Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo


partir imediatamen­te — disse Licia. — Não, quero ficar engarrafada no tráfego de fim de semana da estrada



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JeriLee ficou calada.

— Vou tomar um banho rápido e partir imediatamen­te — disse Licia. — Não, quero ficar engarrafada no tráfego de fim de semana da estrada.

— Enquanto você toma banho, vou pedir um lanche.

— Apenas suco de laranja e café para mim, querida. — Ela reparou na expressão de JeriLee e apressou-se em acrescentar: — Não fique preocupada. Eu lhe disse que está tudo bem.

— Eu estou bem.

— Não há nada com que se preocupar. — Licia soltou uma risada. — Fred é igualzinho a todos os outros homens do mundo. Nenhum deles pode imaginar que existe algo melhor do que eles.

Pela janela, JeriLee ficou observando o carro prateado sair do motel e seguir pela estradinha que levava à rampa de acesso à auto-estrada. Largou a cortina e depois, distraidamente, começou a arrumar o quarto. O cheiro de sexo da noite anterior ainda pairava sobre a cama em confusão. Ela apertou o botão de ventilação do ar-condicionado e o zum­bido do aparelho invadiu o quarto.

Depois, foi dar uma olhada no papel que estava na máquina de escrever. Subitamente, sentiu-se deprimida. Fu­riosa, arrancou o papel da máquina, amassou-o e jogou-o no chão, gritando em voz alta: — Merda!

Abriu a geladeira. Ainda restavam alguns cubos de gelo no balde. Meteu-os num copo e serviu-se de vodca com chá. Foi para a cama, sentou-se e acendeu um cigarro. To­mou o drinque rapidamente. Começou a ficar alta e excitada, recordando a noite anterior.

Tirou o roupão e deitou-se de costas na cama. Começou a acariciar-se com uma das mãos. Lentamente, foi sentindo que uma lassidão a invadia. Fechou os olhos. Sentiu Licia beijando-a.

De repente, sentiu que estourava, quase como um balão. Abriu os olhos. O quarto vazio era uma prisão e as paredes se apertavam em torno dela.

Tomou o último gole de drinque, depois abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou um vibrador. Era moderno, fabricado no Japão. Do tipo executivo, como eles diziam, sem fio, acionado por pilhas, com duas velocidades.

Ligou o vibrador na velocidade menor. Fechando os olhos, comprimiu-o contra o púbis, acariciando-se. Apertou os olhos e enfiou o vibrador.

Podia ver Licia parando o carro e entrar correndo no apartamento. Fred estava sentado ao piano. Quando ele se levantou, pôde ver que estava inteiramente nu. De repente, Licia estava nua também, ajoelhando-se diante dele e beijando-o. Subitamente, Fred obrigou-a a deitar-se no tapete e deitou-se em cima dela. As pernas de Licia envolveram-lhe a cintura, puxando-o ainda mais para dentro dela. — Não! — gritou JeriLee. — Ele é meu! Arrancada de sua fantasia, ela abriu os olhos e contem­plou o vibrador na mão. Aquilo não era nada. Desligando-o, ela o jogou em cima da cama e rolou para o lado, lutando para conter as lágrimas.

JeriLee não sabia por que estava tão transtornada. Licia dissera que arrumaria empregos para ela e cumprira a palavra. JeriLee estava conseguindo sustentar a si mesma, ao mesmo tempo em que escrevia. Deveria estar se sentindo feliz. Mas não era o que acontecia.

— Não estou com ciúmes — disse ela a si mesma, repetidas vezes. — Não estou com ciúmes.

Mas cada vez que piscava os olhos, via Licia e Fred fazendo amor em cima do tapete branco.

JeriLee olhou para suas mãos. Estavam tremendo nova­mente. Foi ao banheiro.

No espelho, verificou que as olheiras tinham aumenta­do. Estava com um aspecto horrível. Jogou um pouco de água fria no rosto.

Se estava com ciúmes, seria de Fred, porque ele estava com Licia? Ou seria de Licia, porque ela estava com Fred? Ela simplesmente não sabia.

Fazia nove meses que começara o caso dela com Licia. E fazia quase um ano que ela não ia para a cama com um homem. Até aquele momento, ela não havia pensado nisso.

Era quase meia-noite quando ela entrou no clube. A música soava estridentemente e uma garota estava se contorcendo sob o refletor cor de âmbar, na -pequena platafor­ma atrás do bar. Ela atravessou o salão às escuras e foi direto para o escritório do gerente, nos fundos.

Danny ficou surpreso quando a viu entrar.

— Eu não esperava mais vê-la aqui, Jane.

— Eu não tinha nada para fazer. E me senti entediada.

— Pensei que sua amiga tivesse vindo visitá-la — disse ele, fitando-a com uma expressão maliciosa.

Ele sabia. Mas como? Como era possível que todos soubessem tudo sobre todos?

— Ela teve de voltar para casa, pois o marido chegou de viagem inesperadamente.

— E o que veio procurar aqui, Jane?

— Um homem. O homem mais ardoroso da cidade.

— Sabia que Wild Billy tem uma queda por você?

— Já tive disso ontem. Esta noite, estou querendo é ter um homem.

— Há meia dúzia de caras lá no bar. Qualquer um deles estaria disposto a pagar cinqüenta ou cem dólares para ir para a cama com você. Só que eu fico com a metade.

— Pode ficar com todo o dinheiro.

— Está certo. Quer ir até lá fora para escolher?

JeriLee soltou uma risada e compreendeu que estava inteiramente fora de si.

— Não precisa. Trate apenas de receber o dinheiro. Eu irei para a cama com todos eles.




Capítulo treze

Nos fundos do clube, havia um velho alpendre de ma­deira, um tanto inseguro, de onde se via o mar. À direita, JeriLee podia ver o píer de Santa Mônica, com as luzes de aterragem dos jatos brilhando continuamente por cima, ao se .virarem sobre o mar e seguirem para o aeroporto. O ar da noite estava ficando frio e ela se aconchegou no roupão. Ficou escutando distraidamente o ruído da música que vinha lá de dentro.

Só mais uma apresentação e ela terminaria por aquela noite. Os proprietários do clube podiam detestar, mas ela sentia-se grata pelas leis da Califórnia, que fixavam as duas horas da madrugada como o horário limite. Em alguns Es­tados, ela havia trabalhado até as quatro da madrugada. Em outros, até o dia clarear. Perguntou-se vagamente se Mike viria buscá-la. Nunca se podia saber de nada, em se tratando de Mike. Ele vivia num mundo todo seu, particular.

Ela o conhecera no dia em que chegara à Califórnia, quase um mês antes. Era um domingo e ele estava de plan­tão no escritório imobiliário. JeriLee decidira que alugaria um apartamento, ao invés de ficar num motel, como das outras vezes. Além de ser mais barato, ela achava que seria mais fácil escrever num apartamento do que num motel. Seria mais tranqüilo, e ela ali ficaria algum tempo, pois tinha oito semanas de contratos já firmados na área de Los Angeles.

Alto, bronzeado, os cabelos quase brancos, descorados pelo sol, ele não se parecia absolutamente com um corretor de imóveis. De jeans e descalço, estava inteiramente deslo­cado por trás da escrivaninha.

— Em que trabalha? — perguntou ele, começando a preencher o formulário de informações.

— Sou escritora.

— Escritora?

— Algo de errado nisso?

— Com seu corpo e suas pernas, imaginava que fosse atriz ou dançarina.

— Faço isso também.

— Tenho uma sublocação de três meses. Creio que seria perfeita para você.

— Preciso apenas de dois meses.

— Creio que posso convencer o proprietário a reduzir o prazo.

Ele fechou o escritório e levou-a em seu carro. Era um VW todo adaptado, com pneus imensos. A parte superior fora inteiramente cortada e havia uma barra de ferro esten­dendo-se de um lado a outro, por cima, no meio do carro.

— É um lugar maravilhoso — disse ele, saindo com o carro do estacionamento. — Tranqüilo. A dois minutos da praia. Um banheiro grande. Tem até bidê.

— Bidê. . . — repetiu JeriLee. — Deve ser caro de­mais para mim.

— Tenho certeza de que vai adorar — disse ele, con­fiante. — E custa apenas trezentos dólares por mês. Foi uma francesa que o arrumou todo.

— Parece bom demais para ser verdade. Por que ela deixou o apartamento?

— O romance dela acabou, e ela voltou para a França.

O quarto era pequeno, assim como o living. A cozinha era pouco mais que um closet. Mas ele dissera a verdade com relação ao banheiro. Era, de longe, o maior cômodo do apartamento, com boxe de chuveiro, banheira embutida, duas pias e um bidê.

— E então, que tal? — perguntou ele.

— É pequeno.

— Está ótimo para uma escritora. Vai ficar sozinha?

— Vou.

— Então não precisa de nada maior do que isso.



— Mas vou querer apenas por dois meses.

— Não há problema. Dê-me um cheque pelos dois meses, mais setenta e cinco dólares pela limpeza e poderá mudar-se esta tarde mesmo.

— Está certo. — Começou a tirar o talão de cheques da bolsa. — Em nome de quem devo fazer o cheque?

— Em meu nome mesmo. É meu o apartamento. — Ele tirou um maço de cigarros do bolso. — Você fuma?

JeriLee aceitou um cigarro. Ele tirou um fósforo do bolso e acendeu-o na própria calça.

— Sente-se um pouco — disse ele. — Levarei apenas dez minutos para pegar minhas coisas e pôr no carro. Depois, poderemos ir buscar as suas coisas.

— E o escritório? Não tem que voltar para lá?

— Trabalho só nos domingos, porque o dono gosta de ir pescar. Além do mais, já fiz todo o negócio que pre­cisava fazer hoje.

— E onde trabalha durante o resto da semana?

— Não trabalho. Desisti de trabalhar quando saí do Exército. O trabalho arruína a vida sexual e ainda dá úlceras.

— E de que vive então?

— Deste apartamento. É suficiente para manter-me.

— Onde fica morando, quando não está aqui?

— Tenho muitos amigos. Nunca há o menor problema em arranjar algum lugar para ficar. É surpreendente como existem muitas pessoas procurando companhia, ansiosas em ter alguém com quem conversar.

JeriLee deu uma tragada no cigarro enquanto ele entra­va no quarto, para pegar suas roupas. Ele provavelmente estava certo, pensou ela. Deixar tudo de lado era uma maneira de viver. E aparentemente ele não estava sofrendo por causa disso.

Voltou alguns minutos depois, com um saco de lona verde, cheio pela metade.

— Vamos indo?

— Estou com muita sede — disse JeriLee.

— Eu lhe ofereceria um copo de vinho, se tivesse algum em casa.

Ela não disse nada.

— Há uma loja de bebidas no outro quarteirão. Posso correr até lá e comprar uma garrafa.

— É uma ótima idéia.

— Só que não tenho nenhum dinheiro — disse ele, sem o menor constrangimento.

JeriLee abriu a bolsa e tirou dois dólares.

— Isso é suficiente?

— Estamos na Califórnia — disse ele, sorrindo. — Vou trazer duas garrafas.

Eles beberam e se amaram durante toda a tarde. Quan­do a noite chegou, foram até o motel de JeriLee e pegaram as coisas dela, para que se mudasse para o apartamento. Só que ele não saiu.

Ela acordou cedo na manhã seguinte, com os raios do sol invadindo o apartamento. Ao lado dela, a cama vazia. JeriLee não o ouvira sair.

Ela encontrou na cozinha uma pequena chaleira, que encheu de água e pôs no fogo para ferver. Abriu a porta do armário da cozinha, mas só encontrou dois solitários saquinhos de chá. Pegou um e colocou-o na xícara. Teria que se contentar com aquilo mesmo.

JeriLee voltou para o quarto e começou a desfazer as malas. Estava pondo a máquina de escrever portátil em cima de uma mesinha, ao lado da janela, quando ele voltou. Mike entrou na sala com uma sacola de compras.

— Você já acordou — disse ele, surpreso.

— Já, sim.

— Achei que gostaria que eu fizesse algumas compras — disse ele, atravessando a sala e pondo a sacola sobre uma mesinha na cozinha.

— Trouxe café, Mike? Não consegui encontrar.

Ele começou a esvaziar a sacola. Ovos, manteiga, bacon, pão, suco de laranja, leite. Finalmente, ele tirou um vidro.

— Café solúvel serve?

— Está ótimo.

— Eu mesmo não tomo café. A cafeína faz mal.

— Pois não consigo fazer nada de manhã, enquanto não tomo um café.

— Por que não acaba o que estava fazendo? — sugeriu ele. — Farei o café para você.

JeriLee hesitou.

— Sou um bom cozinheiro.

— Está certo — disse ela, sorrindo.

— Muita fome?

— Estou faminta.

A água na chaleira começou a ferver. Rapidamente, ele preparou uma xícara de café solúvel e a entregou a JeriLee.

— Tome o café antes, JeriLee. Dentro de um minuto o seu desjejum estará pronto.

No momento em que ela terminou de arrumar a mesa de trabalho, ajeitando a máquina e todos os papéis em cima, Mike a chamou. Ela olhou para a mesa, com uma expressão de aprovação. Ele a fizera bastante atraente, pondo os pratos brancos sobre descansos verdes. Indicou a cadeira junto à janela para JeriLee.

— Sente-se ali. — Colocou três ovos e seis fatias de bacon em cada prato. Depois, abriu a porta do forno e tirou as torradas quentes. — Está bom assim? — perguntou ele, sentando-se também.

— Está maravilhoso! — exclamou JeriLee, pegando o suco de laranja.

— Quer café agora?

Ela assentiu.

— Por falar nisso, Mike, como foi que conseguiu pagar essas coisas? Pensei que não tivesse dinheiro.

— E não tenho. Mas a mercearia sempre me vende a crédito, quando tenho uma inquilina.

JeriLee ficou calada por um momento.

Normalmente faz isso, Mike?

— Depende da pessoa para quem alugo o apartamen­to. E faço questão de jamais alugar para bichas.

— Só para mulheres?

— De preferência — disse ele, rindo. — Já aluguei algumas vezes para casais. Mas eles geralmente não ficam muito tempo. O apartamento é de fato muito pequeno para um casal.

JeriLee terminou de comer e tomou o café. Ele se levantou rapidamente, indo buscar mais café. Ela sorriu.

— Você sabe prestar um bom serviço.

— Eu me esforço — falou ele, retribuindo o sorriso. — E quando encontro uma boa inquilina, esforço-me ainda mais.

— Que outros serviços você pode prestar?

— Tudo, de lavagem de roupas a limpeza de casa, até mesmo como motorista. Não precisa alugar um carro, se eu estiver por aqui. Estarei sempre à sua disposição.

— E o que faz quando os amigos de sua inquilina aparecem?

— Sou muito discreto. Simplesmente desapareço.

— Eu trabalho em casa durante o dia.

— Não há problema para mim.

— E trabalho fora de casa durante a noite.

— Está querendo dizer-me que é uma profissional?

— Não — disse JeriLee, rindo. — Não sou uma vi­garista.

— Então, não estou entendendo.

— Começo a trabalhar no Rosebud, no Airport Boulevard, esta noite. Tenho oito semanas de contratos na área de Los Angeles.

— Mas é uma espelunca topless! — exclamou ele, visivelmente chocado.

— Eu lhe disse que era dançarina. — JeriLee tornou a rir.

— Mas a máquina de escrever. . . — Mike parecia extremamente confuso.

— Eu lhe disse que também era escritora.

— E o que mais faz?

— Já fui atriz. E estou pensando em procurar algum trabalho nessa área, já que estou aqui.

—- Os negócios não andam muito bem. Tenho amigos que estão metidos nisso. O único trabalho que se encontra é em filmes pornográficos.

— Nunca se sabe. E como tenho mesmo que ficar aqui oito semanas, não custa nada dar uma olhada.

— Tenho um amigo que é agente. Talvez ele possa ajudá-la. Gostaria de conhecê-lo?

— Posso falar com ele.

— Marcarei o encontro.

Ela tomou mais um gole de café.

— Terei de alugar um carro. Sabe onde posso arrumar um, por um preço razoável?

— Eu lhe disse que também presto serviços como motorista. Só terá que pagar a gasolina.

JeriLee fitou-o, sem dizer nada. Mike sorriu subita­mente.

— Está certo. Recebi o recado.

— Não há nada de pessoal, Mike. Apenas estou acos­tumada a viver sozinha.

— Já compreendi. Mas acho que devia ver as coisas por outro ângulo. Por que se dar ao trabalho de ter que fazer tudo sozinha? Por tudo o que me disse, creio que estará sempre muito ocupada. Vai ter que trabalhar dia e noite, além de procurar outras coisas para fazer. Por que não experimenta os meus serviços durante uma semana? Se não der certo, pode largar. Não haverá ressentimentos.

JeriLee pensou por um momento. De certa forma, tinha sentido.

— Está certo. Quanto dinheiro a mais isso irá custar-me?

— Já lhe disse que não cobro nada. — Havia um tom magoado na voz dele. — Terá apenas que pagar as despesas. E a coisa mais cara que consumo é suco de laranja. Tomo um litro por dia.

— Acho que posso arcar com essa despesa — falou JeriLee, rindo. Levantou-se e acrescentou: — Vou arrumar minhas coisas e depois voltarei a dormir. Quero estar em boa forma para a minha primeira noite no novo emprego.

— O que vai querer para o almoço?

— Não vou almoçar.

— E para o jantar?

— Terá que ser muito cedo. Seis horas, no máximo. Tenho que chegar ao emprego às oito horas.

— Certo. O que vai querer comer?

— Pode ser um bife, macio e malpassado.

JeriLee foi para o quarto e fechou a porta. Fechou também as cortinas, deixando o quarto mergulhado na es­curidão. Engoliu um Valium e estendeu-se na cama.

Sentiu imediatamente os efeitos do tranqüilizante. Talvez desse certo. Ela estava sempre correndo de um lado para outro, cuidando de tudo, a tal ponto que não lhe so­brava tempo para descansar. Walter dissera certa vez que não havia nada como um valete para cuidar de uma casa. Talvez ele estivesse certo.

JeriLee sentiu que estava começando a cair no sono. Foi então que outro pensamento lhe surgiu na mente: Licia. Prometera telefonar para ela assim que encontrasse um lugar para ficar. Ainda tentou erguer-se, mas o efeito da pílula era muito forte. Acabou desistindo e entregando-se ao sono. Haveria muito tempo para telefonar para Licia, nos intervalos de suas apresentações no clube.




Capítulo catorze

O nevoeiro estava começando a obscurecer as luzes do píer de Santa Mônica. Mais alguns minutos e elas desa­pareceriam completamente. A porta atrás dela se abriu.

— Faltam cinco minutos, Jane — disse o gerente.

Ela jogou o cigarro por cima da grade e entrou no clube.

— Mike já apareceu? — perguntou ela ao gerente, que a seguiu até o vestiário.

— Não o vi ainda.

Ele ficou olhando, enquanto JeriLee se preparava para a apresentação. Rapidamente, ela passou um pouco de ruge em torno dos mamilos e beliscou-os, para que ficassem mais salientes. Depois, virou-se para o gerente e perguntou:

— Como estou?

Ele sacudiu a cabeça, sem dizer nada.

— Algo errado?

Ele tornou a sacudir a cabeça.

— Qual é o problema afinal?

— Acabei de receber uma comunicação dos proprietá­rios. Vamos passar a apresentar as dançarinas sem a parte de baixo também, a partir da próxima semana.

— Nudez total?

— Não. Vocês usarão uma tanguinha na frente.

— Mas que droga! — exclamou JeriLee, enojada. — E quando é que vamos começar a apresentar o ato sexual em público?

— Não seja assim, Jane. Você sabe muito bem que o nosso negócio não anda nada bem. Quase todos os outros clubes já estão apresentando as garotas sem nada. Nós resis­timos o mais possível.

— Boa sorte para vocês. Estarei trabalhando no Zingara's, lá no vale, a partir da próxima semana.

— É a mesma administração e a mesma política.

— Tenho um contrato assinado.

— Ele será rompido, se não quiser mostrar o traseiro — disse o gerente, após um instante.

— Eles terão que conversar primeiro com o agente que me contratou.

— Já conversaram. E ele concordou, por mais quarenta dólares por semana.

Foi a vez de JeriLee ficar calada.

— Não seja tola, Jane. Quarenta dólares por semana é bom dinheiro. O pessoal lá de cima gosta de você, e os fregueses também. O que representa um pouco de pele a mais ou a menos, entre amigos? Não arruíne um bom negócio.

Subitamente, JeriLee sentiu que o cansaço a domina­va, implacavelmente.

— Estou precisando tomar alguma coisa... — Vas­culhou a bolsa e encontrou um vidro de estimulantes. Tomou um pouco e logo depois sentiu-se mais animada, mais forte. E disse ao gerente: — Posso fazer um espetáculo e tanto com um vibrador.

— Não podemos chegar ainda a esse ponto, mas terei prazer se me fizer um show particular — falou ele, rindo.

JeriLee soltou uma risada.

— Não tenho a menor dúvida — disse ela, voltando imediatamente a ficar séria. — Não me resta qualquer alter­nativa, não é mesmo?

— Não, se quiser continuar a trabalhar conosco.

Ela pensou por um momento. Os homens que contro­lavam aquele clube eram os mesmos que controlavam os outros para os quais ela fora contratada. Isso significava, para ela, oito semanas de trabalho. E quando finalmente conseguisse arrumar outras coisas, os dois meses já teriam acabado, assim como o dinheiro que ela conseguira econo­mizar ao longo dos últimos seis meses. Além disso, ela per­deria a oportunidade de fazer os contatos que desejava e precisava, ali na Califórnia. O agente apresentado por Mike achava que poderia arrumar-lhe algumas coisas. Finalmente, JeriLee assentiu.

— Está bem. Aceito.

— Garota esperta! — O gerente sorriu. — Vou avisar aos homens. Não ficarei surpreso se eles quiserem mantê-la mais tempo por aqui, antes de despachá-la pelo resto do circuito.

Ele saiu do vestiário. JeriLee voltou a se olhar no espelho. Ainda estava apresentável. Ninguém podia dizer que já tinha vinte e oito anos. Mas também ninguém poderia tomá-la por uma garota de vinte e três anos. O corpo ainda era firme, mas estavam começando a aparecer rugas no rosto. Apesar disso, o único lugar em que realmente sentia o peso da idade era dentro da cabeça.

A música atacava-a dos quatro alto-falantes. Ela estava dançando em cima da pequena plataforma atrás do bar. Era o lugar principal. Havia uma outra garota numa plataforma nos fundos da sala, mas o lugar principal era mesmo ali no bar.

Enquanto dançava, ela correu os olhos pelo bar. Mike estava se aproximando, seguido por outro homem. Embora ela não se lembrasse do nome dele, reconheceu-o como um produtor que encontrara no escritório do agente. Ele produ­zia filmes baratos, de terceira classe. JeriLee não tinha a menor idéia do motivo da presença dele, ao lado de Mike.

Mike ergueu seu copo de suco de laranja, num gesto de reconhecimento. Ela assentiu e sorriu. O mecanismo de tempo em sua cabeça avisou-a de que ainda tinha cinco minutos de apresentação. Era tempo suficiente para pro­porcionar um bom espetáculo ao produtor. Ela se deixou embalar pelo ritmo da música, dançando freneticamente.

Estava tomando chá gelado com vodca quando os dois entraram no vestiário.

— Este é o Sr. Ansbach — disse Mike.

Ansbach estendeu a mão.

— Já nos encontramos, no escritório de Gross.

— Eu me lembro — disse JeriLee, apertando a mão dele.

— Sabe dançar de verdade.

— Obrigada.

— Estou falando sério. Dança de verdade, não se limitando a balançar os seios e o traseiro.

— Obrigada.

— O Sr. Ansbach foi até o apartamento — explicou Mike. — Disse que precisava vê-la imediatamente. Achei que não se importaria se eu o trouxesse até aqui.

— Não me incomodo.

— Estou satisfeito por ter vindo — disse Ansbach. — Estou interessado em uma de suas idéias para um filme. Gross me deu diversas histórias suas para ler.

— Em qual delas está interessado?

— A história da dançarina de um clube de Gary que é currada por uma turma de motociclistas.

— Essas coisas costumam realmente acontecer — falou JeriLee. — Conheço a garota com quem ocorreu essa histó­ria. Não foi brincadeira. Ela acabou internada num hospital, durante seis meses.

— Sei disso. Mas, no filme, teremos que mudar um pouco o final da história.

JeriLee não fez nenhum comentário.

— E agora que a vi dançar, tenho outra idéia. Talvez você também possa representar o papel. Mike me disse que já foi atriz. Se souber representar a metade do que dança e escreve, o negócio está fechado.



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