hora de ginás­tica. Ouvi meu nome ser chamado e fui até o centro do palco.

Ali, parei e virei-me lentamente, como fôramos instruí­das a fazer. Depois, afastei-me deles, remexendo sugestiva­mente os quadris. Já tinha quase chegado à extremidade do palco quando ouvi o produtor sussurrar:

— Não.


— Mas ela tem um corpo espetacular e um traseiro sensacional — murmurou o diretor de elenco.

O produtor estava tentando sussurrar, mas pude ouvi-lo nitidamente. Havia um tom decisivo em suas palavras:

— É velha demais. Já deve ter pelo menos vinte e cinco anos.

Fui ao vestiário para me vestir. As outras moças con­versavam alegremente, mas nenhuma delas parecia ter qual­quer coisa para me dizer. Eram todas mais jovens do que eu, nos seus dezessete e dezoito anos, ainda viçosas e imaculadas.

De repente, comecei a me perguntar o que estava que­rendo, ao tentar viver num mundo para o qual eu já era velha demais.

A Broadway quase se derretia ao calor de julho, mas mesmo assim decidi voltar a pé para o meu apartamento.

Ao chegar à minha rua, estava exausta e suando bas­tante. Entrei numa mercearia e comprei uma garrafa gelada de vinho branco da Califórnia. Subi para o meu apartamento e comecei a beber. Uma hora depois, já estava completa­mente atordoada. O vinho causava um efeito maior no estô­mago vazio, e eu nada comera naquela manhã, pois não que­ria que a barriga estivesse saliente, quando me enfiasse no biquíni.

Sentei junto à janela, olhando para as ruas quentes. Mas que droga! O que havia de errado comigo?

O telefone começou a tocar. Não estava esperando nenhum telefonema e decidi não atender. Mas o telefone continuou a tocar insistentemente e acabei atendendo.

Era minha mãe. Pelo controle rígido de sua voz, com­preendi imediatamente que alguma coisa estava errada.

— JeriLee? Onde é que você estava? Estou tentando falar com você o dia inteiro!

Fiquei furiosa, embora também um pouco assustada.

— Pelo amor de Deus, mamãe! Eu estava procurando emprego. O que acha que podia estar fazendo?

O controle da voz dela ainda era rígido quando me disse:

— Seu pai sofreu um ataque cardíaco esta manhã. Morreu antes de chegar ao hospital.

A dor pareceu apertar implacavelmente meu coração. Depois, recuperei a voz o suficiente para balbuciar:

— Irei imediatamente para casa, mamãe.


Capítulo vinte

Parecia que toda a cidade havia comparecido ao funeral. Muitas lojas fecharam durante a manhã e a multidão na igre­ja se derramou pela rua. As palavras do sacerdote foram levadas aos que estavam do lado de fora pelos alto-falantes.

— John Randall era um bom homem. Dedicou sua vida e seu tempo ao bem-estar dos vizinhos. Muitos de nós, aqui reunidos hoje, enriqueceram graças à ajuda dele e a seus conselhos sempre generosos. Vamos sentir sua falta. E jamais o esqueceremos.

Depois, o caixão cheio de flores foi levado ao carro fúnebre e transportado para o cemitério. Mais tarde, depois que os vizinhos e amigos se retiraram, mamãe e eu ficamos sozinhas.

— Vou preparar uma xícara de chá para você, mamãe.

Assentiu. Tomando o chá, ela contou:

— Ele não estava se sentindo bem naquela manhã, na hora de sair para o trabalho. Disse-lhe que ficasse em casa, descansando. Mas seu pai insistiu que tinha muito o que fazer. A secretária me contou que ele estava ditando uma carta, quando, de repente, caiu em cima da mesa. Ela pediu ajuda imediatamente, mas já não havia mais nada que se pudesse fazer.

— Procure não pensar mais nisso.

Os olhos dela se encontraram com os meus.

— Às vezes, penso que não dei o bastante a ele. Talvez ele quisesse ter um filho, mas nunca me disse nada. Sabia o quão ocupada eu era com vocês dois.

— Ele a amava, mamãe. E sentia-se feliz.

— Espero que tenha sido assim mesmo. Eu não gosta­ria de pensar que possa ter lhe negado algo que ele desejasse.

— Tudo o que ele sempre desejou foi você, mamãe.

Ficamos caladas por um longo tempo. Finalmente, ela disse:

— Acho que sabe que muitas coisas terão que mudar, a partir de agora. Sem a renda de seu pai, teremos que reduzir as despesas ao máximo.

Não fiz qualquer comentário.

— Eu estava pensando que seria uma boa idéia, se voltasse a viver aqui em casa.

— Mas o que eu poderia fazer aqui, mamãe? Não há nenhum trabalho para mim.

— Não poderei continuar a mandar-lhe os cem dólares por semana.

— Compreendo, mamãe. Mas darei um jeito.

— Como?

— Certamente vou conseguir arrumar algum trabalho. E já estou quase terminando minha nova peça. Fannon prometeu que a produziria.



— E se a nova peça for um fracasso, como a outra?

— Tentarei novamente.

Ela levantou-se.

— Acho que vou subir e deitar-me um pouco. — Foi até a porta, onde parou e virou-se, acrescentando: — Quero que saiba que sempre terá um quarto à sua disposição nesta casa, se as coisas não correrem como espera.

— Eu sei, mamãe. Muito obrigada.

Fiquei observando-a subir a escada, lentamente. Ela ainda era uma mulher bonita. As costas eram eretas, a cabeça erguida. Subitamente, senti uma grande admiração por minha mãe. E desejei ser parecida com ela. Mamãe sempre parecia saber exatamente o que devia fazer.

Meu apartamento estava quente e mofado. Abri as janelas. Mesmo com o barulho do tráfego, era melhor do que o cheiro de mofo dos aposentos fechados.

Peguei a correspondência que se acumulara na semana em que estivera fora. Quase todas as cartas eram contas. Distraidamente, abri o último exemplar do Casting News. Dei uma olhada nos avisos de convocação de elencos. Não havia nada para mim. Foi então que um anúncio atraiu minha atenção:


Precisam-se! atrizes, modelos, coristas! tra­balhem nas horas de folga. Conheçam gente importante. se você está sem trabalho no mo­mento, tem mais de 21 anos, altura não inferior a 1,65 m, bom corpo e sabe conversar, podendo dar-nos pelo menos quatro noites por semana, então temos um trabalho que pode lhe interessar. salário inicial de 165 dólares por semana, in­clusive todos os benefícios da previdência social e seguro-desemprego, além de trajes e gorjetas. Aumentos depois de três meses. semana de 40 horas.

Se está interessada, procure-nos: Torchlight Club, East 54ª street, perto da Park Avenue, de segunda a sexta, entre 2 e 5 horas da tarde.

* Importante! não aceitamos vigaristas! todas as candidatas deverão apresentar carteira profissional.
Reli o anúncio lentamente, calculando que devia ser um clube novo. Eu conhecia apenas dois, o Playboy e o Gaslight. Na minha situação financeira, cento e sessenta e cinco dólares por semana eram uma oferta tentadora. E eles pareciam ter boas intenções, pois exigiam carteira profissio­nal. O horário era bastante apropriado para mim, pois so­braria tempo para escrever e procurar qualquer outro tra­balho que aparecesse.

Olhei para o relógio. Era quase meio-dia. E já estávamos na quinta-feira. O anúncio já saíra há dias. Se eu quisesse arrumar alguma coisa, teria que agir com a máxima rapidez. Depois de tomar a decisão, fui para o banheiro, despejei um vidro inteiro de sais de banho na banheira e abri a água. Enquanto a banheira enchia, alinhei todos os meus artigos de maquilagem na prateleira em cima da pia, inclusive os cílios postiços. Estava decidida a me apresentar o melhor possível.

Era um prédio largo e cinzento, de pedras, com porta dupla, pintada de preto. Nos dois lados da porta havia lampiões de carruagem antigos, combinando com a placa de latão na porta. As letras esculpidas na placa diziam simples­mente: Torchlight". Vi uma campainha quase invisível, por baixo da placa.

Quando a apertei, a porta abriu-se automaticamente. Entrei. Havia um forte cheiro de tinta e pude ver, em salas ao redor do vestíbulo, diversos homens trabalhando, martelando e prendendo cortinas diante das janelas. Um dos ope­rários me viu e apontou para a escada, dizendo:

— Lá em cima. Na sala da frente.

A moça sentada atrás da escrivaninha fitou-me com uma expressão entediada.

— Vim em resposta ao anúncio.

— Todas as vagas já foram preenchidas — disse ela, sem alterar sua expressão.

— O anúncio falava em entrevistas durante toda a semana.

— Não posso fazer nada. Recebemos mais de quatro­centas moças, nos dois primeiros dias. — Estendeu-me um pedaço de papel e acrescentou: — Isto aqui virou um ver­dadeiro hospício. Pode deixar seu nome e endereço. Se houver uma vaga, nós a chamaremos.

O telefone sobre a mesa começou a tocar. Ela atendeu.

— Pois não, Sr. DaCosta. Vou providenciar imediata­mente, Sr. DaCosta.

Assim que desligou, ela fitou-me de novo e disse impacientemente:

— E então, vai ou não deixar seu nome e telefone?

Resolvi confiar na minha intuição.

-— Diga ao Sr. DaCosta que JeriLee Randall está aqui.

A expressão dela alterou-se imediatamente.

— Por que não disse logo de uma vez? Já o ouvi mencionar seu nome. — Ela pegou o telefone outra vez e informou: — Sr. DaCosta, JeriLee Randall está aqui e dese­ja falar-lhe.

Escutou por um momento, desligou e disse-me:

— No terceiro andar, primeira porta à direita.

Ele estava parado na porta aberta, à minha espera, com um sorriso no rosto.

— Como foi que soube que eu estava aqui?

— Eu não sabia. Mas ouvi a moça lá embaixo falar no nome DaCosta e achei que podia ser você.

— Pensei em procurá-la por diversas vezes, mas sem­pre acabava acontecendo uma coisa ou outra que me levava a adiar o telefonema.

— Não tem importância.

— Como estão indo as coisas?

— Não muito boas. Vim em resposta ao anúncio. Mas a moça me disse que todas as vagas já foram preenchidas.

O rosto dele tornou-se subitamente sério.

— Tem alguma idéia do que seja o emprego?

— Apenas o que li no anúncio.

Ele foi até atrás da escrivaninha.

— Estamos criando uma espécie de Playboy Club, supercaro. Vamos oferecer algumas coisas extras, como sauna, piscina e massagem, além de bar e restaurante. Have­rá também uma discoteca, no porão.

— Parece ser um negócio de vulto.

— E é. Temos oitocentas pessoas que já pagaram seiscentos dólares cada uma pelo título de sócio. Procuramos garotas de muita classe, para servirem como hostesses. Elas precisam ser de um tipo muito especial, pois darão o tom do negócio, assim como as "coelhinhas" fazem no Playboy.

— E em que as suas hostesses serão diferentes?

— Em primeiro lugar, não terão que usar aqueles uni­formes idiotas. Cada uma das nossas hostesses usará um traje especial desenhado para a sala em que trabalhar. Em segundo lugar, elas terão que saber conversar, devem mos­trar-se cordiais sem ser exageradas.

— Parece uma boa idéia.

— E é mesmo. Gostaria de ver alguns dos trajes?

Assenti. Ele foi até um armário no canto da sala e tirou dois trajes. Um era uma túnica grega, ondeante, bas­tante decotada. O outro era um vestido ao estilo antigo, de chiffon estampado, com um decote quadrado e também grande. Ele segurou os dois trajes diante da janela. Eram quase transparentes.

— As moças usarão isso. . . e mais nada.

Fiquei calada.

—- Não usarão sutiã nem calcinha, nada mais além de sapatos de salto alto. — Tornou a guardar os trajes no armário e voltou para trás da escrivaninha. — O que acha?

— Não pensei que o emprego fosse para trabalhar num jardim de infância.

Devia ter havido algo em minha expressão que o levou a aproximar-se de mim subitamente. Ele pôs as mãos nos meus braços e fitou-me nos olhos.

— O que aconteceu, JeriLee?

-- Meu pai morreu... — As lágrimas me surgiram nos olhos subitamente e enterrei o rosto no peito dele. — e pela primeira vez na vida sinto medo.


Capítulo vinte e um

Olhei para o relógio na parede. Já passava das onze horas. A mudança de turno das dez horas já deveria estar concluída. Estava na hora de começar a verificação. Con­templei-me no espelho de corpo inteiro da porta do meu pequeno gabinete.

O vestido longo e em estilo antigo aderia suavemente ao corpo. Fiquei satisfeita. Nos primeiros dias, eu me sentira um tanto embaraçada ao usá-lo. Mas logo descobri que nin­guém parecia prestar atenção e parei de pensar nisso.

Desci os sete andares de elevador, até a discoteca no porão. Meu trabalho era verificar que todos os postos esti­vessem guarnecidos e que sempre houvesse alguém à mão para substituir as ausências eventuais, além de distribuir os encargos. O clube era uma idéia de Vincent e obtivera um sucesso além das expectativas dele. Seis meses depois da inauguração, a fila de candidatos a sócio já se estendia por dois anos. Não era o que Vincent realmente desejava fazer na vida, mas a família dele começara a pressioná-lo, depois de permitir que durante dois anos tentasse entrar na indústria cinematográfica, com negócios que sempre pareciam evapo­rar-se no último instante. Depois que o negócio com Paoluzzi fracassara, o pai de Vincent oferecera ao filho duas opções. Ou ele se metia num negócio considerado apropriado pela família ou passava a trabalhar com eles. Vincent escolhera o menor dos dois males. O clube custara à sua família mais de dois milhões de dólares, mas eles não se haviam importado. O dinheiro era insignificante. O importante era que o filho ingressasse num negócio apropriado.

A música alta ecoava pela discoteca não muito cheia. Ainda era um pouco cedo para que houvesse grande movi­mento ali. Dino, o atarracado maître, aproximou-se de mim, dizendo:

— Está tudo calmo por aqui. Desça um pouco mais tarde.

— Está certo.

Ele me entregou a relação das garotas que estavam trabalhando ali e subi para o bar, no andar térreo. Ângelo estava na escrivaninha, no canto.

— O movimento está bem razoável esta noite.

Peguei a lista dele e subi outro lance de escada, para o restaurante. Os clientes estavam começando a se retirar. Carmine veio imediatamente ao meu encontro.

— Vou precisar de duas garotas extras na noite de sábado.

— Falarei com Vincent.

— Obrigado, boneca. Temos que manter os padrões. Não podemos deixar o serviço cair.

Todos os andares acima do terceiro eram reservados exclusivamente aos sócios. Decidi dar uma olhada na seção de tratamento de saúde. Havia alguns homens na piscina elevada. Umas poucas garotas estavam sentadas na borda da piscina, parecendo entediadas. Não davam a menor atenção ao fato de os homens estarem nus. Tony saiu de seu pequeno escritório.

— Tudo tranqüilo — informou ele. — Não há nin­guém na sauna nem no banho a vapor.

O andar acima, onde ficavam o ginásio e o salão de mas­sagens, também estava praticamente vazio. Somente uma das pequenas cabinas estava com a cortina fechada. Rocco, o instrutor, veio me dizer:

— Acho que ninguém ficou com tesão esta noite. To­dos os homens decidiram ficar em casa, com as esposas.

Não pude deixar de rir. Mas o rosto de Rocco perma­neceu sério.

— Não vejo nada de engraçado. As meninas estão começando a praticar umas nas outras. Surpreendi Toan fazendo uma massagem em Sandy.

~ Não pode permitir que isso aconteça, Rocco — disse-lhe eu, com expressão impassível. — Tem que fazer o sacrifício de deixar que elas pratiquem em você.

Ele me fitou com uma expressão de incredulidade.

— Mas minha esposa me matará!

Ri novamente e subi mais um andar. Não estava acon­tecendo absolutamente nada no sexto andar, que tinha quar­tos particulares para os sócios que desejassem passar a noite.

Gianni e suas duas garotas estavam jogando gin rummy. Acenei para eles e subi para os escritórios.

Coloquei as listas na caixa onde os contadores as pe­gariam, acendi um cigarro e fui para a sala de Vincent. Ele ainda não chegara. Isso era bastante estranho. Quando eu saíra do apartamento dele, pouco antes das oito horas, Vin­cent me dissera que chegaria por volta das dez horas. Como não havia mais nada para eu fazer no momento, achei que poderia descer até a discoteca para dar uma olhada no novo discotecário. Um bom profissional fazia toda a diferença. A música certa, para as pessoas certas, garantia o sucesso da casa.

Mas não fiz qualquer movimento para descer. Não estava realmente com disposição. Não sentia vontade de conversar com ninguém. Não era fácil ter que sorrir para as pessoas durante todo o tempo, fingindo estar interessada no que me diziam.

Apaguei o cigarro. O que eu realmente desejava era ficar atordoada. Mas nem isso poderia fazer. Os regulamen­tos eram rigorosos. Não se permitia o uso de drogas dentro do clube.

— Não podemos correr o menor risco — dissera Vin­cent. — Todo mundo estará procurando um motivo para acabar conosco, e não podemos dar-lhes a menor chance.

Mas no apartamento dele era diferente. Vincent dis­punha de todos os tipos de drogas imagináveis, e às vezes eu me perguntava como as drogas chegavam ao apartamen­to, mas nunca indaguei a ele. Havia algumas coisas sobre as quais eu jamais conversava com Vincent, entre elas a sua família.

Recordei a única ocasião em que vira o pai e os dois irmãos mais velhos de Vincent. Eles haviam aparecido no clube uma noite, pouco depois da inauguração, acompa­nhados por outros dois homens. Vincent levara-os direta­mente para o seu gabinete. Cerca de meia hora depois, eles haviam saído e Vincent lhes mostrara todo o clube.

Eu por acaso estava na entrada, no momento em que eles saíam. Vincent viu-me, mas não fez a menor menção de apresentar-nos. O pai era um homem pequeno, de aspecto gentil, com cabelos grisalhos e olhos pretos impenetráveis. Vincent inclinou-se e beijou-o nas duas faces. O velho sorriu, afagou gentilmente o rosto de Vincent e disse:

— Está ótimo, meu filho. Estamos orgulhosos de você. — Virou-se então e foi embora, seguido pelos outros.

Vincent olhou para mim e, sem dizer uma palavra, pesou o elevador e subiu para o seu gabinete. Eu o segui alguns minutos depois. Havia uma garrafa de scotch em cima da mesa e ele estava enchendo um copo no momento em que entrei. Nunca antes eu o tinha visto beber durante o trabalho.

— Está tudo bem — disse ele, rapidamente. — Está tudo bem.

Mas notei que sua mão estava tremendo, quando leva­va o copo aos lábios. Ele tomou um gole do scotch e mur­murou:

— Estou com vontade de ir para a cama com você.

Havia uma expressão estranha nos olhos dele. De certa forma, eu sabia que ele estava com medo da minha resposta.

— Está bem.

— Agora.


— Quer que eu tranque a porta?

— Aqui, não. No meu apartamento. Vá mudar de roupa.

Minutos depois, estávamos a caminho. Não trocamos uma só palavra até entrarmos no apartamento dele, a alguns quarteirões do clube, na Sutton Place, de frente para o rio. Ele acendeu a luz e seguiu direto para o bar que havia no outro lado da sala, perguntando-me:

— Você fuma?

Assenti. Ele acendeu um cigarro para mim e outro para si.

— Venha — disse ele.

Segui-o para o quarto. Ele virou-se para mim, tirando o paletó.

— Tire a roupa.

Pus o cigarro num cinzeiro e comecei a despir-me. Abaixei-me para tirar os sapatos. Quando tornei a me erguer, ele já estava nu, e segurou-me. Sua boca era rude, e senti suas mãos agarrando-me brutalmente pelos braços. Trope­çamos e caímos em cima da cama. Senti seus dentes a me morderem os seios, machucando os mamilos. Gemi de dor e ele levantou a cabeça. Os olhos fitaram os meus.

— Sou louco por você. Sabe disso, não é? — disse ele, em tom quase de raiva, e empurrou minhas pernas para trás, deixando-me com os joelhos quase encostados no peito; tomou posição à minha frente, de joelhos. Todo o seu corpo parecia uma tensa mola de aço.

Havia uma expressão distante e vidrada em seus olhos.

Antes que eu tivesse tempo de ficar assustada, caiu-me por cima e eu o senti entrando em mim.

Minha cabeça pareceu explodir com o afluxo de sangue e calor ao cérebro, no momento mesmo em que o orgasmo dele começava. Subitamente, ele saiu de cima de mim, agar­rando o colchão com toda a força. Os olhos estavam fecha­dos, o rosto contorcido.

— Não! Oh, Deus, não! — ele quase gritou.

Puxei-o para junto de mim. Ficou quieto, o peito arfando. Em seguida, começou a chorar, em soluços terríveis. Mantive sua cabeça encostada em meus seios, afagando-lhe os cabelos.

— Está tudo bem. . . está tudo bem. . .

Ele ergueu a cabeça e olhou para mim, os olhos mare­jados de lágrimas.

— Você não entende! Gostaria que eles fossem para o inferno!

Fiquei esperando que ele continuasse.

— Finalmente conseguiram o que desejavam — mur­murou Vincent. — Queriam que eu entrasse para o negó­cio da família, de qualquer jeito. E agora, quer eu goste ou não, estou metido nele!

— Não precisa dizer nada. Tudo vai acabar bem.

— Não vai, não. O clube deveria ser só meu. Eles me emprestaram o dinheiro para montá-lo. E agora não querem o dinheiro de volta. Viramos sócios. Afinal de contas, somos uma família, não é mesmo?

A sua voz era extremamente amargurada. Fiquei im­pressionada.

— Foi por isso que eles estiveram no clube esta noite?

— Teria sido melhor que o clube quebrasse — disse ele, assentindo. — Pelo menos, eles acabariam esquecendo a história. Seria mais uma das idéias malucas de Vincenzo.

— Nunca imaginei que eles fossem assim. Pelo que ouvi dizer, as famílias italianas sempre cumprem o que pro­metem entre si. Não importa o que possa acontecer.

— Exceto quando se trata de dinheiro e poder. "Cosa nostra" é uma expressão apenas para os jornais. Meu pai livrou-se do próprio irmão, a fim de tornar-se o chefe da família. E quando ele morrer, meus irmãos vão se matar entre si, para ver quem ocupa o lugar dele.

— E o que vai acontecer agora? — perguntei, após um momento.

— Nada. Continuo a dirigir o clube da mesma forma que antes. Só que agora os lucros serão divididos em quatro partes iguais.

— E os dois milhões de dólares que eles lhe empres­taram? Terá que pagá-los?

— Claro que não. Agora, é um negócio da família. E eles receberão o dinheiro de volta com a sua participação nos lucros.

— Então você está levando vantagem. Meu par era banqueiro e lembro-me de que ele me disse uma vez que qualquer empréstimo que não se precisasse pagar pessoal­mente era lucro líquido. Você acaba de ganhar meio milhão de dólares.

Finalmente, ele começou a sorrir.

— Você é uma garota muito estranha — disse ele, pondo as pernas para fora da cama. — Quer um drinque?

— Não. Mas se você tiver outro cigarro, eu aceitaria.

Ele voltou para o quarto com uma caixa cheia. Acendi um cigarro, recostei-me nos travesseiros e disse:

-— Venha para a cama. Você ficou me devendo.

Ele se deitou, e dessa vez fizemos amor de verdade. No dia seguinte, mudei para o apartamento dele, levando todas as minhas coisas, à exceção da máquina de escrever e dos meus papéis. Não quis desfazer-me do apartamento, pois achei que deveria mantê-lo permanentemente, como um lugar onde poderia trabalhar em paz.



Capítulo vinte e dois

Quando tornei a descer para a discoteca, o salão estava repleto. Na pista, havia espaço suficiente apenas para as pes­soas se mexerem ao compasso da música. O resto do salão estava ocupado por pessoas sentadas em torno de pequenas mesas, separadas por poucos centímetros. Dino aproximou-se de mim com um sorriso no rosto.

— O novo discotecário é muito bom, JeriLee. Mantém todo mundo em constante movimento.

Olhei para o lugar em que o novo discotecário estava trabalhando, numa plataforma ligeiramente acima do chão, diante de dois toca-discos. Era um rapaz preto, esguio, usan­do um traje bizarro: chapéu de safári de abas muitos largas, blusão de camurça feito sob medida, uma calça com a boca imensa. Segurou um fone no ouvido enquanto punha um disco no segundo prato, assinalando a faixa que desejava tocar. Ao terminar, pôs o fone em cima da mesa, olhou para mim e sorriu.

Havia algo vagamente familiar naquele sorriso. Meneei a cabeça em resposta e abri caminho por entre a multidão até a plataforma. Quando parei diante dele, o rapaz voltou a sorrir e disse timidamente:

— Olá, JeriLee.

Não pude disfarçar a surpresa.

— Fred! Fred Lafayette!

O sorriso dele aumentou.

— Você se lembrou!

Estendi-lhe a mão.

— Não posso acreditar, Fred.

— Mas é verdade. Aqui estamos nós, de volta ao lu­gar em que começamos; eu em cima do tablado e você na pista, trabalhando.

— Mas você deixou de cantar! Por quê, Fred?

— Sabe, menina, os cantores suaves ao estilo de Nat King Cole já não estão mais fazendo sucesso. O mundo está dominado pelo rock. — Ele largou finalmente a minha mão e perguntou: — Há quanto tempo foi, JeriLee? Dez anos?

— Mais ou menos isso.

— Eu costumava ler notícias a seu respeito nos jor­nais. Depois, não soube de mais nada. Está divorciada, não é?

Assenti.


— Você está muito bem. E ficou até mais bonita.

— Sinto-me velha.

— Não diga uma coisa dessas. Você ainda é uma criança.

— Eu bem que gostaria que isso fosse verdade. Meu pai morreu.

— Lamento muito. Ele era um ótimo sujeito.

— Obrigada.

— Eu a vi quando vim acertar o meu trabalho aqui e pensei tê-la reconhecido.

— E por que não me procurou?

— Quando indaguei a seu respeito, para confirmar, dis­seram-me que ficasse longe de você, pois era a garota do patrão. — Os olhos dele se fixaram nos meus, inquisitivamente.

— E sou mesmo, Fred. Mas isso não impedia que vies­se procurar-me. Afinal de contas, somos velhos amigos.

Antes que ele pudesse responder, Dino estava ao meu lado, dizendo:

— Vincenzo acaba de chegar. Ele quer vê-la imedia­tamente.

— Já vou. — Virei-me novamente para Fred e disse-lhe: — Espero que goste daqui. Talvez possamos tomar um café juntos qualquer dia desses.

— Claro — respondeu ele, pondo o fone novamente nos ouvidos e começando a colocar outro disco no primeiro prato. — Basta avisar-me, quando quiser.

Tornei a abrir caminho por entre a multidão e saí da discoteca. Subi para os escritórios. Vincent estava muito tenso por algum motivo. Tinha um brilho estranho nos olhos. Quando me falou, a voz estava irritada:

— Que diabo você estava fazendo lá embaixo de mãos dadas com aquele negro?

— Estávamos nos apertando as mãos e não ficando de mãos dadas. Ele é um velho amigo. Salvou minha vida, mui­to tempo atrás.

— Não quero saber o que ele fez ou deixou de fazer! Vou despedir o filho da mãe imediatamente.

— Você é quem manda. E aproveite para me despedir também.

Fred acertara em cheio quando dissera que estávamos de volta ao lugar por onde começáramos. Parecia que eu ia fazê-lo novamente perder o emprego. Mas Vincent acalmou-se subitamente.

— Ele realmente salvou sua vida?

— Salvou. Dois rapazes estavam me surrando e ten­tando violentar-me. Ele apareceu e me salvou, no último instante.

— Quantos anos você tinha nessa ocasião? — pergun­tou Vincent, após algum tempo.

— Dezesseis.

— Então acho que não há problema. Vocês são real­mente apenas velhos amigos.

Não respondi.

— Mude a roupa, JeriLee. Vamos sair.

— E para onde vamos?

— Para o El Mo. Estou para fechar um grande negó­cio. Vamos nos encontrar com algumas pessoas lá.

— O que está pretendendo fazer?

— Vamos acertar os detalhes de um filme. Quanto tempo acha que eu conseguiria ficar nesta espelunca nojenta, sem enlouquecer?

— Sua família sabe alguma coisa sobre isso?

— Não. E estou pouco ligando! Agora, mude logo de roupa e pare de me fazer essas perguntas estúpidas!

Entramos no El Morocco e foi como uma volta à pri­meira vez em que lá estiváramos. Os Paoluzzi estavam na melhor mesa. Só havia uma única diferença. Em vez do advogado italiano, o terceiro homem na mesa era um tipo corpulento, de estatura mediana, que me foi apresentado simplesmente como Frank.

Paoluzzi beijou-me a mão à sua estranha maneira e Car­la Maria comprimiu o rosto contra o meu.

— Já está tudo acertado? — perguntou Vincent, quan­do nos sentamos.

— Você receberá meu cheque de um milhão de dóla­res pela manhã — disse Frank.

— Isso exige um drinque — falou Vincent, com um sorriso. Chamou o maître. — Traga outra garrafa de champanha.

— Já passou da minha hora de ir para a cama. — Frank levantou-se. — É melhor eu me retirar. — Apertou a mão do produtor e de Carla Maria formalmente, depois disse algo em italiano, a que eles reagiram com acenos de cabeça e sorrisos. — Boa noite, jovem — disse-me ele, em seguida. — Foi um prazer conhecê-la.

— O prazer foi meu.

— Boa noite, Vincent. Não se esqueça de dar lembran­ças minhas a seu pai.

— Não esquecerei, tio Frank — disse Vincent, levantando-se. — Boa noite.

Fiquei observando-o caminhar até a porta. Aquele ho­mem irradiava um estranho poder. Até mesmo os maîtres pareciam curvar-se com mais deferência que o habitual. Ele subiu os poucos degraus para o vestíbulo do restaurante. Dois homens vieram ao pequeno bar e foram ao encontro dele. Os três saíram juntos.

— Ao filme — disse Vincent, erguendo sua taça de champanha. Tomou um gole e virou-se para mim. — E você vai participar dele, JeriLee. Vai ficar com o segundo papel mais importante, logo abaixo de Carla Maria.

— Você está brincando. . .

— Não estou, não. É parte do acordo.

— Mas como conseguiu obter o financiamento?

— Muito simples — disse ele, rindo. — Como não consegui arrumar o dinheiro em parte alguma, resolvi eu mesmo entrar com ele.

— E como foi que conseguiu? — Só então é que com­preendi. — Era sobre esse dinheiro que seu tio Frank esta­va falando?

— Dei minha parte no clube como garantia.

— E seu pai sabe disso?

— Que diferença isso faz? Tenho o direito de fazer o que bem quiser com a minha parte.

Fiquei calada. Ele tornou a encher minha taça.

Pare de pensar nisso e tome ó champanha, boneca. Você vai ser uma estrela.

Passava um pouco das três horas da madrugada quando saímos do El Morocco. Vincent empurrou-me na direção da limusine, dizendo:

— Vá para o hotel com eles. Vou até o clube, para ver se está tudo correndo bem, e depois irei encontrar-me com vocês.

— Estou exausta. Eu preferia ir para casa, a fim de dormir um pouco, se não houver problemas.

Ele estava sorrindo, mas seus olhos indicavam clara­mente que estava irritado.

— Claro que há problema. Vá com eles. Tenho que acertar algumas coisas com Dino e precisa ser esta noite, de qualquer maneira.

Eu sabia que era melhor não discutir quando ele estava daquele jeito. Entrei no carro. Ele me acenou e começou a se afastar, a pé, enquanto o carro avançava pela First Avenue.

Carla Maria sorriu-me.

— Fico contente por ver que finalmente você vai ficar conosco.

— Eu também. É como um sonho que se transforma em realidade, fazer um filme com vocês dois.

Ela se inclinou por cima do marido e afagou-me à mão.

— Vocês, americanas, são muito engraçadas. Quando penso nesta noite. . . — Ela riu. Ao ver minha expressão perplexa, perguntou: — Vincent não lhe contou que vamos passar a noite juntos?

Sacudi a cabeça.

— Ele disse que iria encontrar-se conosco mais tarde, no hotel.

Ela disse algo ao marido em italiano e depois voltou a falar-me:

— Vamos telefonar para Vincent do hotel e acertare­mos tudo.

— Não — disse eu, estendendo a mão e batendo no ombro do. motorista. — Poderia parar o carro aqui, por favor?

O carro estacionou junto ao meio-fio. Nenhum dos dois disse nada quando eu saltei. Fiz sinal para um táxi e fui para o apartamento que partilhava com Vincent.

Eu tinha acabado de me despir quando ele chegou, furioso. Parou na porta do quarto, pondo-se a berrar:

— Sua imbecil! Como é que pôde fazer uma coisa dessas, depois de todo o trabalho que tive para convencê-los a concordar com a sua participação no filme?

— Você deveria ter me dito o que tencionava fazer.

— Pois agora que você já sabe, vista-se e vá para o hotel!

— Não. Eu já lhe disse uma vez que a minha jogada não é essa.

— Acha melhor ficar vagando pelas ruas implorando emprego e morrendo de fome?

Não respondi.

— Lembra-se de como estava no dia em que apareceu no clube? Estava nas últimas, quando a tirei das ruas. E agora está querendo cuspir no prato em que comeu!

— Não estou fazendo nada disso.

— Está, sim! O negócio todo pode ir por água abaixo só porque você não está querendo cooperar!

— O milhão de dólares que você arrumou para Paoluzzi é que é importante, não eu.

— Você também faz parte do negócio!

— Você não tinha o direito de prometer tal coisa sem falar nada comigo.

— E também não tinha,o direito de comprometer o dinheiro. Mas acontece que o fiz. Agora, se você não quiser cooperar, eu acabarei morto em alguma sarjeta!

Fitei-o, espantada com tal declaração. Ele desabou su­bitamente numa cadeira, cobrindo o rosto com as mãos. De­pois de um momento, baixou as mãos e olhou para mim. Havia lágrimas nos seus olhos.

— A única coisa que minha família respeita é o su­cesso. Se o filme der certo, estará tudo bem.

Continuei calada.

— Por favor. . . Só esta vez! Depois, você pode fazer o que bem quiser. É a única chance que eu tenho de escapar deles!

Não me mexi.

— Eles vão acabar comigo, se o negócio não der certo. Há anos que meu pai e tio Frank não se falam. Não posso deixar que tio Frank fique com a minha parte no clube.

— Já deixou.

— Se o filme for produzido e fizer sucesso, isso não acontecerá. Tio Frank prometeu não contar nada, até o filme ficar pronto e ele receber o seu dinheiro de volta, com juros.

Ele voltou a esconder o rosto atrás das mãos e começou a chorar. Olhei-o durante um longo minuto. Depois, vesti-me novamente. Ele me deteve quando me encaminhei para a porta, e então inclinou-se e beijou meus lábios frios.

— Muito obrigado, JeriLee. Não se esqueça de que eu a amo imensamente.

Virei-me e saí do apartamento. Naquele momento, eu já sabia que nunca mais voltaria.

Dez minutos depois, estava na suíte dos Paoluzzi. Carla Maria abriu-me a porta com um sorriso.

— Não sabe como estou contente por ter vindo — disse-me ela.

Desatei a rir. Não era apenas pelo inglês que ela falava, mas também porque toda a história começava a parecer ter­rivelmente ridícula. Acendi um cigarro e tomei rapidamente umas taças de champanha.

Quando fomos para o quarto, eu estava alta a ponto de nada mais me importar. Para minha surpresa, comecei até a gostar. Nunca tinha imaginado que as carícias de uma mulher pudessem ser tão suaves e excitantes. E os truques que Carla Maria sabia fazer com a língua reduziam a um simples brinquedo de criança tudo o que experimentara an­tes. Era como se todo um mundo novo se abrisse à minha frente.

E quando acordei pela manhã, ao lado dela, vendo como era bonita, compreendi que tinha adorado cada momento.


Capítulo vinte e três

Esperei até depois do meio-dia, hora em que Vincent deveria estar no clube, para verificar o movimento da noite anterior. Só então voltei ao apartamento para pegar minhas roupas. Fui direto para o quarto. Eu me enganara. Ele esta­va no quarto, ainda dormindo.

Comecei a sair, o mais silenciosamente possível. Mas ele acordou e sentou-se na cama, esfregando os olhos.

— Bom dia — disse ele, sorrindo.

Não respondi.

— Ora, por que está assim? Não foi tão ruim como pensava, não é mesmo?

— Não.

Ele agora estava completamente desperto.



— Ela a beijou toda?

— Beijou.

— E você a beijou também?

— Beijei, — Senti que ele estava ficando excitado.

— E o que Gino fez durante todo o tempo em que vo­cês duas estavam na cama?

— Em determinado momento, ele entrou no quarto e ficou assistindo.

— Ele trepou com ela?

— Não sei.

— E com você?

— Também não sei. Lembro-me que foi com uma de nós, mas não posso dizer com qual. .

— E o que ele fez depois?

— Voltou para o quarto e dormiu.

— E o que vocês duas ficaram fazendo?

— Continuamos na cama e não paramos um momento sequer.

— Oh, Deus! — Ele se levantou. Verifiquei então que acertara em cheio. Ele estava mesmo excitado. — Eu gostaria de ter visto tudo. Deve ter sido um show.

Eu não disse nada.

— Vamos trepar.

— Não! — Respirei fundo antes de acrescentar: — Não agüento mais nada.

— Há sempre tempo para mais uma trepada.

— Não. — Dirigi-me ao guarda-roupa e apanhei minhas malas.

— E o que veio fazer aqui? — perguntou ele.

— Vim pegar as minhas coisas.

— Para quê? — Ele parecia genuinamente espantado.

— Porque vou embora. Por que diabo acha que eu iria pegar minhas coisas?

— Ora, pelo amor de Deus! Não precisa ficar desse jeito. Você mesma confessou que gostou.

— O que não tem nada a ver com minha decisão. Não gosto de mentiras e você mentiu para mim.

— Ora, boneca, deixe disso. É um negócio da maior importância, e você poderia ter estragado tudo, se não fosse.

— Na verdade, está querendo dizer que eu poderia ter estragado o negócio para você. Nunca houve nada para mim no acordo.

Ficou me olhando, sem dizer nada.

— Aquela história que você contou ontem à noite sobre a minha participação no filme não passa de pura in­venção. Carla Maria disse-me esta manhã que não tinha a menor idéia sobre o que você tinha falado. Não há nenhum papel para mim no filme. Por que não me contou a verdade?

— Eu não estava mentindo sobre a possível reação da minha família. Meu pai poderia. . . — Ele parou de falar, ao notar minha expressão.

— Estava mentindo sobre isso também. Carla Maria contou-me que Frank e seu pai são sócios no negócio, que cada um está aplicando meio milhão de dólares no filme.

— Ora, querida, já acabou. — Aproximou-se de mim. — E tudo deu certo. Você sabe como eu a amo!

— Tem razão. Já acabou. Por isso, pode parar de mentir para mim. — Comecei a tirar minhas roupas do ar­mário e a metê-las na mala. — Deixe eu fazer as malas em paz.

— Para onde você vai?

— Para o meu apartamento.

— Vai mesmo voltar para aquela pocilga?

— Ficaria mais contente se eu lhe dissesse que estou indo para a Itália com Carla Maria?

— Eu não acreditaria.

Abri a bolsa e entreguei-lhe a passagem de avião.

— Será que isso o convence?

— Essa não! Sou mesmo um filho da puta. . .

— Ora, ora, está finalmente começando a dizer a ver­dade — comentei, pegando novamente a passagem.

—- E pensar que você se transformou numa lésbica — disse ele, sacudindo a cabeça.

Não pude deixar de rir.

— Garotos pequenos não deviam brincar com fogo, pois podem queimar os dedos. Mas não precisa ficar preo­cupado. Eu já disse a Carla Maria que não vou. Não tenciono virar uma prostituta, para ninguém.

— Passou por momentos difíceis — falou ele, visivel­mente aliviado. — Por que não se deita e descansa um pouco? Pode até tirar a noite de folga.

—- É exatamente o que vou fazer, assim que chegar ao meu apartamento. E não se preocupe em me dar esta noite de folga, pois acabei de pedir demissão do emprego.

— Não seja estúpida. Podemos continuar amigos.

— Talvez você possa, mas eu não.

-— E de que você vai viver? — perguntou ele, alguns minutos depois.

— Economizei algum dinheiro. E tenho uma peça para terminar. Não tenho tido muito tempo para trabalhar nela, ultimamente.

— Você não tem tanto dinheiro assim.

— Quando o dinheiro acabar, encontrarei outro em­prego. Mas não vou parar de escrever. Nunca mais.

Duas noites depois, a campainha da porta tocou. Sai da frente da máquina de escrever e fui abrir a porta.

— Olá — disse Fred. — Passei por aqui e resolvi ver se você estava em casa.

— Como foi que descobriu meu endereço?

— A garota lá do escritório é que me deu.

— Você não deveria estar trabalhando a esta hora?

— Fui despedido — disse ele, com um sorriso. — E espero que não tenha sido pela mesma razão por que a des­pediram.

— Não fui despedida. Pedi demissão. — Só então compreendi que ele ainda estava parado no corredor. — Entre, Fred.

Percebi os olhos dele examinando a sala.

— Desculpe a confusão, mas é que eu estava traba­lhando.

— Não quero perturbá-la.

— Não, está tudo bem. Foi bom que você viesse. Eu estava precisando de um descanso, e tenho vinho branco na geladeira.

Disse-lhe para tirar a jaqueta, mas ele não demonstrou intenção de fazê-lo.

— Se ainda não jantou, poderíamos sair para comer alguma coisa.

— Acaba de me convencer — falei, com um sorriso. — Dê-me só um minuto para mudar de roupa.

— Não ponha nada muito elegante. Tenho um gosto de homem rico, mas o bolso de homem pobre.

— Posso ir de blue jeans?

— Seria ótimo.

Vesti os jeans e uma blusa limpa, por trás da porta do armário.

— Está bom assim, Fred?

— Está ótimo.

— Agora, se me der mais um minuto para escovar os cabelos e arrumar o rosto, poderemos ir.

Dez minutos depois, saí do banheiro e encontrei-o ain­da parado no lugar em que o deixara.

— Você poderia ao menos ter se sentado, Fred.

— Nem pensei nisso. Estava me sentindo feliz em pé mesmo.

O ar frio da noite estava bastante agradável. Eu pas­sara o dia inteiro trancada no apartamento.

— Conhece algum bom restaurante chinês por aqui, JeriLee?

— Existe um na 72nd Street, perto da Broadway. Po­demos ir até lá a pé.

Conversamos durante todo o caminho e durante a re­feição, de croquete de ovo, costeleta de porco, sopa e la­gosta cantonesa com arroz frito. De volta ao meu aparta­mento, ele parou na porta do prédio.

— Ainda tenho um pouco de vinho na geladeira, Fred.

— Não quero incomodá-la mais.

— Pelo contrário, está me dando um imenso prazer. Vamos subir.

Eram duas horas da madrugada quando Fred finalmente se levantou.

— É melhor eu deixá-la dormir um pouco. Já estou me sentindo terrivelmente culpado por tê-la mantido tanto tempo longe do trabalho.

— Foi uma noite maravilhosa — disse eu, abrindo a porta.

— Obrigado, JeriLee.

Fiquei na ponta dos pés para dar-lhe um beijo de boa-noite. Os lábios dele encostaram nos meus, gentilmente. Foi então que, inesperadamente, alguma coisa aconteceu. Um calor intenso nos envolveu e lancei-me nos braços dele. Pu­xei-o de volta para dentro do apartamento e fechei a porta com o pé.

Mais tarde, muito mais tarde, quando estávamos nos braços um do outro, sua voz suave sussurrou em meu ouvido:

— Sabe, JeriLee, eu sempre a amei. Desde aquele dia , em que nos conhecemos.

— Não precisa dizer isso, Fred, se não é o que está sentindo. Já me sinto feliz o bastante só de estar em sua companhia.

— Mas estou dizendo a verdade, JeriLee.

— Não precisa mentir para mim. Já estou cansada de ouvir as pessoas dizendo coisas que não sentem.

— Não estou mentindo, JeriLee — disse ele, pacien­temente. — Eu a amei naquela ocasião e continuo a amá-la agora. E, de certa forma, acho que sempre a amarei.

Senti que ele estava dizendo a verdade e comecei a chorar. Dois dias depois, Fred mudou-se para o meu apar­tamento.



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