Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



Baixar 2.48 Mb.
Página20/27
Encontro29.07.2016
Tamanho2.48 Mb.
1   ...   16   17   18   19   20   21   22   23   ...   27

— Ele diz que o estúdio não o deixará entrar em ação, se não contar com um grande astro para o filme.

— É a mesma coisa de sempre — murmurou JeriLee, irritada. — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

— Disse que o estúdio está disposto a me contratar. Darão autorização para que ele vá em frente, caso eu aceite.

JeriLee não conseguiu conter-se:

— E pelo amor de Deus, George, o que o está impe­dindo de aceitar logo de uma vez?

— Era justamente sobre isso que eu precisava falar com você — explicou ele, pacientemente. — Li o livro. E não sei se sou o ator certo para o papel. Tem que ser um homem mais velho.

— Não se preocupe com isso, George. Você pode per­feitamente representar o papel.

— Mas a idade. . .

— Lembra-se de James Dean em Assim caminha a hu­manidade? Ele representou o papel de um homem de qua­renta anos, quando ainda tinha vinte e poucos. E você é tão bom ator quanto ele era. Possui a mesma categoria, sabe despertar emoções.

JeriLee sentiu que o ego do ator estava assumindo o controle da situação.

— Pensa mesmo assim, JeriLee? Acha que sou tão bom quanto James Dean?

Ela assentiu.

— O que acha que me atraiu tanto em você, George?

— Eu nunca tinha pensado nisso. . .

JeriLee podia ver que ele estava visivelmente satisfeito.

— Se aceitar o papel, poderei escrever o roteiro sob medida para você. Juntos, poderemos fazer com que tudo saia perfeito.

Ele assentiu, pensativo.

— É realmente um tremendo papel. . .

— Desses que só aparecem uma vez na vida, George. O sonho de qualquer ator. Irá colocá-lo na mesma altura que McQueen e Redford. — Ela riu e acrescentou: — George Ballantine, o superastro. . .

Ele riu, logo voltando a ficar sério.

— E o diretor, JeriLee? James Dean teve Kazan e George Stevens. Vamos precisar de alguém lá de cima. Coppola, Schlesinger, alguém desse calibre.

— Pode escolher o que preferir, pois nós o conse­guiremos.

— Vou ter que pensar um pouco no assunto. Conver­sarei com meu agente.

— Repita para ele tudo o que eu disse. O importante é podermos trabalhar juntos.

— Claro. . . — Mas ele já estava pensando em mais alguma coisa. — Acha que Rosemary poderia fazer a moça?

— Se não me engano, você disse que ela tinha um con­trato fechado de três anos.

Ela pode sair, para fazer um filme. Além do mais, pareceria maravilhoso se todos nós estivéssemos reunidos no filme. Especialmente depois do que aconteceu.

— Por que não? Pelo menos seria um sucesso de bi­lheteria.

— Tenho uma idéia, JeriLee. Por que não vai jantar lá em casa amanhã à noite? Chamarei meu agente e poderemos conversar sobre o esquema.

Era a última coisa do mundo que JeriLee desejava fazer.

— Por que não pensa primeiro no assunto e conversa bastante com ele, George? Talvez possamos nos encontrar no fim de semana, depois que eu já estiver totalmente re­cuperada.

— Ótimo, JeriLee — disse ele, levantando-se. Subita­mente, uma expressão de tristeza se estampou em seu rosto. Ele meteu as mãos nos bolsos. — Mas que droga!

— Qual é o problema, George?

Ele soltou uma risada embaraçada.

— Não sei o que há com você, JeriLee. Mas tenho uma ereção toda vez que estamos juntos.

— Você sabe dizer as coisas mais delicadas do mundo. — Ela riu, levantou-se e beijou-o no rosto. — Mas terá que esperar até que eu me recupere, George.

Um minuto depois, saindo da cozinha, Angela per­guntou:

— Ele já foi?

JeriLee assentiu.

— Não gosto dele — falou Angela. — Foi por culpa dele que você passou por tudo isso, e ele não se importa absolutamente com os seus sentimentos. Não passa de um porco chauvinista e egoísta.

— Além de tudo isso, Angela, ele é também um ator, o que torna as coisas ainda piores — disse JeriLee, rindo.

— Não vejo o que há de tão engraçado. Eu não falaria desse jeito sobre um homem que me sujeitasse a essas coisas.

— A culpa não foi exclusivamente dele — disse Jeri­Lee, sacudindo a cabeça. — Como sabe, ainda são precisos dois para fazer a coisa. E se eu não estivesse com tanta pres­sa, teria parado para pôr meu diafragma.

O médico ergueu-se.

— Está indo muito bem, JeriLee.. Pode começar a sair de casa amanhã, se não exagerar. Se ficar cansada, deve voltar para casa imediatamente e deitar-se.

— Está certos Sam.

— Passe no meu consultório no início da semana e fa­remos um exame final.

— Estou começando a me sentir como um carro usado, com tantas verificações.

— Não se preocupe com isso, JeriLee — disse o mé­dico, rindo. — Ainda tem capacidade para rodar pelo menos mais cem mil quilômetros. Além disso, tenho uma idéia para uma nova peça, que poderá fazer o seu motor funcionar sem mais nenhum problema.

— E o que é?

— Acabei de receber os relatórios clínicos sobre um novo diu que está sendo testado. É uma pequena espiral de cobre, e creio que você poderá tolerá-lo.

— Pode encomendar um para mim. Estou disposta a experimentar qualquer coisa.

— Já encomendei, JeriLee. Até a vista.

— Até a vista, Sam.

Assim que o médico saiu, ela atendeu ao telefone, que estava tocando:

— Alô?


Era o seu agente.

— Quem estava aí?

— Meu médico — respondeu ela. Os agentes eram to­dos iguais, pensou. Queriam saber de tudo.

— E o que ele disse?

— Que eu viverei. Posso começar a sair de casa amanhã.

— Ótimo. Precisamos ter uma reunião imediatamente. — Baixou a voz para um sussurro confidencial: — Tenho grandes notícias, mas não quero contar nada pelo telefone.

Era outra característica dos agentes. Tudo tinha que ser ultra-secreto. Nenhum deles confiava no telefone, mesmo para ler a manchete do jornal.

— É sobre a possibilidade de George trabalhar no meu filme?

Ele não conseguiu disfarçar a surpresa.

— Pensei que estivesse de cama. Como foi que des­cobriu?

JeriLee não pôde deixar de rir.

— Pelo amor de Deus, Mike. Você sabe do relaciona­mento entre mim e George.

— Não, não sei. O que há entre você e George?

— Foi o filho de George que abortei.

— Mas que filho da mãe! — interrompeu ele. Houve um momento de silêncio, e Mike logo acrescentou, mais jovialmente: — Isso deve facilitar as coisas para nós, JeriLee. Ele tem de escutá-la. Você pode obrigá-lo a aceitar o papel.

— Não posso obrigá-lo a fazer coisa nenhuma, Mike. Tudo o que posso fazer é tentar convencê-lo a aceitar.

— Mas ele lhe deve alguma coisa.

— Ele não me deve nada. Não é essa a maneira como eu vivo. Sou uma menina crescida. Não fiz nada que não desejasse fazer.

— Pode vir ao meu escritório amanhã de manhã, Jeri­Lee? Tenho que fazê-la compreender como isso é impor­tante.

— Onze horas está bom?

— Ótimo. Fico contente em saber que está se sentindo melhor.

— Eu também fico, Mike.

Ele desligou e JeriLee repôs o fone no gancho. Era um bom agente, mas vivia num mundo do passado. Angela esta­va no sofá, lendo uma revista.

— O que disse o médico, JeriLee?

— Que estou melhor. Já posso sair de casa amanhã.,

— Isso é ótimo. Já pensou no jantar?

JeriLee sacudiu a cabeça.

— Vai querer bife ou galinha? Tirei as duas coisas do congelador.

— Bife — disse JeriLee prontamente. — Preciso re­cuperar as forças.

— Vou começar a preparar — falou Angela, levantando-se. — Farei também uma salada e batatas fritas.

— Poderemos tomar uma garrafa de vinho tinto no jantar, Angela. E um bom vinho. O Chambertin que você me deu. Eu o estava guardando para uma noite como esta — disse JeriLee.

— Não esqueceu? — perguntou Angela, com um sor­riso.

— Não, Angela, não esqueci — respondeu JeriLee.

— Velas na mesa? — indagou Angela.

— Todas as coisas de sempre — pediu JeriLee.

Angela sorriu novamente. Quando falou, havia um tom de felicidade em sua voz:

— Será exatamente como nos velhos tempos.

JeriLee ficou observando-a ir para a cozinha. Havia algo de extremamente comovente em Angela. Como nos velhos tempos. . .

Somente os que eram muito jovens podiam pensar desse jeito. Ou os muito velhos. Não existia essa coisa a que cha­mavam de velhos tempos. Apenas bons tempos e maus tem­pos. Algumas vezes os bons tempos sobrepunham-se aos maus, outras vezes acontecia o inverso. Tudo dependia do que se tinha na cabeça no momento.

Como o tempo em que JeriLee Randall virara Jane Randolph. Ou quando Jane Randolph voltara a ser JeriLee Randall. Ela não sabia qual fora bom, qual fora ruim. E nem tinha sido um tempo tão antigo assim.

Afinal, não acontecera há muito tempo.


Capítulo onze

O refletor cor de âmbar do teto estava focalizado na pequena plataforma sobre a qual ela dançava, distorcendo tudo à sua frente. O barulho implacável do rock abafava todos os outros ruídos. O rosto e o corpo dela estavam co­bertos por uma ligeira camada de tinta e a transpiração corria por entre os seios nus. Ela aspirou o ar sofregamente, pelos lábios entreabertos e sorridentes. Estava começando a sen­tir-se exausta. As costas e os braços doíam, até mesmo os seios estavam doloridos dos giros da dança. Subitamente, a música parou, no meio de um movimento frenético, pegando-a de surpresa. Ela ficou imóvel por um momento, depois ergueu os dois braços acima da cabeça, como na saudação das dançarinas gogó, dando aos fregueses a oportunidade de uma última olhada, antes que o refletor se apagasse.

Olhou, numa atitude de desafio, para os homens que a contemplavam do bar apinhado. Um a um, eles foram bai­xando os olhos. Não houve aplausos, apenas o reinicio das conversas. Ela baixou os braços, desceu da plataforma e saiu pela porta com cortina que havia atrás.

Pelo sistema de alto-falantes, ouviu o gerente do clube anunciando:

— Senhoras e senhores, é com imenso orgulho que. World à Gogo apresenta a grande estrela do seu espetáculo, diretamente de San Francisco, a garota sobre a qual todos já leram, a garota que todos estão ansiosos em ver, a origi­nal, a única, a Bomba Loura, Wild Billy Hickock e seu metro e vinte de busto!

Bjlly estava esperando por trás da cortina, os seios gi­gantescos arremessando-se para a frente, querendo romper o quimono de seda.

— Como está a multidão esta noite, Jane? — pergun­tou ela.

-— Tudo bem, Billy — respondeu JeriLee, pegando o roupão. — Mas é a você que eles vieram ver. Só consegui esquentá-los um pouco para você.

— Eles que vão para o inferno! — disse Billy, mas sem rancor. Tirou uma cápsula do bolso do quimono e a en­goliu. Ofereceu uma a JeriLee. — Quer também?

— Não, obrigada — disse JeriLee, sacudindo a cabe­ça. — Ficaria acordada o resto da noite, e pretendo dormir um pouco.

Billy guardou o vidro no bolso do quimono.

— Sem isso, acho que não agüentaria, Jane.

JeriLee assentiu. Sem estimulante, as dançarinas não conseguiriam realizar as suas diversas apresentações, duran­te o período de quatro a seis horas e meia que durava o espetáculo, sete noites por semana. Billy tirou o quimono e virou-se para ela.

— Estou bem, Jane?

— Está fantástica. Nem eu mesma posso acreditar.

Billy sorriu. Seus olhos começavam a brilhar.

— É melhor acreditar — disse ela, tocando os seios, orgulhosamente. — Carol diz que os dela são maiores, mas eu sei que não são. Fomos ao mesmo médico e ele me disse que o busto de Carol parou em um metro e quinze, enquan­to o meu chega a um metro e vinte.

JeriLee sabia que ela estava falando de Carol Doda, a primeira dançarina topless de San Francisco. Billy a odiava, porque Carol recebia toda a publicidade.

— Boa sorte, Billy. Vá até lá e acabe com eles.

— E eu sei como fazer — disse Billy, rindo. — Se eles não me aplaudirem, bato com os seios na cabeça de cada um.

Billy desapareceu do outro lado da cortina e a música cessou. JeriLee sabia que o clube ficara imerso na escuridão, enquanto Billy ia ocupar o seu lugar na plataforma. Um momento depois, quando o refletor cor de âmbar se acendeu. a multidão deixou escapar um rugido. A música recomeçou, competindo com os aplausos e os assovios.

JeriLee ia sorrindo ao seguir para o vestiário. Eles ti­nham vindo até ali para ver tetas. E era o que estavam vendo agora. Por isso, estavam felizes.

Não havia ninguém no vestiário que ela partilhava com duas outras garotas. Ela fechou a porta e foi direto para a pequena geladeira. O jarro de chá gelado estava pela metade. Rapidamente, ela abriu uma bandeja de cubos de gelo e esvaziou-a no jarro. Depois, despejou o chá num copo grande, acrescentou uma dose de vodca e tomou um grande gole.

Sentiu o líquido gelado descer por sua garganta e deixou escapar um suspiro de alívio. Vodca e chá gelado ajudavam bastante. Restauravam suas forças, ao mesmo tempo em que serviam para repor os líquidos que ela perdera durante a dança.

Lentamente, ela tirou a peruca loura e sacudiu os ca­belos castanhos compridos, espalhando-os sobre os ombros As dançarinas gogo não usavam cabelos compridos. Os fre­gueses não gostavam. Às vezes, os cabelos cobriam os seios. JeriLee abriu um pote de creme e começou a remover a pe­sada camada de maquilagem do rosto.

A porta se abriu e o gerente entrou. JeriLee fitou-o pelo espelho. Ele tirou um lenço do bolso e enxugou o rosto.

— O negócio lá fora não está brincadeira — comentou ele. — Não há espaço suficiente nem para se respirar.

— Não me venha com essa. Na semana passada estava se queixando de que a casa estava às moscas.

— Não estou me queixando. — Ele meteu a mão no bolso, tirou um envelope e jogou-o em cima da mesa de maquilagem. — Isso é da semana passada. É melhor contar.

JeriLee abriu o envelope.

— Duzentos e quarenta dólares — disse ela. — Está certo.

Olhou para o comprovante do pagamento. O salário bruto era trezentos e sessenta e cinco dólares, mas depois das deduções, comissões e despesas, restavam apenas duzentos e quarenta dólares.

— Podia ganhar o dobro, se quisesse me escutar.

— Não estou nessa, Danny.

— É uma garota muito estranha, Jane. Qual é a sua, afinal?

— Já lhe disse, Danny. Sou escritora.

— Tem razão, você já me disse — murmurou ele, sem acreditar. — Para onde vai agora?

— Começo a trabalhar em Gary na próxima terça-feira.

— No Topless World?

— Exatamente.

— É uma boa casa. Conheço-a bastante. Muito anima­da. O gerente se chama Mel. Dê-lhe lembranças minhas.

— Darei, Danny. E obrigada por tudo.

Ouviram uma explosão de aplausos no momento em que Danny abriu a porta.

— Wild Billy deixa-os acesos — comentou JeriLee.

— Ela dá um espetáculo e tanto — falou Danny, com um sorriso. — É uma pena que não haja outras como ela. Dez garotas como Billy, e eu poderia aposentar-me em um ano.

— Não seja ganancioso, Danny. — JeriLee soltou uma risada. — Você está indo muito bem.

— Já pensou em fazer a mesma coisa com os seus seios, Jane?

— Sinto-me feliz do jeito que sou.

— Ela ganha mil dólares por semana, apresentando-se apenas uma vez por noite.

— Boa sorte para ela — disse JeriLee, tomando mais um gole do seu drinque gelado. — Eu não poderia andar com um par de seios como aqueles. Ficaria o tempo todo caindo de cara no chão.

— Adeus, Jane. E boa sorte — falou ele, rindo.

— Adeus, Danny.

Ela tornou a virar-se para o espelho e acabou de remo­ver a maquilagem do rosto e do pescoço. Depois, foi até a pia e lavou-se com água fria. Acendeu um cigarro e terminou de tomar o drinque gelado. Estava começando a sentir-se melhor. Talvez pudesse trabalhar um pouco, quando voltasse para o motel. O dia seguinte era domingo, e poderia dormir até mais tarde. Só ia pegar o avião, com escala em Chicago, na manhã de segunda-feira.

Ela viu o carro prateado brilhante, com a capota preta, no instante mesmo em que o táxi a deixou diante do motel. O recepcionista noturno levantou os olhos da mesa telefônica.

— Sua amiga chegou há cerca de duas horas. Dei a chave do seu quarto.

JeriLee assentiu.

— Vai embora amanhã, Srta. Randolph?

— Não. Só na segunda-feira.

— Certo. Eu queria apenas verificar.

JeriLee saiu do escritório e seguiu até seu quarto. Uma luz fraca filtrava-se pelas cortinas. Ela girou a maçaneta. A porta não estava trancada.

Licia estava sentada na cama, os travesseiros empilha­dos às suas costas, lendo. Largou o jornal e sorriu, no mo­mento em qiie JeriLee entrou.

— Pittsburgh não é como Nova York — disse ela. — A última apresentação lá é às duas horas da madrugada.

JeriLee sorriu e olhou para a mesa. A máquina de escre­ver elétrica, portátil, que Licia lhe dera, estava exatamente como a deixara, o papel ainda no rolo.

— Tem toda a razão, Licia. É muito diferente de Nova York.

Largou a pequena valise que trouxera do clube e abriu a porta da geladeira.

— Aceita um drinque, Licia?

— Suco de laranja, se você tiver.

— Tenho.


Ela colocou uma garrafa de Tropicana em cima da mesinha. Pegou na prateleira, em cima, um jarro de chá e uma garrafa de vodca.

— Vou buscar um pouco de gelo — disse JeriLee, saindo para o corredor, onde estava a máquina.

Ao voltar para o quarto, preparou o suco de laranja com gelo para Licia e um chá gelado com vodca para si.

— Saúde — disse ela, afundando na poltrona.

— Como estão as coisas? — perguntou Licia, apontan­do para a máquina de escrever.

— Não estão indo. Simplesmente não consigo escrever nada direito.

— Está precisando tirar umas férias, JeriLee. Há qua­tro meses que não pára. Não pode trabalhar durante as vinte e quatro horas do dia.

— O problema não é esse. Parece que, de repente, esqueci como é que se juntam duas palavras. Simplesmente não consigo passar para o papel o que estou querendo.

— Está cansada, JeriLee. Precisa parar de exigir tanto de si mesma, querida, ou vai acabar sofrendo um esgota­mento.

— Estou bem.

Licia olhou para o copo na mão de JeriLee.

— Quantos drinques desses está bebendo diariamente?

— Não muitos. — Mas JeriLee sabia que isso não era verdade. Ultimamente, parecia que, toda vez que ela ia pre­parar um drinque, a garrafa de vodca estava vazia. — É mais barato do que outras coisas e também serve para fazer esquecer.

— O álcool faz mal à saúde.

— Há outras coisas que também fazem. Muitos esti­mulantes podem deixar a pessoa meio doida.

— Você sabe muito bem do que estou falando.

JeriLee ficou calada. Licia apressou-se então em dizer:

— Escute, querida, não estou querendo lhe fazer um sermão. Apenas ando preocupada com você.

— Estou bem — disse JeriLee e mudou rapidamente de assunto. — Eu não esperava vê-la neste fim de semana. Onde está Fred?

— Continua no Fairmont, em San Francisco. E já tem apresentações marcadas no Waldorf, para a próxima semana.

— Pensei que ele fosse para Nova York esta semana. — A vodca já estava lhe subindo à cabeça. JeriLee soltou uma risadinha e perguntou: — Como ele está aceitando a vida de casado?

— Não está se queixando. — Licia riu também e co­mentou: — Mas também ele não teve muita chance de saber o que é a vida de casado. Nos quatro meses em que estamos casados, creio que não passamos juntos mais de dez dias. Ele está começando a estourar.

— Fico contente por isso. Cada vez mais estão tocando as músicas dele. Eu o ouço a todo instante.

— Mas principalmente em freqüência modulada. Ainda não é o que queremos. Ele tem que ser tocado em ondas médias. É o que realmente compensa.

-— Vocês vão conseguir — declarou JeriLee, convictamente. Tomou outro gole do seu drinque, recostou a ca­beça na poltrona e fechou os olhos.

— Cansada, querida?

JeriLee abriu os olhos. Licia se postara atrás da pol­trona e estava inclinada sobre ela. Ela assentiu, sem dizer nada. Gentilmente, Licia começou a afagar-lhe as têmporas com as pontas dos dedos. Depois, lentamente, desceu para o pescoço, começando a massagear os músculos tensos.

— Como está se sentindo agora?

JeriLee sacudiu a cabeça, sem abrir os olhos.

— Muito melhor.

— Gostaria que eu lhe preparasse um banho quente, JeriLee? Trouxe um óleo de banho muito bom.

— Seria maravilhoso — murmurou JeriLee, ainda de olhos fechados.

Ouviu Licia abrir a água da banheira. Momentos de­pois, sentiu mais do que ouviu a outra voltando para o quarto. Abriu os olhos. Licia estava ajoelhada à sua frente, tirando-lhe os sapatos. Começou a massagear-lhe os pés.

— Pobres pezinhos cansados... — murmurou ela, levantando os olhos em seguida para o rosto de JeriLee. — Sabia que você é linda?

— Você também é linda — disse JeriLee, sustentando o olhar dela.

Licia passou a língua pelos lábios.

— Posso sentir o seu perfume daqui.

— É tão forte assim? Não tive tempo de tomar banho depois do espetáculo.

— É fantástico — murmurou Licia, sorrindo. — E me deixou toda acesa. Estou que não agüento mais.

JeriLee fitou-a nos olhos.

— Eu também estou. . .


Capítulo doze

Exceto pelos fracos raios de sol que penetravam pelas frestas das cortinas, o quarto estava inteiramente às escuras quando JeriLee abriu os olhos. Ela rolou de lado e olhou para Licia, a cabeça afundada no travesseiro, um braço sobre os olhos.

Na semi-escuridão, a nudez da jovem negra parecia uma estátua esculpida na noite, os seios grandes, os mamilos com­pridos e salientes, como antenas no topo de picos gêmeos, que desciam suavemente, dando lugar à barriga muito lisa. Depois, o corpo voltava a subir, no púbis coberto de pêlos. JeriLee conteve um impulso de tocá-la, de sentir novamente o calor dela, de provar o gosto salgado de sua pele. Licia estava profundamente adormecida, e ela não queria acordá-la. Sem fazer barulho, saiu da cama e foi para o banheiro.

Quando voltou, Licia estava sentada na cama.

— Que horas são, JeriLee?

— Quase uma hora.

— Não acredito! — exclamou Licia, surpresa.

— Só fomos dormir às sete horas da manhã — disse JeriLee, rindo.

— Nunca tive sexo assim, JeriLee. Não tinha mais vontade de parar. Queria continuar para sempre.

— A mesma coisa aconteceu comigo. Mas vamos parar de falar nisso — disse JeriLee, rindo. — Estou ficando acesa outra vez.

— Mantenha os bons pensamentos, querida — disse Licia, encaminhando-se para o banheiro. — Estarei de volta em um minuto.

Nesse momento, o telefone começou a tocar.

— Está esperando algum telefonema, JeriLee?

— Não.


O telefone continuou a tocar. JeriLee atendeu.

— Alô?


Ela estendeu o fone para Licia.

— É para você. É Fred, ligando de Nova. York.

— Alô? Aqui é a Sra. Lafayette. — Fez uma pausa, cobrindo o bocal com a mão. E disse, em tom preocupado: — A telefonista está pondo Fred na linha. Espero que não tenha acontecido algum problema.

Houve um estalido no telefone.

— Fred, querido, está tudo bem? Pensei que fosse ficar em San Francisco.

Ela escutou por um momento, depois a voz se tornou subitamente descontraída.

— Mas isso é fantástico! É claro que irei imediata­mente para aí. Se eu partir agora, posso chegar a Nova York às nove horas. É tudo auto-estrada daqui até aí. Não, não, está tudo bem. Eu tinha de acertar alguns negócios com o clube daqui. E como só o esperava na próxima sema­na, resolvi ficar por aqui no fim de semana, para matar as saudades de JeriLee. . . Ela está ótima. Vai para Gary ama­nhã. . . Claro que direi. Até já, querido. Eu o amo.

JeriLee ficou olhando para ela, sem dizer nada.

— Está tudo bem — disse Licia, ao desligar.

— Tem certeza?

— Fred está muito entusiasmado. Lou Rawls teve uma laringite e eles chamaram Fred para substituí-lo, no especial de Pearl Bailey que vão gravar esta noite. É a oportunidade pela qual estávamos esperando.



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   16   17   18   19   20   21   22   23   ...   27


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal