Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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— Por que pensou que eu lhe daria um emprego? O que sabe fazer melhor do que as outras?

JeriLee continuou calada.

— Talvez o negro lhe tenha ensinado alguns truques novos. — Abruptamente, ele arrancou o cinto e o roupão se abriu. — Mostre-me o que aprendeu. Faça-me ficar excitado. Tenho uma vaga para uma boa especialista no salão de massagem.

— Acho melhor eu ir embora.

— Qual é o problema? Acha que já não é mais suficien­te para você? — Ele soltou uma risada áspera e acrescentou: — Todo mundo sabe que os negros parecem cavalos.

JeriLee virou-se e seguiu para a porta. Ele segurou-lhe novamente o braço.

— Talvez eu esteja enganado. Talvez você prefira fazer com ela. — Virou a cabeça para trás e gritou para a mulher: — Venha até aqui!

Pelo amor de Deus, Vincent! — disse a mulher, em tom repugnado.

— Venha até aqui, sua vaca!

Lentamente, a mulher desceu do tamborete e aproxi­mou-se. Ele virou-se novamente para JeriLee:

— Não quer fazer nada com ela?

— Eu disse a você que ele era doido — murmurou a mulher.

Vincent ficou olhando para a mulher, com uma expres­são desvairada. JeriLee chegou a pensar que ele ia espan­cá-la. Depois, abruptamente, ele largou o braço de JeriLee e foi para o bar, onde tornou a encher o copo.

— Saiam daqui! As duas! Vocês, rameiras, são todas iguais!

Silenciosamente, JeriLee abriu a porta. A mulher se­guiu-a para o corredor.

— Ele deve estar mais alto do que o Empire State — comentou a mulher, enquanto esperavam o elevador. — Está se embriagando desde que chegou a casa.

Quando saíram do prédio, a mulher fez sinal para um táxi.

— Quer uma carona? — perguntou ela.

— Não, obrigada. Acho que vou andar um pouco.

A mulher meteu a mão na bolsa e depois estendeu-a para JeriLee.

— Aqui está o meu telefone. Ligue para mim, algum dia desses.

Automaticamente, JeriLee pegou o papel dobrado. A porta se fechou e o táxi arrancou. JeriLee olhou para a sua mão. Havia nela uma nota de vinte dólares toda dobrada.

— Oh, não! — Ainda deu um passo atrás do táxi, mas ele tinha acabado de virar a esquina. Ficou parada ali, para conter as lágrimas que lhe afloravam aos olhos.

— Vai querer um táxi, moça? — perguntou o por­teiro.

— Não, obrigada.

A brisa noturna estava começando a soprar do rio quan­do ela embarcou num ônibus que atravessava a cidade, na 57th Street.

O motorista olhou para a nota que JeriLee lhe estendeu, na hora de pagar. E foi em tom irritado que ele disse:

— Pelo amor de Deus, moça! Será que vocês, as ricas do East Side, não podem compreender que existem pessoas pobres neste mundo?

— Desculpe — disse JeriLee, rebuscando a bolsa e encontrando finalmente uma moeda. Olhou pela janela do ônibus, piscando. Seria até engraçado, se não fosse tão triste.

O único gesto de bondade que ela encontrara, durante todo aquele dia deprimente, partira de uma desconhecida, uma mulher cujo nome ela nem se lembrara de perguntar. Mas ambas eram mulheres, num mundo hostil. Somente uma mulher que já se vira na situação em que JeriLee estava agora é que poderia compreender e ter compaixão. JeriLee arrependeu-se de não ter aceitado a carona de táxi. Seria ma­ravilhoso ter alguém com quem conversar.

Subitamente, pensou em Licia. Havia nela algo de sóli­do e forte. Fred dissera que ela tinha interesses em uma por­ção de negócios. Talvez pudesse ajudá-la a arrumar um em­prego. JeriLee tomou a decisão de telefonar para Licia, assim que chegasse a casa.

A campainha lá embaixo soou. JeriLee deu uma última olhada pelo apartamento, antes de apertar o botão que des­trancava a porta do prédio. O apartamento parecia estar nas melhores condições possíveis. Ela abriu a porta e ficou es­perando.

Soaram passos no patamar abaixo.

— É aqui em cima — gritou JeriLee. — Mais um lance de escada.

A cabeça de Licia logo apareceu.

— Esqueci de dizer-lhe que não tinha elevador — disse JeriLee.

— Não há problema. — Licia sorriu. — Eu só soube que existia uma coisa chamada elevador aos catorze anos de idade.

JeriLee fechou a porta, depois que Licia entrou.

— Eu não queria interferir no seu trabalho.

— E não interferiu — disse Licia. — Geralmente tiro folga nas noites de terça-feira.

— Aceita um drinque?

— Tem algum suco de frutas?

JeriLee sacudiu a cabeça.

— Mas não gostaria de tomar um vinho branco?

— Está bem — assentiu Licia, após hesitar um instante.

JeriLee encheu rapidamente dois copos. Licia sentou-se no sofá, pondo o copo em cima da mesinha. JeriLee sen­tou-se em frente, sentindo-se de repente constrangida e pouco à vontade. Tomou um gole rápido do vinho e disse:

— Eu não deveria ter telefonado. Desculpe.

— Mas agora já telefonou e estou aqui — falou a moça preta, fitando-a nos olhos.

— Tem razão. — JeriLee baixou os olhos. — O teto estava caindo sobre a minha cabeça e senti que tinha de falar com alguém. E você era a única pessoa para quem achei que podia telefonar.

— O que aconteceu com a peça? Fred me disse que Fannon ia produzi-la.

— Não era muito boa. Eu não sabia disso antes, mas agora tenho certeza. Estraguei tudo.

— Essas coisas acontecem — disse Licia, com voz sua­ve. — Já investi dinheiro em alguns espetáculos e nada aconteceu.

— Agora, tenho que encontrar um emprego. Não pos­so mais ficar me enganando.

— Fred me disse que você não quis aceitar nenhum dinheiro dele.

JeriLee assentiu.

— Por quê?

— Fred tem seus próprios planos. Eu tenho os meus. E não se ajustam. Não seria direito que eu ficasse com o dinheiro dele.

Licia permaneceu em silêncio por um longo momento.

— Que espécie de trabalho você está querendo?

— Não sei. Sou uma atriz desempregada e uma escri­tora sem sucesso. A única coisa que sei é que preciso ganhar dinheiro bastante para continuar escrevendo.

— E quanto precisaria para isso? — perguntou Licia.

— Muito mais do que certamente deverei valer no mer­cado de trabalho. — JeriLee riu, embaraçada. — Pelo menos de cento e cinqüenta a duzentos dólares por semana.

— É um bocado de dinheiro.

— Eu sei. Mas este apartamento me custa mais de du­zentos dólares por mês, incluídos todos os serviços.

— Você está precisando é de um homem para mantê-la.

— Foi assim que você conseguiu?

— Foi — confirmou Licia, com a maior tranqüilidade. — Tenho um filho de oito anos. Quando ele nasceu, o pai deu-me vinte e cinco mil dólares para desaparecer da vida dele. Não queria a presença constrangedora do filho preto em seu lindo mundo branco.

— Sinto muito — disse JeriLee, rapidamente. — Eu não tinha o direito de fazer-lhe uma pergunta dessas.

— Mas tudo acabou dando certo. Meu garoto vive no campo, com minha mãe. E os amigos que fiz quando estava com o pai dele ajudaram-me a entrar no negócio.

JeriLee esvaziou o copo e tornou a enchê-lo.

— Você não bebe? — perguntou ela, reparando que Licia ainda não tocara no copo dela.

— Nunca gostei.

— O que está acontecendo com Fred?

— Ele está trabalhando. Neste momento, está em Los Angeles, gravando um álbum para uma das grandes gravado­ras. Quando ficar pronto, vão mandá-lo fazer uma tournée pelo país. Acham que ele tem grandes possibilidades.

— Fico contente por ele. Fred é um excelente sujeito.

— Ainda não mudou de idéia com relação a ele? Fred continua querendo casar-se com você.

— Não daria certo. Nós nos damos bem na cama e nos damos bem como amigos. Mas isso é o máximo a que podemos chegar. Se nos casássemos, acabaríamos brigando como cão e gato. Só há lugar para uma carreira na vida de Fred.

— E você não gostaria de renunciar à sua?

— Se pensasse assim, teria continuado casada com o meu primeiro marido.

Licia ficou novamente calada por um momento.

— Já jantou?

— Ainda não.

Licia sorriu.

— O que me diz de sairmos para comer alguma coisa? Não sei por quê, mas os problemas nunca parecem tão gra­ves quando estamos de barriga cheia.




Capítulo nove

O Sawmill River Parkway estava deserto. Desrespei­tando o limite máximo de velocidade, Licia calmamente ace­lerou o carro a mais de cento e dez quilômetros horários. JeriLee olhou para o relógio no painel. Eram quase nove e meia.

— Tem certeza de que sua mãe não vai ficar zangada, Licia, quando aparecer com alguém para jantar, a esta hora?

— Minha mãe está acostumada. Toda a minha família é gente da noite.

Ela começou a diminuir a velocidade.

— Além disso, já estamos quase chegando. Vamos virar no próximo desvio.

— Você gosta de guiar?

— Especialmente este carro — falou Licia, rindo ale­gremente. — Pertenceu antes a um cafetão nojento. Quando ele sentava neste carro, sentia-se o dono do mundo e olhava para os outros de cima. Um dia, ele se apaixonou por cavalos e desandou a jogar. As garotas o deixaram e ele teve que vender o carro, para alimentar o vício. Comprei-o quase de graça, pois ele estava com algumas prestações atrasadas. Mas era o tipo de cara que não me incomodei de passar para trás. Era o maior safado do mundo.

Saíram da estrada principal e seguiram por uma estrada estreita, que serpeava por entre árvores até o alto de um pequeno morro, onde se agrupavam umas poucas casas. , Chegamos — anunciou Licia, entrando no caminho da garagem da primeira casa à esquerda.

A porta da frente se abriu no momento em que elas saltaram do carro. Um garoto desceu correndo os degraus da varanda e atravessou o gramado.

— Mamãe! Mamãe!

Licia abaixou-se e ele pulou nos braços dela, abraçando-a pelo pescoço.

— Chegou na hora certa, mamãe. Está na hora dos comerciais.

Licia riu e beijou-o.

— Juro que um dia você ainda vai acabar com os olhos quadrados, de tanto ver televisão. JeriLee, esse é meu filho, Bonny. — Ela pôs o menino no chão. — Bonny, essa é JeriLee.

O garoto aproximou-se de JeriLee, com a mão esten­dida.

— Olá. Você gosta de televisão?

— Gosto — respondeu JeriLee, rindo.

— Ótimo. Então podemos ficar assistindo juntos. Há um bom programa que está para começar.

— Você vai é para a cama, rapazinho — disse uma voz, pela porta aberta. — Tem que ir à escola amanhã.

Bonny virou-se para Licia.

— Mamãe...

Licia pegou-lhe a mão e eles se encaminharam para a casa.

— Você ouviu o que sua avó falou, Bonny.

— Mas acabou de chegar. Assim, nem vou poder ficar com você.

— Você não me faria mesmo companhia, Bonny. — Licia soltou uma risada. — Passaria o tempo todo grudado na televisão.

A mãe de Licia era uma mulher alta. Se não fosse pelos cabelos grisalhos, poderia perfeitamente passar por irmã mais velha. O sorriso era cordial e a mão firme, ao apertar a de JeriLee.

— Prazer em conhecê-la — disse ela.

A casa era decorada com muito bom gosto, o que a tor­nava aconchegante. Bonny foi direto para a televisão colori­da, pedindo:

— Só mais dez minutos. . .

— Está bem — disse a mãe de Licia. — Depois, você vai direto para o seu quarto...

Elas foram para a cozinha. Havia uma mesa posta no alpendre dos fundos. E uma churrasqueira com carvões em brasa a um canto.

— Tenho bifes e salada — disse a mãe de Licia. — Não estava esperando ninguém esta noite.

— Para mim, está ótimo — disse JeriLee.

— Faço uma galinha frita deliciosa e costelas maravilhosas. Mas Licia não gosta de comida gordurosa, pois está sempre fazendo dieta

— Mamãe! — disse Licia, rindo.

— Está bem, está bem. Veja se consegue meter seu filho na cama, enquanto preparo os churrascos. — Virou-se para JeriLee. — Como prefere seu bife?

— Malpassado.

— Você é como Licia. Eu prefiro o meu muito bem-passado. Não suporto comer carne crua.

— Posso ajudar em alguma coisa? — perguntou Jeri­Lee, com um sorriso.

— Não é preciso. Estou acostumada a cuidar de tudo sozinha. Mas não gostaria de tomar uma bebida fria? Temos todos os tipos de sucos de frutas. Nesta casa só não entram álcool e esses refrigerantes gasosos.

— Qualquer coisa que tiver será ótimo, Sra. Wallace.

— Licia gosta de suco de laranja, mas eu prefiro o ponche havaiano.

— Vou tomar um pouco deste também.

A Sra. Wallace sorriu.

— Vou pôr algumas pedras de gelo em seu copo. Assim o gosto não fica tão doce.

A carne estava chiando quando Licia voltou.

— Esses bifes estão com um cheiro delicioso — co­mentou ela.

— Mandei o açougueiro do supermercado cortar espe­cialmente para mim — informou a mãe. — E ele não me cobrou um tostão extra por isso.

— Minha mãe tem todos os empregados do supermer­cado na palma da mão — disse Licia para JeriLee. Em se­guida, foi até a churrasqueira. — Para mim, a carne já está boa.

A Sra. Wallace levantou-se.

— Volte imediatamente para cá e sente-se, Licia. Sou eu quem cuida das coisas de cozinha nesta casa.

— Está bem, mamãe — disse Licia humildemente, olhando para JeriLee e sorrindo.

JeriLee retribuiu o sorriso, sem dizer nada.

Já passava das onze horas quando elas acabaram. Du­rante todo o jantar, a mãe de Licia não parou de falar um 1 instante. Era evidente que acumulara uma semana inteira de problemas e conversas para aquela noite. Licia ficou escutando pacientemente, enquanto a mãe discorria sobre a escola de Bonny, as compras e tudo o mais. Todos os problemas domésticos triviais foram apresentados. Ao contá-los, a Sra. Wallace o fazia com um certo orgulho. Ela os enfren­tara. A aprovação de Licia era muito importante para sua mãe. E a senhora ficou na maior alegria, quando Licia mani­festou o reconhecimento pelos esforços que havia feito. Fi­nalmente, depois de muita conversa, Licia disse:

— Bem, acho que já está na hora de voltarmos para Nova York.

— Vocês não vão passar a noite aqui? — perguntou a mãe, surpresa. — Já arrumei o quarto.

— Talvez JeriLee tenha alguma coisa para fazer em Nova York amanhã de manhã, mamãe.

— Tem alguma coisa? — perguntou a mãe a JeriLee, abruptamente.

— Não quero incomodá-la, Sra. Wallace.

— Não é incômodo nenhum. Há duas camas no quarto de Licia.

— Minha mãe está acostumada a ver os outros fazerem exatamente o que ela quer — disse Licia, com um sorriso.

JeriLee finalmente assentiu, levantando-se e pegando seu prato.

— Deixe-me ajudar a lavar os pratos.

— Não precisa fazer nada, mocinha — disse a Sra. Wallace. — Temos uma lavadora de pratos automática.

Havia três quartos no segundo andar. O quarto de Licia era o maior. Ficava no canto da casa, separado dos outros por um banheiro grande. Licia parou no vestíbulo do segun­do andar e deu um beijo na mãe.

— Boa noite, mamãe.

— Boa noite, Sra. Wallace — disse JeriLee. — Obri­gada por tudo.

A mulher mais velha agradeceu e foi para o seu quarto. JeriLee seguiu Licia para o quarto. Havia um pequeno aba­jur aceso entre as duas camas. Licia foi direto para o ba­nheiro.

— Vou pegar uma escova de dentes nova para você. Tenho também algumas camisolas extras no armário. Pegarei uma para você.

— Obrigada. — JeriLee foi até a janela aberta e res­pirou fundo. O ar da noite era fresco e agradável.

— Muito diferente da cidade — disse Licia, atrás dela.

— Eu quase tinha esquecido como é o ar fresco.

Licia pegou uma camisola impecavelmente passada e desdobrou-a.

— Esta serve para você?

— Está ótima.

— Pode ir ao banheiro primeiro — disse Licia, esten­dendo a camisola na direção de JeriLee.

Ela pegou a camisola e entrou no banheiro, fechando a porta. Despiu-se rapidamente e ajeitou as roupas num cabide. Tirou a escova do pacote e escovou os dentes meticulo­samente, lavando o rosto em seguida. Estava se sentindo muito bem até aquele momento, mas de repente descobriu que estava nervosa. Vasculhou a bolsa. Se bem se lembrava, tinha consigo um vidro de Valium 10 mg. Logo encontrou-o e engoliu uma cápsula. Sentiu-se mais confiante. O Valium sempre a fazia dormir rapidamente.

Licia sorriu quando ela saiu do banheiro, comentando:

— Acho que essa camisola ficou um pouco grande em você.

JeriLee olhou para baixo. A bainha estava quase arras­tando no chão.

— Tem razão.

— Essa é a sua — falou Licia, indicando a cama mais próxima da porta.

JeriLee assentiu. Sentou-se na cama e automaticamente pegou um cigarro e acendeu-o. Licia pareceu sentir o nervo­sismo dela.

— Está se sentindo bem?

— Estou, sim. Tive apenas um dia terrível, nada mais.

— Não precisa ficar preocupada — disse Licia, em voz baixa. — Não a trouxe até aqui para tentar conquistá-la. Nem sabia que íamos passar a noite aqui.

— Estou contente por ter vindo. Foi a única coisa boa que me aconteceu durante o dia inteiro.

— Ótimo — disse Licia, indo até o armário.

Rapidamente, tirou a blusa por cima da cabeça e baixou a saia. Estendeu as mãos para as costas, a fim de desabotoar o sutiã. JeriLee apagou o cigarro. Quando tornou a levantar os olhos, Licia já se metera num penhoar bege, quase da cor de sua pele. JeriLee enfiou-se debaixo das cobertas. Licia sentou-se na outra cama.

— O que achou da minha família, JeriLee?

— Há muito amor nesta casa.

— É por isso que os mantenho aqui. — Licia sorriu. — Não se pode conseguir isso lá em Nova York.

— Você está fazendo o mais certo.

— Mas Bonny está crescendo depressa. Um menino como ele precisa de um pai.

JeriLee não disse nada.

— Acha que ele aceitaria Fred?

— Fred adora crianças.

— E quanto a mim? Ele alguma vez lhe disse alguma coisa a meu respeito?

— Somente que gostava de você. Ele a respeita muito.

— Mas sabe tudo a meu respeito. Já me viu com Sam. — Licia ficou calada por um momento, pensativa. — Não é que eu não goste de homens. Apenas me cansei deles. Com os homens, é sempre uma batalha. Eles não fazem amor, fa­zem guerra.

— Fred não é desse tipo. É um homem extremamente gentil.

Licia levantou-se.

— Não sei. . . — murmurou ela, hesitante. — Tenho que pensar mais um pouco a esse respeito. Não quero come­ter nenhum erro.

— E não vai cometer. Tenho certeza de que fará a coisa certa.

— Acha mesmo?

— Acho.

Licia sorriu subitamente.



— Mas chega de falar nos meus problemas. Durma agora. — Apagou a luz e acrescentou: — Boa noite.

— Boa noite.

JeriLee observou-a entrar no banheiro e fechar a porta. Ficou de olhos abertos, contemplando a escuridão. Momen­tos depois, ouviu a água correr e fechou os olhos. Não ouviu Licia sair do banheiro. Não sentiu o beijo suave de Licia em seu rosto, nem a ouviu murmurar baixinho:

— Pobre menina. . .

Pois estava profundamente adormecida.


Capítulo dez

O maldito sol da Califórnia, pensou JeriLee, ao abrir os olhos. Oh, Deus, o que ela não daria por um único dia de chuva!

Estava agora completamente desperta e pensava em Li­cia. Por um momento, quase pôde sentir a sensação suave da pele cor de mel de encontro a seus dedos. Depois, ouviu vozes do outro lado da porta fechada do quarto e o pensa­mento se desvaneceu.

Ela sentou-se na cama e ficou escutando. As vozes, de um homem e uma mulher, eram abafadas. A voz do homem tornou-se mais insistente. Um momento depois, a porta se abriu lentamente. Angela espiou para dentro do quarto:

— Está acordada, JeriLee?

— Estou.


— Você estava dormindo ainda há pouco, quando dei uma olhada. Não quis acordá-la.

— Obrigada. Quem está lá fora?

— George.

— Mas que droga! O que ele quer?

— Não sei. Disse apenas que era muito importante e que precisava vê-la imediatamente. Vou dizer a ele para ir embora, que você não está passando bem.

— Não, Angela. — JeriLee pôs os pés para fora da cama. George era egocêntrico demais para fazer-lhe uma sim­ples visita de cortesia. Devia ter acontecido alguma coisa. — Vou falar com ele. Peça-lhe apenas para esperar um mi­nuto, enquanto vou ao banheiro.

— Está certo. Avise-me quando estiver pronta, para que eu o mande entrar.

— Não, Angela. Irei falar com ele lá fora.

— Não acha que é melhor ficar na cama? — perguntou Angela, em tom de desaprovação.

— Para quê? Não estou doente. Fiz apenas um aborto sem importância.

Angela saiu do quarto, fechando a porta. JeriLee foi para o banheiro. Sentou-se no vaso e trocou o tampão. Esta­va sangrando agora mais do que pela manhã e ainda estava bastante dolorida. Tomou duas aspirinas e um Percodan, para passar a dor. Depois, lavou o rosto com água fria. Co­meçou a sentir-se melhor. Passou um pouco de batom nos lábios, ruge nas faces, e escovou rapidamente os cabelos.

George levantou-se assim que ela entrou na sala.

— Ei, JeriLee, você nem parece doente!

— O resultado da maquilagem. — Ela sorriu e foi sentar-se numa poltrona, diante dele. — Qual é o problema, George?

— Precisava falar com você. Tinha que lhe dizer o quanto lamento tudo o que aconteceu.

JeriLee ficou olhando para ele, sem dizer nada.

— Não deveríamos ter sido tão precipitados, JeriLee. Deveríamos ter deixado o bebê nascer.

— Você está brincando comigo! — exclamou ela, não conseguindo disfarçar a surpresa em sua voz.

— Falo sério, JeriLee.

— E sua esposa?

— Não haveria qualquer problema com ela — disse George, os olhos azuis imperturbáveis. — Conversamos sobre isso ontem à noite. Poderíamos ter adotado o bebê e tudo daria certo.

— Oh, Deus!

— Rosemary adoraria ter um bebê. Ela adora crianças.

— Então por que vocês não têm um filho?

— Por causa daquela maldita série de TV que ela está fazendo. O contrato é de três anos. E dá muito dinheiro, especialmente com os contratos paralelos. Ela perderia tudo, se ficasse grávida.

— E como eu haveria de sustentar-me durante todo o tempo em que estivesse de barriga inchada?

George, como sempre, não percebeu o sarcasmo de Je­riLee.

— Conversamos sobre isso também. Você poderia ter ido morar conosco. Dessa forma, todos nós teríamos partici­pado da gravidez.

— Não estou acreditando. . . — murmurou JeriLee, meneando a cabeça.

— Teria dado certo. Estivemos numa festa ontem à noite, na casa do meu analista. Todos concordaram em que era uma boa idéia.

— Todos?

— Todos — assentiu ele. — Você conhece meu ana­lista. Ele tem os clientes mais importantes da cidade. E uma vez por mês nos reunimos na casa dele, para uma espécie de sessão de autocrítica. Foi assim que o assunto veio à baila.

JeriLee conhecia realmente o psicanalista dele. Se a gente não estivesse precisando dele ao ir procurá-lo, estaria ao terminar a primeira visita. Isto é, desde que o paciente tivesse um nome importante e pudesse gastar cem dólares por hora, que era quanto custava a consulta.

— Isso acaba com tudo, George — disse JeriLee, irri­tada. — Levei dois anos para que esta cidade me levasse a sério e você estraga tudo numa só noite, com uma besteira dessas.

— Não houve nada disso, JeriLee — disse ele, falando sinceramente. — Somos todos muito francos e sinceros uns para com os outros. Todos a respeitam muito.

— Claro, claro. . .

— É verdade. Veja o caso de Tom Castel, por exemplo. Ele é que está encarregado de produzir o seu filme lá no estúdio.

— O que há com ele? — perguntou JeriLee, querendo confirmar o que seu agente já lhe dissera.

— Ele disse que tem conversado com seu agente, para que você mesma escreva o roteiro baseado em seu livro. Está convencido de que você é a única capaz de fazê-lo, especial­mente depois que os roteiros de Warren provaram ser um desastre.

— Então o que ele está esperando? Por que não me contrata logo de uma vez?



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