Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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— Tenho mais oito semanas de contrato no circuito.

— Não há problema. Precisamos desse tempo para aprontar o roteiro.

— Necessitarei de muito mais tempo para escrevê-lo. O que apresentei foi apenas uma idéia.

— Não precisará escrever o roteiro. Tenho escritores que sabem exatamente como eu gosto de trabalhar, e pode­rão aprontá-lo rapidamente.

— Já conversou com Gross?

— Sim. Ele tentou falar com você pelo telefone, mas ninguém atendeu. Peguei seu endereço com ele e resolvi vir vê-la pessoalmente.

— E quanto está pensando em pagar?

— Não muito. Afinal, não temos tanto dinheiro assim. As filmagens serão realizadas em dez dias. Com equipes não sindicalizadas. E também não haverá cenários fabricados.

— Compreendo.

— A idéia é pagar-lhe duzentos e cinqüenta dólares e dar o crédito nos letreiros pela história original. Se decidir­mos que também pode representar o papel, o que acho muito provável, então iremos pagar-lhe mais trezentos e setenta e cinco dólares por semana, com uma garantia mínima de duas semanas.

JeriLee ficou calada.

— Sei que não é muito dinheiro — disse Ansbach, rapidamente. —Mas é um começo. E tem que começar por algum lugar, Srta. Randolph.

— Posso conversar com Gross primeiro, antes de dar uma resposta ?

— Claro. Mas procure tomar uma decisão e me informar até amanhã. Preciso iniciar um filme até o final do próximo mês. Se não for a sua história, terei que arrumar outra.

— Pode deixar que voltarei a procurá-lo amanhã.

Ansbach tornou a estender-lhe a mão.

— Foi um prazer conhecê-la, Srta. Randolph. É uma jovem realmente talentosa. Espero que possamos trabalhar juntos.

— Obrigada, Sr. Ansbach.

Ela esperou que a porta se fechasse, depois da saída dele. Virou-se então para Mike:

— O que acha?

— Pode dar certo.

— Não parece ter muita confiança nele.

— Ansbach é um cara perigoso. Procure receber o seu dinheiro antes de fazer qualquer coisa.

— Deixarei que Gross cuide disso. — JeriLee virou-se outra vez para o espelho e começou a passar creme no rosto. — Não vou demorar muito, Mike.

Ele fitou-a pelo espelho.

— Estão dizendo por aí que o clube vai aderir ao nudismo total na semana que vem.

— As notícias viajam depressa.

— Vai aceitar?

— Tenho alguma alternativa?

Mike ficou calado por um momento.

— Você é uma mulher estranha. Não consigo com­preendê-la. Por que é tão importante assim ganhar dinheiro?

— Tente viver sem dinheiro.

— Mas não precisa de tanto dinheiro quanto está que­rendo ganhar.

— Você não é mulher. Pode dar um jeito na hora em que bem quiser. Mas não é tão fácil assim para mim. Já vivi sem dinheiro e sei como é.

— Vai continuar trabalhando no clube, mesmo que faça o filme?

JeriLee assentiu. Ele levantou-se.

— Vou tentar convencer o atendente a me arrumar outro suco de laranja.

— Até já.

Enquanto removia o resto de creme do rosto, JeriLee achou que ele estava agindo de forma estranha, muito dife­rente da habitual. Mas não entendia por quê, até o momento em que ele parou o carro diante do prédio onde moravam.

Como ele não fizesse o menor movimento para sair do carro, JeriLee perguntou:

— Não vai subir?

— Vou passar esta noite em outro lugar.

— O que há de errado?

— Uma amiga sua veio visitá-la.

Mike engrenou o Volks e arrancou, antes que ela pu­desse fazer outra pergunta. JeriLee virou-se e subiu para o apartamento.

Licia a estava esperando na sala.



Capítulo quinze

A voz de Licia era gentil e preocupada:

— Está tudo bem, querida?

JeriLee fechou a porta e enfrentou o olhar de Licia.

— Está, sim.

Licia beijou-a no rosto, os lábios muito macios.

— Estava preocupada com você. Há duas semanas que chegou aqui e não tive notícias suas.

— Eu estava trabalhando. — JeriLee foi para a cozi­nha, com Licia atrás. Tirou um jarro de suco de laranja da geladeira. — Quer um pouco?

— Estou vendo que começa a ficar esperta, JeriLee. Esse negócio é muito melhor do que álcool.

— Mike é quem bebe isso — falou JeriLee, enchendo um copo. — Ele é viciado em sucos de frutas, como você. — Depois, preparou um drinque para si, com vodca e chá gelado.

— Aquele cara vive aqui com você, JeriLee?

— Vive.


— E o caso entre vocês dois é sério?

— Não.


— Então, o que ele está fazendo aqui?

— Ele é o meu senhorio. — JeriLee voltou para a sala, tirou os sapatos e afundou-se no sofá. — Ele me serve de tudo que é maneira, Licia. Leva-me de carro para onde eu quero, cozinha, limpa a casa.

Licia sentou-se numa poltrona em frente a JeriLee.

— E faz amor também?

JeriLee não respondeu. Licia pegou um cigarro.

— Quer um também, JeriLee?

JeriLee pegou o cigarro que Licia lhe oferecia. E só depois é que reparou que suas mãos estavam tremendo. Mas não havia motivo para estar tão nervosa. Licia não mudara, ela não mudara. Continuavam a ser as mesmas pessoas que eram da última vez em que se haviam encon­trado.

Licia abriu sua mala em cima do sofá. Tirou uma caixa de veludo vermelho, da Cartier, e entregou-a a JeriLee.

— É um presente para você — disse ela. — Abra.

Era um colar de contas ovais de jade.

— Gosta? — perguntou Licia, ansiosa.

— É lindo! Mas não devia ter feito isso.

— Deixe-me pô-lo em você — disse Licia, sorrindo. Pegou o colar e colocou-o no pescoço de JeriLee. Contem­plou em silêncio por um instante, antes de dizer: — Veja como está no espelho, JeriLee.

As duas foram para o quarto. JeriLee sentia o jade quente de encontro à pele. Seus olhos se encontraram com os de Licia, no espelho.

— Por quê, Licia?

A amiga chegou mais perto, encostando o rosto no de JeriLee. Os lábios roçaram os cabelos dela.

— Porque eu adoro você e estava com muitas sauda­des de você.

JeriLee ficou calada. Gentilmente, Licia virou-a e bei­jou-a na boca.

— Senti tanto a sua falta, querida — murmurou ela. — Não sabe a vontade que eu tinha de abraçá-la e beijá-la, de ir para a cama com você.

Súbito, JeriLee sentiu as lágrimas afluírem a seus olhos. Um momento depois, ela estava soluçando, à beira da histe­ria. Ternamente, Licia puxou a cabeça dela de encontro a seu peito..

— Está tudo bem, querida, está tudo bem — disse ela, suavemente. — Eu compreendo.

Ela levou JeriLee de volta à sala. Sentou-a no sofá, acendeu um cigarro e entregou-lhe. Aos poucos, JeriLee foi sentindo a tensão diminuir. Enxugou os olhos com um lenço de papel.

— Não consigo entender, Licia — murmurou ela, per­plexa. — Eu mudo de ânimo como um ioiô.

Licia fitou JeriLee nos olhos, pensativa.

— Andou trabalhando demais, querida. Não pode es­forçar-se, tanto sem terminar pagando caro.

— Mas não tenho outro jeito, se quiser sair desse negócio antes que meus seios estejam batendo nos joelhos.

— Está muito longe disso, querida.

— Não é a impressão que eu tenho às três horas da madrugada, depois de fazer seis apresentações.

— Não é tão ruim assim, querida. E o dinheiro é bom. Quem era aquele homenzinho que estava com o seu garanhão quando cheguei aqui?

— É um produtor. Ele está interessado em comprar uma das minhas histórias para um filme. Talvez até eu ganhe um papel no filme.

— E ele merece confiança?

— Meu agente diz que sim.

— Você tem agente? — indagou Licia, surpresa. — Estou vendo que andou bastante ocupada. Como é que o conseguiu?

— Através de Mike. Ele conhece todo mundo.

— E o que Mike faz?

— Nada — respondeu JeriLee, sorrindo. — Ele vive deste apartamento.

— Então é um cafetão — falou Licia, com um ligeiro tom de ressentimento.

— Não é justo dizer uma coisa dessas. Você nem ao menos o conhece direito.

— No lugar de onde venho, homem que não trabalha é cafetão.

JeriLee não disse nada.

— Não quero brigar com você, querida. Nem quero lançá-la contra Mike. Sei perfeitamente do que as mulheres precisam. Até eu necessito de vez em quando de um homem. Mas jamais esqueça o que eles realmente querem. Não existe um único homem no mundo que não queira deixá-la de quatro, se tiver uma oportunidade para isso.

JeriLee estava muito cansada. Sentia todas as suas energias se escoarem inexoravelmente. E murmurou:

— Mike não é desse tipo. . .

— Não vamos mais falar sobre isso, querida. Você está esgotada. Vá para a cama e tenha uma boa noite de sono. Temos os próximos dias para conversar à vontade.

— Quanto tempo vai poder ficar?

— Uma semana inteira. Fred está trabalhando em Seattle. Fiquei de encontrar-me com ele em San Francisco.

JeriLee ficou calada.

— Seria ótimo se você pudesse tirar uns dias de folga, querida. Talvez pudéssemos ir juntas para algum lugar e descansar um pouco. Também andei trabalhando demais.

JeriLee sacudiu a cabeça, em dúvida.

— Não sei. . .

— Veremos "se é possível. E agora vá para a cama, antes de cair de sono aqui mesmo.

— E você?

— Vou primeiro terminar de arrumar minhas coisas. Mas não se preocupe que não demorarei.

Licia ficou olhando para a porta fechada do quarto, irritada consigo mesma. Deveria ter previsto que não podia deixar JeriLee afastar-se tanto dela. Especialmente na Cali­fórnia, onde as coisas que JeriLee realmente desejava estavam ao alcance de suas mãos.

Correu os olhos pelo pequeno apartamento e tomou uma decisão. No dia seguinte, procuraria um apartamento maior e mais confortável para JeriLee. Um apartamento que desse para as duas.

Quanto mais cedo ela tirasse JeriLee dali, melhor seria. Não podia deixar que a amiga continuasse a agir por sua própria conta. Não importava que isso pudesse prejudicar a sua própria vida, teria que encontrar uma maneira de levar a outra de volta a Nova York.



Capítulo dezesseis

Licia e JeriLee saíram do trailer de alumínio coberto de poeira para a claridade do sol. O rosto de JeriLee estava coberto de sangue e lama, cuidadosamente aplicados. O assis­tente do diretor examinou-lhe o rosto ansiosamente e depois chamou o maquilador.

—- Acho que podemos usar um pouco mais de sangue. E rasgue também um pouco mais as roupas dela.

— Onde eles estão filmando agora? — perguntou JeriLee.

— Na estrada. Deverão chegar aqui dentro de quinze minutos. — Ele levantou os olhos para o céu e murmurou: — E é melhor que cheguem mesmo, ou não teremos clari­dade suficiente para filmar.

JeriLee seguiu o maquilador até uma mesinha colocada debaixo de uma árvore. Um engradado de madeira servia de banco. O maquilador começou a trabalhar no rosto da moça. Depois, com uma gilete, cortou o traje de motociclista dela em diversos lugares.

No momento em que ele acabou de preparar JeriLee, ouviram o ronco de motores. Um instante depois, a grande Harley Davidson preta apareceu. Atrás, em meio a uma nuvem de poeira, vinha um jipe aberto. Os dois veículos passaram diante da câmara e logo em seguida soou o apito estridente do assistente do diretor. E o próprio diretor gritou:

— Corta!


Os motores pararam e a equipe começou imediatamente a deslocar as câmaras para as novas posições. O sol começava a escorregar lentamente pelo céu, na direção do oceano. A equipe trabalhava ativamente, para aproveitar enquanto ainda havia claridade suficiente para as filmagens.

O motociclista, um doublé, levantou o visor do capacete, e pegou a lata de cerveja que um dos membros da equipe lhe estendia. Depois, caminhou até a beira do penhasco, diretamente acima do mar.

— Ele vai realmente pular lá embaixo? — perguntou Licia a JeriLee.

JeriLee assentiu.

— É uma queda de mais de vinte metros.

— A profissão dele é essa.

— Pois está aí uma profissão que não me atrai.

O diretor aproximou-se, com o motorista do jipe, que estava usando uma peruca loura e o traje de motociclista igual ao de JeriLee.

— Sabe o que tem de fazer? — perguntou-lhe o di­retor.

— Sei. No instante em que Tom pular do penhasco, saio imediatamente do carro, para JeriLee entrar.

— Tem que ser bem rápido. Temos apenas uma câ­mara para usar. Ela vai acompanhar Tom e depois voltará a focalizar o carro. A outra câmara ficará focalizando a queda. Você terá talvez trinta segundos, não mais do que isso.

— Está certo — assentiu o doublé.

— Depois que entrar no carro, espere o meu sinal antes de sair — disse o diretor, virando-se para JeriLee. — Ande então até a beira do penhasco e olhe lá para baixo. Deixe passar um bom momento, depois vire-se e caminhe lentamente, pela beira do penhasco, na direção dos guardas, que estarão vindo ao seu encontro. Vou tentar filmá-la de­lineada contra o sol poente.

JeriLee limitou-se a assentir.

— Estaremos prontos para começar dentro de cinco minutos — disse o diretor. — Eles estão filmando agora a radiopatrulha subindo pela estrada.

Depois que o diretor se afastou, Licia perguntou a JeriLee:

— Como está se sentindo, querida?

— Muito bem.

— Pois parece cansada. O dia não foi brincadeira. — Ela tirou uma pílula da bolsa e entregou-a a JeriLee. — Mas não se preocupe. Daremos um jeito para que você durma. Esta é a última cena do filme e não quero que estrague tudo agora.

— Estou bem — disse JeriLee, com um sorriso. — Posso trabalhar ainda mais dez horas.

Estava escuro quando ela acordou. Havia um murmúrio fraco de vozes do outro lado da porta fechada, que dava para a sala. JeriLee sentiu a boca seca, e a língua parecia inchada. Saiu da cama e foi para o banheiro. Sofregamente, bebeu um copo de água e depois escovou os dentes com força, para tirar o gosto desagradável da boca. Vestiu o roupão pendurado na porta e foi para a sala.

As vozes saíam do receptor de televisão. Licia olhou para ela.

— Que horas são, Licia?

— Onze horas.

— Mas eu pedi que me acordasse às oito. Tinha que chegar ao clube às nove!

— Não há problema. Quando vi que estava profundamente adormecida, telefonei para o clube e disse que você estava doente.

— Não vai dar certo. Eles sabem que estou fazendo o filme. Vão pensar que eu simplesmente não quis ir tra­balhar.

— O azar é deles. Você pode arrumar muitos empre­gos onde seja necessário apenas mostrar o traseiro.

— Você sabe que não é bem assim, Licia. É um bom clube. Quase todos os outros não passam de ponto de encon­tro das prostitutas.

— Fique calma, querida. Vou fazer um chá para você. Não pode continuar trabalhando desse jeito ou vai acabar no hospital.

— Mas tenho que continuar. Não posso parar de tra­balhar.

— Não mesmo? Você está nessa batida há quase oito meses. Já deve ter algum dinheiro no banco.

-— Viver custa muito caro — falou JeriLee, baixando os olhos.

— Eu sei, querida. Mas você só se meteu nisso para ganhar dinheiro suficiente para poder escrever. Já deve ter juntado o bastante para se manter, enquanto volta a traba­lhar naquela nova peça.

JeriLee ficou calada.

— Enfrente os fatos, querida. Escrever filmes de ter­ceira classe não era o que você sonhava. E nem mesmo es­creveu esse filme que eles acabaram de fazer. Simplesmente aproveitaram a sua idéia e transformaram-na totalmente, para atender a seus interesses. Você não escreveu nenhuma história de sexo e sadismo, mas foi nisso que eles transformaram a sua idéia.

JeriLee continuou calada.

— Seu lugar não é aqui, querida. Vai apenas terminar acorrentada a essas porcarias, sem jamais escrever as coisas que realmente deseja.

— Pelo menos recebi um pagamento pelo que escrevi — disse JeriLee, caindo na defensiva. — E eles me recebe­ram. Foi muito mais do que consegui lá no leste. Talvez seja o princípio de alguma coisa.

— Tem razão, JeriLee, é de fato o princípio... o princípio do fim. Ninguém jamais consegue elevar-se acima desse tipo de filme. Saindo deles, só há um caminho: para baixo, para os filmes abertamente pornográficos.

— Por que, de repente, pensa que entende profunda­mente desses assuntos?

— Não fiquei sentada aqui, esperando, enquanto você fazia o filme. Andei fazendo algumas indagações. O que você acabou de fazer foi um filme de terceira classe, para passar em cinemas drive-in, o tipo de filme a que ninguém assiste. As pessoas só vão aos cinemas drive-in para comer hambúrgueres e cachorros-quentes e para ficar se acariciando no carro.

— Gross disse que pode arrumar-me mais alguns fil­mes, depois deste. E disse também que Ansbach ficou muito satisfeito com o meu trabalho.

— Mas eles irão fazer sempre o mesmo tipo de filme.

— Não sei.

— Você vai ver. Será como nos clubes. A cada vez, terá que se despir mais um pouco. A próxima etapa será nos espetáculos sexuais.

JeriLee ficou calada. Sabia que Licia estava certa.

— Não estou querendo pressioná-la, querida — disse Licia, segurando a mão de JeriLee. — Mas, um dia, JeriLee Randall vai querer voltar e talvez descubra que é tarde de­mais, que Jane Randolph já assumiu, para sempre.

— Preciso de um drinque. . .

— Não beba, querida. Tome um Librium.

— Já tomei dois antes de dormir.

— Pois tome outro. Um drinque só servirá para deixá-la ainda mais tensa. O que está precisando mesmo é de dormir. — Licia levantou-se. — Vou buscar para você.

JeriLee tomou a pílula com um gole d'água. Depois, Licia obrigou-a, gentilmente, a se deitar no sofá.

— Fique deitada aí e relaxe, enquanto vou preparar um bom banho para você. Depois, voltará para a cama, e não quero ouvir mais uma só palavra sua até amanhã de manhã.

JeriLee segurou a mão de Licia e apertou-a.

— Não sei como eu teria podido sobreviver às últimas semanas sem sua ajuda, Licia.

— Adoro-a, querida. E quero cuidar de você.

O tranqüilizante não estava fazendo efeito. Inquieta, JeriLee sentou-se na cama e acendeu a luz. A porta do quar­to se abriu.

— Você está bem, JeriLee?

— Não consigo dormir.

— Precisa tirar umas férias, mudar de ares — disse Licia, sentando-se na beira da cama.

JeriLee começou a rir.

— De que está rindo, querida?

-— Olhe só quem está falando! Quando foi a última vez que você tirou férias, Licia? Mesmo aqui, está sempre ao telefone, tratando de negócios.

— Há uma diferença. Estou fazendo o que tenho von­tade de fazer. Mas você está atirando em tantas direções diferentes que já nem sabe mais o que quer.

— Sei muito bem o que quero. Quero escrever.

— Pois então escreva. — Licia fez uma pausa e acres­centou: — Se é dinheiro o que a está impedindo, não pense mais nisso. Tenho o suficiente para que você possa fazer o que quer.

— Não quero seu dinheiro, Licia. Você já fez por mim mais do que o suficiente.

— Está sendo infantil, JeriLee.

— Não estou, não! É muito importante que eu me sustente.

— Não se sentiria assim se eu fosse homem, não é mesmo?

A súbita frieza de Licia apanhou JeriLee de surpresa.

— Por que diz uma coisa dessas?

— Não é verdade? Deixaria que um homem a susten­tasse, mas não pode aceitá-lo de outra mulher.

— Não é verdade.

— Daria essa mesma resposta àquele garanhão, se ele se oferecesse para sustentá-la? Aposto que não. Cairia de joelhos diante dele e começaria a beijá-lo, de gratidão.

— Não diga isso, Licia. Você sabe que não é verdade. Se fosse isso o que eu desejasse, há muito tempo que já poderia ter. Não faz a menor diferença que seja homem ou mulher. Tenho de vencer por minha própria conta, de qual­quer maneira.

— Fala muito sobre a verdade, mas não tem coragem de enfrentá-la — disse Licia, rindo asperamente. — Por que me telefonou quando não tinha ninguém mais a quem pudes­se recorrer? Porque sabia, no fundo do coração, que eu queria ir para a cama com você. E achava que não haveria problema, se mantivéssemos um ar de conto de fadas. Mas, agora, você está na sarjeta e não está gostando. Por que não confessa logo o que é realmente, querida? Não é diferente de mim. Gosta tanto de mulher quanto eu.

Os olhos de JeriLee se arregalaram. Com as mãos trê­mulas, ela pegou um cigarro. Licia arrancou-lhe o cigarro dos dedos e jogou-o no cinzeiro.

— Ainda vai acabar incendiando a cama, JeriLee.

Licia tirou o roupão e sua pele cor de mel reluziu à luz da lâmpada. Gentilmente, ela puxou o rosto de JeriLee de encontro a seus seios. A voz era rouca quando ela falou:

— Pronto, querida, mamãe sabe o que você está que­rendo. Mamãe sabe o que você precisa. Deixe mamãe tomar conta de você.

JeriLee fechou os olhos e aspirou o cheiro forte e almiscarado de Licia. Queria se afundar na segurança dos braços da amiga, mas compreendeu subitamente que não poderia fazê-lo.

O que Licia lhe oferecia não era diferente do que os homens lhe haviam oferecido. O sexo era a forma de paga­mento. O fato de Licia ser mulher não fazia com que a troca se tornasse justa. Liberdade era o direito de ser a própria pessoa. Não era algo que se pudesse comprar. Era algo que se tinha de conquistar, sendo franca consigo mesma, quer gostasse ou não do que tivesse de reconhecer.

Ela afastou-se de Licia e fitou-a nos olhos.

— Tem toda a razão, Licia. Não estou sendo sincera. Nem comigo mesma nem com você. Sinto muito.

Licia ficou calada.

— Sinto-me grata por tudo o que fez, Licia. Quero ser sua amiga. E quero fazer amor com você, porque gosto. Tal­vez mais do que qualquer outro tipo de amor que já conheci. Mas não estou apaixonada por você, assim como não o estou por ninguém mais. Talvez eu não seja capaz de amar da mesma forma que as outras pessoas. Tudo o que sei é que não quero ser dona de ninguém e não quero que ninguém se arvore em meu dono. Tenho que ser livre.

A voz de Licia estava abafada pelo sofrimento:

— Mesmo que isso signifique ficar sozinha?

JeriLee fitou-a em silêncio por um longo momento, antes de assentir, lentamente.

Os olhos de Licia se encheram de lágrimas. E, dessa vez, foi JeriLee quem puxou a cabeça de Licia de encontro a seus seios, consolando-a.




Capítulo dezessete

Marc Gross Associados consistia em uma secretária sempre ocupada e em um serviço de recados telefônicos. Gross era um jovem que havia trabalhado para várias gran­des agências, antes de tentar a sorte por conta própria. Di­rigia um Lincoln Continental, cujas prestações estavam sem­pre dois meses atrasadas, e vivia mencionando gente impor­tante com quem se dava e falando sobre grandes negócios sempre iminentes. Apesar de tudo, era um jovem simpático e fazia o melhor possível pelos clientes desavisados que, por acaso, vinham bater à sua porta. O grande problema era o fato de os talentos mais promissores serem sempre agarra­dos pelas agências maiores e tradicionais, enquanto ele tinha de se contentar com simples possibilidades.

Quando JeriLee entrou no escritório, ele se levantou rapidamente, com um sorriso genuíno. Ela era uma das suas poucas clientes em atividade.

— Não recebo telefonemas enquanto estiver conver­sando com a Srta. Randolph — disse à secretária. Depois, com ar de importante, virou-se para JeriLee: — Temos mui­to trabalho a fazer.

JeriLee concordou, sem falar.

— Ansbach me disse que o filme ficou sensacional. Fiz com que ele prometesse me mandar algumas fotografias e dados, a fim de termos o que mostrar, antes de o filme começar a ser exibido. A idéia é arrumar-lhe mais alguns contratos, a fim de criar uma continuidade de sua imagem como atriz. — Ele parou de falar abruptamente e olhou para JeriLee. — Você usou uma peruca loura no filme?

Ela assentiu.

— Vi algumas fotografias. Devia usar a peruca loura o tempo todo. É ótima para a sua imagem.

— Ficava bem para o papel que eu tinha no filme. Mas não combina comigo.



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