Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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— E me acomodar e ter alguns filhos?

— Não há nada de errado nisso — disse ele, em tom defensivo.

— Acho que não. Mas não dou para isso.

— Acha melhor a maneira como está vivendo, quase como um animal?

— É um homem estranho para um policial, Detetive Millstein.

— Não posso fazer nada. Sou um típico pai judeu. Tenho uma filha quase da sua idade e não consigo deixar de pensar que a mesma coisa poderia acontecer com ela.

Um sorriso súbito iluminou o rosto de JeriLee e ela beijou-o no rosto.

— Não se preocupe. Isso jamais acontecerá com ela, porque o tem como pai.

Ele pôs as mãos nos braços dela.

— Deixe-me dar-lhe algum dinheiro.

— Posso dar um jeito. Tenho amigos em Nova York e me arrumarei.

— É mesmo?

— É, sim.

Com lágrimas nos olhos, JeriLee encaminhou-se para o portão de embarque. Chegando lá, virou-se e acenou. Ele acenou em resposta e ficou esperando que ela desaparecesse em meio à multidão. Voltou para o carro e ficou sentado ao volante por muito tempo, antes de dar a partida. Sentia-se muito triste, de uma forma que não podia compreender.

O que levava moças como aquela a desperdiçarem suas vidas? Ele ficou pensando no que iria acontecer com ela agora. Tudo indicava que jamais o saberia. Ela desapareceria por completo e ele nunca mais teria notícias. Seria outra per­dedora, num mundo repleto de perdedores.

Mas ele estava enganado. Voltou a ter notícias dela. Foi quase um ano depois, e ele esquecera quase que por com­pleto o nome dela. A carta vinha do Hospital Estadual Creedmore e estava escrita a lápis, numa caligrafia quase infantil:
"Caro Detetive Millstein:
Talvez não se lembre de mim. Sou Jane Randolph, a moça que levou até o aeroporto, no ano passado. Foi muito bondoso comigo e jamais o esqueci. Disse-me que o procurasse, lembra-se? Nunca voltei para a Califórnia, porque tive um colapso nervoso. Há quase seis meses estou inter­nada no hospital e já me sinto perfeitamente capaz de tomar conta de mim mesma. Os médicos estão pensando em me deixar sair, e ajudaria muito se tivesse a bondade de escre­ver-lhes uma carta a meu respeito, dizendo que acha que estou bem e que não mais serei um problema. Mesmo que não escreva a carta, compreenderei e continuarei grata por sua bondade para comigo na última vez em que nos encon­tramos.
Sua amiga,

Jane Randolph.


Millstein pensou na esposa, que morrera quinze anos antes, deixando-o com uma filha de cinco anos. E pensou também na filha, que agora estava cursando o terceiro ano da Universidade do Sul da Califórnia. De certa forma, a moça Jane Randolph fazia-o pensar na filha. Talvez fosse por isso que ela o deixara tão profundamente comovido.

Ele começou a escrever a carta pedida, parando no meio. O que poderia dizer? Nem mesmo a conhecia. Amassou o papel e jogou-o na cesta de lixo. Depois de um longo debate consigo mesmo, pegou o telefone.

— Tenente Collins — disse uma voz, asperamente.

— Dan, haverá problemas se eu tirar uma semana das minhas férias agora? Uma pessoa amiga minha está doente num hospital em Nova York. . .



Capítulo vinte e um

A voz da recepcionista era impessoal:"

— O horário de visitas aos clientes é das cinco às sete horas da tarde, diariamente.

— Desculpe. É que cheguei da Califórnia ontem à noite e não sabia disso.

— Quem desejava visitar?

— Jane Randolph.

— Jane Randolph... — A recepcionista conferiu num papel que estava sobre a mesa. — Se quiser se sentar ali um pouco e esperar, entrarei em contato com o médico dela e veremos o que é possível fazer.

— Obrigado.

Millstein foi sentar-se perto da janela, de onde poderia ver as árvores cobertas de neve. Não conseguia recordar-se da última vez que vira neve.

Ainda estava surpreso de estar realmente ali. Lembrou-se do que a filha lhe dissera, ao anunciar que iria a Nova York. Ela o fitara em silêncio por um longo momento, de­pois o abraçara pelo pescoço, com lágrimas nos olhos.

— Você é maravilhoso, papai, simplesmente maravi­lhoso.

— Provavelmente sou apenas um velho tolo. A moça deve ter mandado cartas desse tipo para todas as pessoas que conhece.

— Não importa, papai — disse Susan. — Ela está gritando por socorro e você está atendendo. Isso é a única coisa que importa.

— Algo na carta dela me comoveu. Ainda me lembro de como ela estava assustada no dia em que a conheci.

— Era bonita?

— Acho que sim. Talvez fosse, por baixo de toda aque­la maquilagem que usava.

— Sentiu-se atraído por ela, papai?

— Como assim?

— Sabe muito bem o que estou querendo dizer, papai.

— Por que tem sempre de ser algo assim? — disse ele, indignado. — Pare de agir como uma criança român­tica, Susan.

Ela riu e tornou a beijá-lo no rosto.

— Não sou eu a pessoa romântica da família, papai, e sim você.

Ele olhou para a camada de neve além da janela. Talvez Susan estivesse certa. Ele estava ali, não é mesmo?

Uma enfermeira de uniforme branco parou diante dele.

— É o visitante de Jane Randolph?

Ele concordou, levantando-se.

— Poderia acompanhar-me, por gentileza? O Dr. Sloan gostaria de falar-lhe.

Um jovem de barba ruiva, de jaleco branco, levantou-se de trás da mesa e apertou a mão dele, firmemente.

— Sou o Dr. Sloan, médico de Jane.

— Al Millstein.

O médico ficou brincando com um cachimbo apagado.

— A recepcionista mencionou que veio da Califórnia.

— Espero poder vê-la — disse Millstein. — Lamento não saber antes do horário de visitas.

— Não há problema. Para dizer a verdade, estou até contente que tenha aparecido agora. De outra forma, eu po­deria não saber de sua presença. Algum parentesco com Jane?

— Não. Sou apenas amigo.

— Ah. . . E conheceu-a por muito tempo?

— Não. Só por alguns dias.

— Não estou entendendo. Conheceram-se por apenas alguns dias. Apesar disso, durante todo o tempo em que ela esteve aqui, foi a única pessoa para quem ela escreveu ou com quem tentou entrar em contato.

— Sabiam da carta?

— Nós a encorajamos a escrever. Pensávamos que, assim, poderíamos descobrir a família dela.

—- Está querendo dizer que ninguém vem visitá-la, nem a família nem amigos?

— Exatamente. Pelo que sabemos, é completamente sozinha no mundo. Até que ela lhe escrevesse, não tínhamos contato com ninguém que Jane conhecesse fora daqui.

— Deus do céu!

— Já que está aqui, suponho que deseje ajudá-la. E a primeira coisa que devo saber é qual a sua relação com ela, exatamente.

— Receio que vá chocá-lo, doutor.

— Engana-se, Sr. Millstein. Na minha profissão, a gen­te aprende a nunca ficar chocado com coisa alguma. Pelo que imagino, foram amantes.

— Lamento dizer que o senhor é que está completa­mente enganado, doutor. — Millstein soltou uma gargalhada. — Eu a vi apenas duas vezes e isso jamais entrou em cogi­tações, para nenhum dos dois. — Ele percebeu a expressão desconcertada do médico e continuou rapidamente: — Sou detetive em Santa Mônica, e o único contato que tive com Jane foi como o policial encarregado de prendê-la.

— Mas se isso é tudo, por que veio até aqui?

— Senti pena dela. Quando a conheci, havia uma grande possibilidade de que a mandassem para a cadeia, por algo que ela não fizera. Não pude ficar de braços cruzados e deixar que isso acontecesse. Ao receber a carta dela, senti-me da mesma maneira. Estava acontecendo alguma coisa acima das suas forças. Eu precisava descobrir o que poderia fazer para ajudar.

O médico ficou calado, enquanto enchia e acendia o cachimbo.

— Ela disse na carta que estavam pensando em dar-lhe alta, doutor.

— Exatamente. Reagiu muito bem ao tratamento e só tem melhorado desde que foi internada aqui. Mas ainda há algumas coisas nela que nos deixam perplexos. É por isso que estamos hesitando.

Que coisas, doutor?

— Antes de chegarmos a isso, acho que deveria saber por que ela está internada aqui.

Millstein assentiu, sem dizer nada.

— Ela foi internada aqui, transferida do Hospital Ge­ral de Elmwood, para ser submetida a um tratamento de desintoxicação. Tinha um problema muito grave de abuso de drogas químicas.

— Era muito grave?

— Ela estava sofrendo as conseqüências, como para­nóia e alucinações, em decorrência do uso combinado de lsd e anfetaminas, além de tranqüilizantes, barbitúricos e maconha. Antes de ser internada, tinha sido presa três ve­zes, duas por prostituição nas ruas e a outra por atacar fisi­camente um homem, que ela alegou estar seguindo-a e importunando-a. O que, evidentemente, não era verdade, mas um sintoma típico de psicose induzida pelas drogas. Além disso, cometeu duas tentativas de suicídio. Da primeira vez, tentou atirar-se na frente de um vagão do metrô, sendo salva no último instante pela pronta ação de um guarda. Da se­gunda, tomou uma dose excessiva de barbitúricos, que foi extraída de seu estômago por uma equipe de primeiros so­corros dos bombeiros. Foi a última prisão que determinou a internação dela aqui. O homem que ela atacou retirou as acusações criminais que apresentara. Mas ela ainda estava sofrendo de alucinações, e a junta médica do Elmwood reco­mendou que viesse para o Creedmore.

Millstein ficou calado.

— Já havia indícios desses problemas quando a conhe­ceu, Sr. Millstein?

— Não sei. Mas não sou médico para poder afirmar. Notei, porém, que ela era extremamente nervosa, e em de­terminado momento mostrou-se irracionalmente apavorada.

— Sabe se ela era viciada em drogas nessa ocasião?

— Não posso dizer.

— Seja como for, acho que conseguimos curar o proble­ma da droga, pelo menos temporariamente. Mas não pode­mos saber o que acontecerá quando ela voltar a viver lá fora.

— Estão pensando então em deixá-la partir?

— Teremos que fazê-lo. Ela será novamente examinada pela junta médica dentro de duas semanas. E tenho certeza de que irá passar pelo exame, sem a menor dificuldade.

— Mas ainda não se sentem satisfeitos, não é mesmo?

— Falando francamente, não. Sinto que ainda não che­gamos ao verdadeiro problema, o que quer que a tenha leva­do a isso. É por essa razão que eu queria entrar em contato com os amigos ou a família dela. Eu me sentiria melhor se soubesse que ela tem algum lugar para ir, pessoas que pos­sam cuidar dela. Gostaria que ela continuasse em trata­mento.

— E se ela não continuar?

— Poderá ter uma recaída. As pressões seriam as mes­mas de antes.

Millstein pensou que fora um tolo, ao imaginar que poderia ajudar em alguma coisa. Deveria ter enviado a carta e esquecido a história. Ele não era Deus. Não poderia im­pedir ninguém de ir para o inferno, à maneira que bem escolhesse.

— Ela alguma vez lhe mencionou o nome JeriLee, Sr. Millstein?

— Não. Quem era ela?

— Era a irmã de Jane. Creio que uma espécie de ídolo para ela. A menina inteligente da família, a que atraía todas as atenções. Jane a amava e a odiava ao mesmo tempo, numa verdadeira rivalidade entre irmãs. Parte do problema de Jane é o fato de ela querer ser JeriLee e não poder. Quando finalmente compreendeu que era isso o que dese­java, já tinha ido longe demais em outra direção e não podia voltar.

— Tentou localizar a irmã dela?

— A única maneira pela qual poderíamos fazê-lo seria através de Jane, e ela disse que JeriLee estava morta. Não temos condições para realizar investigações pessoais, Sr. Millstein.

— Está querendo dizer que não acredita na história dela?

— Não acredito nem desacredito. Simplesmente não sei.

— Entendo — disse Millstein, concordando tristemen­te. — Posso ir vê-la agora?

— Claro. — O médico apertou um botão na mesa de trabalho. — Obrigado por ter vindo e conversado comigo, Sr. Millstein.

— Não há de quê, doutor. Espero ter sido de alguma ajuda.

— Na minha profissão, tudo ajuda — disse o médico, no momento em que a enfermeira entrava na sala. — Po­deria, por favor, levar o Sr. Millstein para a sala de visitas e trazer Jane para vê-lo?

O médico olhou novamente para o detetive.

— Só mais uma coisa, Sr. Millstein. Tente não expres­sar nenhuma surpresa quando vir Jane. Lembre-se de que ela passou por uma terapia de choque, química e elétrica, o que contribui para amortecer as reações e criar uma espécie de amnésia temporária. Os tratamentos já cessaram, mas os efeitos permanecerão por mais alguns dias.

Tomarei cuidado, doutor.

A sala de visitas era pequena mas confortável, com cortinas estampada?, em cores alegres, nas janelas. Ela, hesi­tante, entrou no aposento meio se escondendo atrás da en­fermeira.

— Jane, aqui está aquele gentil Sr. Millstein, que veio visitá-la — disse a enfermeira, num tom profissionalmente jovial.

— Olá, Jane — disse Millstein, forçando um sorriso.

Ela estava magra, muito mais magra do que ele se re­cordava. Os cabelos estavam compridos, mas escovados impecavelmente, os olhos muito grandes no rosto encovado.

— É um prazer vê-la de novo.

Por um momento, ela fitou-o sem o reconhecer. De­pois, uma luz pareceu surgir em seus olhos e ela sorriu, hesitante.

— Detetive Millstein. . .

— Eu mesmo.

— Meu amigo, o Detetive Millstein. Meu amigo. . . — Ela deu um passo na direção dele, as lágrimas aflorando-lhe aos olhos. — Meu amigo, Detetive Millstein...

— Isso mesmo, Jane. Como vai?

Ela segurou a mão dele e apertou-a de encontro ao rosto.

— Veio até aqui para me tirar deste lugar? Da maneira como fez da última vez?

Millstein sentiu um nó na garganta.

— Espero que sim, Jane. Mas essas coisas demoram um pouco, como você sabe.

— Estou melhor agora. Pode ver isso, não é? Não quero mais fazer nenhuma daquelas coisas tolas. Estou com­pletamente curada.

Sei disso, Jane — disse ele, gentilmente. — Você em breve estará fora daqui.

— Espero que sim. — Ela descansou a cabeça no peito dele. — Não gosto daqui. De vez em quando eles machucam a gente.

— Foi para o seu próprio bem. — Ele afagou-lhe os cabelos, lentamente. — Você estava muito doente.

— Eu sei que estava doente. Mas não se curam as pessoas doentes machucando-as ainda mais.

— Está tudo acabado agora, Jane — disse ele, em tom tranqüilizador. — O Dr. Sloan me disse que todos os tra­tamentos terminaram.

— Recebeu minha carta?

— É por isso que estou aqui.

— É o único amigo que tenho. Não havia ninguém mais a quem pudesse escrever.

— E JeriLee?

Uma expressão assustada surgiu nos olhos dela.

— Sabe a respeito dela?

— Sei. O Dr. Sloan me contou. Por que não escreveu para ela?

— Ele não lhe disse que ela está morta?

— E ela está?

Ela assentiu.

— Ela era uma boa moça?

Os olhos dela começaram a brilhar.

— JeriLee era linda. Todos a amavam. Todos queriam cuidar dela. E era tão inteligente que podia fazer qualquer coisa que desejasse. Quando ela estava presente, ninguém mais aparecia. Em determinada ocasião, fomos muito ínti­mas. Mas depois começamos a nos separar. E quando saí para procurá-la, já era tarde demais. Ela já não mais existia.

— Como foi que aconteceu?"

— Aconteceu o quê?

— Como foi que ela morreu?

— Ela cometeu suicídio.

— Como?

Uma expressão torturada apareceu no rosto dela.



— Ela tomou pílulas, caiu na frente de um trem ou saltou de uma ponte — gritou ela, a voz angustiada pelo sofrimento. — Que importa como ela morreu? Só importa é que ela se foi e não posso tê-la de volta!

O policial passou os braços pelos ombros da moça, en­quanto ela soluçava convulsivamente. Podia sentir os ossos frágeis por baixo do vestido de algodão.

— Não quero mais falar sobre ela.

— Está bem. Não falaremos mais sobre ela.

— Tenho que sair daqui — disse a moça. — Se não sair, vou acabar realmente ficando louca. Não sabe como é aqui dentro. Não deixam a gente fazer nada. É como se fôssemos menos que animais.

— Você vai sair em breve.

— Quero voltar ao trabalho. Quando sair daqui, co­nheço um agente que me irá arrumar novamente empregos como dançarina.

Millstein recordou-se da máquina de escrever no apar­tamento dela e das histórias que ela contara que estava escrevendo.

— E não pretende também voltar a escrever?

— Escrever? — perguntou ela, com uma expressão de surpresa nos olhos. — Deve estar confundindo as coisas. Eu não era escritora. JeriLee é que escrevia.




Capítulo vinte e dois

Os policiais freqüentemente passam a vida investigando a vida das outras pessoas da frente para trás, reconstituindo os passos de cada um do túmulo até o berço. Era um hábito que Millstein não podia deixar de ter, depois de tantos anos.

Após a conversa com Jane, ele voltou ao gabinete de Sloan.

— Não esperava vê-lo novamente, Sr. Millstein — disse o médico, realmente surpreso.

— Disse que não tinha condições de realizar uma inves­tigação completa sobre seus pacientes, Dr. Sloan. E disse também que isso poderia ser de grande valia.

— É a minha opinião.

— Tenho uma semana de folga. Faria alguma objeção se eu tentasse ajudar?

— Pelo contrário, Sr. Millstein. Ficaria profundamente agradecido. Praticamente qualquer coisa que conseguir descobrir será mais do que sabemos. Já tem alguma idéia?

— Sim, doutor. Mas preferia esperar para ter certeza, antes de dizer qualquer coisa.

— Está certo. O que posso fazer para ajudá-lo?

-— Eu poderia ver a guia de internação dela?

— Claro que sim.

Millstein leu-a rapidamente. Não havia muitas infor­mações. Ele olhou para o médico.

— Onde eu poderia obter os detalhes que estão por trás disso?

— Teria de ir à fonte. Neste caso, o Hospital Geral de Elmwood. Mais além, há os tribunais e a polícia. Mas as informações terá que obter no Elmwood.

Saindo do hospital, Millstein voltou para seu hotel e deitou-se. A mudança de horário estava finalmente produ­zindo seus efeitos nele. Quando acordou, já era quase a hora do jantar. Ele olhou para o relógio. Eram pouco mais de quatro horas da tarde na Califórnia. A filha já devia estar em casa, de volta da universidade.

— Esteve com ela, papai? — A voz dela era bastante animada ao telefone.

— Estive.

— E como ela está?

Ele resumiu tudo numa única palavra:

— Triste.

Houve silêncio do outro lado da linha.

— Não sei se vai conseguir entender-me, Susan, mas tenho a impressão de que ela se dividiu em duas partes e que uma dessas partes está morta.

— Pobre moça. . . Há alguma coisa que você possa fazer, papai? Ela ficou contente ao vê-lo?

— Não sei se poderei fazer alguma coisa. E sim para a segunda pergunta. Creio que ela ficou contente ao ver-me. Sabe o que ela me disse, Susan? Que eu era o único amigo que ela possuía. E olhe que mal nos conhecemos!

— Não posso imaginar ninguém tão só. Espero que possa fazer alguma coisa por ela, papai. Vai tentar, não vai?

— Vou.

— Sinto-me muito orgulhosa de você, papai.



O hospital estava separado dos outros prédios ao redor. Do outro lado da rua, havia um pequeno parque. Na esquina oposta, havia um imenso restaurante, com um cartaz anun­ciando café da manhã completo por sessenta e cinco ccnts. Ele parou nos degraus de cimento, escutando as vozes das pessoas que entravam e saíam do hospital. A maioria talava espanhol. Não com o suave sotaque mexicano a que ele estava acostumado, mas ainda assim era a língua dos pobres.

Poucos minutos depois, ele estava sentado diante da escrivaninha da Superintendente Poole, num pequeno gabi­nete no nono andar. Para chegar lá, tivera que passar pelo portão de barras de aço que separava o centro de detenção psiquiátrica feminino do resto do andar.

A Sra. Poole era uma mulher negra, de meia-idade, aparência simpática, um sorriso cordial e olhos expressivos e compreensivos. Ela olhou para a cópia da guia de interna­ção de Jane, que o Dr. Sloan dera a ele.

— Jane Randolph? — disse ela, com voz surpresa. — Temos sempre muitas moças por aqui.

Ele assentiu. A Sra. Poole pegou o telefone. Um momento depois, uma jovem policial uniformizada trouxe-lhe uma pasta.

— Acho que é isso o que está procurando, Sr. Milltein.

O nome estava datilografado no canto da pasta. Jane Randolph. Era seguido por um número e uma data. A data era de cinco meses antes.

— Posso fazer algumas anotações, Sra. Poole?

— Claro. Se não compreender algumas das abreviações, terei prazer em explicar.

Millstein abriu a pasta em cima da mesa e tirou do bolso o caderninho de anotações. Quase todas as informa­ções eram sucintas. Registro da prisão, acusação, autoridade responsável pela prisão, determinação. Ele copiou as datas importantes. Somente ao chegar ao final da página é que ficou espantado com os hieróglifos.

— Sra. Poole, por favor — disse ele, mostrando-lhe as abreviações.

— Esse é o nosso relatório sobre o estado dela e o tratamento que lhe demos aqui. Diz que foi internada num estado violento e de extrema agitação, aparentemente cau­sado por abuso de drogas, induzindo a alucinações. Uma má viagem, em termos mais chãos. Ela foi mantida sob freios químicos e físicos durante dois dias, o prazo em que ficou aqui, por causa da recorrência das alucinações e pela possi­bilidade de causar danos a si mesma e aos outros. Ao final do segundo dia, fomos informados de que as acusações cri­minais contra ela haviam sido retiradas. Como não tínhamos mais jurisdição sobre ela, nossos médicos solicitaram ao tri­bunal uma guia de transferência. Na manhã seguinte, foi transferida para o Creedmore, para um tratamento mais amplo.

— Entendo. Há mais alguma coisa que possa me dizer a respeito dela?

— Lamento muito, Sr. Millstein. Infelizmente, é ape­nas uma entre muitas moças que passam por aqui. E não permaneceu conosco por tempo suficiente para que pudés­semos fazer uma avaliação.

De qualquer forma, muito obrigado pela sua ajuda, Sra. Poole.

— Lamento não ter podido dar-lhe mais informações — disse ela, estendendo-lhe a mão.

Millstein estudou suas anotações no táxi, a caminho do centro. Talvez pudesse descobrir mais alguma coisa na delegacia de Midtown North. Deveria haver ali pelo menos um policial que se lembrasse dela. Todas as suas prisões ha­viam sido feitas por aquela delegacia.

— Volte às onze horas da noite e fale com o Sargen­to Riordan — disse-lhe o sargento de plantão. — Ele é que é o chefe da nossa turma de prostituição. Poderá con­tar tudo a respeito dela. Conhece todas as vigaristas da área da Broadway.

Millstein voltou à delegacia pouco depois das onze horas daquela noite. Foi encontrar o Sargento Riordan, um homem alto, beirando os quarenta anos, sentado no corredor diante das celas de detenção das mulheres, com uma xícara de papelão, contendo café, nas mãos.

— O que o traz aqui? — perguntou ele, depois que Millstein se identificou e disse que estava procurando in­formações sobre Jane Randolph. —- Ela por acaso matou alguém?

— Por que pergunta isso? Lembra-se dela?

— Mas claro que me lembro. Cada vez que ela apa­recia aqui, só faltava provocar um motim. Estava sempre metida em alguma confusão. Não era muito boa da bola. Fiquei cansado de encrenca e disse a meus rapazes que olhas­sem para o outro lado, se por acaso cruzassem com ela. Já te­mos problemas suficientes aqui para aturar malucos como ela.

— Alguma vez Jane falou de si mesma ou de sua família?

— E quem conseguia falar com ela? Eu já lhe disse que aquela moça era maluca, maluca. Nada do que dizia tinha sentido. Havia sempre alguém atrás dela querendo matá-la. Da última vez em que a tivemos aqui, ela havia atacado um pobre turista, quebrando-lhe a máquina fotográfica. E gri­tava que ele era um pistoleiro de Los Angeles e viera a Nova York para liquidá-la. O pobre coitado era de Peoria e ficou apavorado. Deve ter embarcado no primeiro ônibus para casa. Nunca mais apareceu para apresentar queixa.



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