Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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Pode sair agora, moça.

Ele levou-a rapidamente até a porta dos fundos. Jeri­Lee não tirou o jornal da frente do rosto. Podia ouvir os repórteres gritando:

— Ora, Jane, deixe disso! Deixe-nos tirar uma boa foto!

— A publicidade vai esgotar os ingressos para o seu próximo espetáculo!

— Mostre a eles que tem algo mais além de peitos e rabo!

E ouviu também a voz de Millstein:

— Tome cuidado. Há um degrau agora.

Ela tropeçou e quase caiu, mas Millstein amparou-a. Um momento depois, os dois haviam passado pela porta.

— Está bem?

JeriLee assentiu.

— Vamos ter que subir dois lances de escada. O ele­vador não funciona a esta hora.

— Não há problema. E muito obrigada.

Ele sorriu, quase timidamente.

— Não foi nada. — Pararam no segundo patamar. — Terá que ser fichada, moça. Haverá repórteres presen­tes, mas nenhum fotógrafo. Não é obrigada a falar com eles. Tentarei tirá-la de lá o mais depressa possível.

Entraram na sala imensa pela porta dos fundos. Esta­vam quase na mesa do sargento quando os repórteres os viram. Todos correram na direção de JeriLee, fazendo-lhe perguntas. Já tinham sido informados a respeito do caso. Sabiam o nome dela e onde trabalhava. JeriLee manteve a cabeça abaixada, sem olhar para nenhum deles.

Millstein cumpriu a palavra. Sussurrou alguma coisa para o sargento de plantão, que assentiu e apontou para uma porta lateral. O detetive levou-a até lá e entraram numa saleta.

— O sargento é amigo meu. Ele vai trazer o livro de ocorrências até aqui, para fichá-la longe da multidão.

— O que disse a ele? — perguntou JeriLee.

— Perguntei se ele estava realmente a fim de ajudar Collins a se tornar tenente — respondeu Millstein, com um sorriso.

Ela desatou a rir. E, subitamente, as risadas morreram em sua garganta. Andara tomando tantas pílulas que estava começando a perder o controle. Não havia motivo para rir. As janelas para as quais olhava tinham grades. Aquilo não era um filme ou uma peça. Era de verdade.

JeriLee abriu a bolsa e procurou um cigarro. Tinha certeza de que havia um maço lá dentro. Finalmente, desis­tiu da busca e olhou para Millstein, pedindo-lhe, com voz trêmula:

— Tem um cigarro?

Em silêncio, ele tirou um maço do bolso e estendeu-o para JeriLee.

— Já passou por isso antes, moça? — perguntou ele, em seguida.

— Não! E é assustador. . . — falou JeriLee, sacudindo a cabeça.

Ele não disse nada.

— O que vai acontecer agora?

— Depois que o sargento terminar de registrar tudo, terá que entregar todas as suas coisas. Iremos então foto­grafá-la e tirar-lhe as impressões digitais. Finalmente, vamos levá-la até a ala das mulheres, onde uma carcereira irá re­vistá-la e depois trancafiá-la numa cela, onde ficará até o tribunal abrir, pela manhã.

— Tenho que ficar aqui até lá?

Ele assentiu.

— No cinema, a gente vê as pessoas saindo por fiança ou alguma outra coisa.

— É possível. De qualquer maneira, o juiz tem que dar autorização.

O sargento entrou na saleta, carregando um livro imenso.

— Nome, idade e endereço? — perguntou ele, rapi­damente, depois de sentar-se à pequena mesa.

JeriLee hesitou. Olhou para Millstein, que assentiu.

— Jane Randolph, Montecíto Way, 11119, Santa Mônica, vinte e oito anos.

— Certo. Collins já preencheu o formulário de acusa­ção — disse o sargento para Millstein.

— E o que disse ele?

— Transporte e posse de oitenta quilos de maconha, com intenção de vender — respondeu o sargento.

— Mas não é verdade! — protestou JeriLee. — Nada tive a ver com isso!

Ignorando a explosão dela, o sargento levantou-se.

— Vai levá-la até a seção de guarda dos bens dos pri­sioneiros ou prefere que eu mande alguém até aqui?

— Vou levá-la até lá. E passaremos por aquela porta — disse Millstein, apontando para o outro lado da saleta.

JeriLee seguiu-o pela porta e passaram para um corre­dor Pararam diante de um balcão. Millstein apertou uma campainha, chamando o funcionário.

— Mas isso não é justo! — disse JeriLee. — Collins não deu a menor importância ao que eu falei.

Um policial em mangas de camisa apareceu por trás do balcão.

— Esvazie a bolsa em cima do balcão e tire os anéis, relógio e qualquer outra jóia que esteja usando — disse ele, mecanicamente. — Nome e número?

— Jane Randolph. E que número deseja saber?

Ele não levantou os olhos do formulário.

— Todo prisioneiro tem um número de registro.

— Eu tenho o número — disse Millstein, entregando ao homem um pedaço de papel e acrescentando para Jeri­Lee, gentilmente: — É uma mera formalidade.

Ela abriu a bolsa e esvaziou-a em cima do balcão. Tirou também o relógio do pulso. O policial começou a anotar as coisas que estavam dentro da bolsa. Ela deu uma tragada no cigarro e Millstein observou-lhe os dedos trêmulos.

— Fique tranqüila, moça. Estarei a seu lado e pro­curarei ajudá-la o máximo possível.

Ela assentiu. Mas Millstein podia ver o pavor instin­tivo nos olhos dela. Aturdida, JeriLee assinou o formulário e deixou que lhe tirassem as impressões digitais e a fotogra­fassem. E continuava aturdida quando foi revistada pela car­cereira. Só quando estavam seguindo a carcereira pelo cor­redor, na direção da cela, é que Millstein a viu empertigar-se. A carcereira abriu a porta de barras de ferro. JeriLee virou-se para Millstein. Havia um princípio de histeria na voz dela:

— Tenho mesmo que entrar aí?

Ele a fitou em silêncio, por um minuto. Havia nela algo que o comovia, talvez porque estivesse convencido de que da dizia a verdade. Havia dois meses que estavam tra­balhando no caso e aquela era a primeira vez que surgia um indício de que ela poderia estar envolvida. Mas Collins não se preocupara com isso. Queria ser promovido a tenente e contava com o apoio do promotor distrital. Ambos queriam conquistar um grande sucesso público e não se importavam com quem pudessem prejudicar. Millstein olhou para o reló­gio. Eram quase sete e meia. O tribunal seria aberto dentro de uma hora e meia.

— Vou levá-la para a sala de conferências e ficarei com ela — disse ele à carcereira.

A carcereira era uma mulher cética, que acreditava que os policiais não eram diferentes dos outros homens, espe­cialmente em matéria de mulheres bonitas. .

— Está bem — disse ela, em tom indiferente. — O problema é seu.

JeriLee sentiu os joelhos fraquejarem quando se afas­taram da cela. A sala de conferências era pequena, com umas poucas mesas e cadeiras, um sofá encostado numa das paredes. O detetive levou-a até o sofá, sentando-se diante dela e tirando um cigarro.

— Eu não poderia ter entrado naquela cela — mur­murou JeriLee, aceitando o cigarro que o policial lhe ofe­receu. — Não sei o que poderia fazer, se fosse obrigada a isso.

A voz dele não era inamistosa, apenas indiferente:

— Terá que ir para lá, mais cedo ou mais tarde.

— Talvez o juiz me deixe ir embora.

Ele ficou em silêncio por um momento. Ela realmente não tinha idéia do problema em que estava metida. Tudo era feito para retardar a ação da justiça, não para apressá-la.

— Tem advogado? — perguntou o detetive.

Ela sacudiu a cabeça.

— Conhece algum?

Ela tornou a sacudir a cabeça.

Nesse caso, o juiz vai entregar o seu caso ao defen­sor público.

— E isso é bom?

— É melhor do que nada. — Ele hesitou por um mo­mento, mas acabou acrescentando: — Se tiver algum di­nheiro, é melhor contratar um advogado. O promotor dis­trital irá fazer picadinho do defensor público, neste caso. Ele está querendo alcançar um sucesso estrondoso e não vai fazer nenhum acordo. Você está precisando de um advogado respeitável, a quem o promotor distrital e o tribunal ouçam.

— Não conheço ninguém assim.

Ele ficou calado por mais algum tempo.

— Eu conheço. Só que custa caro.

— Quanto?

— Não tenho idéia.

— Possuo algum dinheiro. Acha que ele concordaria em falar comigo?

— É possível.

— Poderia ligar para ele em meu nome?

— Não tenho permissão para fazer isso. Mas posso dar-lhe o telefone dele. Deve estar em casa agora. E você tem direito a dar um telefonema.

A carcereira entrou na sala, com a bandeja do almoço. JeriLee levantou os olhos do catre no qual estava sentada.

— Que horas são?

— Meio-dia — disse a mulher, pondo a bandeja na mesinha encostada na parede.

JeriLee olhou para os sanduíches de aspecto repugnante.

— Não estou com fome.

— Mas deve comer alguma coisa. O tribunal não vai reabrir antes das duas horas da tarde. E não vai acontecer nada antes disso.

A carcereira saiu da cela e fechou a porta de barras de aço.

Havia mais de duas horas que o advogado deixara JeriLee. Era um homem alto, vestido discretamente num terno escuro, e tinha cabelos prateados e pele rosada. Escutara a história dela até o fim, sem fazer qualquer comentário. Quando JeriLee acabou, ele fez uma única pergunta:

— Está me dizendo a verdade?

— Estou.


— É muito importante eu saber. Não quero que o promotor distrital me apareça com alguma surpresa.

— Juro que é verdade.

O advogado a fitou em silêncio, por um instante.

— Cinco mil dólares.

— Como?

— Cinco mil dólares. São os meus honorários.



— Não tenho tanto dinheiro assim.

— Sinto muito — disse o advogado, levantando-se.

— É muito dinheiro...

— É que você está metida na maior encrenca. Está envolvida na descoberta da maior quadrilha de traficantes de drogas na Califórnia, este ano. Não vai ser fácil convencer o promotor e o juiz de que você está dizendo a verdade.

JeriLee ficou calada, pensativa, dizendo finalmente.

— Tenho cerca de três mil e quinhentos dólares no banco. E posso pagar o resto, quando voltar a trabalhar.

Ele sentou-se de novo.

— Temos que tirá-la da cadeia imediatamente. As acusações devem ser canceladas. Se a levarem a julgamento e tiver que comparecer perante um júri, estará inevitavel­mente perdida.

— Não estou entendendo. Contarei a verdade. Exata­mente a mesma coisa que lhe contei.

— Isso não importa. Os integrantes do júri serão todos moralistas. No instante em que souberem no que você tra­balha, concluirão que é culpada. Para eles, somente uma mulher imoral é capaz de dançar nua em público.

— Mas qual é a diferença entre os homens que vão ao clube para me ver e os jurados?

— Esses mesmos homens que vão ao clube certamente votariam contra você.

— O que vamos fazer então?

— Tenho que pensar um pouco. Está com seu talão de cheques?

— Ficou com eles.

Quando o advogado se retirou, alguns minutos depois, levou um cheque de três mil e quinhentos dólares e uma pro­missória de mil e quinhentos.

— Procure relaxar — disse ele. — Receberá notícias minhas dentro em breve.

A tarde já ia pela metade quando o advogado finalmen­te voltou.

— O que aconteceu, Dr. Coldwell? — perguntou JeriLee, no instante em que ficaram sozinhos na sala de con­ferências.

— Já acertei tudo com o promotor. Ele concordou em separar o seu caso dos outros e cancelar as acusações, se você quiser servir como testemunha da acusação.

— O que isso significa?

— Significa que está livre. Precisará apenas compare­cer ao julgamento e repetir a mesma história que me contou.

— Posso sair daqui agora mesmo?

— Dentro de mais alguns minutos. Primeiro, terá que comparecer perante o juiz, que emitirá a ordem de soltura.

— E o que estamos esperando?

— Está bem, vamos indo. Quero apenas que se lembre de uma coisa: o que quer que o juiz lhe peça para fazer, concorde imediatamente.

JeriLee assentiu. Ele bateu na porta, indagando à car­cereira, quando esta a abriu.

— A Srta. Randolph pode ficar esperando aqui um minuto, enquanto eu vou até o escritório do promotor distrital para lhe comunicar que estamos para comparecer ao tribunal?

A mulher olhou para JeriLee, em dúvida.

— Prometo que não vou demorar mais que um minu­to — disse o advogado. — Vão cancelar as acusações con­tra a minha cliente, e acho que ela já passou tempo demais na cela.

— Está certo. Mas não demore, por favor. Isso é con­tra os regulamentos.

— Agradeço sua boa vontade — disse o advogado. Olhou em seguida para JeriLee e falou: — Volto num instante.

JeriLee sorriu. Pela primeira vez, nas ultimas doze horas, ela não sentia o pavor a dominá-la.


Capítulo vinte

Coldwell saiu com JeriLee pelos fundos do prédio e meteu-a dentro de um táxi.

— Os repórteres irão descobrir o endereço de seu apartamento dentro de mais um ou dois dias — disse ele. — Se não quer ser incomodada por eles, é melhor sair de lá o mais depressa possível.

— Não posso mesmo ficar lá. Mike é meu senhorio. O que vai acontecer com ele?

— O juiz fixou uma fiança de cem mil dólares para cada acusado. Tenho a impressão de que todos estarão em liberdade, antes do cair da noite.

— Mike não tem tanto dinheiro assim.

— Ele está ligado a gente importante. E eles costu­mam tomar conta de seu pessoal.

JeriLee ficou calada. Ainda lhe era difícil acreditar em tudo o que acontecera.

— Mantenha-se em contato comigo — disse Coldwell. — Quando se mudar, informe-me para onde foi.

— Está certo.

Já passava das cinco horas da tarde quando ela final­mente chegou ao apartamento. Ainda na escada, reparou que a porta estava aberta. Era um tanto surpreendente. Recor­dava-se nitidamente de haver trancado a porta, quando Millstein recomendara que o fizesse. Lentamente, entrou no apartamento.

A sala estava na maior confusão. Tinham quebrado sua máquina de escrever portátil. Havia papéis amassados espa­lhados pelo chão, e na lareira havia uma pilha de cinzas.

Ela pegou um dos papéis que estavam no chão. Não tinha nada escrito. Sentiu-se invadida por uma onda de medo. Correu para a lareira e pegou um pedaço de papel que não fora totalmente consumido pelas chamas.

Era o que ela temia. Todo o seu trabalho das últimas semanas, o roteiro quase no fim, havia sido destruído, quei­mado na lareira.

Aturdida, ela se levantou e foi para o quarto. Ali, tam­bém, tudo estava revirado, as gavetas e o armário esvaziados, as roupas rasgadas. Mas isso quase que não tinha importân­cia. O essencial eram as palavras que se haviam perdido. As palavras que jamais poderiam ser substituídas.

As lágrimas lhe escorriam pelo rosto quando ela foi para o banheiro. Todas as pílulas do armarinho de remédios haviam sido jogadas na pia e na banheira, com a água cor­rendo em cima delas, tirando-lhes toda a eficácia. Naquele momento, o telefone começou a tocar. Ela atendeu no quar­to, com voz trêmula:

— Alô. . .

— Jane Randolph?

— Ela mesma.

— É um amigo quem está falando, para lhe dar um conselho amigável. Saia da cidade. Vá para o mais longe possível. Ou a próxima coisa que encontrará quebrada em seu apartamento será você mesma.

— Mas. . . — Ela estava segurando um fone mudo. Quem quer que fosse, já desligara. JeriLee repôs o fone no gancho e lentamente começou a arrumar o apartamento.

Eram quase oito horas quando ela chegou ao clube. Já ia entrando no vestiário, quando o gerente a chamou.

— Venha até meu escritório, Jane.

Ela o seguiu até o cubículo a que davam o nome de escritório. Ele fechou a porta cuidadosamente e baixou a voz para um sussurro:

— Não esperava que aparecesse aqui esta noite. Quan­do foi que saiu da cadeia?

— Esta tarde.

— Já arrumei outra garota para o seu lugar.

— Isso é ótimo. Estou mesmo precisando de uma noi­te de descanso. Estarei aqui amanhã.

— Não!

— O que está querendo dizer-me, Charlie?



— Recebi ordens lá de cima. Tenho que mandá-la embora.

— Está querendo brincar comigo. . .

— É sério, Jane. Eles foram bastante específicos. Você esta fora.

— Eles devem estar loucos. Toda a publicidade nos jornais só vai servir para atrair mais fregueses.

— Pensa que não sei? — gemeu ele. — Mas eles con­trolam a casa. Se eu não fizer o que mandam, estarei li­quidado.

— Está bem, Charlie. Há outros lugares em que po­derei trabalhar. Não vão me fazer desistir do negócio.

— Sou muito mais velho do que você, Jane, e vou lhe falar como um pai. Ou como um tio. Você é uma boa me­nina, mas meteu-se com as pessoas erradas. Não há nenhum lugar nesta cidade onde tenham coragem de lhe dar um em­prego. Aconselho-a a ir embora daqui. Para bem longe.

— Eles também controlam você — disse ela, friamente.

— Não posso fazer nada. Tenho a minha família para sustentar. Mas seria melhor para você mesma que fizesse o que estou lhe dizendo. Se ficar por aqui, algo terminará lhe acontecendo. Conheço esses caras e sei o que eles já fizeram com algumas garotas que não deram importância às suas advertências. Não é nada agradável de se contar.

— Eu estava sozinha no apartamento e eles não che­garam perto de mim.

— Você ainda está no noticiário, Jane. Eles vão es­perar. E um belo dia, quando os jornais tiverem se esque­cido inteiramente de você, eles irão fazer-lhe uma visita.

— Não acredito.

— É melhor acreditar, Jane — disse ele, falando sinceramente. — Se fosse a minha própria filha, eu não poderia dar-lhe um conselho melhor. — Abriu uma gaveta da pequena escrivaninha e tirou um envelope. — Eu lhe devo um dia de pagamento. Mas como você fez algumas apresentações extras, estou lhe dando cem dólares redondos. Está certo?

— Está. — Aqueles cem dólares, com mais os trinta que tinha na bolsa e os vinte que haviam sobrado no banco, depois de pago o advogado, eram todo o dinheiro que pos­suía no mundo.

— Pegue esse dinheiro e compre uma passagem de avião para o mais longe possível, Jane.

— Obrigada, Charlie — disse ela, abrindo a porta.

— Boa sorte, Jane.

Mas que negócio terrível, pensou ele, depois que JeriLee saiu. Quando as garotas não estavam metidas numa en­crenca, então era porque estavam envolvidas em outra.

— Você está liquidada, Jane. — A voz de Marc Gross era áspera c queixosa, como se as ocorrências com ela se tivessem refletido nele e em seus negócios. — Eu já tinha acertado tudo para entrevistas suas na Warner, Paramount e Twentieth. Mas eles cancelaram, assim que leram os jor­nais da manhã.

— Os jornais da tarde informam que as acusações con­tra mim foram retiradas.

— Isso não faz a menor diferença. Eles não gostam desse tipo de publicidade.

— E aquelas histórias que eu lhe mandei?

— Estão começando a ser devolvidas. E nem mesmo as estão enviando pelo correio. Estão tão ansiosos em se livrar de tudo o que é seu que estão devolvendo por men­sageiros especiais.

— E o que me diz do filme sobre a prisão de mulheres de Ansbach? Ainda posso trabalhar nele?

— O elenco já foi contratado. Acha mesmo que ele ia ficar esperando por você?

Haviam-se passado apenas algumas semanas, mas JeriLee não discutiu. Fitou-o nos olhos e perguntou:

— Eles também já pressionaram você?

— Não sei do que está falando — disse Gross, fican­do vermelho.

— Creio que sabe. Não lhe telefonaram para dizer que não devia fazer nenhum negócio comigo?

— Recebo tudo que é tipo de telefonema maluco. Não lhes dou a menor atenção.

JeriLee ficou calada por um momento, observando-o.

— Meu roteiro voltará amanhã da datilografia — disse ela, mentindo deliberadamente. — Vou mandá-lo para você.

Gross hesitou por um instante, depois tossiu, emba­raçado.

— Estive pensando em seu roteiro. E cheguei à con­clusão de que não é o tipo de coisa que eu possa vender.

— Por que não o lê primeiro, antes de decidir?

— Eu estaria apenas fazendo-a perder tempo.

Ela sorriu, sem a menor satisfação.

— Você é um mentiroso nojento, Marc. E vai mais longe ainda: é um covarde mentiroso. — Ela levantou-se. Eu o avisarei para onde deve mandar as minhas histórias, assim que tiver recebido todas.

JeriLee ficou parada na calçada por um momento, in­decisa, sem saber o que fazer. Viu então o café na esquina. Já passava da hora do rush do almoço. Ela encontrou um reservado vazio e sentou-se.

— Quero apenas café — disse ela, quando a garçonete se aproximou.

Estava tão absorvida em seus pensamentos que nem reparou quando o homem se sentou à sua frente. Quando finalmente o viu, ficou espantada:

— Detetive Millstein!

O policial sorriu timidamente.

— Café — disse ele à garçonete.

— Está me seguindo?

— Não oficialmente.

— Como assim?

— Tinha algum tempo de folga e resolvi verificar como estava se saindo. — Ele não contou que fora informado de que ela poderia estar correndo perigo.

— Não estou indo muito bem — admitiu JeriLee. — Perdi o emprego e acabo de saber que meu agente não de­seja mais representar-me. E ontem, quando cheguei a casa, descobri que o apartamento fora depredado. Quebraram mi­nha máquina de escrever, rasgaram minhas roupas e queima­ram meus originais. E ainda recebi o telefonema de um ho­mem, dizendo-me para sair da cidade.

— Reconheceu a voz dele?

— Nunca a tinha ouvido antes.

— Por que não ligou para a polícia?

— Teria adiantado alguma coisa?

Ele ficou calado por um momento, depois sacudiu a cabeça.

— O que está pensando em fazer agora?

— Não sei ainda. Exatamente cento e trinta e seis dó­lares me separam de um asilo de mendigos. Estou tentando decidir se devo ficar por aqui e investir em um mês de alu­guel de algum quarto, enquanto procuro arrumar algum tra­balho, ou se devo pegar oitenta e sete dólares e comprar uma passagem de avião para voltar a Nova York.

— Pode arrumar emprego lá?

— Não sei — respondeu ela, dando de ombros. — Mas lá, pelo menos, ninguém está querendo impedir-me de trabalhar. O que acha que devo fazer?

— Oficialmente, tenho de dizer-lhe para ficar aqui. Empenhou sua palavra no tribunal em como apareceria no julgamento como testemunha.

— Não está me seguindo oficialmente. Assim, pode di­zer-me o que pensa não oficialmente.

— Irei negar, se algum dia me citar.

— Jamais farei isso.

Ele respirou fundo.

— Eu compraria a passagem de avião.

— Acha realmente que esses homens podem fazer o que estão ameaçando?

— Não sei. Mas é possível, pois eles não são de brin­cadeira. Não gostaria que você corresse o risco. Não há ne­nhuma maneira pela qual possamos protegê-la eficazmente, a não ser trancando-a na cadeia.

— Se eu pelo menos conseguisse arrumar mais alguns dólares, iria sentir-me melhor. Detesto ter que voltar sem dinheiro.

— Posso emprestar-lhe alguns dólares. Cinqüenta, tal­vez até cem. Gostaria que pudesse ser mais; porém, um tira não ganha tão bem assim.

— Não, obrigada. Já fez demais por mim. — JeriLee ficou em silêncio por um momento, antes de acrescentar: — E logo agora que eu pensava que estava tudo começando a dar certo.

— Sinto muito.

— Não foi culpa sua. Se está de folga, seria contra os regulamentos ajudar uma amiga a fazer as malas e depois levá-la ao aeroporto?

— Não.


— E quer ajudar-me?

— Quero.


Millstein observou o carregador pegar as malas dela e colocá-las no carrinho.

— Portão 23, senhora — disse ele, pegando o dólar de gorjeta. — O embarque já começou.

Ela estendeu a mão para Millstein.

— É um homem maravilhoso, Detetive Millstein. Mui­to obrigada por tudo.

— Boa sorte. E ficarei torcendo para que tudo dê certo para você.

— Seremos dois a torcer.

— Se algum dia voltar a Los Angeles, procure-me.

Elia não disse nada.

— Ainda é jovem. Por que não encontra um bom ra­paz e se casa com ele?



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