Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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— Isso não tem a menor importância. É como os pro­dutores preferem. Dá-lhe uma aparência excitante.

— Uma aparência mais ordinária, não é mesmo?

— Questão de opinião. Eu a chamo de aparência C.I.

— O que é isso?

— Cama Instantânea. É o que todo mundo vai pensar ao vê-la num filme.

— Estou muito velha para bancar a loura sensual.

— Não é verdade. Está na idade certa. Atualmente, os homens estão querendo algo mais do que a loura burra de antigamente. Querem uma mulher que pareça mais experien­te, que dê a impressão de saber exatamente o que eles que­rem e de estar disposta a dar-lhes. Estou marcando algumas entrevistas para você e quero que vá com a peruca loura.

— Está certo.

— Quando vai voltar a trabalhar no clube?

— Esta noite.

— Ótimo. Temos de promover isso. Há problema se eu levar alguns produtores até lá?

JeriLee ficou em dúvida.

— Não acha que isso poderia afugentá-los? Não creio que os estúdios apreciem muito a associação.

— Eles que vão para o inferno! Não são eles que man­dam. Os produtores independentes é que ditam a moda. Os estúdios se limitam a segui-los.

— Não posso imaginar uma carreira construída com base nos filmes de terceira classe.

— O que há de errado com eles? Jack Nicholson não se saiu tão mal assim. Ele fez quatro filmes desses, antes de Sem destino. E olhe só onde está agora! É um dos grandes!

JeriLee não disse nada.

— Sei que o dinheiro não é muito, mas há bastante trabalho nessa área.

— Não sei. . .

— Ansbach quer usá-la novamente. E desta vez não será um filme só de motociclistas.

— Será sobre o quê?

— Uma história sobre uma prisão feminina. Há alguns bons papéis, mas você ficará com o principal, se quiser.

— Tem o roteiro?

— Você sabe como ele trabalha. O roteiro não ficará pronto até ele começar a filmar. Mas tenho aqui ume cópia da história. — Gross estendeu algumas folhas para JeriLee e acrescentou: — Enquanto você lê, darei alguns telefo­nemas.

— Quer que eu leia agora?

— É a única cópia que eu tenho, e vou precisar dela. Ansbach quer que eu arrume mais algumas garotas para o filme. Não vai demorar muito. A história só tem doze pá­ginas.

JeriLee acabou de ler antes que ele terminasse o se­gundo telefonema. Ficou esperando até que ele desligasse.

— E então, Jane, o que achou?

— Não creio que sirva para mim.

— Vai ficar com o papel principal.

— Para dizer a verdade, é uma boa porcaria.

— Mas é o que o público anda querendo neste mo­mento.

— Não gosto. Não há nem mesmo a simulação de uma história. O filme não passa de um amontoado de mulheres indo para a cama com outras mulheres, de mulheres espan­cando outras mulheres.

— É assim mesmo que essas prisões são. Além do mais, isso aí é apenas a idéia do filme. O roteiro será muito melhor.

— Não creio que um filme desses possa contribuir em alguma coisa para a minha carreira. Eu terminaria com a imagem de maior lésbica do cinema.

— Você é uma atriz. Não deve ter muitas dificuldades em viver o papel.

JeriLee percebeu a mudança sutil no tom de voz dele.

— O que está querendo insinuar?

— Ora, Jane, somos ambos adultos — disse ele, pro­curando exercer todo o seu encanto. — Sei o que você anda fazendo. Ninguém jamais poderá dizer que sou cego.

JeriLee ficou calada.

— Conheci a sua amiguinha lá do leste.

— O que faço é apenas da minha conta e de mais ninguém — disse ela, corando. — Acho que a idéia do filme é nojenta e não quero trabalhar nele.

— Está bem, está bem. Ansbach e eu já tínhamos cal­culado que talvez você não aceitasse. Haverá outras coisas.

— Já tem alguma resposta para as histórias que lhe dei?

— Estou fazendo-as circular. Tratarei de. informá-la, assim que tiver alguma novidade.

— Certo. Poderá encontrar-me no apartamento duran­te o dia. E, de noite, estarei no clube.

— Vai receber notícias minhas muito em breve. Estou marcando entrevistas para você na Warner e na Paramount. — Acompanhou-a até a porta. — E como está aquele ro­teiro para cinema no qual me disse que estava trabalhando?

— Eu lhe mostrarei assim que terminar.

— Não se esqueça. Tenho o pressentimento de que teremos a nossa grande oportunidade com esse trabalho. — Beijou-a no rosto e acrescentou: — Vamos nos manter em contato.

— Não estava esperando que voltasse tão cedo — disse Licia, quando JeriLee entrou no apartamento.

— Ia embora sem se despedir de mim? — perguntou JeriLee, olhando para as malas fechadas, junto à porta.

— Não gosto de despedidas, assim como você.

JeriLee ficou calada por um momento.

— Para onde está indo, Licia?

— Vou para Chicago. Falei com Fred e disse a ele que já tinha resolvido todos os problemas aqui. Ele foi muito compreensivo. Jamais se queixou de eu estar passando muito tempo com você.

A campainha da porta tocou e JeriLee abriu. O homem tocou com os dedos no quepe.

— Pediu um táxi, senhora?

Ela indicou as malas. Depois que o motorista se reti­rou, levando-as, ela e Licia ficaram imóveis, olhando uma para a outra. Foi Licia quem rompeu o silêncio:

— Acho melhor eu ir logo de uma vez. . .

JeriLee sentiu a pressão das lágrimas em seus olhos.

— Não quero que vá embora desse jeito, Licia. Não quero que fique zangada comigo.

— Não estou zangada, meu bem. Mas, ontem à noite, você me deixou saber onde é que estou exatamente: em lugar nenhum.

— Mas podemos continuar amigas.

— Claro, meu bem. — Licia deixou escapar um sus­piro. — O único problema é que a amizade que eu quero e a amizade que você imagina são totalmente diferentes. — Forçou um sorriso. — Tenho que ir agora. Os aviões não costumam ficar esperando pela gente.

Elas se aproximaram e seus lábios se encontraram, ternamente.

— Adeus, querida — murmurou Licia.

Ouviram um ruído atrás delas e se viraram, dando com Mike parado na porta.

— Está indo embora? — perguntou ele a Licia.

Ela assentiu e saiu do apartamento, passando por ele. Parou um passo depois e virou-se, dizendo para Mike:

— Cuide direitinho da minha garota, está bem?

Mike assentiu.

Assim que a porta se fechou, Mike perguntou a JeriLee:

— Houve algo errado?

JeriLee sacudiu a cabeça, as lágrimas lhe toldando a visão.

— Por que veio até aqui neste exato momento, Mike?

— Licia me telefonou. Disse que você queria falar comigo.

Só Licia pensaria nisso.

— Eu gostaria de tomar um drinque, Mike.

— Já está saindo um vodca com chá gelado! — Ele voltou um momento depois, com o drinque na mão. Entre­gou-o a JeriLee, sorrindo. — Vai querer novamente os meus serviços?

Ela assentiu, lentamente.

— Ótimo! Vou buscar as minhas coisas e estarei de volta no máximo em uma hora. Devo trazer alguns bifes para esta noite?

JeriLee assentiu novamente.

— Ei, vai ser fantástico! Agora que sei do que você gosta, vai ser ainda melhor. Tenho duas amigas que você vai adorar!

Ele saiu antes que JeriLee tivesse tempo de responder. Ela bebeu um grande gole do drinque. Se ficasse atordoada, poderia aliviar o sofrimento de sentir que simplesmente não conseguia comunicar-se com ninguém.


Capítulo dezoito

JeriLee olhou para o relógio e depois para Mike, que estava do outro lado da sala elegantemente mobiliada. De pé, junto ao bar, Mike conversava com o anfitrião. Ela lar­gou o copo de vodca com água tônica em cima de uma mesinha e seguiu até eles. Quando se aproximou, os homens se calaram.

— Lamento interromper, Sr. Jasmin, mas tenho que ir trabalhar.

O homem alto e de cabelos grisalhos, com um rosto bronzeado, sorriu cordialmente.

— Não há de que pedir desculpas. Agora que já nos conhecemos, deve pedir a Mike que a traga aqui mais vezes.

— Obrigada. — Ela sorriu e virou-se para Mike. — Se você quiser ficar, posso ir de táxi.

— Não, não. . . Eu também já estava de partida. Vou deixá-la no clube.

— Vou mandar pôr as malas de Rick em seu carro — disse o Sr. Jasmin.

Em seguida, falou rapidamente com um dos barmen e depois virou-se novamente para eles.

— Vou acompanhá-los até o carro.

Ao saírem para o terraço, Jasmin apontou na direção da piscina.

— Todos os domingos organizamos um almoço em tor­no da piscina. Com muita gente divertida. Venham também, se sentirem vontade.

— Obrigada — disse JeriLee.

Se todos eram como as pessoas que acabara de conhe­cer, pensou JeriLee, então nada tinham de divertidos. Todos os homens pareciam ser empresários muito sérios e reserva­dos, enquanto as poucas mulheres pareciam não ter nada a dizer umas às outras.

Cercado por Cadillacs, Mercedes e Continentais, o VW de Mike sobressaía como um polegar inchado. Quando eles chegaram ao carro, dois homens saíram de uma porta nos fundos da casa, cada um carregando uma mala preta bem grande.

— Ponham no banco de trás — disse Mike. Depois, virando-se para o anfitrião, falou: — Obrigado pelos drin­ques, Sr. Jasmin.

— Também agradeço, Sr. Jasmin — ecoou JeriLee.

Jasmin sorriu para ela.

— Será sempre bem-vinda nesta casa. E, por favor, procure vir ao nosso almoço de domingo. — Ele continuava a sorrir, mas havia um tom de dureza em sua voz quando disse a Mike: — Rick pede para tomar muito cuidado com as coisas dele.

— Fique tranqüilo, Sr. Jasmin. Pode dizer a ele que não precisa preocupar-se.

Assim que o carro partiu, JeriLee olhou para Mike e disse:

— Foi a festa mais estranha a que já fui. Ninguém pa­recia estar com vontade de conversar.

— Sabe como são os homens de negócios.

— O que Jasmin faz?

— Ele é uma espécie de financista. Geralmente suas festas são um pouco melhores, mas esta noite estava real­mente muito monótona. Lamento tê-la trazido.

— Não há problema. Eu já estava cansada da máquina de escrever. Foi bom sair de casa. — JeriLee olhou para as malas pretas, no banco de trás do carro. — O que vai fazer com essas malas?

— Um amigo meu vai fazer uma viagem e prometi guardar as coisas dele, até sua volta. Ele as deixou na casa de Jasmin, para que eu fosse apanhá-las.

— Ele estava lá? Não me lembro de tê-lo conhecido.

— Já tinha saído antes de chegarmos.

— Por que Jasmin não guardou as malas? Ele tem muito mais espaço do que você.

— Não se pede a um homem como Jasmin para fazer uma coisa dessas. Além do mais, não haverá qualquer pro­blema. Vou meter as malas no armário, até meu amigo vol­tar. Elas não irão atrapalhá-la.

Os dois ficaram em silêncio até chegar ao clube. Assim que parou o carro no estacionamento, Mike disse a JeriLee:

— Talvez seja uma boa idéia aceitarmos o convite de Jasmin para almoçar lá no domingo. Acho que ele gostou de você, pois não é do tipo que convida qualquer pessoa para ir à sua casa.

— Vamos ver — disse JeriLee, sem querer assumir qualquer compromisso.

— Seria bom para você sair de casa mais um pouco. Há mais de duas semanas que está trancada no apartamento.

— Quero terminar logo o roteiro. Virá buscar-me de­pois do espetáculo, Mike?

— Sim. — Ele olhou para trás, quando um carro en­trou no estacionamento e veio parar atrás deles. — Acho melhor eu ir logo — falou muito nervoso. — Estou atrapa­lhando o tráfego.

JeriLee ficou observando-o afastar-se. Havia algo de estranho em Mike. Ela não conseguia determinar o que era, mas sentira a tensão dele aumentar continuamente, desde que haviam chegado à casa de Jasmin.

O gerente aproximou-se dela, quase correndo.

— Vai ter que se apresentar imediatamente. Anne aca­ba de telefonar, dizendo que está doente.

— Não precisa ficar preocupado, Jack — disse ela, sorrindo. — Estarei pronta dentro de dez minutos.

Mike abriu a porta para ela entrar no apartamento.

— Quer um drinque? — perguntou ele.

JeriLee sacudiu a cabeça.

— Estou exausta. Tive que me apresentar nove vezes esta noite. Uma das garotas não pôde ir.

— É demais. . .

— Sinto todo o corpo doído. Acho que vou tomar um Nembutal e depois cair na cama.

— Faça isso mesmo. Uma boa noite de sono é a me­lhor coisa para você. Vou ficar aqui lendo os jornais, antes de ir para a cama.

— Está bem.

O banho quente, de chuveiro, diminuiu um pouco as dores musculares que ela estava sentindo. Depois de enxu­gar-se, JeriLee vestiu o roupão, tomou duas pílulas para dormir e foi até a sala. Mike estava sentado numa cadeira, diante da janela.

— Mike, pensei que você ia ler os jornais.

— Não agüentei. As notícias são as mesmas porcarias de sempre.

— Está se sentindo bem? — perguntou ela.

— Eu? Claro que sim! Nunca me senti melhor em toda a vida!

JeriLee meneou a cabeça, como se aceitasse plenamen­te a afirmativa dele. O que quer que estivesse errado, não era da conta dela, especialmente se ele não queria falar a respeito daquilo.

— Boa noite, Mike.

— Boa noite.

Ela foi para o quarto e fechou a porta. Estava dormin­do antes mesmo de poder apagar a luz.

O ruído de vozes despertou-a. Ela se remexeu na cama, tentando clarear a cabeça. As vozes eram agora mais altas. Subitamente, a porta foi escancarada. Um homem entrou no quarto e acendeu a luz. A voz dele era ríspida:

— Muito bem, irmãzinha, vamos logo saindo da cama.

Por um momento, JeriLee teve a impressão de que se tratava de um sonho. Ela ainda estava grogue, das pílulas para dormir.

— O que você quer? Quem é você? — Estendeu a mão para o telefone. — Acho melhor ir embora, antes que eu chame a polícia.

— Nós somos a polícia, moça. E queremos ter uma conversinha com você.

JeriLee puxou as cobertas até o pescoço.

— Sobre o quê?

— Sobre as duas malas que seu namorado foi buscar hoje. Onde é que elas estão?

Mike apareceu na porta, por trás do policial.

— Não tem que dizer nada a eles! — gritou Mike. — Diga que quer falar com seu advogado.

Um guarda uniformizado apareceu por trás de Mike e arrancou-o da porta.

— Tire essas mãos nojentas de cima de mim! — ber­rou ele.

JeriLee ficou olhando para o detetive, aturdida.

— Mas que diabo está acontecendo? — perguntou ela.

— Seu namorado andava passando narcóticos. Mas, desta vez, nós conseguimos pegá-lo. Vimos aquelas malas entrarem aqui. E não as vimos sair.

— Desta vez? — repetiu JeriLee, espantada.

— É a terceira vez que o pegamos. Nas outras duas, tivemos que soltá-lo, por falta de provas. Mas desta vez, vamos desmontar este apartamento de alto a baixo, se for necessário.

— Não podem fazer isso sem um mandado judicial! — berrou Mike.

O detetive tirou um papel do bolso.

— Trouxemos o mandado. Queríamos entrar aqui mais cedo, mas o juiz só assinou a ordem há meia hora. — Tor­nou a virar-se para JeriLee. — É melhor vestir alguma coisa e sair logo do quarto, moça.

O detetive voltou para a sala, deixando aberta a porta do quarto. JeriLee enfiou-se no roupão e foi também para a sala. Mike estava sentado no sofá, de cara amarrada, cer­cado por três policiais à paisana e dois guardas uniformi­zados. O homem que falara com ela no quarto fez um gesto para os outros, dizendo:

— Sou o Detetive Collins, da polícia do condado. Esse é o Detetive Millstein e aquele outro é o Agente Es­pecial Cochran, do fbi. E agora, vai nos dizer ou não onde estão aquelas duas malas?

— Não precisa contar nada para ele! — gritou Mike. — E você tem que informá-la de quais são os direitos que ela tem!

— Você é um péssimo advogado, Mike — disse o De­tetive Collin, sem sorrir. — Isso só é necessário quando se prende alguém. Eu ainda não a prendi. Por enquanto. . .

JeriLee sentiu o pânico aumentar.

— Mas por que estão me prendendo? Não fiz nada!

— Eu não disse que tinha feito.

— Não dê atenção a ele, Jane! — berrou Mike. — Está apenas querendo enganá-la!

O agente do fbi resolveu entrar na conversa:

— Por que não facilita as coisas para você mesmo, Mike, dizendo-nos logo onde estão as malas? Seria uma pena ter que estragar o seu lindo apartamento.

Mike não respondeu.

— Garanto que seria melhor para. você, Mike. Desta vez, não tem como escapar. Pegamos Rick no aeroporto,. carregando duas malas cheias. Pegamos também Jasmin, no início da noite. E vimos você entrar aqui com as duas malas.

Mike ficou olhando para o chão, em silêncio. O agente virou-se para JeriLee.

— O que tem a dizer, moça? Sabe onde estão as malas?

— Não. — JeriLee olhou para Mike, que se recusou a encará-la. Ela estava começando a ficar furiosa. Como pu­dera ser tão estúpida a ponto de acreditar naquela historia de Mike, de que não trabalhava e se contentava com a renda que o apartamento lhe dava? Se ele passava os narcóticos, como intermediário, não precisava trabalhar em outra coisa. Ela olhou para o agente do fbi e acrescentou: — Mas acho que sei onde podem estar. Há um armário trancado no cor­redor, ao lado da porta do banheiro, onde ele guarda as suas coisas.

— Tem uma chave desse armário?

— Não. Mas ele tem.

O agente estendeu a mão para Mike. Carrancudo, Mike tirou a chave do bolso e entregou-a. O agente deu a chave ao outro detetive.

— Vamos dar uma olhada.

O Detetive Collins segurou JeriLee pelo braço e um dos guardas uniformizados fez um gesto para Mike, indicando que deveria ir também. Mike se levantou e entraram todos no estreito corredor.

As duas malas estavam dentro do armário. Os deteti­ves puxaram-nas. Collins tentou abrir uma, logo desistindo.

— É uma fechadura de combinação — disse ele. — Sabe qual é o número, Mike?

— Claro que não. E por que deveria saber? Estou simplesmente guardando essas malas para um amigo. Nem mesmo sei o que há dentro delas.

-— Não tenho a menor dúvida quanto a isso, Mike — disse Collins, soltando uma risada.

Tirou do bolso um instrumento pequeno e ficou re­mexendo na fechadura por um momento. Depois, apertou o botão e o fecho se abriu. JeriLee ficou olhando para os em­brulhos, impecavelmente feitos, com o formato de tijolos. Havia vinte embrulhos daqueles em cada mala. Collins tirou um, rasgou o papel no canto e cheirou. Depois assentiu e estendeu o embrulho para o agente federal.

— A informação era certa. Podemos levar os dois e prendê-los.

Collins virou-se para Mike, tirando um pequeno cartão branco, impresso, do bolso interno do paletó.

— Agora, estou lhe falando oficialmente, Mike. A lei me exige que lhe informe de seus direitos. Qualquer coisa que disser pode ser usada contra você nos tribunais. Tem o direito de permanecer calado ou de consultar seu advogado, antes de prestar qualquer declaração à polícia. Pode exigir também que seu advogado esteja presente, durante qualquer interrogatório, a ser realizado agora ou no futuro. — A voz dele parecia arrastar-se interminavelmente. Ao final do dis­curso, ele virou-se para JeriLee: — A mesma coisa se aplica a você, mocinha.

— Mas por que diabo a estão prendendo também? — gritou Mike. — Ouviram o que ela disse. Ela não sabe de nada.

— O juiz é quem vai decidir isso — disse Collins. — Limito-me a fazer o meu trabalho. E por isso os estou pren­dendo. — Virou-se outra vez para JeriLee. — A lei exige que eu lhe informe de todos os seus direitos.

E leu novamente tudo o que estava escrito no cartão. Quando terminou, JeriLee disse:

— Estão cometendo um erro. Não tenho nada a ver com essa história. Apenas aluguei o apartamento dele.

— Um aluguel dos mais engraçados — escarneceu Collins. — Está vivendo aqui com ele há quase dois meses. Eu bem que gostaria de encontrar uma inquilina assim.

— Mas é verdade! — protestou JeriLee. Sentiu as lá­grimas afluírem aos olhos e esforçou-se ao máximo para contê-las.

— Pode explicar tudo isso ao juiz — disse Collins. — Tem cinco minutos para se vestir ou eu a levarei do jeito que está. — Virou-se para os dois guardas uniformizados. — Levem Mike para o carro e depois um de vocês volte aqui para ajudar Millstein a carregar a prova.

Depois que os dois guardas saíram, Collins tornou a olhar para JeriLee.

— Não está se vestindo, irmã.

— E como quer que eu me vista, com todos vocês pa­rados aqui?

— Posso pôr um disco na vitrola — disse Collins, rindo. — Assim, aproveitará para nos dar uma exibição, en­quanto se veste. Ou será que a multidão não é grande o bastante para você?

Ela lhe lançou um olhar furioso, sem dizer nada. Collins sorriu.

— Assisti ao seu número algumas vezes, irmã. Você sabe remexer-se de verdade. Não temos a menor objeção a uma exibição particular.

O Detetive Millstein falou pela primeira vez:

— Pode ir vestir-se no banheiro, moça. Esperaremos aqui fora.

JeriLee assentiu, agradecida, ainda lutando para conter as lágrimas. Pegou uns jeans e uma blusa no armário e rou­pas de baixo na gaveta da cômoda. Entrou no banheiro e fechou a porta. Lavou o rosto com água fria, mas, mesmo assim, continuou a sentir-se grogue, do Nembutal que to­mara. Precisava ficar completamente desperta.

Rebuscou freneticamente o armarinho de remédios, à procura de Dexamyl. Ainda restavam duas cápsulas no vidro. Deveriam dar. Terminou rapidamente de vestir-se e passou um pente pelos cabelos. Quando saiu do banheiro, o Dete­tive Millstein era o único que a estava esperando.

— Onde estão os outros?

— Já foram. Está pronta?

— Vou pegar minha bolsa. — Um momento depois, ela perguntou ao policial: — Parece ser um homem com­preensivo. Tenho mesmo de ir?

Ele disse que sim.

— O que vão fazer comigo?

— Provavelmente, vão soltá-la. Mas terá de ir até a delegacia. Seu namorado estava metido com uma quadrilha perigosa. E havia um bocado de maconha naquelas malas.

— Mas que droga! E tudo o que fiz foi alugar um apartamento. Alguém já ouviu falar de uma inquilina pedir referências ao proprietário?

— Sinto muito, moça — falou ele, rindo.

Eles saíram do apartamento. No momento em que co­meçavam a descer a escada, o detetive parou.

— Não acha que devia trancar a porta do apartamen­to, moça? Você não haveria de gostar de voltar para cá e descobrir que tinham roubado tudo.


Capítulo dezenove

A madrugada despontava quando eles subiram a rampa diante da delegacia.

— Mas que merda! —disse Millstein baixinho, ao ver a multidão de repórteres e o caminhão da unidade móvel de TV parados diante do prédio. — Aquele idiota do Collins não podia esperar o momento de ver sua fotografia nos jornais.

Passou pela entrada da delegacia e desceu pela rampa do outro lado. Em seguida, deu a volta pelo quarteirão.

— Gosta de publicidade, moça?

— Não desse tipo.

— Tentarei levá-la pela entrada dos fundos. Talvez não haja ninguém lá. Tem óculos escuros na bolsa?

— Tenho.


— Ponha-os. Assim, pelo menos não poderão fotogra­far o seu rosto direito.

JeriLee abriu a bolsa e tirou os óculos.

— Como estou?

— Ótima — disse o detetive, olhando para ela. — Há um jornal no banco de trás. Pegue-o. Poderá segurá-lo junto ao rosto, quando entrarmos.

— É uma ótima pessoa, Charlie Brown — falou JeriLee.

— Millstein — disse ele, sem sorrir.

O detetive entrou com o carro no estacionamento atrás da delegacia. Não havia tantos repórteres como na frente, mas todos cercaram o carro, antes mesmo que parasse.

— Não saia do carro até eu dar a volta e abrir a porta — disse Millstein a JeriLee.

Os flashes começaram a espocar, com os fotógrafos ten­tando fotografar JeriLee pelas janelas fechadas do carro. Ela levantou o jornal diante do rosto e ficou esperando, até ouvir o estalido da porta se abrindo e a voz do detetive dizendo:



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