Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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A mãe ficou em silêncio. O Sr. Randall começou então a falar, suavemente, como se estivesse conversando com um cliente do banco que encontrara um erro em seu extrato de conta mensal.

— Eu daria um bom pai para os dois. Você é uma menina maravilhosa, e gosto muito de seu irmão.

— Não gosta de mim também? — perguntou JeriLee, com uma imperturbável lógica infantil.

— Claro que gosto. E pensei que tivesse deixado isso bem claro.

— Mas não falou.

— JeriLee! — disse a mãe, com voz ríspida nova­mente. — Você não tem o direito de falar assim com o Sr. Randall!

— Não há problema, Verônica. Gosto muito de você, JeriLee, e ficarei orgulhoso se quiser aceitar-me como pai.

JeriLee fitou-o nos olhos e viu pela primeira vez o afeto e a bondade que neles estavam ocultos. Ela reagiu imediatamente, mas não soube o que dizer.

— Sei que nunca poderei tomar o lugar do seu pai verdadeiro, JeriLee, mas amo sua mãe e procurarei ser o melhor possível para todos vocês.

— Posso ser a dama de honra no casamento? — inda­gou JeriLee, subitamente, com um sorriso.

John Randall riu, aliviado.

— Pode ser qualquer coisa que desejar — disse ele, apertando a mão da mãe de JeriLee. — Menos a noiva.

Um ano depois do casamento, John Randall adotou formalmente as duas crianças. Ela passou a se chamar Jeri­Lee Randall. Sentiu uma estranha tristeza ao assinar pela primeira vez o seu novo nome. Agora, quase nada mais res­taria para fazê-la lembrar-se do pai. Bobby, que não chegara realmente a conhecer o pai, já o esquecera. E JeriLee recea­va que, com o tempo, também acabaria esquecendo-o.




Capítulo três

John Randall olhou por cima do New York Times quando a filha desceu para a mesa do café. Ela contornou a mesa rapidamente e beijou-o no rosto. O pai sentiu cheiro de perfume, enquanto ela ia sentar-se em sua cadeira.

A voz de JeriLee estava alterada, com um excitamento contido.

— Bom dia, papai.

Ele sorriu, fitando-a. Gostava realmente dela. Nenhum dos traços individuais que constituíam o rosto era bonito. O nariz talvez fosse um pouco comprido demais, a boca era um pouco larga demais, os olhos azul-escuros sobre os malares salientes eram grandes demais para o tamanho do ros­to. Mas, de alguma forma, todos aqueles traços reunidos proporcionavam um efeito incrível. Depois de se olhar uma vez para JeriLee, não se podia mais esquecê-la. Ela era real­mente bonita.

E, naquela manhã, John Randall podia ver que ela to­mara um cuidado extra com sua aparência. Os cabelos pare­ciam mais lustrosos que o habitual e a pele estava rebrilhando de tão limpa. Ele sentia-se contente pelo fato de JeriLee não usar maquilagem, como a maioria das moças.

— Algo muito importante deve estar acontecendo, JeriLee.

Ela fitou-o por cima da garrafa de leite, que estava despejando sobre os flocos de milho.

— O que disse, papai?

— Que alguma coisa está acontecendo.

— Nada de especial.

— Ora, JeriLee, deixe disso. Há algum rapaz novo em sua turma?

— Não é nada disso — falou ela, sacudindo a cabeça.

— Ainda é Bernie?

JeriLee corou, mas não respondeu.

— Eu sei que há alguma coisa, JeriLee.

— E por que acha sempre que tem de ser um rapaz, papai?

— Porque você é uma moça.

— Não é nada disso. Mas ontem eu me encontrei com alguém, no ônibus.

— No ônibus? — repetiu ele, surpreso.

— Ele sentou-se ontem a meu lado — assentiu Jeri­Lee. — E pode imaginar quem era, papai? Há três meses que ele sempre se senta a meu lado no ônibus, e eu não tinha a menor idéia de quem era.

— Mas quem é ele afinal? — indagou John Randall, agora realmente perplexo.

— Walter Thornton! Sempre pensei que ele apenas passasse o verão aqui. Nunca imaginei que morasse perma­nentemente.

— Walter Thornton? — murmurou John Randall, com um tom de desaprovação na voz.

— Ele mesmo! O maior escritor da América!

A desaprovação na voz de John Randall tornou-se ine­quívoca:

— Mas ele é comunista!

— E quem disse isso?

— O Senador McCarthy, há mais de dois anos. Ele foi chamado a depor perante a comissão. E todo mundo sabe o que isso significa. Quando a notícia se espalhou, o banco chegou a pensar seriamente em pedir-lhe que cancelasse sua conta.

— E por que não o fizeram?

— Não sei. Acho que ficamos com pena dele. Afinal de contas, somos o único banco da cidade, e seria um trans­torno para ele obrigá-lo a fazer seus negócios fora daqui.

JeriLee já ouvira falar bastante a respeito de negócios bancários, para ter uma idéia da maneira como as coisas funcionavam. Astutamente, perguntou:

— Ele sempre teve um saldo médio muito grande?

John Randall corou. A filha acertara em cheio no pon­to importante. Walter Thornton provavelmente tinha um saldo médio maior que qualquer outro cliente do banco. A renda semanal dele era fantástica.

— Sim.

Depois de conquistar aquela vitória, JeriLee permane­ceu calada. John Randall fitou-a em silêncio. Ela não era como as outras moças, ou mesmo as outras mulheres que ele conhecia. A mãe não tinha a mesma capacidade de che­gar ao fundo das coisas, como JeriLee fazia. Apesar disso, não havia nada nela que não fosse feminino.



— Como é ele? — perguntou John Randall, curioso.

— Como é ele quem? — indagou Verônica, trazendo os ovos com bacon da cozinha.

— Walter Thornton. JeriLee conheceu-o ontem, no ônibus.

— Li nos jornais que ele está se divorciando. — Verô­nica foi até a porta da sala e gritou: — Bobby, desça logo para tomar seu café! Caso contrário, vai chegar atrasado à escola!

A voz de Bobby soou lá em cima:

— Não é culpa minha, mamãe. JeriLee passou a ma­nhã inteira trancada no banheiro.

Verônica voltou e sentou-se à mesa.

— Não sei o que vou fazer com Bobby. Cada dia ele arruma uma nova desculpa.

John olhou paira a filha e sorriu. JeriLee estava corando. Ele disse para a esposa:

— Não fique aborrecida, querida. Essas coisas aconte­cem de vez em quando. Posso levá-lo para a escola, a cami­nho do banco.

— Como é ele, JeriLee? — indagou Verônica, virando-se para a filha. — O Sr. Smith, do mercado, diz que a Sra. Thornton estava sempre cheirando a álcool. E ele che­gou mesmo a desconfiar que muitas vezes ela aparecia lá embriagada. Todos sentiam muita pena dele.

— Ele me pareceu um homem muito calmo e simpá­tico — falou JeriLee, dando de ombros. — Ninguém pode­ria imaginar que ele é o famoso Walter Thornton.

— Disse a ele que quer ser escritora?

JeriLee assentiu.

— E o que ele disse?

— Que isso era ótimo. Foi bastante delicado.

— Talvez ele concorde em dar uma olhada nas coisas que você escreveu. Poderia dar-lhe uns conselhos.

— Oh, mamãe! Um homem como ele não se daria ao trabalho de ler as coisas escritas por uma colegial.

— Nunca se sabe. . .

— Acho que ela não deve incomodá-lo — interrompeu John. — JeriLee tem razão. O homem é um profissional. Não seria justo pedir-lhe. Ele certamente tem coisas mais importantes com que se preocupar.

— Mas. . .

John não deixou que Verônica continuasse.

— Além disso, ele não é o tipo de pessoa com quem JeriLee deva relacionar-se. É muito diferente de nós. Vive por padrões diferentes. Todo mundo sabe que os comunistas não primam pela moral.

— Ele é comunista? — perguntou Verônica.

John assentiu.

— O Sr. Carson diz que o banco deve ser muito cui­dadoso nos negócios que faz com ele. Não queremos que ninguém tenha idéias erradas a nosso respeito.

O Sr. Carson era o presidente do banco, eminente re­publicano e o homem mais importante de Port Clare. Há vinte anos que ele escolhia pessoalmente o prefeito da cida­de, embora fosse um homem modesto demais para querer ocupar o cargo.

— Se é assim que o Sr. Carson pensa. . . — disse Verônica, impressionada.

— Acho que isso é uma injustiça! — explodiu JeriLee. — Há muita gente que pensa que o Senador McCarthy era pior do que os comunistas.

— O Senador McCarthy é um americano de verdade. Ele é o único que está entre nós e os comunistas. Da manei­ra como Truman está agindo, teremos muita sorte se não entregarmos todo o país aos comunistas. — A voz de John era firme e incisiva.

— Seu pai tem razão, querida. Quanto menos você se meter com ele, melhor será.

— Mas não estou me metendo com ele, mamãe! — Subitamente, JeriLee estava quase em lágrimas. — Ele ape­nas viaja sentado a meu lado no ônibus!

— Sei disso, JeriLee — disse a mãe, com voz mais suave. — Mas tome cuidado para que não a vejam conver­sando muito com ele.

Bobby entrou correndo na sala, puxou uma cadeira e começou a servir-se de ovos com bacon.

— Mas o que há com você?----perguntou-lhe Verôni­ca, rispidamente. — Já esqueceu suas maneiras? Nem mesmo nos dá um bom-dia?

— Bom dia — resmungou Bobby, com a boca cheia, olhando para JeriLee e acrescentando: — Mas foi tudo cul­pa dela. Se JeriLee não tivesse demorado tanto no banhei­ro, eu não teria me atrasado.

— Pode comer mais devagar — disse John. — Eu o levarei até a escola.

Bobby sorriu, triunfante, para JeriLee.

— Obrigado, papai.

Por um breve instante, JeriLee sentiu uma pontada de ódio pelo irmão e pelo relacionamento masculino que ele tinha com o pai. Mas talvez as coisas devessem ser assim mesmo. Afinal de contas, ela era moça. Mas isso não tinha sentido. Não era razão suficiente para que ela se sentisse isolada do mundo deles. Levantou-se.

— Já está na hora de eu ir.

— Está bem, querida — disse a mãe, começando a tirar os pratos.

JeriLee contornou a mesa e beijou a mãe e o pai. De­pois, pegou os livros da escola e saiu de casa, seguindo na direção do ponto de ônibus.

O Sr. Thornton não viajou no ônibus naquela manhã nem na manhã seguinte. Alguns dias depois JeriLee leu num jornal que ele fora para Hollywood, para a filmagem de uma história sua. Seguiria depois para Londres, onde uma de suas peças seria apresentada. Foi só no verão seguinte, um dia depois de completar dezesseis anos, que JeriLee tornou a vê-lo. A essa altura, ela não era mais uma menina. Já virara uma mulher.

Fisicamente, JeriLee amadureceu muito antes disso. Os seios começaram a se desenvolver logo depois que ela fez onze anos. Aos doze, já tinha regras. Aos quinze anos, ainda havia vestígios da gordura de criança em seu rosto. Mas, durante o inverno, isso desapareceu, ficando as faces planas, extremamente atraentes. Ela percebeu o aumento dos cabe­los debaixo dos braços e na região púbica. Como todas as moças, começou a raspar-se debaixo dos braços e a usar deso­dorante. Mas percebeu também outras mudanças que haviam ocorrido dentro dela.

Começou na primavera. Como integrante da torcida organizada, ela foi para o campo onde a equipe de beisebol estava treinando. Como as outras moças, ela também usava uma camisa de meia folgada, com as letras PC pregadas sobre o pano branco, nas cores preto e laranja. A saia era muito curta, mal chegando aos joelhos.

Elas tomaram posição diante das tribunas. A Srta. Carruthers, a professora de educação física, alinhara-as de costas para os jogadores no campo. Como JeriLee também integrara a torcida organizada no ano anterior, a Srta. Carruthers colo­cou-a a seu lado, durante os diversos movimentos de in­centivo.

Cerca de quinze minutos depois, o Sr. Loring, treinador da equipe de beisebol, aproximou-se.

— Srta. Carruthers, posso falar-lhe por um momento?

— Mas é claro, Sr. Loring. — Ela ficou parada, espe­rando que o treinador dissesse o que desejava.

Ele tossiu, constrangido, antes de acrescentar:

— Em particular.

Ela assentiu e seguiu-o até o lugar em frente ao cama­rote destinado aos visitantes. Depois de olhar atentamente ao redor, para certificar-se de que ninguém poderia ouvi-los, o treinador disse:

— Srta. Carruthers, que diabo está querendo fazer com meu time?

Ela ficou aturdida.

— Eu... eu não estou entendendo. ..

— Será que não pode ver? Nos quinze minutos em que está aqui, meus rapazes perderam dois lances fáceis, o outfielder1 pisou num buraco e o pitcher2 não acertou uma bola.

A Srta. Carruthers ainda não estava entendendo.

— E o que isso tem a ver comigo, Sr. Loring?

Ele quase explodiu.

— Tem que tirar essas garotas daqui, ou não terei mais nenhum time quando começar a temporada!

— Sr. Loring, como pode dizer uma coisa dessas? Mi­nhas garotas não estão interferindo em seus jogadores. Elas estão simplesmente cumprindo suas obrigações.

— A obrigação delas é estimular o time, e não fazer os rapazes perderem a cabeça. Olhe só para aquela! — Apontou para uma das moças e acrescentou: — Tudo nela está saltan­do para fora!

— Está se referindo a JeriLee?

— Essa mesma! — disse o treinador, furioso. — O que se vê na frente da blusa dela não são botões!

A Srta. Carruthers ficou em silêncio por um momento, observando JeriLee. Não havia a menor dúvida quanto às animais propriedades femininas dela. Os mamilos eram du­ros e bem-definidos, mesmo sob a blusa folgada.

— Entendo o que está querendo dizer. . .

— Tem que tomar alguma providência com ela, Srta. Carruthers. Faça-a usar um sutiã ou algo assim.

— Todas as minhas garotas usam sutiã!

— Então faça-a usar um sutiã do tamanho apropriado! Nesse exato momento, houve um estrondo do outro lado do campo. Um outfielder correra direto para cima da cerca e se estatelara no chão, Imediatamente, os outros jogadores começaram a se agrupar em torno dele. O treinador atravessou o campo correndo. Ao chegar ao outro lado, o rapaz estava sentado no chão, meio tonto.

— Mas que diabo, Bernie! — gritou o treinador, fu­rioso. — O que está tentando fazer? Matar-se?

— Não, senhor. Eu estava tentando pegar a bola, mas fiquei ofuscado pelo sol.

Loring virou-se e olhou para o céu.

— Sol? Mas que sol? O céu está coberto de nuvens!

Ele olhou então para o outro lado do campo e viu JeriLee. Mesmo àquela distância, podia avistar os movimen­tos dos seios dela. Loring não se conteve mais e berrou:

— Srta. Carruthers, tire essas garotas do meu campo!

Bernie estava esperando por JeriLee depois do treina­mento. Ele se emparelhou com ela, seguindo ambos na dire­ção do ponto de ônibus.

— Você se machucou, Bernie?

Ele sacudiu a cabeça.

— Mas bateu com toda a força naquela cerca. Devia olhar para onde vai. Em que estava pensando?

— É que eu estava olhando para você. . .

— Mas que absurdo! Você devia era estar olhando para a bola.

— Sei disso. Foi o que o treinador me disse.

— Então por que você estava olhando para mim?

— Não sabe por que?

— Não — disse JeriLee, começando a ficar aborrecida. — Não tenho a menor idéia.

— Você cresceu bastante desde o ano passado.

— Mas claro que cresci, seu estúpido! E você também cresceu.

— Não era desse crescimento que eu estava falando — disse Bernie, erguendo a mão acima da cabeça. — Mas deste! — E esticou as mãos na frente do peito.

— Está querendo dizer. . . ?

— Igualzinho a Marilyn Monroe — falou o rapaz. — É o que todos os rapazes estão dizendo.

JeriLee corou e, involuntariamente, baixou os olhos para contemplar-se.

— Eles são horríveis. . . — murmurou ela.

Mas, ao mesmo tempo, sentiu os mamilos endurecerem e um estranho calor lhe percorrer o corpo.




Capítulo quatro

O Praia Clube, em Point, abria para a temporada em meados de maio Os veranistas começavam a vir de Nova York, primeiro para os fins de semana e depois, quando as aulas terminavam, para ficar todos os dias. A essa altura, o clube ficava cheio de crianças, durante os dias úteis. Nos fins de semana, os pais se estendiam ao sol, exaustos depois de algumas horas de tênis ou golfe. Todas as noites de sá­bado, havia um grande jantar dançante para os sócios.

Para os jovens locais, trabalhar no clube era uma honra. Foi Bernie quem primeiro deu a idéia a JeriLee de que ela deveria candidatar-se a uma das vagas.

— Vou trabalhar no clube neste verão, JeriLee.

— Fazendo o quê?

— Salva-vidas.

— Mas você não nada muito bem. Até eu sei nadar muito melhor do que você.

Bernie sorriu.

— Eles sabem disso.

— E mesmo assim o contrataram?

— É que eles acham que eu sou bastante grande e os garotos irão obedecer-me — confirmou ele.

Aos dezessete anos, Bernie já tinha mais de um metro e oitenta, ombros largos, corpo musculoso.

— Além disso, eles já contrataram dois excelentes na­dadores para tomarem conta da praia. É onde realmente precisam de salva-vidas. Eu vou trabalhar na piscina, onde não haverá problemas.

— É onde todas as garotas de Nova York costumam ficar — disse JeriLee, sentindo uma estranha pontada de ciúme. — Você realmente deu um bom golpe, Bernie.

— Pare com isso, JeriLee. — Ele corou. — Você sabe muito bem que não olho para nenhuma outra garota.

— Mesmo quando elas aparecem com aqueles maiôs de duas peças. . . daquele tipo que os franceses chamam de biquínis?

— Mesmo assim, elas não chegam a seus pés, JeriLee — disse Bernie, um tanto constrangido. — Por que você não arruma um emprego lá?

— Para fazer o quê?

— Ouvi o Sr. Corcoran dizer a alguém que estão pre­cisando de garçonetes. Não é um emprego muito ruim. Ape­nas algumas horas de trabalho, no almoço e no jantar. Nos intervalos, você pode fazer o que bem quiser. E poderemos então nos encontrar.

— Não sei. . . — murmurou JeriLee, indecisa. — Não creio que meu pai vá gostar. Você sabe o que ele pensa a respeito dos veranistas.

— Por que não pergunta a ele?

— O que o faz pensar que eu conseguirei o lugar?

— O Sr. Corcoran disse que muitas das moças que ele entrevistou não eram bastante bonitas. Ele acha que é muito importante, para o clube, ter gente bonita trabalhando lá. — Fitou-a por um momento e depois acrescentou: — Tenho certeza de que você não vai ter problemas.

— Acha mesmo? — perguntou JeriLee, com um sorriso.

Ele assentiu.

— Sendo assim, acho que vou pedir a meu pai.

O pai concordou em que era uma boa idéia. Ele já notara o desenvolvimento de JeriLee e o súbito interesse dos rapazes por ela. Estava preocupado, com receio de não haver com que ocupá-la, quando as aulas terminassem. De­pois que ele consentiu e arrumou a entrevista com o Sr. Cor­coran, o emprego de JeriLee estava garantido, pois o banco detinha a hipoteca do clube.

Até as aulas terminarem, JeriLee trabalhou apenas nos fins de semana. Ao meio-dia, ela servia o almoço, junto à piscina. Nas noites de sábado, trabalhava no restaurante do clube.

O almoço não era problema, porque o cardápio era simples, principalmente hambúrgueres e cachorros-quentes, além de alguns pedidos de salada de repolho ou de batata e uns poucos pratos de batatas fritas. Depois que o almoço terminava, por volta das três e meia, JeriLee ficava livre até as seis horas, quando se apresentava no restaurante, a fim de ajudar a preparar as mesas.

As três outras moças com quem ela trabalhava já serviam ali havia duas temporadas e conheciam tudo. Em con­seqüência, JeriLee sempre ficava com os piores trabalhos. O jantar tornava-se um trabalho ainda mais difícil porque o maître e o chef eram irmãos italianos e criavam um ambiente de pânico, a gritar continuamente um com o outro em ita­liano e a berrar para os demais num inglês estropiado.

Depois que as aulas terminaram e as famílias de vera­nistas se fixaram definitivamente para a temporada, havia baile todas as noites de sábado. Pequenas orquestras eram trazidas de Nova York. Quando o restaurante fechava, JeriLee e as outras moças iam para o bar onde estava localizada a pista de danças e ficavam sentadas no terraço, ou­vindo a música e vendo os sócios dançarem. Bernie era um dos dois rapazes que ficavam empurrando as mesinhas de coquetéis em torno da pista de danças. JeriLee esperava até que ele terminasse o serviço, para levá-la para casa, geral­mente por volta de uma hora da madrugada.

O pai de Bernie dera entrada para que ele comprasse um Plymouth Belvedere 1949, conversível. O pagamento das prestações consumia praticamente todo o dinheiro que o rapaz ganhava no clube. Durante aquele verão, entre as responsabilidades com o carro e o emprego, Bernie parecia ter adquirido uma grande maturidade, juntamente com a pele bronzeada e os cabelos desbotados pelo sol. Ele não era mais apenas um rapaz.

As jovens sócias do clube também causaram algum efeito em Bernie. Como salva-vidas na piscina, ele era um dos poucos rapazes que estavam sempre por perto. Assim, era inevitável que elas tentassem experimentar os seus en­cantos em cima dele.

JeriLee assistia a tudo nas tardes em que vestia o maiô e ia à piscina para refrescar-se um pouco. As moças estavam sempre pedindo que Bernie fosse buscar-lhes uma Coca-Cola, cigarros ou uma toalha, estavam sempre querendo que ele lhes ensinasse a nadar direito ou a mergulhar. JeriLee sentia uma pontada de ciúme ao ver que Bernie se regozi­java com toda aquela atenção. Mas jamais disse coisa alguma que pudesse indicar que o percebera.

Em vez disso, ela entrava na piscina e começava a na­dar de um lado para outro, em braçadas firmes, até que os braços ficavam cansados, parecendo de chumbo. Saía então da piscina, do outro lado, longe da cadeira em que ficava o salva-vidas, deitando-se em cima de uma toalha estendida sobre o chão de concreto e pondo-se a ler um livro. Quando chegava a hora de voltar ao trabalho, pegava suas coisas e ia embora, sem ao menos olhar para trás.

Depois de algum tempo, Bernie começou a notar a atitude distante de JeriLee. Uma noite, ao levá-la paira casa, perguntou:

— Por que não fala comigo quando vai à piscina de tarde?

— Preste atenção na estrada, Bernie.

— Está zangada comigo por algum motivo?

— Não, Bernie. Você conhece as regras tanto quanto eu. O Sr. Corcoran não gosta que os empregados fiquem conversando, quando os sócios estão por perto.

— Ora, JeriLee, ninguém dá a menor importância a isso. E você sabe muito bem.

— Além disso, você está sempre muito ocupado. — JeriLee passou a falar num sotaque nova-yorkino, imitando as sócias: — Bernie, não acha que minha braçada está muito curta? Bernie, eu adoraria tomar uma Coca-Cola. Bernie, não quer acender meu cigarro?

— Você fala como se estivesse com ciúmes.

— Não estou, não!

— Isso faz parte do meu trabalho — disse Bernie, caindo na defensiva.

— Claro, claro — disse JeriLee, com um tom de sar­casmo.

Bernie ficou em silêncio, seguindo pela estrada. Entrou no estacionamento, de onde se descortinava o estreito, des­ligando o motor. Havia uns poucos carros parados ali, todos com os motores desligados e as luzes apagadas. Ainda era cedo. Depois que os clubes e bares fechassem, às duas horas da madrugada, aquele lugar ficaria repleto de carros. Do rádio de um dos carros vinha o som fraco de música.

Bernie virou-se e estendeu as mãos para JeriLee. Ela afastou as mãos dele.

— Estou muito cansada, Bernie. Quero ir logo para casa.

— Você está com ciúmes.

— Apenas não gosto que elas o façam bancar o tolo.

— Elas não me estão fazendo de tolo. Mas não posso deixar de tratar bem todas as sócias.

— Claro, claro. . .

— Além do mais, não há uma só que chegue a seus pés, JeriLee. Todas elas são falsas e artificiais.

— Está falando sério?

Ele assentiu.

— Até mesmo Marian Daley?

Marian Daley, uma loura de dezessete anos, sempre fora muito mimada pelos pais. Usava os menores biquínis do clube, e dizia-se que era ainda mais maluca que as garotas de Nova York.



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