Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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— Nunca haverá outro igual a King — comentou Fred.

— King está morto — disse Licia, calmamente.

Ela entrou na Avenue of the Américas, calculando a velocidade habilmente, de maneira a pegar todos os sinais abertos. Seguiram pela Park Avenue.

— Belo carro — disse Fred.

—- Gosto muito dele — respondeu ela, sem qualquer inflexão na voz.

Saíram da Park Avenue na 72nd Street e logo entraram na York Avenue. Ela seguiu até um edifício novo, de es­quina, e desceu com o carro pela rampa da garagem. Parou lá embaixo e saltou, sem esperar pela chegada do garagista.

— O elevador fica ali — disse ela.

O ascensorista parecia conhecê-la. Tocou a testa com a mão, cumprimentando-a:

— Bom dia.

— Bom dia — respondeu ela.

O ascensorista sabia para onde eles estavam indo. Parou o carro no sétimo andar, sem que ela dissesse nada. Fred seguiu-a pelo corredor atapetado. Ela devia ser muito ínti­ma do homem. Nem mesmo havia telefonado para informar a chegada deles, como sempre costumavam fazer naqueles edifícios de luxo. Viu-a parar diante de uma das portas e tirar uma chave da bolsa. Era isso mesmo, pensou Fred. Ela era íntima do homem. íntima de verdade. Tinha até uma chave do apartamento dele.

As luzes do apartamento estavam acesas. Fred seguiu-a pelo vestíbulo grande, passando para um living ainda maior. A sala estava cercada de janelas imensas, permitindo uma boa visão do East River, com a Ponte de Triborough lá longe e a Ponte de Queensboro mais próxima, na altura da 59'" Street. Perto das janelas do canto, havia um piano de cauda, todo branco. Fred parou, numa admiração silenciosa. Ele só vira pianos assim no cinema.

— O homem tem um apartamento e tanto — disse ele.

Licia fitou-o, sem fazer qualquer comentário. Depois, perguntou:

— Vai querer um Jack Daniel's com água?

Ele assentiu. Ela preparou o drinque e ficou esperando que ele provasse.

— Está bom assim?

— Está ótimo — respondeu Fred.

Ele virou-se, ao ouvir o ruído de passos. Uma garota branca, de cabelos castanhos compridos e olhos azuis, entrou na sala, usando um roupão branco.

Eu estava dormindo, mas ouvi vozes — disse ela para Licia.

— Lamento termos acordado você, querida. Mas Fred veio até aqui para tocar um pouco para nós. — Virou-se para ele e acrescentou: — Fred, essa é Sam, abreviatura de Samantha. Sam, esse é Fred. . . — Ela o fitou com uma expressão inquisitiva.

— Lafayette — disse ele, rapidamente. -—- Fred Lafayette — repetiu Licia.

A jovem estendeu-lhe a mão.

— Prazer em conhecê-lo.

— O prazer é meu. — A mão dela era fria. Fred tor­nou a virar-se para Licia. — O homem já chegou? Posso começar a tocar na hora em que ele quiser.

Licia fitou-o, firmemente.

— Pode começar a tocar agora.

Ele olhou para ela, espantado. E então, subitamente, compreendeu tudo. Trabalhara pelo menos quatro vezes no bar e nunca vira o homem.

— Você?

Havia um tom de espanto na voz dele. Licia assentiu. Ele pôs o copo em cima de uma mesinha e disse:



— Acho melhor eu ir embora. Não gosto de ser en­ganado.

A voz de Licia era bastante firme:

— Ninguém o está enganando. Disse que não encon­tra ninguém disposto a ouvir sua música. Pois eu posso ouvir se achar que vale alguma coisa.

Ele a fitou nos olhos.

— Faz isso sempre?

— É a primeira vez.

— E por que logo eu?

— Estudei música na universidade. Mas não tenho o menor talento. Posso imitar os outros, mas não tenho a coisa verdadeira dentro de mim. Sei, porém, reconhecer uma mú­sica de verdade, quando a ouço. E fiquei prestando atenção à sua música lá no bar. Possui um estilo todo pessoal. Dava a impressão de que era o autor daquelas canções.

— É a gerente do bar? — perguntou Fred, após um momento.

— Sou a dona. E caso esteja pensando que estou inte­ressada em você como homem, pode ir tirando a idéia da cabeça. Estou feliz com o que tenho. Apenas gostei de sua música. E se você tiver mesmo o talento que desconfio, tal­vez todos nós possamos ganhar algum dinheiro com isso.

Fred olhou primeiro para ela e depois para a jovem de olhos azuis. Compreendeu que não estava muito bom, na­quela noite, para perceber as coisas.

— O que vai querer ouvir? — perguntou ele, final­mente. — Algo bem rápido ou lento? Baladas? Música pop? Blues?

— Toque simplesmente o que lhe vier na cabeça. Fi­carei escutando.

— Vou voltar para a cama — disse a ga­rota, de repente.

— Está bem, querida — falou Licia, com voz suave.

A moça saiu da sala, sem dizer boa-noite.

— Posso voltar amanhã, se preferir — disse Fred.

— Não há motivo para isso. Eu o trouxe até aqui para tocar. Portanto, comece a tocar.

Licia seguiu-o até o piano. Fred sorriu, dando vazão a seus sentimentos represados. Há muito tempo que ele não tinha oportunidade de tocar a música que estava em sua cabeça.

Ele ainda estava nos primeiros compassos da primeira canção quando Licia compreendeu que acertara em cheio no seu pressentimento. A música dele possuía uma magia de verdade.



Capítulo quatro

JeriLee adormecera no sofá, mas foi acordada pelo ba­rulho da chave na fechadura. Sentou-se rapidamente. A sala estava agora banhada pela luz do sol e girou por um mo­mento, enquanto ela sentia um estranho zumbido nas têm­poras.

Olhou para a garrafa de vinho vazia, entre as duas velas totalmente queimadas. Não quis acreditar que bebera toda a garrafa sozinha.

Fred parou na porta, surpreso ao vê-la no sofá.

— Não pensei que estivesse acordada, JeriLee.

— Tentei ficar acordada, à sua espera, mas acabei cain­do no sono. Que horas são?

— Quase nove. — Fred reparou na garrafa de vinho e nas velas. — Você andou comemorando. Qual é a ocasião especial?

— Acabei a peça.

Ele ficou calado por um instante, digerindo a informa­ção. Depois sorriu e disse:

— Parabéns, querida. Isso bem que merece uma come­moração.

— Você não me disse que ia passar a noite toda fora. — JeriLee não tinha intenção de fazer com que a frase pa­recesse uma censura, mas foi exatamente o que aconteceu.

— Eu também não sabia, JeriLee. Foi totalmente inesperado.

— Podia ter telefonado.

— Achei que estava dormindo — disse ele, inclinando-se na direção do sofá e beijando-a. — Também tenho boas notícias a lhe dar.

Ela sentiu o cheiro do Jack Daniel’s.

— Você andou bebendo.

— Um pouco.

— E que boas notícias são essas?

— Dei uma audição para a dona do bar em que estou trabalhando. Ela vai me ajudar a encontrar um editor e uma gravadora para as minhas músicas.

— Que músicas?

— Tenho algumas músicas que venho fazendo há anos.

— Nunca me disse nada.

— Você nunca me perguntou. Além disso, estava ocupada demais com a sua peça. E minhas músicas também não serviam para nada. Até esta noite.

JeriLee sentiu uma pontada de ciúmes.

— O dono do bar é uma mulher?

Fred assentiu.

— Você ficou lá depois que o bar fechou e tocou para ela?

— Não. Ela me levou até seu apartamento. Tem um piano de cauda lá.

— Ahn... — JeriLee levantou-se. Tinha um gosto amargo na boca. Subitamente, sentia-se bastante deprimida. O excitamento de concluir a peça desaparecera por comple­to. — Vou escovar os dentes e depois irei deitar-me.

Ele seguiu-a até a porta do banheiro.

— Não houve nada disso que você está pensando, JeriLee.

— E como sabe o que estou pensando? — perguntou ela, fitando-o pelo espelho do banheiro.

— Não aconteceu nada.

— Claro, claro — disse JeriLee, sarcasticamente. — Você passou seis horas no apartamento dela, depois do tra­balho, apenas tocando piano.

— Exatamente.

Ela espremeu o tubo da pasta de dentes, cuidadosa­mente.

— Não precisa mentir para mim, Fred. Não me deve nenhuma explicação.

— Não estou mentindo.

— Não quero mais falar sobre isso.

JeriLee começou a escovar os dentes. Quando ela vol­tou para o quarto, Fred perguntou:

— O que vai fazer agora?

— Levar uma cópia da peça para Fannon. — Ela dei­tou-se, pegou o despertador e ajustou-o para tocar ao meio-dia. — Mas primeiro quero ir ao salão de beleza, para lavar e cortar o cabelo.

— Acho que está muito bem,

— Mas não está. Faz meses que não corto o cabelo. — Ela ajeitou os travesseiros e acrescentou: — E agora, se me dá licença, tenho que dormir um pouco.

Fred saiu do quarto, fechando a porta. O aposento fi­cou subitamente imerso na escuridão. JeriLee ficou olhando para a parede, pensando. Não gostava da maneira como es­tava se comportando, mas simplesmente não conseguia con­trolar-se. Fred não tinha a menor idéia de como ela estava tensa, de como a peça era importante para ela. Ele nunca demonstrara curiosidade suficiente para querer ler o que ela escrevera. JeriLee tinha a impressão de que o trabalho dela não significava coisa alguma para ele. O único ponto de con­tato entre eles era o sexo.

O despertador arrancou-a de um sono profundo. O ba­rulho perturbou seus nervos e suas mãos trêmulas tatearam à procura do despertador, para desligá-lo. Ela acendeu o aba­jur da mesinha-de-cabeceira, pegou um cigarro e começou a fumar. Estava se sentindo um pouco mais calma quando o telefone tocou. Era uma voz de mulher.

— Posso falar com Fred, por gentileza?

— Espere um momento.

Fred estava dormindo no sofá. JeriLee sacudiu-lhe o ombro.

— Telefone para você, Fred.

— Quem é?

— Não perguntei.

Ele atendeu na extensão ao lado do sofá, enquanto JeriLee voltava para o quarto. Ela fechou a porta e desligou a extensão. No banheiro, contemplou-se no espelho e não gostou do que viu. Seu rosto possuía a palidez de quem não saía de casa, e rugas de tensão em torno da boca e dos olhos, as quais ela nunca antes havia notado.

Pensou na voz de mulher que ouvira ao telefone. Quem quer que fosse, não restava a menor dúvida de que era uma mulher que tinha um controle perfeito. Como seria ela? Que idade teria? JeriLee conteve um impulso de ir escutar a con­versa na extensão.

Mas que diabo estava acontecendo com ela? Não era de pensar assim, jamais seria capaz de fazer tal coisa. Não havia imposições entre ela e Fred. Ele não lhe devia coisa alguma, ela não devia absolutamente nada a ele. Estavam juntos apenas porque desejavam estar. A qualquer momento que um deles quisesse ir embora, tinha plena liberdade para fazê-lo. Mas há seis meses que viviam juntos, e tal intimi­dade, às vezes, podia deixar as pessoas com pensamentos estranhos.

JeriLee desejou não ter atendido ao telefone. Mas, nesse caso, Fred também não teria atendido. Ele nunca o fazia, por causa da mãe dela.

A mãe ficara furiosa ao descobrir que eles estavam vi­vendo juntos. Nunca aprovara a maneira como JeriLee vivia, mas morar com um negro era demais. Ela não tinha o me­nor constrangimento em dizer aos dois o que sentia e pen­sava. Para ela, não havia a menor dúvida de que Fred des­truíra completamente a vida de JeriLee.

Em determinada ocasião, chegara até mesmo a ameaçar a filha de prisão, só deixando de falar nisso quando JeriLee ressaltara que não tinha mais o pátrio poder sobre ela. Desde então, a comunicação entre mãe e filha cessara por com­pleto. Fazia quatro meses que JeriLee não via a mãe pessoal­mente e várias semanas que não se falavam pelo telefone.

Talvez estivesse precisando de um psiquiatra, pensou JeriLee. Mas não teria condições de pagá-lo. Portanto, era melhor nem pensar nisso.

JeriLee examinou as prateleiras do armarinho de remé­dios. As pílulas não eram tão caras quanto um psiquiatra. Pegou o vidro de Quaalude 500 mg. Exatamente o que es­tava precisando. O Librium relaxava-lhe os músculos, o Valium ajudava-a a dormir. Mas o Quaalude tanto a acalma­va como a fazia sentir-se bem-disposta. Ela engoliu a pílula e meteu-se debaixo do chuveiro, abrindo a água fria ao máximo.

Envolta numa toalha de banho, sentou-se na beira da cama e ligou para o escritório de Fannon.

— Produções Adolph Fannon — disse uma voz de mulher.

— O Sr. Fannon, por favor. É JeriLee Randall quem está falando.

— Um momento, por favor.

Subitamente, JeriLee sentiu o coração disparar. Fazia mais de um ano. Será que ele ainda se lembrava dela e da promessa que fizera? Houve um clique e depois ela ouviu a voz de Fannon:

— JeriLee! Mas que bom ouvi-la de novo!

Ela procurou fazer com que sua voz soasse tranqüila e normal:

— O prazer é meu em voltar a conversar com você, Adolph.

— Faz muito tempo... — murmurou ele, efusivamen­te, para logo depois acrescentar, em tom mais profissional: — Terminou a peça?

— Terminei — disse ela, aliviada, ao constatar que ele ainda se lembrava.

— Quando poderei vê-la?

— Posso levá-la à hora em que quiser.

— Não é essa a maneira pela qual velhos amigos fa­zem negócios. Você vai jantar comigo. Conversaremos sobre a peça e depois eu a levarei para casa e a lerei.

JeriLee sorriu. Sabia que a peça seria lida por diversos assistentes de Fannon, antes que ele se dignasse a dar uma olhada. Mesmo assim, era muito melhor entregá-la durante um jantar do que simplesmente deixá-la no escritório.

— Seria ótimo — disse ela. — E quando poderá ser esse jantar?

— Que tal esta noite? Tem algum compromisso?

— Nada de importante.

— Ótimo. Então vamos nos encontrar no Sardi's às oito e meia. O movimento do pessoal do teatro já deverá ter acabado e poderemos conversar sossegados.

— Oito e meia — repetiu ela. — Estarei lá.

Só depois de desligar é que compreendeu como estava nervosa. As mãos estavam tremendo novamente. Ela preci­saria tomar outro Quaalude, antes de seguir para o jantar. Era muito importante que se controlasse.




Capítulo cinco

Quando ela voltou para o apartamento, depois do jan­tar, Fred não estava. Eram quase onze horas. O bilhete em cima da mesa era curto e objetivo: "Fui a uma reunião. Devo estar de volta cerca de meia-noite".

JeriLee sentiu-se um tanto aborrecida. Ela só saíra para o jantar às oito horas e Fred não falara nada sobre uma reunião. Amassou o bilhete e jogou-o na cesta de papéis. Inquieta, foi para o quarto e trocou de roupa, vestindo jeans e uma blusa. Agora que a peça estava terminada, o apartamento parecia subitamente uma prisão.

Ficou andando a esmo pelo living, depois foi para a cozinha e serviu-se de um copo de vinho branco. Tinha que começar a pensar em arrumar um emprego.

— Creio que terei de voltar a trabalhar — dissera ela a Fannon, quando ele perguntara quais eram os seus planos. — Tem alguma coisa para mim em algum dos seus espe­táculos?

— Creio que não. A temporada não foi muito boa. Não tenho nenhum espetáculo neste verão.

— Nesse caso, terei que procurar alguma outra coisa.

— Quem é o seu agente agora?

— Não tenho nenhum. Praticamente, deixei tudo o mais de lado, enquanto trabalhava na peça.

Ele a fitou sem fazer qualquer comentário. JeriLee sabia que ele estava a par de tudo o que acontecera.

— Agora que terminei a peça, estou pensando em ir procurar William Morris.

— Pode dizer a eles que estou interessado em sua peça, se isso ajudar em alguma coisa.

— Obrigada, Adolph — disse ela, sentindo-se realmen­te grata.

— Se eu puder ajudá-la em alguma coisa, basta me telefonar — disse ele, a mão subindo pela coxa dela.

— Telefonarei mesmo.

Ele a pusera dentro de um táxi, na frente do restauran­te. Quando o táxi virara a esquina, entrando na Broadway, ela pedira ao motorista que a deixasse na esquina da 42nd Street. Pegaria o metrô ali, para voltar a seu apartamento. Os táxis eram um luxo que não podia mais ter.

Era estranho como as coisas haviam mudado, pensou JeriLee. Por muito tempo, os táxis tinham sido o seu meio de transporte exclusivo em Nova York. Mas isso parecia ter acontecido há muito tempo atrás. Até o Sardi's estava dife­rente agora.

Pouco mais de um ano antes, quando ela entrava no restaurante, parecia que todos a conheciam.

Daquela vez, no entanto, o maître fitara-a com uma expressão impassível, mesmo depois que ela perguntou pela mesa de Fannon. Ficou imaginando se mudara tanto assim.

Quando Fannon perguntou ao maître se ele não se re­cordava da Srta. Randall, o homem respondera com um sor­riso profissional:

— Mas, claro, a Sra. Thornton! Pensei tê-la reconhe­cido, mas não tinha certeza. É que mudou o penteado. Seja bem-vinda de volta.

De volta? E por onde será que pensava que ela andara? Pelo círculo Ártico? Odiando as palavras no instante mesmo em que as pronunciou, ela disse:

— É um prazer estar de volta.

A mesma coisa aconteceu com outras pessoas que para­ram na mesa, para falar com Fannon. Ela teve que ser apre­sentada a cada uma e percebeu, pelas expressões, que seu nome não despertava nenhuma recordação. Não havia a me­nor dúvida de que a Broadway não possuía uma memória das melhores.

Ela estava quase terminando o vinho quando o telefo­ne tocou. A voz de Fred soou alegremente em seu ouvido:

— Como foi o jantar, querida?

— Muito bem.

Pelo tom de sua voz, JeriLee sentiu que ele andara bebendo.

— Ele vai produzir a peça?

— Não sei ainda. Ele tem que lê-la primeiro.

— Estamos fazendo uma comemoração aqui, querida. Acabei de assinar um contrato de agenciamento com Licia, e ela abriu uma garrafa de champanha de verdade. Pegue um táxi e venha até aqui.

— Talvez seja melhor eu não ir — disse JeriLee, hesi­tante. — Já é muito tarde.

— Venha, sim, querida. Só estamos eu, Licia e o advo­gado dela. — JeriLee ouviu alguém mais falar. Fred ficou em silêncio por um instante, depois riu e disse a ela: — Mudança de planos, querida. Fique esperando aí que iremos buscá-la. Vamos fazer uma pequena comemoração esta noite.

Fred desligou. Talvez fosse melhor assim, pensou Jeri­Lee. Sem o trabalho para fazer, o apartamento era depri­mente.

O Arthur's estava lotado. A música ecoava pelos alto-falantes e eles precisavam gritar para ser ouvidos. Havia uma grande fila na porta, quando eles chegaram. Mas, sem hesitar, Licia saltou do carro e deixou-o para o porteiro es­tacionar. Depois, como que por um passe de mágica, a porta foi aberta e haviam imediatamente providenciado uma boa mesa para eles. Licia parecia conhecer a todos na discoteca.

Só ao saltarem do carro é que JeriLee percebeu como Licia era alta. Devia ter pelo menos um metro e setenta e cinco. Havia nela uma impressão de força, que sobressaía pela maneira como ela se mexia e andava. Em comparação, a garota Sam, com seu arzinho petulante e egoísta, parecia extremamente suave. Marc, o advogado, era um jovem com uma expressão astuta de judeu, que gerava imediatamente uma sensação de desconfiança.

Logo depois que se sentaram à mesa e a garçonete se afastou com os pedidos, o advogado e Sam se levantaram para dançar. Um momento depois, os dois estavam perdidos em meio à multidão compacta que ocupava a pista de danças. Fred, sentado entre Licia e JeriLee, sorriu.

— Tenho certeza de que vão gostar uma da outra — disse ele. — São ambas mulheres independentes.

Ao fitar a outra nos olhos, JeriLee teve a impressão de que ela e Licia já se conheciam. Havia uma espécie de re­conhecimento, que ia além da palavra falada. Ela sentiu que corava. Licia sorriu e disse:

— Tenho certeza disso.

— Também tenho — murmurou JeriLee.

Quando a garçonete voltou com os drinques, Licia pe­gou seu copo de suco de laranja e disse:

— Ao nosso músico!

Fred riu, ao baterem com os copos.

— Espero que nenhuma das duas fique desapontada comigo.

— Não creio que isso aconteça — disse Licia, olhando para JeriLee.

Esta sentiu que corava novamente e acrescentou:

— Jamais ficaremos.

— Por que vocês dois não vão dançar? — sugeriu Licia. — Não se preocupem comigo. Ficarei muito bem aqui sozinha.

Fred olhou para JeriLee.

— O que me diz, querida?

Ela assentiu e levantou-se. A pista estava apinhada. Depois de um minuto, JeriLee entregou-se ao ritmo da música. Ela adorava dançar, especialmente o rock. Havia nisso algo de exibicionista, que a atraía intensamente. Era uma forma de dançar que parecia ter sido criada especial-. mente para ela. Fred inclinou-se na direção dela.

— O que achou de Licia, querida?

— Parece ser uma mulher muito especial.

Fred assentiu, sacudindo o corpo dentro do ritmo.

— E é também muito inteligente. Tem participação em diversos negócios, além do Green Bar. Parece que é sócia de lojas de discos, companhias musicais e alguns clu­bes, em outras cidades.

— Parece que o negócio é grande.

— E é mesmo. Não precisaremos mais contar tostões. Licia está me garantindo cento e cinqüenta dólares por se­mana, pelo menos durante o próximo ano.

— E o que ela vai ganhar em troca?

— Seremos sócios em partes iguais. Vamos registrar minhas canções numa companhia editora. Tudo o mais, in­clusive os direitos das gravações e as apresentações que eu fizer, irão para essa companhia, e depois dividiremos os lucros.

— E com que mais ela entra no negócio, além do di­nheiro?

— Com os contatos que tem. Ela conhece todo mundo que está no negócio. E com os interesses que controla, pos­sui muita influência. Não há quem não queira lhe agradar.

— Parece um bom negócio.

— E é mesmo.

JeriLee fitou-o nos olhos, sem dizer nada. — Não há mais nada entre nós dois, querida, além dos negócios. Sam é que é a namoradinha dela.

Subitamente, as coisas se ajustaram em seus lugares. JeriLee sentira que havia algo em Licia que a fazia lembrar-se de outra pessoa. Agora ela sabia quem era essa outra pessoa. Não era a semelhança física, mas sim a maneira como Licia a fitara, quando haviam sido apresentadas. Carla Maria emitira as mesmas vibrações sutis. Talvez tivesse sido essa experiência que lhe proporcionava agora aquele conhe­cimento. Através de uma brecha na multidão, ela viu Licia fitando-a, com uma expressão significativa. JeriLee sentiu que corava novamente.

Licia sabia, assim como Carla Maria também o soubera. Será que ela estava irradiando alguma mensagem, sem o sen­tir? Seria possível que houvesse um lesbianismo latente den­tro dela, esperando o momento de emergir?

JeriLee. estava tão imersa em seus próprios pensamen­tos que não prestou atenção ao que Fred estava dizendo. Finalmente, conseguiu concentrar-se nele novamente.

— O que disse, Fred? Não consegui entender, com todo esse barulho.

— Ela quer que eu compre um guarda-roupa novo. Está me adiantando o dinheiro para isso. Quer que eu me vista com a maior classe.

JeriLee assentiu, sem dizer nada.

— Vamos gravar algumas fitas e depois irei com Marc para Detroit, para falar com alguns figurões de lá. Licia acha que posso começar minha carreira por aquela cidade.

Pela primeira vez, JeriLee percebeu como ele era jo­vem. Não em idade, pois nos anos vividos era mais velho do que ela, mas em ingenuidade. Os sonhos dele eram os mesmos que ela tivera há muitos anos atrás.

Subitamente, JeriLee sentiu-se velha e deprimida, com vontade de tomar um drinque. Tocou de leve no ombro de Fred e os dois saíram da pista. Ao voltarem para a mesa, Sam também estava de volta, sozinha.

— Marc me deixou sozinha na pista — disse ela, fa­zendo beicinho. — Disse que tinha visto alguém com quem precisava falar urgentemente. E ainda estou com vontade de dançar.

— Marc não muda nunca — comentou Licia, sorrindo. — Por que não dança com ela, Fred?

— Claro.

JeriLee sentou-se, tomando a precaução de manter o lugar de Fred entre ela e Licia.

— Um lindo bando de malucos que está aqui esta noite — comentou Licia.



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