Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo


parte está dopada e os outros vieram exibir-se, só porque este é um lugar em moda



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JeriLee limitou-se a assentir.

— Uma parte está dopada e os outros vieram exibir-se, só porque este é um lugar em moda.

— Em que metade você se situa?

— Em nenhuma das duas. Gosto realmente de obser­var. E, depois, estou aqui a trabalho.

— Tem algum interesse nesta casa?

— Estou pensando em abrir uma casa como esta, quando chegar o momento propício.

— E quando será isso?

— Dentro de um ou dois anos. Assim que esta casa tiver fechado. Só dá para haver uma única casa deste tipo, de cada vez.

JeriLee ficou calada.

— Fred já lhe falou a respeito dos nossos planos?

— Já.


— E o que achou?

— Fico feliz por ele. Fred merece uma oportunidade.

— Está apaixonada por ele?

— Não.


— Mas ele está apaixonado por você. E quer casar-se com você.

— Foi ele quem lhe disse isso?

Licia assentiu.

— Mas que droga!

JeriLee pegou seu drinque. As coisas não deveriam ter chegado àquele ponto. Como se lesse os pensamentos dela, Licia perguntou-lhe:

— O que uma mulher como você está pretendendo ao se envolver com um rapaz como ele?

— É melhor do que ficar sozinha. Além do mais, é muito difícil encontrar homens de verdade disponíveis.

Licia estendeu o braço e apertou a mão de JeriLee. No mesmo tom de voz da outra e sem retirar a mão, JeriLee disse:

— E o que uma mulher como você está fazendo ao se envolver com uma garota como aquela?

Os olhos de Licia ficaram arregalados de surpresa. De­pois ela riu, retirando a mão.

— É melhor do que ficar sozinha. Além do mais, é muito difícil encontrar mulheres de verdade disponíveis.

Subitamente, as duas ficaram à vontade. JeriLee riu e disse:

— Gosto de você. Pelo menos, é franca.

— Também gostei de você.

— Mas há uma coisa que não entendo. Por que está fazendo tudo isso por ele?

— Em parte pelo dinheiro. Mas isso não é tudo.

Licia hesitou por um instante. JeriLee insistiu:

— E qual é o resto?

— Você não compreenderia.

— Experimente, para ver.

A voz de Licia era suave, mas dava para se sentir a dureza por baixo:

— Este é um mundo dos homens e subi o mais alto que uma mulher pode chegar e continuar a ser tolerada. Os homens não gostam de mulheres que querem fazer tudo so­zinhas.

— Ainda não estou entendendo o que Fred tem a ver com isso.

— Vou transformá-lo num grande sucesso, porque am­bos precisamos disso, por motivos diferentes. Com ele na frente, ninguém mais irá deter-me. Irei para onde quiser.

— Ainda não estou entendendo. O que está querendo dizer ao falar "com ele na frente"?

Licia segurou novamente a mão de JeriLee.

— Desculpe. Eu não quis ser obscura. É que vou me casar com Fred.

Capítulo seis

JeriLee dobrou a última camisa e colocou-a cuidadosa­mente na mala. Era uma mala nova e cara, um presente de Licia, parecendo completamente deslocada ali na cama.

— Acho que não falta mais nada, Fred.

— É mesmo.

— Acabe de vestir-se. Marc deve estar chegando.

— Está certo. — Ele abotoou o colarinho da camisa e foi postar-se diante do espelho, a fim de dar o nó na gra­vata. Ao terminar, vestiu o paletó e virou-se para JeriLee sorrindo. — Como estou?

— Lindo!

Ele aproximou-se e beijou-a.

— E isso é apenas o início. Quando eu voltar, Licia quer que mudemos para um apartamento melhor, onde pos­samos ter um piano.

JeriLee fechou a mala, sem dizer nada.

— Ei, não fique tão desanimada, JeriLee! Não vou via­jar tanto assim. Irei apenas a Detroit, Nashville e Los An­geles, ficando uma semana em cada lugar.

Ele simplesmente não podia entender.

— Enquanto eu estiver viajando, JeriLee, você podia começar a procurar outro apartamento. Assim, quando eu voltar. . .

— Não!


— Qual é o problema, querida? — perguntou ele, des­concertado.

— Não vou me mudar deste apartamento.

— Ora, deixe disso. Está na hora de sairmos desta pocilga.

— Não vou me mudar.

— Mas estamos em condições de pagar algo melhor, querida.

— Você está.

— E que diferença isso faz? Nunca discutimos por cau­sa das contas. — Fred passou o braço pelos ombros dela e acrescentou: — Além do mais, boneca, está na hora de nos casarmos.

JeriLee enterrou o rosto no peito dele, murmurando, a voz abafada pelo paletó:

— Não. . .

Fred afastou-a um pouco, fitando-a por longo tempo. Estava genuinamente espantado.

— E por que não?

JeriLee piscou, tirando as lágrimas que lhe atrapalha­vam a visão.

— Porque não daria certo.

— Só porque sou preto?

— Você sabe que não.

— Tenho minhas dúvidas. Há garotas que não se in­comodam de ir para a cama com um preto, mas jamais se casariam com um deles. — Havia uma ponta de irritação em sua voz.

— Você sabe perfeitamente que não é isso, Fred.

— O que é então? Sei que você gostou quando me mudei para cá. Servimos muito bem um para o outro.

— Tem toda a razão, Fred. Foi ótimo. . . naquela oca­sião. Mas as coisas não permanecem as mesmas eternamente. Agora, a situação é diferente.

— A única diferença é que agora passarei a trazer di­nheiro para casa. Poderei cuidar de você de maneira con­digna.

JeriLee escolheu as palavras cuidadosamente,. Gostava muito dele para querer vê-lo magoado.

— Fico contente por vê-lo a caminho do sucesso, Fred. Você merece muito mais do que isso. Mas espero que com­preenda que eu também quero fazer sucesso. E tenho que fazê-lo por mim mesma.

— Não vou impedi-la, querida. Quero apenas tornar as coisas mais fáceis para você. Aproveite o dinheiro que lhe poderei dar.

Os olhos dela agora estavam secos, e a voz era firme:

— Se fosse isso o que eu desejasse, Fred, não teria me divorciado de Walter.

— Não consigo compreendê-la.

— Às vezes, nem eu mesma me compreendo. Sei ape­nas que desejo ser livre.

— Se você me amasse, não se sentiria desse jeito.

— Talvez seja isso. Eu o amo, Fred, mas não da mes­ma maneira que você gosta de mim. É como se fôssemos muito íntimos e amigos e tudo fosse bom entre nós, as vi­brações, o sexo, tudo enfim. É maravilhoso enquanto dura, mas não é o suficiente para mim. Ainda está me faltando alguma coisa. Talvez seja algo dentro de mim, que nem mesmo posso encontrar. Mas enquanto eu estiver procuran­do, não estarei preparada para entregar-me a homem ne­nhum. E sei que jamais poderei encontrar, se não me sentir livre e completa.

— Se nos casarmos, poderemos ter uma família. Isso servirá para fazer com que você se encontre.

Ela não pôde deixar de rir. Aquela era, invariavelmen­te, a resposta final dos homens. Um bebê era a solução má­gica para todos os problemas. Talvez fosse mesmo. . . para eles. Mas não era isso o que ela estava querendo.

— Não é exatamente isso o que considero liber­dade, Fred. Não sei se algum dia vou querer constituir fa­mília.

— Mas isso não é natural. Toda mulher quer ter um filho.

— Pois então sou diferente. Agora, não. Talvez algum dia eu venha a querer.

A campainha tocou lá embaixo. Fred foi até a janela, olhou e disse:

— Marc está estacionado em fila dupla.

— É melhor você descer logo.

— Não vou levar um "não" como resposta.

— Não brinque comigo, Fred. Você tem a sua própria vida e a sua carreira. Deixe também que eu tenha a minha.

A campainha tornou a tocar.

— Está querendo dizer que não quer que eu volte?

JeriLee baixou os olhos, lentamente. Depois, ergueu a cabeça abruptamente e assentiu.

— Acho que seria o melhor, para nós dois.

Quando a campainha tornou a tocar, insistentemente, Fred teve uma explosão de raiva e frustração.

— Já estou indo! Mas que diabo! Já estou indo!

Ele parou na porta. A angústia distorcia sua voz:

— JeriLee. . .

Ela se aproximou e beijou-o no rosto.

-— Boa sorte, Fred. Cante bonito para as pessoas.

Ele largou as malas no chão e deu um passo na direção dela. JeriLee recuou. A voz dele ficou embargada pela dor:

— Vá para o inferno, JeriLee! E dane-se a sua honesti­dade ou como quer que a chame! No fundo, é apenas uma desculpa para o fato de que não se importa absolutamente com mais ninguém, além de si mesma!

Ele saiu então, deixando a porta aberta. Abruptamente, JeriLee cobriu o rosto com as mãos.

Ele estava certo. Ela sabia reconhecer uma verdade, quando a ouvia. A própria mãe já lhe dissera a mesma coisa.

Tinha que haver algo de errado com ela. Por que outro motivo jamais conseguia ficar satisfeita com as coisas, como as outras pessoas? Por que sempre queria mais, por que sempre se sentia incompleta?

Quando a campainha da porta tocou, ela praguejou bai­xinho e olhou para o relógio. Tinha apenas uma hora para chegar ao escritório de Fannon.

— Quem é?

— Sou eu, o Sr. Hardy, o zelador.

Mas que droga! Só faltava isso agora! Ela assumiu uma expressão expectante no rosto e foi abrir a porta, sorrindo.

— Olá, Sr. Hardy. Eu já ia mesmo procurá-lo. Entre, por favor.

— Vim falar sobre o aluguel — disse ele, naquela sua vôzinha fina, peculiar.

— Era justamente por isso que eu ia procurá-lo.

— Arrumou o dinheiro?

— Era o que eu queria explicar. Eu. . .

— Já estamos no dia 20. O escritório está me pressio­nando.

— Sei disso. Mas estou à espera de um cheque. Eu ia sair neste justo momento, para me encontrar com o homem que vai produzir minha peça. Adolph Fannon, o famoso pro­dutor. Tenho certeza de que já ouviu falar nele.

— Não. O escritório está querendo que eu lhe entre­gue uma notificação de despejo.

— Ora, Sr. Hardy, por que eles estão preocupados? Têm o seguro de um mês.

— E eles vão pedir que o seguro cubra este mês, se for embora.

— Sempre paguei o aluguel, Sr. Hardy.

— Eu sei, Srta. Randall. Mas não sou eu que faço os regulamentos. E o escritório diz que devo apresentar a noti­ficação de despejo a quem não pagar o aluguel até o dia 20. Dessa maneira, terá que sair até o final do mês e ninguém perderá nada.

— Pagarei na sexta-feira.

— Ainda faltam três dias até lá. Eles vão me comer vivo.

— Eu lhe darei uma compensação, Sr. Hardy. Seja ca­marada ...

Ele correu os olhos pelo apartamento.

— Não tenho visto o seu amiguinho por aqui, nestas últimas semanas. Ele foi embora?

— Foi.


— Folgo em sabê-lo, Srta. Randall. Nunca contei ao escritório que havia outra pessoa morando em seu aparta­mento. O seu contrato de aluguel permite que apenas uma única pessoa more aqui. Além do mais, se eles descobrissem que era um negro que morava aqui, teriam ficado furiosos. Não querem saber de negros morando neste prédio. Isso dei­xaria o prédio com má fama.

JeriLee já agüentara tudo o que podia. Em voz fria, ela disse então:

— Sr. Hardy, por que não volta e diz a seu escritório para enfiar a língua no rabo?

Ele a fitou com uma expressão chocada.

— Mas que linguagem é essa para uma moça educada usar, Srta. Randall?

— Sr. Hardy, o escritório pode ser o dono do prédio, mas não é dono dos inquilinos. Ninguém tem o direito de dizer-me como nem com quem posso ou não viver. Eles têm direito exclusivamente ao aluguel, o qual eu já lhe disse que pagarei na sexta-feira.

— Se é assim que prefere, está certo — disse ele, tiran­do um papel de aparência oficial do bolso de trás da calça e pondo-o na mão de JeriLee.

Ela olhou para as palavras escritas em letras maiúsculas no cabeçalho: notificação de despejo.

— Por que me deu isso, Sr. Hardy? Eu já disse que vou pagar o aluguel na sexta-feira.

Ele encaminhou-se para a porta.

— Pode devolver-me, junto com o aluguel. Isso é ape­nas uma precaução, caso não consiga arrumar o dinheiro.

Capítulo sete

Ela compreendeu que as notícias não eram boas, no momento em que viu a expressão de Fannon.

— Quis entrar em contato com você antes, mas as coisas por aqui andaram muito movimentadas — disse ele, depois de beijá-la no rosto.

— Não há problema. Eu compreendo.

— Quer um cigarro?

— Não, obrigada.

— Você parece cansada.

— Não tenho dormido direito. As noites estão muito quentes e o ar-condicio-nado quebrou.

— Deveria sair da cidade, JeriLee. Está precisando res­pirar o ar puro do campo.

Ela ficou olhando para ele, sem responder. Não adian­tava dizer-lhe que não tinha dinheiro para isso. Ele pegou a cópia da peça e ficou olhando para a capa.

— Gosto muito de você — disse ele, abruptamente.

JeriLee tentou manter a voz serena:

— Mas não gosta da minha peça, não é mesmo?

Os olhos dele pareciam entrar dentro dela.

— Prefere que eu doure a pílula?

— Não. Pode falar francamente.

— Não gosto de sua peça. E acredite que eu queria gostar. Acho que você sabe escrever. Mas a peça que fez não é boa. Não passa de um exercício emocional, uma série de cenas que não se ligam, uma história que não funciona. Mas ainda não desisti. Tenho certeza de que algum dia ainda escreverá uma peça que causará uma revolução nesta cidade.

— Mas não desta vez.

— Não desta vez. . .

— Nem mesmo se eu a reescrever?

— Continuaria a não dar certo. Não há nenhuma histó­ria de verdade, nenhum tema central. São cenas esparsas, isoladas, como um caleidoscópio. Cada vez que se passa para a cena seguinte, a anterior se perde completamente. Quando terminei de ler, estava tão confuso que não conseguia com­preender muito bem a peça.

— O que sugere então?

— Deixar essa peça de lado. Talvez, com o tempo, você acabe ajustando suas idéias. Volte então a me procurar. Neste momento, não daria certo. Acho que você deve começar a trabalhar em outra peça.

JeriLee não respondeu. Era muito fácil dizer a alguém para fazer alguma coisa, quando a própria pessoa não tinha que fazê-lo.

— Não fique desanimada, JeriLee. Todo teatrólogo de sucesso já escreveu peças que não eram boas. A única coisa importante é que você continue a escrever.

— Eu sei — disse ela, falando o que de fato sentia.

Sinto muito, JeriLee — disse ele, levantando-se.

Ela o fitou, compreendendo que a entrevista estava ter­minada. Conseguiu manter a voz firme:

— De qualquer forma, obrigada por sua atenção.

Ele contornou a mesa, entregou-lhe à cópia da peça e beijou-a no rosto.

— Não se acanhe, JeriLee. Mantenha-se em contato comigo.

— Está certo.

— Telefone-me na próxima semana. Poderemos almo­çar juntos.

— Está bem.

JeriLee passou rapidamente pela sala da secretária, es­forçando-se ao máximo para conter as lágrimas. Não queria que ninguém a visse chorar. Durante toda a descida, no ele­vador, ela se esforçou arduamente para conter as lágrimas.

Ao sair para a rua, viu uma cesta de lixo junto ao meio-fio. Num acesso de raiva e autopiedade, jogou a cópia da peça lá dentro.

Já tinha percorrido quase meio quarteirão antes de vol­tar correndo e recuperar a peça, quase no fundo da cesta. Talvez inconscientemente, ela há muito já pensava que deveria descartar-se da peça, mesmo enquanto trabalhava nela. Mas não teria conseguido parar. Estava envolvida de­mais e tinha que continuar escrevendo até o fim, como única maneira de se livrar dela.

Agora, estava tudo terminado e ela teria que começar outra vez. Mas onde? E como? Havia outras coisas de que ela teria de cuidar primeiro. Como o aluguel e todas as demais contas a pagar. Teria que arrumar algum dinheiro com que sobreviver, até conseguir arrumar um emprego. Então, talvez tudo começasse a dar certo.

— Alô — disse a mãe, ao telefone.

— Mamãe, estou precisando de ajuda. — Não havia sentido em perder tempo com preliminares. A mãe saberia do motivo do telefonema, no momento em que ouvisse a voz dela.

— O que é desta vez?

JeriLee conseguiu manter a voz controlada:

— Preciso de duzentos e cinqüenta dólares para pagar as contas deste mês. Eu lhe pagarei tudo, assim que arrumar um emprego.

— Por que não pede a seu amiguinho? Tenho certeza de que ele poderá dar-lhe alguma coisa.

— Ele foi embora, mamãe. Rompemos há quase um mês.

A mãe ficou calada por um momento.

— Já estava mais do que na hora de você recuperar o bom senso.

JeriLee não respondeu.

— E a sua peça, JeriLee? Conseguiu acabá-la?

— Consegui, mamãe. Mas não ficou muito boa. Levei para Fannon e ele não quer produzi-la.

— Há outros produtores.

— Não adianta, mamãe — disse JeriLee, pacientemen­te. — Reli a peça cuidadosamente. Fannon está certo.

— Não estou entendendo. Será que não percebeu isso, enquanto estava escrevendo?

— Não, mamãe.

— Não consigo entender você, JeriLee — disse ela, parecendo extremamente desanimada. — Por que não pode ser como as outras moças? Arrumar emprego fixo, casar, ter filhos...

— Sinto muito, mamãe. Eu bem que gostaria de ser assim. Seria muito mais fácil para mim. Mas acontece que não sou desse tipo.

— Posso emprestar-lhe cem dólares — disse a mãe, fi­nalmente. — O mercado caiu e não tenho recebido muito dinheiro.

— Não será suficiente, mamãe. Somente o aluguel me custa cento e setenta e cinco dólares.

— É tudo o que lhe posso dar este mês. Se as coisas melhorarem, talvez possa dar-lhe um pouco mais, no mês que vem.

— Dê-me pelo menos o dinheiro para o aluguel. Eles me entregaram hoje uma notificação de despejo. — JeriLee estava furiosa consigo mesma por estar suplicando, mas sen­tia que não lhe restava alternativa.

— Pode voltar para casa e morar comigo, na hora em que quiser.

— E o que eu faria aí? Não há trabalho para mim nessa cidade.

— Não faria diferença. Você não está mesmo traba­lhando.

JeriLee perdeu a paciência.

— Mamãe, ou você decide dar-me o dinheiro ou não. O que não adianta é continuarmos a andar em círculos.

— Despacharei pelo correio um cheque de cem dólares — disse a mãe, friamente.

— Não precisa! — disse JeriLee, batendo com o te­lefone.

A mesma coisa acontecia toda vez que as duas se fala­vam pelo telefone. Parecia não haver a menor possibilidade de elas se comunicarem.

JeriLee voltou para o sofá e começou a folhear o Casting News. Nada. Os negócios andavam parados e as únicas oportunidades que existiam estavam sendo açambarcadas pe­los agentes.

Na última página, havia outro anúncio do Torchlight Club. Agora estava sendo publicado permanentemente. Era evidente que a rotatividade das moças era tremenda. Num impulso súbito, JeriLee pegou o telefone e discou para o clube.

— Torchlight Club — disse uma voz de mulher.

— O Sr. DaCosta, por favor.

— Quem deseja falar?

— JeriLee Randall.

— Um momento, por favor.

Não houvera o menor sinal de reconhecimento na voz da mulher. Houve um clique e depois ele atendeu, com voz cautelosa:

— Alô.

— Vincent, aqui é JeriLee.



— Como tem passado, boneca?

— Tudo bem. E você?

— Nunca estive melhor. Por que está telefonando?

— Preciso de um emprego.

— Ainda está vivendo com aquele negro? — pergun­tou ele, após um momento.

A pergunta pegou-a de surpresa. Ela não tinha a menor idéia de que Vincent soubesse de Fred.

— Não.

— Já estava mais do que na hora de você recuperar o bom senso. Um cara como aquele não presta para ninguém.



JeriLee não disse nada.

— E o que me diz da peça que estava escrevendo?

— Não ficou boa. Não vale nada.

— É uma pena — murmurou ele, embora não houvesse em sua voz o menor tom de compaixão. — Que tipo de tra­balho está procurando?

— Qualquer coisa. Estou inteiramente sem dinheiro.

— Seu antigo lugar já está preenchido. Temos agora um homem para desempenhar as funções.

— Eu disse que qualquer coisa servia. Conheço toda a organização. Posso encaixar-me em qualquer setor.

— Está certo. Venha me procurar e poderemos con­versar.

— A que horas?

— Espere um instante que vou verificar na minha agen­da... Estou com a tarde toda ocupada. Por que não aparece no apartamento por volta das sete horas? Podemos tomar um drinque e conversar sossegados, sem que ninguém nos incomode.

— Está bem. Estarei lá.

JeriLee levantou-se e foi para o banheiro. Ainda restava um Valium no vidro. Ela o engoliu e contemplou-se no es­pelho.

Os olhos pareciam tensos e estavam muito vermelhos, mas algumas gotas de colírio poderiam resolver o problema. Talvez as coisas não estivessem tão ruins assim. Se ela con­seguisse o emprego, tinha certeza de que Vincent não se incomodaria de dar-lhe um adiantamento sobre o salário.


Capítulo oito

Uma mulher abriu a porta do apartamento.

— Vincent está tomando banho — disse ela, sem se apresentar. — Ele estará aqui dentro de um minuto.

— Não tenho pressa.

— Gostaria de tomar um drinque?

— Obrigada. Vodca com água tônica, por favor.

A mulher assentiu e foi para trás do bar. JeriLee ficou observando-a. Ela era bastante bonita, ao melhor estilo de corista, com muita sombra nos olhos, cílios postiços e cabe­los pretos e lustrosos cuidadosamente penteados, caindo pe­los ombros.

— Está bom? — perguntou ela, quando JeriLee pro­vou o drinque.

— Está ótimo — respondeu JeriLee, sorrindo.

A mulher voltou para o bar e pegou seu próprio drinque.

— Saúde — disse ela, levando seu copo aos lábios.

— Saúde — respondeu JeriLee.

— Sente-se — disse a mulher, fazendo um gesto na di­reção do sofá.

Ela se sentou no tamborete do bar e virou-se, ficando de frente para JeriLee. O telefone começou a tocar. Auto­maticamente, a mulher fez um gesto para atender, mas parou no meio do movimento. O telefone voltou a tocar, parando depois, bruscamente.

— Ele não gosta que ninguém atenda seu telefone par­ticular — explicou a mulher.

JeriLee assentiu.

— Ele é doido. Sabe disso, não é? Toda a família dele e doida.

JeriLee não respondeu.

— Os irmãos são ainda piores.

— Não os conheço.

— Pois considere-se uma mulher de sorte. — Ela pe­gou uma garrafa de scotch no bar e tornou a encher seu copo. — Oh, Deus, mas que família!

Elas ficaram em silêncio, a mulher olhando distraidamente para o copo. Através da porta fechada, podia-se ouvir o som débil da voz de Vincent, falando ao telefone. Depois, abruptamente, a porta do quarto se abriu.

Vincent estava usando o mesmo roupão branco felpudo de que JeriLee ainda se recordava.

— Já chegou, JeriLee?

— Cheguei.

— Pensei que lhe houvesse dito para me avisar assim que ela chegasse — disse ele, virando-se para a mulher, a voz muito ríspida.

— Você estava no chuveiro. E logo depois foi atender ao telefone.

— Sua idiota! Vamos, prepare-me logo um drinque.

Em silêncio, a mulher desceu do tamborete e preparou uma dose de scotch com gelo. Vincent pegou o copo e apro­ximou-se de JeriLee.

— Você não parece estar muito bem.

— Estou cansada.

— O negro acabou com você?

Ela não respondeu.

— É sabido como eles são, JeriLee. Toda a força deles se concentra no sexo.

JeriLee largou o copo em cima da mesinha e levantou-se do sofá.

— Não vim aqui para ficar ouvindo essas coisas.

Ele agarrou o braço dela, apertando-o com força.

— Está querendo um emprego e por isso vai ter que escutar, goste ou não.

Foi só então que JeriLee reparou no brilho estranho que ele tinha nos olhos.

— E o que me diz do emprego? — perguntou ela.

— Eu disse que você voltaria rastejando — respondeu ele, largando o braço dela.

JeriLee não respondeu.



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