Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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— E ela disse alguma coisa nas outras ocasiões?

— Da primeira vez em que a prendemos, ela foi tra­zida por um dos meus rapazes, disfarçado em turista. Ela o viu na East 54th Street, entre a Madison e a Fifth Avenue Perguntou se ele não gostaria de uma massagem, no quarto de hotel dele, por vinte dólares. Ele continuou a andar. Não há lei nenhuma que proíba o oferecimento de massagens. Ela o seguiu. E disse que, por mais dez dólares, podia fa­zê-lo subir pelas paredes de prazer. Falou que realmente não sabia fazer massagens muito bem, mas que tinha outras es­pecialidades. Ele achou graça e nem ia prendê-la, porque ela não lhe pareceu uma profissional. Apenas uma garota na fossa. Brincou com ela: por que não esquecemos então a massagem e fazemos só o resto, pelos dez dólares? Ele se­guiu em frente e ela foi atrás gritando tudo que é palavrão e chutando-lhe o traseiro. Assim, ele não teve outro jeito senão prendê-la. Fizemos sua ficha e a levamos para a cela onde deixamos todas as prostitutas, até podermos mandá-las para a chefatura. Ela viu a cela e ficou possessa. E enquanto a empurrávamos lá para dentro, ela gritava desesperadamente que não queria ser metida ali dentro como um macaco numa jaula. Um minuto depois, reinava a maior confusão na cela. Conseguimos finalmente arrancá-la de baixo de meia dúzia das garotas mais duronas que você já viu. Demos uma ducha fria nela, para acalmá-la, e a metemos na solitária. E fica­mos contentes quando conseguimos nos livrar dela, mandando-a para a chefatura, no camburão da meia-noite.

— O que aconteceu com Jane nessa ocasião?

— Não sei. Ouvi dizer que saiu sob fiança, mas não tenho certeza. Depois que elas vão para a chefatura, não sabemos de mais nada.

— É lá que funciona o tribunal noturno?

— Exatamente.

— O que aconteceu da vez seguinte em que ela es­teve aqui?

— Até que foi engraçado. Nós a pegamos num salão de massagens, com três outras garotas e sete homens.

— Pensei que não fizessem nada contra os salões de massagens.

— E não fazemos. Mas esse era diferente. Estavam fazendo um filme pornográfico. Com os refletores acesos, ficou muito quente lá dentro e eles abriram as janelas. Um dos vizinhos nos chamou.

— Como ela estava na ocasião?

— Fazendo uma viagem. Estava meio doida. Gritava para que a polícia toda viesse para a cama com ela, enquanto se divertia com um vibrador.

— E o que aconteceu com ela nessa ocasião?

— Apareceu um rábula esperto e conseguiu livrar todo mundo, alegando uma impropriedade qualquer no mandado de busca. — Riordan sacudiu a cabeça. — Estou neste trabalho há seis anos e sei que de nada adianta. Ninguém aprecia o que fazemos e só querem saber quantos rabos estamos pegando.

— Eu estava pensando justamente nisso. Quantos?

— Vocês, tiras de cidades pequenas, são todos iguais — disse Riordan, soltando uma risada. — Tenho arrumado tantos quantos quero. E mesmo assim é um trabalho nojento.

— É melhor do que fazer a ronda — disse Millstein, estendendo-lhe a mão. — Obrigado, sargento.

— Às suas ordens. Para onde vai agora? Ao tribunal noturno?

Millstein confirmou. Riordan escreveu um nome num pedaço de papel.

— Meu cunhado é o escrevente do tribunal noturno. Jimmy Loughran. Diga-lhe que falou comigo. Ele dirá a você tudo o que quiser saber.



Capítulo vinte e três

— À direita, apartamento 17-B — informou o ascen­sorista.

Millstein foi até o final do corredor de tapete verde e apertou a campainha. Ouviu o barulho suave de um carrilhão lá dentro.

A porta foi aberta por uma jovem loura e esguia.

— A Sra. Lafayette, por favor. Meu nome é Millstein.

— Ela está à sua espera. Entre.

Ele seguiu a jovem pelo elegante apartamento, todo pintado de branco.

— Quer que eu lhe prepare um drinque?

— Não, obrigado.

— Direi à Sra. Lafayette que já chegou.

Ele só tinha visto apartamento assim no cinema. O am­plo terraço além das janelas, com plantas em vasos e árvores-anãs, era como um jardim em miniatura plantado no céu. Havia duas fotografias em molduras prateadas por cima do piano de cauda branco. Uma era o rosto de um jovem negro bem-apessoado, os lábios entreabertos num sorriso caloroso. Havia algo de familiar nele. Embora o detetive não conse­guisse identificá-lo, sabia que já o vira em algum lugar. A outra fotografia era de um garoto em torno dos dez anos de idade, de pé, ao lado de uma mulher de cabelos grisalhos, diante de uma pequena casa de madeira toda branca.

Ele não ouviu os passos no macio tapete branco.

— Sr. Millstein. . .

Ele não deixou que a surpresa transparecesse em seu rosto, quando se virou e descobriu que ela era negra. Era uma mulher alta e ele imediatamente sentiu que possuía uma força extraordinária. Súbito, o nome despertou uma cam­painha em sua memória. Ele sabia agora quem era o jovem sorridente da fotografia.

— Sra. Lafayette. . . — Ele indicou a fotografia. — Seu marido?

— Sim. E na outra foto estão meu filho e minha mãe.

— Minha filha tem alguns discos do seu marido. Até eu gosto da maneira como ele canta. Não me deixa com a cabeça estourando, como a maioria dos outros.

— Fred canta muito bem. Mas tenho certeza de que não é por isso que queria falar-me. Disse que tinha notícias de Jane Randolph.

Aquela era mulher de ir direto ao assunto.

— É amigo de Jane? — perguntou ela.

Ele assentiu. Vendo a expressão de dúvida no rosto dela, acrescentou:

— Não acredita?

— É difícil para mim acreditar que um policial possa ser amigo dela. Especialmente um policial que veio de tão longe, da Califórnia, para tentar impingir-lhe alguma coisa.

Millstein tirou a carta do bolso e a entregou à mulher, sem dizer nada. Ela leu-a rapidamente.

— O que aconteceu?

— É exatamente o que estou tentando descobrir — disse Millstein.

Rapidamente, ele contou o que sabia, inclusive como descobrira o nome dela, através do escrevente do tribunal noturno, como a pessoa que pagara a fiança de Jane Ran­dolph, da primeira vez em que ela fora presa. Havia uma estranha suavidade nos olhos da mulher.

— E o que vai acontecer com ela agora?

— Não sei. O médico disse que ela será novamente examinada por uma junta especializada dentro de duas se­manas. Eles deverão dar-lhe alta. Mas ele está preocupado com o que Jane poderá fazer, depois que sair.

— Pobre JeriLee. . .

— JeriLee?

— É o verdadeiro nome dela. Não sabia?

— Ela só mencionou uma única JeriLee, dizendo que era sua irmã.

— Ela nunca teve irmã. O nome dela é JeriLee Randall. Fui eu que dei a ela o nome de Jane Randolph, quando começou a dançar. JeriLee não queria que as pessoas do seu meio soubessem o que estava, fazendo. Receava que, se se espalhasse a notícia de que era dançarina topless, ninguém mais fosse levá-la a sério como escritora ou atriz.

— E ela era boa?

— Não me sinto em condições de julgar. Mas sei que ganhou um Tony como atriz na Broadway e teve uma peça produzida, embora nunca chegasse à Broadway. Em vista disso, ela devia ter algum talento. Estava sempre escreven­do. Por isso é que trabalhava como dançarina. Ficava com os dias livres para escrever.

— Ela alguma vez lhe falou a respeito de sua família?

— Ela tem mãe. Mas as duas há muito que estão briga­das. A mãe nunca acreditou nas mesmas coisas que JeriLee.

— Sabe o endereço da mãe dela?

— Mora em alguma cidadezinha aqui por perto. Meu marido sabe. Posso perguntar a ele.

— Eu lhe agradeceria.

— Saberei o endereço esta noite. Neste momento, meu marido está viajando, com um compromisso em Miami.

— Alguma vez esteve com Jane depois que pagou a fiança dela?

— Levei-a para almoçar no mesmo dia. Ofereci-lhe ajuda, mas ela recusou. Disse que iria pagar-me a fiança, assim que tivesse dinheiro. Eu disse que ela estava bancando a tola agindo daquele jeito, que eu lhe daria o dinheiro ne­cessário para que pudesse dedicar-se exclusivamente a escre­ver, sem nenhuma condição. Mas ela recusou, categorica­mente.

— Por que acha que ela agiu assim?

— Porque tínhamos sido amantes. E talvez ela não acreditasse em mim quando eu disse que não haveria quais­quer condições.

— Ela era lésbica?

— Não. Eu é que era. Teria sido muito mais fácil para nós, se ela também fosse. JeriLee era bissexual. Levei muito tempo para compreender que a reação dela ao nosso sexo era puramente física. Para mim, nunca foi apenas isso. Eu a amava de verdade.

— Ainda estaria disposta a ajudar, se ela aceitasse?

— Claro que estaria. Mas ela não vai aceitar.

— Por que tem tanta certeza assim?

— Porque a conheço. Ela tem algumas noções absur­das sobre liberdade e independência. Não aceita nada de ninguém, seja homem ou mulher. Deixou um marido rico justamente por isso. Quer fazer tudo sozinha e ganhar o reconhecimento por isso.

Millstein ficou calado.

— Ela sabia onde eu estava, Sr. Millstein. Um simples telefonema e eu teria ido correndo. Mas preferiu passar por tudo isso, ao invés de telefonar-me.

— Ela já lhe telefonou uma vez antes. Talvez volte a fazê-lo.

— Ela já me procurou duas vezes antes — disse ela, com um olhar distante nos olhos pretos e grandes. — Não haverá uma terceira.

Pela primeira vez desde que chegara a Nova York, Millstein estava se sentindo melhor. Talvez fosse por estar na estrada, num carro alugado. A auto-estrada de Long Island era igual às da Califórnia, diferenciando-se apenas nos campos brancos de neve que se estendiam dos dois lados. Ele saiu da auto-estrada ao ver a placa indicando a entrada para Port Clare.

Parou diante da casa quinze minutos depois de ter saído da auto-estrada. Era uma casa de aparência confortável, numa rua típica de classe média abastada. A única coisa que dife­renciava a casa da família Randall das demais era o fato de as venezianas estarem fechadas e de o caminho da garagem estar coberto de neve. A casa parecia vazia.

Ele saltou do carro e caminhou por cima da neve até a porta. Apertou a campainha e ouviu o barulho ecoando pela casa. Mas ninguém veio atender. Virou-se ao ouvir o barulho de um carro na rua.

Um carro da polícia parou atrás do dele. Um jovem patrulheiro meteu a cabeça pela janela.

— O que está querendo aí?

— Estou procurando pela Sra. Randall.

— Ela não está em casa.

— Eu já tinha percebido. — Millstein começou a des­cer por cima da neve de volta à calçada. — Tem alguma idéia de onde eu poderia encontrá-la?

— Não.

— Vocês chegaram aqui dois minutos depois de mim. Devem ter um excelente sistema de comunicações nesta ci­dade.



— É uma cidade pequena. Um dos vizinhos nos avisou no momento em que parou o carro.

— Talvez possa ajudar-me. — Millstein tirou a carteira do bolso e mostrou seu emblema ao patrulheiro.

— Sim, senhor — disse o rapaz, respeitosamente.

— É muito importante que eu localize a Sra. Randall.

— Receio que esteja sem sorte, senhor. Ela se casou novamente há dois meses e partiu com o marido para um desses cruzeiros ao redor do mundo. Não deverão voltar antes do verão.

— Essa não!

— Posso ajudar em alguma coisa, senhor?

— Não, obrigado.

Millstein fechou seu caderninho de anotações e tornou a guardá-lo no bolso.

— Eis aí toda a história, Dr. Sloan.

— Nunca acreditei na história que ela contou a res­peito da irmã.

— Eu também não.

— Ela não estava tentando matar-se. O que ela realmente queria era matar seus sonhos. Começou a sentir que o talento que porventura possuísse tornava impossível con­viver no mesmo mundo que as outras pessoas. A sociedade tentou forçá-la a se ajustar ao molde e ela não agüentou. A única coisa que podia fazer era matar JeriLee. Depois, não haveria mais problemas.

— Tem toda a razão, doutor. E o que vai acontecer agora?

— Ela terá alta. Não temos motivo algum para man­tê-la aqui por mais tempo. Não representa perigo para nin­guém. Livrou-se do vício das drogas, que foi o motivo de sua internação. Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Não estamos preparados para dar a ela o que está precisando neste momento.

— E se ela tiver uma recaída?

— Nesse caso, voltará para cá.

— Mas ela poderá se matar dessa vez!

— É possível. Mas como eu disse antes, não há mais nada que possamos fazer. É uma pena que não haja ninguém que goste dela o bastante para ficar vigiando-a. Ela precisa de amigos mais do que de qualquer outra coisa. Mas isolou-se completamente das outras pessoas. — Ficou em silêncio, olhando para o detetive. — Exceto do senhor, Detetive Millstein.

O policial sentiu que corava. E perguntou em tom qua­se beligerante:

— E que espera que eu faça? Mal conheço a moça.

— Isso foi na semana passada. Agora, provavelmente sabe mais a respeito dela do que ela própria.

— Continuo sem saber o que posso fazer, doutor.

— Pode representar a diferença entre a vida e a morte para ela.

Millstein ficou calado.

— Não vai demorar muito. Precisará apenas propor­cionar-lhe uma base segura, onde ela possa se encontrar novamente.

— Mas isso é uma loucura!

— Não há nada de loucura. Tem que haver algo entre vocês dois. Ela lhe escreveu a carta. E você veio até aqui. Não precisava ter vindo. Poderia ter enviado uma carta ou feito qualquer outra coisa. Neste momento, provavelmente é a única pessoa no mundo em quem ela confia.

— Doutor, estou começando a pensar que um de nós dois deveria ser internado como louco. — Fez uma pausa, sacudindo a cabeça. — Ou talvez ambos.

Capítulo vinte e quatro

Millstein entrou em casa, depois do seu turno de tra­balho de quatro horas. Parou no pequeno vestíbulo, pro­curando ouvir o ruído agora familiar da máquina de escrever. Como nada escutasse, foi para o living, onde a filha estava lendo um livro.

— Onde está JeriLee, Susan?

— Foi à analista.

— Pensei que as consultas fossem às terças e quintas — disse ele, espantado.

— Hoje é um encontro especial.

— Alguma coisa errada?

— Não, papai. Alguma coisa boa. O advogado de Nova York, sugerido pela analista, informou que tem um editor interessado no livro. Eles vão mandar as passagens, para ela ir a Nova York.

— Esses advogados de Nova York são terríveis. Vou fazer algumas indagações sobre ele. Sabe como se chama?

— Paul Gitlin. — Susan riu. — E pare de bancar o superprotetor, papai. Ela me disse que o advogado só repre­senta gente importante, como Irving Wallace e Gay Talese.

— Não estou sendo superprotetor. Afinal, ela saiu do hospital há apenas seis meses.

— E olhe só o que ela já fez nesses seis meses. Um mês depois de chegar aqui, arrumou um emprego noturno como telefonista de um serviço de recados, para poder escre­ver e fazer análise, durante o dia. Já escreveu dois roteiros para o cinema, um dos quais a Universal comprou. E agora está quase terminando uma novela. Tem que dar o crédito que ela merece, papai.

— Não estou querendo diminuí-la. Apenas não quero que ela tenha um esgotamento.

— Ela está muito bem, papai. Não é mais a mesma mulher que você trouxe para casa. Está linda, papai. Por dentro e por fora.

— Gosta realmente dela?

Susan assentiu.

— Fico contente em saber, Susan. Estava preocupado com sua reação.

— Tenho que confessar que, no princípio, fiquei um pouco ciumenta. Mas depois senti como ela precisava de nós. Assim como uma criança necessitando de aprovação. E fui vendo-a crescer, diante de meus olhos. Observei a mu­lher emergir. E fiquei feliz. Foi como um desses filmes em que se vê um botão de rosa desabrochar inteiramente, em questão de segundos. Ela é uma mulher muito especial, papai. E você é um homem muito especial por ter percebido isso nela.

— Eu bem que gostaria de tomar um drinque.

— Vou preparar um para você.

Um momento depois, Susan estava de volta com um copo de uísque e gelo.

— Ah, como isso ajuda. . .

— Teve um dia difícil, papai?

— Como sempre. Só que comprido.

Ela observou-o afundar-se em sua poltrona predileta. E disse suavemente:

— Sabe que ela vai nos deixar em breve, não é, papai?

Ele assentiu, sem dizer nada.

Fez o que disse que ia fazer, papai. Devolveu-a a ela mesma. JeriLee agora está forte. Aprendeu a andar. E está querendo voar. Pode-se amparar uma criança que está andando, mas voar é algo que cada pessoa deve fazer sozi­nha. Terá que se acostumar com isso, papai. Algum dia, chegará a minha vez.

— Sei disso, Susan — murmurou ele, a voz subita­mente rouca.

— Você a ama, não é, papai?

— Acho que sim.

— Estranho. . . Senti isso no momento em que me disse que ia a Nova York para vê-la. Deve saber que ela também o ama, papai. Mas não da mesma maneira.

— Eu sei.

— Lamento muito, papai. — Havia lágrimas se for­mando nos cantos dos olhos de Susan. — Não sei se isso pode ajudar, mas há uma coisa que eu acho que você pre­cisa compreender. JeriLee é diferente de nós. É uma pessoa especial, à parte. Nunca será capaz de amar da mesma ma­neira que nós amamos. Ela está com os olhos fixados em outra estrela. Procura tudo dentro de si mesma, enquanto nós procuramos nas outras pessoas.

Susan ajoelhou-se no chão, diante da poltrona. Ele comprimiu os lábios contra a testa dela.

— O que a faz ser tão esperta assim, minha filha?

— Não sou esperta, papai. Talvez seja apenas porque sou mulher.

Os raios de sol se filtravam pelas cortinas de bambu e ressaltavam o amarelo, laranja e castanho do consultório. As duas mulheres estavam sentadas em poltronas confortá­veis, ao lado da janela, com uma mesinha triangular entre elas. A poltrona da médica tinha uma prancheta encaixada sobre o braço direito, tornando-a parecida com as cadeiras de colégio.

— Está emocionada? — perguntou a Dra. Martinez.

— Estou. E muito. Mas também estou com medo.

A analista ficou calada.

— Não me saí muito bem da última vez em que voltei a Nova York — disse JeriLee.

— As circunstâncias eram diferentes.

— Talvez. E eu? Será que era diferente também?

— Sim e não. O que precisa lembrar é que estava vi­vendo então sob diferentes pressões. Tais pressões não exis­tem mais. Nesse particular, você está diferente.

— Mas ainda sou eu.

— Agora, você é mais você do que era na ocasião. E isso é bom. À medida em que aprende a aceitar a si mesma, vai se tornando mais forte.

— Telefonei para minha mãe. Ela quer que eu fique na casa dela, enquanto estou trabalhando no livro. Quer me apresentar a seu novo marido. Eu ainda não o conheço.

— Como se sente com relação a isso?

-— Sabe como me sinto com relação a minha mãe. Ela é ótima, em pequenas doses. Mas depois de algum tempo juntas, começamos a nos atracar como cão e gato.

— E acha que será novamente assim, desta vez?

— Não sei. Ela geralmente se comporta direito, se eu não estiver lhe causando nenhum problema.

— E possível que as duas estejam agora um pouco mais amadurecidas. Talvez ela tenha aprendido também, assim como você.

— Acha então que devo ficar na casa dela?

— Acho que deve pensar nessa possibilidade. Chegar a um acordo com sua mãe pode ser muito importante para você.

— Pensarei no assunto.

— Quanto tempo acha que passará em Nova York, terminando o livro?

— Pelo menos três meses. Talvez mais. Esse é outro problema que está me perturbando. Não a terei por perto, para conversar.

— Posso encaminhá-la a dois bons analistas de lá.

— Homens?

— Isso faz alguma diferença?

— Sei que não deveria, mas faz. Ambos os médicos que consultei, antes de vir procurá-la, pareceram tratar-me como a uma criança que precisava ser persuadida a tornar-se ajuizada e bem-comportada. Quando digo aos homens que não quero me casar nem ter filhos, que quero apenas ser capaz de tomar conta de mim mesma, sem depender de ninguém, eles simplesmente não compreendem. Não quero acomodar-me numa existência de segundo plano. Quero to­mar as minhas próprias decisões.

— Não há nada de errado nisso. Teoricamente, todos nós temos esse direito.

— Teoricamente. Mas sabe que não é isso o que acon­tece. E eu também sei. Um dos médicos disse-me, em tom de brincadeira, que uma boa cama poderia resolver os meus problemas. Só que tive a impressão de que, no fundo, ele não estava brincando. Se eu lhe tivesse dado o menor enco­rajamento, creio que ele teria oferecido os seus préstimos. Outro tentou convencer-me de que as coisas a que ele cha­mava de virtudes antiquadas, como o casamento, um lar, uma família, eram as melhores que existiam. Segundo ele, esse é o único propósito que a mulher deve ter na vida.

— Vai descobrir muitas mulheres que concordam com isso.

— Eu sei. Mas isso é problema delas. Elas que façam suas opções. Eu quero fazer as minhas. Não creio ter dito nada que já não tivesse ouvido antes.

— Tenho ouvido coisas parecidas.

— Quero agir assim até nos negócios. Quase vendi também a minha segunda história para um filme, até me encontrar com o produtor. De alguma forma, as coisas se misturaram na cabeça dele e ele ficou pensando que o preço da compra incluía também a mim. Quando eu lhe disse que isso não acontecia, ele desistiu de comprar minha história. Isso jamais teria acontecido, se fosse um homem que a tives­se escrito.

— Conheço uma mulher de quem você iria gostar. Tudo depende do quanto ela esteja ocupada no momento. É uma ativista feminina e tenho quase certeza de que tam­bém vai gostar de você.

— Eu gostaria de conhecê-la, se for possível.

— Assim que tiver marcado a data de sua viagem, avise-me, para ver se eu promovo o encontro antes.

— Obrigada. Por falar em viagem, há outra coisa sobre a qual eu gostaria de lhe falar.

— E o que é?

— É o problema de Al, o Detetive Millstein. Devo muito a ele. Muito mais do que apenas dinheiro. Não sei como dizer a ele que vou embora.

-— Não acha que ele já sabe?

— Creio que ele sabia que algum dia eu iria embora. Mas tenho a impressão de que ele nunca imaginou que pudesse ser tão cedo assim. Não quero magoá-lo.

— Ele está apaixonado por você?

— Está, mas nunca me disse nada. Nunca fez o menor gesto para se aproximar de mim.

— E o que sente em relação a ele?

— Muita gratidão. E gosto imensamente dele. Como se fosse meu pai ou irmão.

— E ele sabe como você se sente?

— Nunca falamos sobre isso.

-— Pois diga a ele. Tenho certeza de que ele vai pre­ferir saber dos seus verdadeiros sentimentos a ouvir evasivas polidas. Dessa maneira, ele pelo menos saberá que você gosta dele.

Millstein ouviu o barulho do carro de JeriLee na en­trada da garagem e depois os seus passos aproximando-se da porta da rua, ao mesmo tempo em que ela procurava a chave na bolsa. Ele levantou os olhos quando a porta se abriu.

Os cabelos, descoloridos pelo sol, caíam pelos ombros dela. JeriLee sorriu, o rosto ligeiramente corado, por baixo do bronzeado.

— Chegou cedo hoje — disse ela.

— Peguei o turno que termina às quatro horas. — Millstein sentiu o excitamento dela. Mal podia acreditar que era a mesma moça pálida e assustada que trouxera de Nova York. — Já soube das boas notícias, JeriLee.

— Não é maravilhoso?

— Fico feliz por você.

— Não consigo acreditar. É como um sonho que se transforma em realidade.

— Pode acreditar. Você trabalhou arduamente para isso. E merece.

— Foi você quem tornou isso possível, Al. Nada teria acontecido, se não fosse você.

— Teria acontecido de qualquer maneira. Apenas po­deria demorar mais um pouco.

— Não teria, não. Eu estava mergulhando direto ao esgoto, e você sabe disso.

— Nunca conseguirá fazer com que eu acredite nisso. Se algum dia tivesse acreditado, não a teria trazido comigo. Há algo de especial em você. Eu o percebi logo na primeira vez que nos encontramos.



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