Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo


LIVRO TRÊS Qualquer cidade antiga



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LIVRO TRÊS
Qualquer cidade antiga
Capítulo um

O sonho estava presente. Aliás, estava sempre presente. A garotinha no alto da escada. . . Mas, na fração de segundo entre o sono e o despertar, o sonho se foi. JeriLee ouviu o murmúrio suave de uma canção, do outro lado da porta fe­chada do quarto, e virou-se preguiçosamente. Uma dor inten­sa, como a dor de cabeça de uma ressaca, dilacerou-lhe as têmporas.

Era o efeito posterior da anestesia, como o médico lhe avisara que poderia sentir.

Depois de um momento, a dor cessou e ela saiu da cama. Foi até o banheiro, engoliu duas cápsulas de Bufferin e sentou-se no vaso. Sentia-se congestionada e inchada, como se precisasse evacuar. Alguns minutos depois, como nada acontecesse, ela desistiu e resolveu simplesmente mudar o tampão.

Olhou-o com curiosidade, antes de jogá-lo no vaso. Não estava tão ensangüentado como pensava que estaria, não mais que numa menstruação comum. Até aquele momento, pelo menos, o médico acertara em todas as suas previsões.

A voz gentil de Angela soou do outro lado da porta fechada do banheiro:

— Você está bem, JeriLee?

— Estou, sim.

— O café está pronto. E já terei preparado alguma coisa para você comer quando sair do banheiro.

— Obrigada, Angela. Ainda vou demorar alguns mi­nutos. Quero tomar um banho de chuveiro.

— Está certo. Não há pressa alguma.

Ao entrar no boxe do chuveiro, JeriLee pensou que já fazia mais de um mês que Angela não aparecia. E agora, entre todos os dias, ela fora escolher justamente aquele.

Ao sair do banheiro, JeriLee encontrou café e suco de laranja à sua espera, na mesinha-de-cabeceira. Os lençóis estavam frios e duros, e JeriLee compreendeu que Angela os mudara, enquanto ela estava no banheiro. JeriLee empilhou os travesseiros às suas costas, tomou o copo de suco de la­ranja e estava se servindo da primeira xícara de café quando Angela voltou, trazendo uma bandeja com ovos mexidos, bacon e torradas.

— Eu não sabia que estava com tanta fome, Angela.

Os olhos gentis de Angela sorriram.

— Pois então coma tudo. Se quiser mais, posso ir pre­parar.

Angela sentou-se na cadeira ao lado da cama e serviu-se de uma xícara de café.

— Não vai comer nada, Angela?

— Quero apenas tomar café — disse ela, sacudindo a cabeça.

— Por que decidiu vir até aqui hoje?

— Achei que você poderia precisar de ajuda.

— Você soube?

— Todo mundo sabe. — Angela assentiu. — George não sabe ficar de boca fechada, e seu agente também não é muito melhor.

Não havia segredos em parte alguma, pensou JeriLee, comendo mais uma garfada dos ovos mexidos.

— Não foi trabalhar hoje, Angela?

— Não. Já gravamos todos os espetáculos para a próxi­ma semana. Só terei que voltar ao estúdio na segunda-feira.

Angela era a ingênua de um espetáculo diário de tele­visão, As estrelas nunca caem. Todas as tardes, às duas horas, as donas-de-casa do país inteiro ligavam seus recep­tores para assistir ao programa. Era provavelmente o melo­drama de maior sucesso da história. Nos cinco anos em que Angela fazia o programa, era o de maior audiência em seu horário.

JeriLee limpou o prato com um pedaço de torrada.

— Estava delicioso, Angela.

— A comida sempre ajuda.

— Minha mãe sempre disse isso — falou JeriLee, com um sorriso.

Angela pegou a bandeja e encaminhou-se para a porta.

— Se quiser mais alguma coisa, é só me chamar.

— Angela. . .

A moça olhou para trás.

— Obrigada, Angela.

Os olhos de Angela ficaram marejados de lágrimas, e ela saiu rapidamente do quarto, fechando a porta com o pé. JeriLee ficou olhando para a porta fechada. Angela gostava dela, preocupava-se com ela. Ela sempre soubera disso. E gostava também de Angela. A diferença era que ela amava Angela, ao passo que Angela estava apaixonada por ela.

Angela, alta, esguia, bonita, tão fria por fora, mas tão assustada e angustiada por dentro. . . Por que aquilo tivera que acontecer? Deveria ter sido muito mais fácil para ela. Mas não havia coisa alguma que lhe trouxesse uma satisfação verdadeira. A procura de amor que ela empreendia era in­terminável e não retribuída.

Não obstante, a busca de Angela devia ter começado em algum lugar. Assim como a sua busca também devia ter começado em algum lugar. Mas era difícil determinar exata­mente onde. Somos a soma total de nossas experiências, até determinado momento. E esse momento está sempre mu­dando.

Para JeriLee, tudo começara em algum lugar entre Port Glare, Nova York e Los Angeles, e em todos os pontos in­termediários, como Pittsburgh, Gary, Chicago, Des Moines, Phoenix, Las Vegas. Ela estivera em todos esses lugares. E em todos eles se sentira desesperada, quase que a caminho do hospício.

Era estranho que tudo aquilo lhe voltasse agora aos pensamentos. JeriLee sentiu um calafrio de medo. Será que isso significava que ela estava retornando àquele velho mun­do povoado de medo, onde cada pessoa era sempre uma es­tranha?

Não, pensou ela. Não iria voltar. As coisas nunca mais voltariam a ser assim. Nunca mais ela se deixaria ser usada, por ninguém, por nenhum motivo, nem mesmo por amor. Daria apenas o que pudesse dar. Muitas vezes ela ten­tara ser o que os outros queriam que fosse. E não dera cer­to. Não podia ser todas as coisas que todas as pessoas dese­javam. Não podia nem mesmo ser todas as coisas que uma única pessoa desejasse. E só depois de ter compreendido isso e de descobrir suas próprias limitações é que ela começara a aceitar a si mesma e a perder um pouco de seu sentimento de culpa.

Sabia que não podia correr uma milha em quatro mi­nutos nem alçar vôo como uma gaivota, à brisa da manhã. Houvera manhãs em que o dia à sua frente parecia estar repleto de desastres. Mas sempre haveria dias assim. Se ela os encarasse não como sinais de fracasso e fraqueza, mas sim como parte de sua humanidade básica e de seu direito de ser imperfeita, então nunca mais teria que sentir medo.

Fora essa a única coisa que ela aprendera, e ajudava bastante. Pelo menos, agora podia ficar sozinha, sem pre­cisar agarrar-se a algum ponto de apoio. Apesar disso, seria bom se houvesse alguém. Não era nada agradável estar so­zinha.

Acendeu um cigarro e recostou-se nos travesseiros. Era justamente esse o problema. Solidão. Sempre, para todos, homens e mulheres. Quando tudo terminava e os outros iam embora, voltava-se sempre a ficar só. Mas ela sabia que, além da janela, havia um mundo repleto de pessoas.

O que fora mesmo que Angela lhe dissera numa ma­nhã de domingo, quando ambas estavam deitadas na cama, com os jornais espalhados entre as duas?

— Você nunca parece querer coisa alguma, JeriLee. Nunca pede a ninguém para fazer coisa alguma por você, nem mesmo para lhe trazer uma xícara de café. Apenas uma vez, eu gostaria que me pedisse para fazer algo por você. Pelo menos assim, eu me sentiria necessária.

— É isso o que você quer. . . sentir-se necessária?

— De que outra maneira posso ter certeza de que re­presento alguma coisa para você? — perguntou Angela, assentindo.

— Não é suficiente estarmos juntas, termos passado a noite inteira fazendo amor? Será que isso não significa nada?

— Isso é sexo. Sei que não sou a única com quem você vai para a cama e não há nada que faça comigo que não possa fazer também com as outras pessoas. Mas eu quero algo mais, quero ser importante para você.

— Você se sentiria melhor se eu não conseguisse fazer coisa alguma sem você?

Angela não respondeu. Subitamente, JeriLee ficou fu­riosa, mais consigo mesma do que com Angela.

— Por acaso menti para você? Não lhe disse exata­mente como seriam as coisas entre nós?

Angela assentiu, com uma expressão desolada, balbuciando:

— Disse, JeriLee.

— O que mais então está querendo de mim?

— Quero que me ame.

— Não posso amá-la da maneira como você gostaria. Posso apenas amá-la a meu jeito.

— Não fique zangada comigo, JeriLee.

Ela caminhou até a janela e olhou para o sol brilhante da Califórnia. Lá embaixo, o tráfego na Strip estava come­çando a se intensificar.

— Há um mundo inteiro lá fora, Angela. Em algum lugar, há alguém que irá amá-la da maneira como você de­seja ser amada. Tudo o que você precisa fazer é dar uma oportunidade a esse mundo.

Angela veio também até a janela e ficou parada ao lado dela.

— Será que também existe lá fora alguém para você?

JeriLee sentiu-se invadida por uma terrível angústia, pela consciência do sofrimento de Angela e do seu próprio. Era como se fossem irmãs, mais do que irmãs. Subitamente, elas se abraçaram e suas lágrimas se misturaram.

— Espero que haja mesmo alguém para mim, Angela. Eu detestaria pensar que não há.

Depois, as duas voltaram para a cama e fizeram amor. E na suave agonia do sexo, redescobriram como eram iguais e ao mesmo tempo tão separadas. Ao terminar aquele do­mingo, ambas sabiam que o caso entre elas terminara, muito embora ainda houvesse de permanecer um resíduo de amor.

Na manhã seguinte, quando Angela foi trabalhar, levou uma valise com as suas roupas. Mas nunca devolveu a chave do apartamento de JeriLee. E foi só então que ela compreen­deu como Angela entrara no apartamento, naquela manhã, a primeira depois que voltara do hospital. Mas estava cansada demais para pensar nisso agora. Sua pélvis latejava de dor, uma recordação do dia anterior.

O telefone tocou e ela atendeu.

— Como está se sentindo? — perguntou o médico.

— Muito bem. A dor acaba de recomeçar, mas não tive uma hemorragia tão grande quanto receava.

— Vai ter uma pequena hemorragia, mas não precisa ficar assustada. — A voz dele era impessoal. — Continue a tomar aspirina para aliviar a dor. Fique na cama pelo máxi­mo de tempo possível. Se precisar de alguém para cuidar de você, posso mandar-lhe uma enfermeira.

— Não é necessário. Uma amiga minha está aqui, fazendo-me companhia.

— Ótimo. Passarei por aí esta tarde, ao sair do hos­pital.

— Obrigada.

Um momento depois, a porta se abriu e Angela per­guntou:

— Está tudo bem?

— Está, sim. Era o médico. Ele vai passar aqui esta tarde.

— Posso ajudar em alguma coisa?

— Não preciso de mais nada, Angela. De qualquer for­ma, obrigada. O médico acabou de me dizer que devo con­tinuar na cama e procurar descansar. — JeriLee acomodou-se nos travesseiros e acrescentou: — Acho que vou tentar dor­mir um pouco.

JeriLee ficou olhando para a porta fechada. Qual seria o sentimento mais forte: precisar de alguém ou sentir-se ne­cessária? Ela não sabia a resposta. E provavelmente jamais a saberia. Subitamente, recordou-se do que Fred lhe dissera havia muitos anos:

— Nós somos feitos um para o outro, meu bem, por­que, neste momento, estamos precisando um do outro.

Ela concordara com ele na ocasião. Mas nenhum dos dois soubera realmente quais eram as suas necessidades. E, ao final, JeriLee havia descoberto que estava simplesmente se dando.


Capítulo dois

O matraquear da máquina de escrever cessou. Ela ficou sentada diante da pequena escrivaninha, olhando para as pa­lavras no papel, o som delas ainda ecoando em sua mente:

"Eu o amo. Eu não o amo. Como diabo posso saber como me sinto?"

Ela se levantou e foi até a janela. A rua estava escura e deserta, exceto por um caminhão de lixo que recolhia os refugos do restaurante do outro lado da rua. O rádio-relógio informava que eram duas e meia da madrugada. Ela voltou para a mesa, deu uma tragada profunda no cigarro e apagou-o no cinzeiro já transbordando de guimbas. Sem se sentar, ela bateu nas teclas, formando a palavra final: pano.

Quase que com raiva, arrancou o papel da máquina de escrever e colocou-o na caixa, por cima das outras páginas impecavelmente datilografadas. Estava terminado.

A raiva momentânea passou e ela sentia-se agora esgo­tada e vazia. O amanhã, com as realidades que ela fora pro­telando dia a dia, enquanto se concentrava na peça, assoma­va agora à sua frente. Amanhã ela teria que pensar em dinheiro, teria que pensar em como pagar as contas. Ama­nhã, ela teria que ir além de suas próprias muralhas, teria que voltar ao mundo dos homens, voltar ao mercado onde emitiriam um julgamento sobre sua obra.

Sentiu o nervosismo crescer por dentro e começou a tremer. De que você tem medo, JeriLee?, perguntou a si mesma, Não fez nada de errado. Esteve trabalhando. Tinha uma razão para não sair do casulo.

Mas as mãos continuavam a tremer, a tal ponto que não conseguia mantê-las juntas. Foi até o banheiro e pegou o vidro de Valium no armário de remédios, tomando uma cápsula azul de dez miligramas, que engoliu com a ajuda de um gole d'água.

Olhou novamente para o relógio. Duas e trinta e cinco.

Fred ainda demoraria uma hora e meia para voltar para casa. Ele conseguira arrumar uma vaga num bar da West 49th Street, para o fim de semana, e não ficaria livre antes das três horas. JeriLee sentiu que a tensão começava a desapa­recer da boca do estômago. Estava se sentindo melhor. Co­meçava a recuperar a confiança.

Estava feito. Ela conseguira acabar a peça. Amanhã, ela poderia retomar o contato com a vida. Não havia nada que devesse temer a não ser o que havia em sua própria cabeça.

A primeira providência a tomar seria levar a peça para Fannon. Ele prometera que a leria. A providência seguinte seria ir a um salão de beleza. Não! Ela iria primeiro ao salão de beleza e depois é que iria procurar Fannon. Queria estar com a melhor aparência possível, quando entrasse no escri­tório dele.

Começou a separar os originais das cópias a carbono. Em poucos minutos, já tinha tudo impecavelmente arruma­do, cada cópia dentro de sua pasta. O trabalho não estava nada mau. O serviço de datilografia não poderia ter feito melhor. . . e cobrando cem dólares por cinco cópias. Rapi­damente, ela empilhou as cópias na prateleira, pôs a capa na máquina de escrever e levou-a para o armário. A sala pare­cia agora estranhamente vazia. Era a primeira vez, em seis meses, que a máquina de escrever não era o objeto domi­nante.

Sentiu-se invadida por uma sensação de júbilo. Aquele era um momento importante. Uma ocasião para comemorar. Era uma noite para champanha e caviar. Ela abriu o armá­rio. Tinha chablis Gallo e amendoins Planter. Isso também não era nada mau.

Pôs a garrafa de vinho no congelador, estendeu uma toalha sobre a mesinha, colocou duas velas e despejou os amendoins numa tigela de vidro. Arrumou rapidamente o resto da sala, até mesmo esvaziando a cesta de todas as pá­ginas refugadas da peça. Não restava agora o menor indício do trabalho. Acendeu as velas e apagou a luz, dando um passo para trás, a fim de contemplar o efeito. O clarão ama­relo e bruxuleante das velas enchia a sala de aconchego.

Satisfeita, foi para o banheiro e tirou a calça comprida e a blusa. Ainda tinha tempo para um banho de chuveiro e para ajeitar os cabelos, antes que Fred voltasse. Afinal de contas, era uma noite especial, e ela queria estar com uma aparência especial.

Apesar dos bravos esforços dos aparelhos de ar condi­cionado, o ar continuava impregnado pelo cheiro nauseante de fumaça de cigarro, de cerveja e suor. Fred olhou para o relógio. Quinze para as três. Só faltavam quinze minutos para ele sair. Olhou para o teclado branco do piano. Não havia a menor emoção em tocar e cantar daquele jeito. Nin­guém escutava. E mesmo que alguém quisesse escutar, não conseguiria, com tanto barulho.

De seu estrado, no fundo da sala, ele olhou para o bar. As garotas estavam bastante animadas. Era uma boa noite. Talvez cinqüenta por cento dos clientes estivessem de uni­forme. Agora, Fred podia compreender por que os donos da casa se esforçavam tanto em não infringir nenhuma regra, a fim de não deixar que o estabelecimento entrasse na lista negra das Forças Armadas. Sem os soldados, não haveria negócios.

— Fred. . .

Ele virou-se e viu Licia parada a seu lado. Ela era uma garota alta, cor de mel, com uma peruca lustrosa, ao melhor estilo Nancy Wilson. Oficiosamente, era a chefe das garotas do bar. Tinha um ar tranqüilo, que não combinava com a dureza interior. Por qualquer que fosse a razão, o fato é que ninguém se metia com ela, nem as outras garotas nem os fregueses. Ela conversava com todos, tomava drinques com os fregueses. Mas quando o bar fechava, sempre vol­tava para casa sozinha.

— Tem algum pedido para o pianista? — perguntou Fred, batendo de leve numa tecla.

— Tenho, sim. O homem quer que você fique até as quatro horas.

— Mas que droga! — disse Fred, continuando a tocar. — Estou cansado. Há cinco horas que estou batucando neste piano.

— Vai ganhar em dobro pela hora extra.

Seriam mais dez dólares. Fred estava recebendo vinte e cinco dólares pelas cinco horas de trabalho.

— Por que o homem está querendo que eu continue?

— Olhe para essa multidão. Ele sabe que todos vão pensar que a noite acabou, assim que você sair do piano. E começarão a ir embora.

Fred perguntou-se se JeriLee estaria acordada, à sua espera. Provavelmente ela já fora para a cama e estava dor­mindo.

— Está certo — disse ele, finalmente.

Os dez dólares extras vinham a calhar. Era o primeiro bom trabalho que ele conseguia, em mais de três semanas.

JeriLee olhou para o relógio. Já passava das três e meia. Fred já deveria ter chegado. Ela começou a sentir a tensão interior ressurgir.

Isso era uma estupidez. Ela tinha que aprender a con­trolar-se melhor. Não havia motivo nenhum para ficar ner­vosa. Já acabara a peça.

Um cigarro ajudaria, pensou. Foi buscar um e acen­deu-o. Deu uma tragada funda e sentiu a tensão diminuir. Estava se sentindo melhor. Olhou novamente para o relógio. Três e quarenta e cinco. Não era tão tarde assim. . .

Subitamente, ela sentiu sede. Tirou o vinho da gela­deira e encheu um copo. Bebeu. Sentiu-se logo um pouco alta. Fred ficaria surpreso quando chegasse e a visse daquele jeito.

Geralmente, ela estava dormindo, irrequieta, ou curva­da sobre a máquina de escrever, muito tensa. Não devia ser nada agradável para ele, mas Fred só se queixara uma úni­ca vez.

— Olhe, meu bem, parece que você se esqueceu de como se divertir. Não pode viver permanentemente nessa tensão.

Fora um dia terrível, e JeriLee se pusera a gritar:

— Como diabo você pode saber como me sinto? Arru­ma um emprego, ou não arruma nada, vai levando a vida de qualquer maneira. Não precisa arrancar nada de dentro de si, sem saber se vale ou não alguma coisa, se é bom ou ruim, certo ou errado. Vai trabalhar, se encontra emprego. Se não tem nada em vista, fica sentado aqui o dia inteiro, tomando cerveja, fumando e olhando para mim. Vá para o diabo! Não tem que se angustiar com coisa alguma!

Ele a fitara por um longo momento, em silêncio, de­pois fora para o banheiro e trancara a porta. Pouco depois, ela ouvira o barulho do chuveiro. Quando Fred finalmente saiu do banheiro, ela já recuperara a calma e sentia-se arre­pendida.

— Desculpe. Eu não tinha a menor intenção de gritar com você daquele jeito.

Ele assentira, sem dizer nada, indo para o quarto e voltando um instante depois com um cigarro aceso.

— Sei Como deve estar se sentindo, JeriLee. Mas tenho certeza de que estará tudo bem quando terminar a peça.

Pois agora a peça estava terminada e ela se sentia bem. Deu outra tragada e tomou mais um gole de vinho. Sentia-bem e liberta pela primeira vez em muitos meses. Sen­tiu um calor se espalhar por dentro dela e tocou-se, muito excitada. Estava toda molhada. Isso não acontecia há muito tempo. Oh, Deus, como ela estava excitada! Não podia es­perar o momento do retorno de Fred. Ele não sabia, mas iria ter uma das noites mais sensacionais de sua vida.

Capítulo três

O bar fechou às quatro horas. Menos de dez minutos depois, todos os fregueses e a maioria das garotas já tinham ido embora. Os atendentes não perdiam tempo. Quando al­gum freguês dava sinais de que pretendia demorar-se com seu drinque, descobria subitamente que o copo desaparecera de cima do balcão.

Cansado, Fred reuniu suas músicas e colocou-as na pas­ta de couro, seguindo então para a caixa registradora junto à porta, a fim de receber seu pagamento. O caixa estava de costas para ele, conferindo a féria. Fred ficou esperando pa­cientemente, até que ele terminasse. Sabia que era melhor não interromper o homem.

Licia apareceu subitamente ao lado dele.

— O homem quer lhe pagar um drinque.

— Ótimo. Vou querer um bourbon com água — disse Fred, profundamente grato.

— Jack Daniel's com água — gritou Licia.. — O uís­que do bar não vale nada. Metade é água.

— Obrigado.

O homem da caixa pôs o drinque diante dele e voltou a contar a féria. Fred tomou um gole e murmurou: —- Muito bom. . .

— O homem gosta de você. Diz que você conhece a sua música direitinho.

— Agradeça a ele por mim. — Fred sentiu-se grato. Fazia muito tempo que ninguém lhe dizia nada elogioso so­bre sua música.

— Quais são os seus planos? — perguntou Licia, abruptamente.

— Como assim?

— Em matéria de trabalho.

— Descobrir algum outro bar onde possa tocar duran­te a noite.

— Não tem nenhum emprego durante o dia?

— Não. Vivo apenas da minha música. Não sei fazer mais nada.

— E o que faz durante o dia inteiro?

— Fico procurando um lugar onde possa tocar de noi­te. E trabalho também em algumas canções.

— Você compõe?

Fred assentiu.

— O único problema é que não consigo encontrar nin­guém disposto a ouvir minhas canções. As gravadoras estão absorvidas pelos figurões, e em matéria de novidades que­rem saber apenas de rock. Basta aparecer algum garoto ves­tido de hippie, barbado e com uma guitarra nas mãos, que eles ficam logo querendo contratá-lo.

— Talvez o homem possa ajudá-lo. Ele tem bons con­tatos com algumas companhias — disse ela. — Espere aqui um instante, enquanto vou falar com ele.

Fred ficou observando-a encaminhar-se para o fundo do bar e desaparecer no escritório, entre o banheiro dos homens e o das mulheres. Tinha certeza de que nada resultaria da­quilo, mas pelo menos estava agradecido pelo interesse de Licia. Durante o tempo todo em que vivia com JeriLee, o assunto das composições dele nunca fora abordado. Ela es­tava absorvida demais em sua peça. Não tinha lugar em seus pensamentos para mais nada.

Ao voltar, Licia disse-lhe:

— Ele mandou dizer que tem um piano no apartamen­to dele. Se quiser ir até lá, terá o maior prazer em escutar suas canções.

— Agora? Mas já passa de quatro horas da madrugada.

— O homem é da noite. Para ele, isso é o meio da tarde. Ele não sai da cama antes das sete da noite.

Fred pensou por um momento. Certamente, àquela al­tura, JeriLee devia estar profundamente adormecida. Ele realmente não levava muita fé naquela audição, mas alguma chance, por menor que fosse, era melhor do que nenhuma.

— Está certo — disse então.

— Dê trinta e cinco dólares a Fred — disse Licia.

O homem da caixa contou rapidamente o dinheiro. Fred guardou-o no bolso, dizendo:

— Obrigado.

—- Vamos indo — falou Licia. — Meu carro está esta­cionado na garagem de Radio City. O homem me disse para levá-lo até o apartamento dele.

O carro era um Cadillac conversível, prateado, com estofamento de couro preto e capota também preta. Fred afun­dou-se no banco ao lado dela e respirou fundo. Havia duas coisas que sempre o deixavam excitado: o cheiro de um carro novo ou o de uma garota nova. De certa forma, as duas coisas sempre pareciam surgir juntas em sua cabeça. E aquele carro cheirava a novo.

Ela ligou o toca-fitas quando entraram na 49th Street. Era Nat King Cole cantando Too young, um dos seus maio­res sucessos.



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