Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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— Jamais poderei compreender como você pôde ver alguma coisa por baixo daquela camada com que eu me cobria.

— Quando está pensando em partir?

— Ainda não sei. Eles disseram que avisariam na pró­xima semana quando necessitariam da minha presença em Nova York. Talvez eu fique na casa de minha mãe.

Millstein ficou calado.

— Conversei com a analista sobre isso. Ela acha que pode ser bom para mim, se eu conseguir controlar-me.

— E o que pretende fazer depois que terminar o livro?

— Não sei.

— Voltaria para Los Angeles?

— Provavelmente. Adoro viver na Califórnia. Além do mais, o meu lugar é aqui, com o cinema e a televisão, trabalho que não acaba mais.

— Terá sempre um lugar nesta casa para você, na hora em que quiser — disse ele, com a voz tornando-se subita­mente rouca.

JeriLee ficou de joelhos diante de Millstein pondo as mãos sobre as dele.

— Já fez o suficiente, Al. Não posso exigir mais nada de você.

— Não está arrancando nenhum sacrifício de nós. Afi­nal, eu e Susan a amamos.

— E eu também amo vocês dois. São como uma famí­lia para mim. Muito mais até do que uma família. Provavel­mente a única outra pessoa capaz de fazer o que você fez, entre todas as que conheci até hoje, foi meu pai. Você possui a mesma bondade que ele tinha, Al. Por mais confusa que eu estivesse naquela ocasião, percebi isso. Talvez tenha sido por esse motivo que lhe escrevi.

Millstein compreendeu o que ela estava lhe dizendo. E embora sentisse um desapontamento profundo, havia tam­bém a satisfação imensa de saber que JeriLee gostava dele o bastante para expressar-lhe seus sentimentos. Ele inclinou-se para a frente e beijou-a no rosto.

— Vamos sentir saudades suas, JeriLee.

Ela passou o braço por trás do pescoço dele e encostou seu rosto no dele.

— Não lhe darei essa oportunidade, Al. Estaremos sempre juntos.

Ele ficou imóvel por um momento, depois recuou, sorrindo.

— Ei, será que não vai me dar uma chance de ler esse livro sobre o qual estão fazendo tanta confusão?

— Claro que sim — disse ela, rindo. — Pensei que nunca ia pedir. — Um momento depois, JeriLee colocou a pasta com o original no colo dele. — Prometa que não vai começar a ler enquanto eu não for me deitar. Não supor­taria observá-lo lendo meu livro.

— Está certo.

Mas ele não estava realmente entendendo por que ela queria que ele esperasse. E só descobriu isso no momento em que abriu a pasta e leu: "As boas meninas vão para o infer­no, um romance de JeriLee Randall".

Por baixo, havia um parágrafo curto:

"Este livro é dedicado a Al Millstein, com gratidão e afeto, por ser o homem mais maravilhoso que conheço".

Os olhos dele ficaram marejados de lágrimas e vários minutos se passaram antes que virasse a primeira página:
"Nasci com dois furos e sem bolas. Era uma menina. Fadada a sair do útero da minha mãe diretamente para a escravidão do meu sexo. Não gostei disso nem naquele ins­tante. E comecei a urinar em cima do médico no momento em que ele dava palmadas no meu traseiro".


Capítulo vinte e cinco

Angela abriu a porta do banheiro. JeriLee ainda estava debaixo do chuveiro.

— Seu agente está ao telefone, JeriLee. Diz que pre­cisa falar com você imediatamente, que é muito importante.

— Já vou atender.

JeriLee saiu logo em seguida do boxe e enrolou-se numa toalha de banho. Pegou o fone:

— O que há?

— Pode ir até o estúdio agora mesmo? Tom Castel quer falar com você,

— E o nosso encontro? Devo estar em seu escritório dentro de uma hora.

— Posso esperar. Creio que essa é a maior oportuni­dade que já tivemos. Estou com ele no outro telefone, para informar a hora em que você poderá ir ao estúdio.

— Uma hora está bom?

— Marque quinze para a uma. Parece mais autêntico.

— Está certo. — JeriLee não pôde deixar de rir. Um agente era um agente. Capaz até de negociar o tempo com uma cliente.

O médico acertara em cheio. Dissera que ela estaria se sentindo muito melhor hoje, e era o que de fato acontecia. Além de uma sensação de peso na região púbica, não havia a menor dor.

De volta ao banheiro, JeriLee acabou de se enxugar, depois tirou a touca de banho da cabeça- e sacudiu os cabelos. Precisaria de apenas trinta segundos no secador. E usaria bem pouca maquilagem, apenas uma máscara ligeira e um batom claro. Todos sabiam o que ela acabara de passar. Angela entrou no quarto quando ela estava se vestindo.

— O que ele queria?

— Tenho que estar no gabinete de Castel dentro de vinte minutos.

-— Quer que a leve de carro até lá?

— Acho que posso guiar.

— Tem certeza? Não precisa ficar preocupada com a possibilidade de estar me atrapalhando. Não tenho mais nada para fazer hoje.

— Está certo, Angela.

— Como está se sentindo, boneca? — perguntou Tom Castel, beijando-a no rosto.

— Otimamente.

— Não foi mole o que aconteceu. George nunca de­veria ter posto você numa situação dessas.

— A culpa foi minha — disse JeriLee, encaminhando-se para uma cadeira diante da escrivaninha.

— Aí não! — disse ele, segurando-a pelo braço e le­vando-a até um sofá encostado na parede. — Ficará mais confortável aqui. Quer um café?

Ela assentiu, e Castel apertou um botão do lado da mesa. Um momento depois, a secretária dele entrou na sala trazendo duas xícaras de café.

— Meu agente disse que viesse o mais depressa pos­sível — falou JeriLee. — E acrescentou que era uma entre­vista muito importante.

— Até que ponto deseja terrivelmente que o filme seja feito, JeriLee?

Ela não pôde resistir.

— Não desejo que seja feito terrivelmente, mas sim que seja bem feito.

— Não faça jogo de palavras para cima de mim, Jeri­Lee. Sei perfeitamente que você é uma escritora. Quer ou não que o filme seja feito?

— Quero.


— Está certo — disse ele, muito sério. — Então vou lhe dizer o que é preciso fazer para que o filme seja produzi­do. O estúdio irá me dar autorização para produzir o filme, se George aceitar o papel. Tem que fazer George aceitar.

— E por que isso tem de ser incumbência minha? Você é o produtor. Não é trabalho seu? E além disso, ele não tem um contrato com o estúdio?

— Tudo isso está certo. Mas ele se reserva o direito de aprovar os filmes que vai fazer, e eu não consigo con­vencê-lo. Creio, no entanto, que George irá atendê-la. Afinal de contas, ele a deixou grávida, e você providenciou tudo sozinha, sem criar escândalo. Acho que ele lhe deve alguma coisa.

— E se ele não quiser?

— Você perde cinqüenta mil, e cinco por cento da renda.

— E o que você perde?

— Nada. Tenho um contrato. Se eu não fizer este filme, farei um outro qualquer. Só que eu gostaria de fazer este. Sinto que todos poderemos ganhar bom dinheiro. Além disso, quero trabalhar com você. Acho que poderemos criar juntos um filme sensacional. Adorei o livro.

— Obrigada.

— Ainda não me conhece, JeriLee. Sou dinamite quan­do entro em ação. Trabalho dia e noite. Tenho uma casa na praia onde ninguém nos poderá incomodar.

JeriLee assentiu. Já ouvira falar daquela casa na praia. A única pessoa que acreditava que ele ia até lá trabalhar era sua esposa.

— Está certo. Verei o que posso fazer.

— Ótimo. Já chamei George para almoçar, no restau­rante aqui do estúdio. Disse a ele que você também ia. — Ele sorriu e acrescentou: — Sei que pode convencê-lo, bone­ca. Basta dar a George outra dose da mesma coisa que lhe deu antes.

— Céus, Tom! — murmurou JeriLee, repugnada. — Vai ser preciso muito mais do que isso para fazê-lo aceitar o papel.

— Acho que não conhece o seu próprio poder, boneca. George diz que é a mulher mais gostosa de todos os tempos e que não consegue chegar perto de você sem ter uma ereção.

— Quando foi que ele disse isso?

— No último fim de semana. Tivemos uma reunião na casa do nosso analista e...

— O assunto por acaso veio à baila — interrompeu-o JeriLee. -— Eu já tinha ouvido falar nisso.

— Devo dizer que ele não parou de falar em você o tempo todo. É realmente tão gostosa quanto ele afirma que é?

— Sou, sim -— disse ela, levantando-se. — Sou real­mente capaz de deixar qualquer homem nas últimas. — Ela encaminhou-se até a porta. — Onde fica o banheiro, Tom? Estou com vontade de vomitar.

— Primeira porta à esquerda. Desculpe, JeriLee. Ti­nha esquecido que você ainda não estava se sentindo bem.

— Não se preocupe, Tom. É um dos problemas de ser mulher. Algumas coisas deixam nosso estômago embrulhado.

— É realmente um negócio muito simples — explicou JeriLee a seu agente. — Castel me dá o emprego se eu convencer George a fazer o filme. Além disso, ele já me disse que vamos trabalhar juntos na casa dele na praia. E fez questão de ressaltar que trabalha dia e noite. — JeriLee respirou fundo e continuou: — George diz que adora a idéia, que acredita em mim como escritora e admira Castel como produtor. Mas, para ele, o fundamental é o diretor. E por acaso ele sabe que Dean Clarke está disponível no momento. A esposa de Dean acaba de torpedear o filme que ele ia fazer para a Warner.

— Dean Clarke seria um bom diretor para o filme. E estou dizendo isso apesar de ele não ser meu cliente.

— Mas você conhece o problema de Dean. Se ele não tiver a aprovação da esposa, não fará o filme de jeito nenhum. E isso representa um outro problema para mim. Ela está querendo que eu lhe dê as mesmas coisas que George e Castel querem. Eu a tenho evitado desde que nos conhe­cemos numa reunião feminista.

— Já se fizeram filmes que apresentavam problemas ainda piores.

— Já ouvi falar de se ir para a cama com um cara, para se conseguir alguma coisa nesse negócio. Mas você já soube alguma vez de alguém ter que dormir com todas as pessoas que vão participar do maldito filme? Antes de o filme terminar, eles me farão ir para a cama com todo mun­do, menos com o cabeleireiro, e mesmo assim só porque ele é bicha.

— Não fique tão nervosa, JeriLee. E não fale assim.

— Está bem.

— Se eu conseguisse convencer Castel a subir para setenta e cinco mil, e sete e meio, você concordaria?

— Acho que não está me entendendo. Eu não estava falando sobre o dinheiro. Apenas não acho que devo ir para a cama com todo mundo, só para que o filme seja produzido.

— Concordo com você. Mas já que vai trepar de qual­quer maneira, não vejo por que armar toda essa confusão.

— Não tive de trepar com ninguém para fazê-los com­prar o livro. Por que deveria fazê-lo só para ver o filme produzido?

— Eles ainda não produziram o filme, não é mesmo? — JeriLee já ia falar, quando o agente levantou a mão. — Primeiro, escute-me, depois pode dizer o que bem desejar. Já se passaram quase três anos desde que eles compraram o livro. Fizeram dois roteiros baseados nele. Não prestavam, e o filme não saiu. Não precisa me dizer que seu livro ven­deu quarenta mil exemplares encadernados, cem mil em clube do livro e um milhão em brochura, que fez mais de cinqüenta espetáculos de rádio e televisão, que a revista Time publicou-a na capa, como a escritora do Women's Lib do ano. Sei de tudo isso, você sabe, o estúdio também sabe. Mas o estúdio também sabe que tudo isso aconteceu há três anos. Desde então, apareceram outros livros. E pode acredi­tar em mim: eles prefeririam muito mais começar com algu­ma novidade a despejar mais dinheiro num projeto em que já fracassaram duas vezes. E agora você vem me falar sobre o que precisa fazer para que o filme seja produzido! Pois deixe-me dizer-lhe o que tive de fazer! Durante o último ano, enquanto você estava dando de graça a torto e a direito, eu estava bebendo, jantando e puxando o saco de todos os executivos do estúdio que poderiam dar um empurrão na produção do seu filme.

"Finalmente, consegui recolocar seu livro na lista das produções imediatas. E convenci-os a entregarem a produ­ção a Castel, um dos principais produtores, porque sei que ele é muito esperto e encontraria um jeito de fazer o filme. Pois agora ele encontrou, e você está se queixando!

"Já sou um homem velho, minha cara. Muito em breve estarei passando o comando do escritório aos meus sócios mais jovens. Não quer fazer o filme? Não há problema para mim. É o seu livro, a sua vida, o seu dinheiro. Eu sou um homem rico. Não preciso do dinheiro desse filme. E, no final das contas, recebo apenas uns míseros dez por cento." Sacudiu a cabeça, tristemente. "Pode ir para casa, JeriLee. Continuaremos amigos. Você escreverá outras histórias, pu­blicará outros livros. Eu farei outros negócios. Mas é real­mente uma pena. Poderia ter sido um filme da maior impor­tância." Levantou a mão e acrescentou: "Agora, você pode falar."

JeriLee começou a rir, histericamente.

— Acha que é engraçado o que acabei de falar?

— Não. É que, de repente, tudo se tornou tão irreal. . .

— Então, deixe-me trazê-la de volta à realidade. — A voz dele era cortante como uma faca de gelo. — Neste negócio, existe uma única verdade. Tem sido sempre a mesma e continuará a ser, invariável: faça o filme. Apenas isso. Nada mais, nada menos. Faça o filme.

"Não me importo absolutamente com o que você faça, com quem vá ou deixe de ir para a cama. Não quero saber se você está querendo ou não reformar o mundo. Pode fazer qualquer coisa que bem desejar, mas primeiro tem que en­frentar a verdade. Faça o filme. É a única coisa que pode fazer para tornar válida a sua posição. Se não fizer o filme, será apenas mais uma mulher que não conseguiu se impor nesta cidade."

— E não quer saber com quem eu tenho de trepar, para que o filme seja feito, não é mesmo?

— A única coisa que importa é conseguir que o filme seja feito.

— O filme já não me interessa tanto como antigamente — disse JeriLee, com voz cansada.

— Não acredito. Se não se importasse muito, não teria vindo para cá, três anos atrás. Teria ficado em Nova York e escrito outro romance.

— É exatamente isso o que eu deveria ter feito. Sei disso agora.

— Não é tarde demais. Os aviões continuam a voar em ambas as direções.

Ele viu as lágrimas escorrendo pelo rosto dela. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, JeriLee levantou-se e saiu da sala. Ele pegou o telefone e instantes depois estava falan­do com Tom Castel.

— Acabei de conversar com ela, Tom — disse ele, num sussurro confidencial. — E pode ter certeza de que não há jeito de convencê-la a aceitar por menos de cem mil. Acho que vou conseguir convencê-la a aceitar os sete e meio, mas você terá que arrumar os cem mil. Neste momento, ela está que não agüenta mais esta cidade. Tive que recorrer a todo o meu poder de persuasão para impedi-la de pegar o próximo avião para Nova York. Ela só está pensando numa coisa: escrever seu próximo romance.

JeriLee tirou um lenço de papel da caixa em cima do painel e enxugou os olhos.

— Podemos voltar para casa agora, Angela.

Silenciosamente, Angela arrancou, e elas saíram do estacionamento. JeriLee acendeu um cigarro e olhou pela janela do carro.

— Merda! — disse ela.

— O que há de errado, JeriLee?

— É que acabei de descobrir uma coisa. As pessoas são corrompidas não apenas pelo sistema, mas também por seus próprios sonhos.

— Não estou entendendo mais nada.

— Todos acabamos nos prostituindo. A única coisa que varia é a forma de pagamento. Quando chegarmos a casa, meu agente estará ao telefone, dizendo que conseguiu arrancar cem mil dólares para eu fazer o filme. E eu irei aceitar.

— É um bocado de dinheiro.

— Não é tanto o dinheiro, Angela. E é nisso que o velho é esperto. Ele sabe disso. E usa-o com a maior tran­qüilidade. Ele sabe que eu quero que o filme seja feito, mais do que desejo a vida propriamente dita. Eu não o enganei por um minuto sequer.

— Não vejo o que pode haver de tão ruim, JeriLee.

Subitamente, JeriLee desatou a rir.

— É isso o que é tão maravilhoso em você, Angela. É a última das inocentes.

— Foi um dia difícil. Vamos tentar esquecer tudo quando chegarmos a casa.

JeriLee inclinou-se e beijou Angela no rosto.

— É a primeira idéia sensata que ouvi hoje, Angela. . .




Epílogo cidade da fantasia

No palco, o cantor estava soltando a última nota an­gustiada da canção. Na pequena e apinhada sala de controle, nos fundos do auditório, no alto, havia um zumbido de fre­nesi organizado. Aquele não era um programa de televisão comum. Era a apresentação ao vivo do grande momento anual da indústria cinematográfica, a distribuição dos prê­mios da Academia.

Os aplausos explodiram quando o cantor terminou. Ele fez uma reverência para o auditório, o sorriso fixo disfar­çando a raiva que estava sentindo. A orquestra mutilara o seu arranjo e abafara as suas melhores notas.

Uma voz ecoou pelos alto-falantes da sala de controle:

— Dois minutos. Comerciais e janelas das emissoras.

— Que canção foi essa? — perguntou o diretor.

— A segunda — respondeu alguém. — Não, não, a terceira!

— Uma droga. O que vem a seguir?

— O prêmio pelo melhor roteiro. Estamos agora foca­lizando os candidatos.

O diretor olhou para as telas. Em cada uma das cinco telas do centro aparecia uma pessoa diferente, quatro homens e uma mulher. Os homens, em seus trajes a rigor todo en­feitados, pareciam muito nervosos. A mulher parecia quase indiferente a tudo o que estava acontecendo a seu redor. Os olhos estavam semicerrados, os lábios ligeiramente entreabertos, a cabeça sacudia-se suavemente, como se ela estivesse ouvindo alguma música interior.

— A mulher está nas nuvens — disse o diretor.

— Mas ela é linda — comentou alguém.

A contagem regressiva dos comerciais começou. No mo­mento em que terminou, acendeu-se uma luz por cima da tela que estava focalizando o mestre-de-cerimônias, voltando ao palco. O diretor deu um close do mestre-de-cerimônias e depois pegou um plano americano de dois astros, um rapaz e uma moça, aproximando-se do centro do palco, sob os aplausos da audiência. Os aplausos cessaram quando eles começaram a ler a relação dos indicados para o prêmio.

À medida em que seus nomes eram chamados, os ho­mens tentavam, sem sucesso, parecer despreocupados, en­quanto a mulher continuava a dar a impressão de que estava em outro mundo.

Com a pompa usual, o envelope foi trazido e aberto cerimoniosamente.

— O prêmio pelo melhor roteiro é concedido a. . .

O jovem ator fez uma pausa, para aumentar o momento dramático. Olhou para sua colega. Ela continuou, a voz subi­tamente estridente de excitação:

— . . . JeriLee Randall, por As boas meninas vão para o inferno!

O diretor selecionou a câmara que focalizava a mulher. A princípio, ela deu a impressão de não ter ouvido. Depois, seus olhos se abriram totalmente e os lábios se separaram num sorriso. Ela começou a levantar-se. Outra câmara foca­lizou-a de cima, enquanto ela percorria o corredor até o pal­co. Só depois que ela subiu os poucos degraus do palco e se virou de frente para a audiência é que eles puderam foca­lizá-la em primeiro plano.

— Deus do céu! — disse alguém, rompendo o súbito silêncio na sala de controle. — Ela não está usando nada por baixo daquele vestido quase transparente!

— Vamos dar um close no vestido dela? — perguntou o assistente do diretor.

— De jeito nenhum — respondeu o diretor. — Os caipiras é que ficariam deliciados com isso.

No palco, a mulher agarrou o Oscar e aproximou-se do microfone. Piscou os olhos rapidamente, como se estivesse contendo lágrimas. Mas quando os abriu, eles estavam secos e limpos.

— Senhoras e senhores da Academia... — A voz dela era baixa, mas bem nítida. — Se lhes dissesse que não me sinto emocionada e feliz neste momento, eu não estaria di­zendo a verdade. Isto é algo que acontece somente nos so­nhos mais delirantes de uma escritora como eu!

Fez uma pausa, esperando que os aplausos cessassem.

— Apesar disso, há dentro de mim uma dúvida que perdura e um sentimento de tristeza. Será que ganhei este prêmio como escritora ou como mulher? Sei que não haveria a menor dúvida nas mentes dos quatro cavalheiros indicados para o mesmo prêmio, se tivessem ganho. Mas tudo o que eles precisam fazer é escrever seus roteiros. Não precisam ir para a cama com todo mundo que trabalha na produção, à exceção do maquilador, para que o filme seja feito.

Um rugido se elevou da audiência e o pânico invadiu a sala de controle.

— Passem o tape — ordenou o diretor. — Atrasem cinco segundos. — Soergueu-se por trás do painel de con­trole e deu uma espiada pela janelinha no salão do teatro lá embaixo. — Quero algumas cenas da reação da audiência! — gritou ele. — Está havendo o maior pandemônio lá em­baixo!

As imagens surgiram prontamente nas pequenas telas. Havia mulheres de pé, aplaudindo, dando gritos de encora­jamento.

— É isso mesmo, JeriLee!

— Conte tudo o que temos de agüentar, JeriLee!

A câmara, em zoom, deu um close num homem de smo­king que tentava obrigar a mulher que o acompanhava a sentar-se novamente na poltrona. O diretor cortou de volta para JeriLee, no momento em que a voz dela tornava a soar:

— Não pretendo contrariar o costume de agradecer a todas as pessoas que me tornaram possível a conquista deste prêmio. Assim, meu primeiro agradecimento vai para o meu agente, que me disse que a única coisa importante era que o filme fosse feito. Ele talvez esteja se sentindo aliviado ago­ra, por saber que tudo o que precisei fazer foi ir para a cama do produtor, para a cama do ator principal e para a cama da esposa do diretor. A todos eles, os meus agradecimentos. Talvez tenham tornado possível a conquista deste prêmio.

— Merda! — praguejou o diretor.

O barulho da audiência estava começando a abafar as palavras de JeriLee.

— Desliguem os microfones da platéia! — berrou o diretor.

A voz dela se elevou acima do barulho da multidão:

— . . .e por último, embora não o menos importante, quero expressar meus agradecimentos aos membros da Aca­demia, por me haverem eleito a Escritora Símbolo. Em ho­menagem a eles, quero apresentar agora uma pintura que fiz especialmente.

Ela sorriu gentilmente, enquanto a mão livre se esten­dia para trás do pescoço. De repente, o vestido desprendeu-se do seu corpo. Ela ficou imóvel no palco, um gigantesco Oscar dourado invertido pintado em seu corpo nu. A tinta dourada cobria-lhe os seios e a barriga, a cabeça da imagem desaparecendo nos pêlos púbicos.

O pandemônio no auditório foi total. O público todo ficou de pé, olhando estarrecido, gritando, vaiando, aplau­dindo, enquanto homens saíam correndo dos bastidores para cercarem JeriLee. Alguém jogou um casaco sobre os ombros dela. Desdenhosamente, JeriLee desvencilhou-se do casaco e saiu do palco, com extrema dignidade em sua nudez.

Havia uma expressão aturdida de felicidade no rosto do diretor quando a tela se escureceu para os comerciais.

— A noite do Oscar nunca mais será a mesma depois disso. . .

— Acha que estávamos no ar? — perguntou alguém.

— Espero que sim — respondeu o diretor. — Seria uma vergonha se a verdade não tivesse a menor chance de se fazer ouvida. . .

O carro subiu a ladeira e foi parar diante da casa. Jeri­Lee inclinou-se no assento e beijou o homem no rosto.

— Meu amigo Detetive Millstein. . . Detetive Millstein, meu amigo. . . Você tem um talento extraordinário para aparecer na hora em que é mais necessário.

— Eu não estava muito longe do teatro — disse ele, com um sorriso. — Assistia ao espetáculo num bar, quando você apareceu.

— Estou contente por isso — disse JeriLee, saindo do carro. — Estou exausta. Vou direto para a cama.

— Não vai ter problemas?

— Não se preocupe. Estou bem. Pode voltar ao tra­balho.

— Está certo.

— Dê um beijo em Susan e no bebê por mim.

Ele fez que sim com a cabeça e ficou observando-a entrar em casa, antes de dar a partida no carro, fazer a volta e descer a ladeira.

O telefone estava tocando quando JeriLee cruzou a porta. Era a mãe dela.

— Desta vez, JeriLee, você realmente fez o máximo. Nunca mais poderei andar de cabeça erguida nesta cidade.

— Oh, mamãe. . .

O fone ficou mudo na mão dela. A mãe havia desligado. No momento em que JeriLee pôs o fone no gancho, o telefone recomeçou a tocar. Dessa vez, era o agente dela.

— Foi um golpe de publicidade brilhante, JeriLee — disse ele, às gargalhadas. — Nunca, em todos os meus anos neste negócio, vi uma estrela alcançar tanto sucesso numa só noite!

— Não foi golpe de publicidade.

— E que diferença isso faz? Venha até o meu escri­tório amanhã. Tenho pelo menos cinco propostas nas quais, você pode pedir o quanto quiser.

— Merda. . . — disse JeriLee, desligando.

O telefone recomeçou a tocar imediatamente, mas dessa vez ela não atendeu. Em vez disso, levantou o fone e depois apertou o gancho, para desligar o telefonema. Depois, deixou o fone fora do gancho.

Foi para o quarto. Pegou um cigarro, acendeu-o, voltou até a porta da frente. Saiu de casa. A noite estava quente e clara. Ela se sentou nos degraus da varanda e olhou para a cidade. Subitamente, seus olhos começaram a ficar enevoados.

Ela se sentou no alto da escada e chorou. E lá embaixo, muito longe dela, as luzes multicoloridas de Los Angeles tremeluziam através de suas lágrimas.


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Um oferecimento de Argo, o “Tampa de Crush” (eh, eh)



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1 Jogador que atua na faixa externa do campo. (N. do T.)

2 Lançador. (N. do T.)


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