Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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Procurou imaginar o que Walt deveria estar pensando. Recordou-se como ele ficara excitado quando estavam dan­çando, tanto que chegara a machucá-la, ao comprimir-se con­tra ela. Por duas vezes, ela quase tropeçara e caíra, ao chegar ao clímax durante a dança. E a cada vez se perguntara se ele havia percebido o que acontecera. Mas não houvera o menor indício de que ele tivesse desconfiado de alguma coisa.

Ouviu-o chamar lá de fora:

— Já estou de volta, JeriLee. Você vai sair ou não?

Ela apertou o interruptor, mergulhando o vestiário na escuridão. Abriu a porta. Walt estava estendendo toalhas sobre duas chaises longues, na outra extremidade da piscina. Ele ainda estava vestido, de costas para ela. Silenciosamen­te, JeriLee entrou na água. Walt dissera a verdade. A água estava quente e agradável. Ele virou-se rapidamente.

— Isso não é justo, JeriLee. Você entrou na piscina antes que eu pudesse vê-la.

— Você é que não está sendo justo. — Ela riu. — Ainda nem se despiu.

Walt inclinou-se para a mesa e ligou o rádio portátil que trouxera. A música se espalhou suavemente pela pisci­na. De costas para ela, despiu-se rapidamente, deixando as roupas caírem no chão. Depois, virou-se depressa e, antes que ela pudesse vê-lo direito, mergulhou. Subiu à tona do outro lado da piscina.

— Está gostando, JeriLee? A água está bastante quente?

— Claro que estou gostando. É a primeira vez que tomo banho de piscina sem nada. A sensação é maravilhosa. Muito melhor do que quando se usa maiô.

— É o que meu pai sempre diz. Ele diz que se a natu­reza quisesse que tivéssemos roupas, teríamos nascido com elas.

— Seu pai talvez esteja com a razão. Eu nunca tinha pensado nisso.

— Meu pai tem uma porção de idéias esquisitas, sobre todas as coisas. Ele diz que, se as pessoas ao menos apren­dessem a ser honestas consigo mesmas, estaria terminada a maioria dos problemas do mundo.

— E você é honesto consigo mesmo?

— Tento ser.

— E acha que poderia ser também honesto comigo?

— Acho que sim.

— Por que me trouxe até aqui?

— Eu queria ficar sozinho com você. E por que con­cordou em vir?

JeriLee não respondeu. Em vez disso, nadou para o lado mais fundo da piscina. Walt nadou atrás dela. Abrup­tamente, ela mergulhou e subiu à tona do outro lado. Walt riu e conseguiu alcançá-la, na parte rasa. Segurou-a pelo braço.

— Ainda não respondeu à minha pergunta, JeriLee.

Os olhos dela se fixaram nos de Walt.

— Porque você não foi sincero comigo.

— Por que acha que eu a trouxe até aqui?

— Pensei... — ela hesitou por um momento e de­pois, incapaz de imaginar outra maneira de dizer exatamente o que tinha em mente, acrescentou: — que queria levar-me para a cama.

Walt ficou desconcertado.

— Se pensou isso, por que veio?

— Porque eu queria que você me levasse para a cama.

Walt largou o braço dela e saiu da piscina. Pegou uma toalha e amarrou-a na cintura, preparando uma dose de rum com Coca-Cola. Tomou um gole, sem dizer nada. JeriLee apoiou os braços na borda da piscina.

— Está zangado comigo? Eu disse alguma coisa errada?

— Santo Deus, JeriLee! Você parece comum e vulgar.

— Sinto muito. Eu estava apenas procurando ser ho­nesta. Senti você encostado em mim, quando estávamos dançando. Pensei que era isso que estava querendo.

— Mas as garotas não costumam comportar-se desse jeito, JeriLee! Não pode querer fazer as coisas com todo homem que tem uma ereção por sua causa.

— E não faço.

— Mas a maneira como você fala. . . O que acha que a gente fica pensando?

— É isso o que você pensa?

— Não sei mais o que pensar. Nunca antes uma garota me falou desse jeito.

Subitamente, o calor desapareceu do corpo de JeriLee e ela ficou perigosamente à beira das lágrimas. Ficou em silêncio por um momento. Quando finalmente falou, a voz era bastante calma:

— Está ficando tarde, Walt. Acho melhor você me levar para casa. Meus pais devem estar preocupados com minha demora.

Ele deixou-a na frente da casa dela, mas não fez a menor menção de saltar do carro também.

— Boa noite, Walt.

— Boa noite. — No mesmo instante, ele tornou a ligar o motor do carro e afastou-se, deixando-a parada na calçada. Lentamente, JeriLee entrou em casa.

O pai tirou os olhos da televisão ao ouvi-la entrar. JeriLee foi beijá-lo na face.

— Onde está mamãe?

— Está muito cansada e foi deitar-se. Chegou a casa cedo. Quem a trouxe?

— Um rapaz chamado Walt. Ele é sócio do clube.

— É bom rapaz?

— É sim. — JeriLee começou a sair da sala, mas logo parou subitamente. — Papai. . .

— O que é?

— Será que as pessoas podem ser honestas demais?

— É uma estranha pergunta, querida. Por que quer saber?

— Não sei... Mas tenho a impressão de que todas as pessoas que conheço ficam zangadas comigo, quando faço uma pergunta honesta e franca.

John Randall ficou calado por um instante, pensativo.

— Às vezes, as pessoas não querem ouvir a verdade. Preferem viver com as suas ilusões.

— É sempre assim?

— De certa forma, acho que é. Tento ser o mais honesto e franco possível com as pessoas. Mas há ocasiões em que isso é inteiramente impossível.

— Está sendo honesto comigo?

— Creio que sim.

— Você me ama, papai?

John Randall inclinou-se e desligou a televisão. Depois, virou-se e estendeu os braços para JeriLee.

— Acho que você sabe que sim.

A moça ajoelhou-se na frente da cadeira dele e encostou o rosto em seu peito. John abraçou-a. Ficaram assim por longo tempo, sem dizer uma só palavra. Finalmente, numa vozinha sofrida, JeriLee murmurou:

— Sabe, papai, não é nada fácil crescer e tornar-se mulher.

John beijou-a na face e sentiu o gosto salgado das lágrimas. Uma estranha tristeza invadiu-o.

— Eu sei, querida. Mas creio que não é fácil crescer para ser qualquer coisa.


Capítulo nove

Foi como uma tempestade que houvesse passado. Du­rante semanas, a pressão de ter que saber e compreender a natureza de seu impulso sexual havia atormentado JeriLee. E então, uma bela manhã, acordou e descobriu que a premência havia desaparecido.

Ela sabia o que não sabia. Mas não estava mais impe­lida pela necessidade de obter o conhecimento a qualquer custo. As coisas que ela sentia faziam parte de sua consciên­cia em expansão. De alguma forma, sabia que acabaria ex­perimentando todas as coisas, no seu devido tempo. Tornou-se mais tranqüila, mais relaxada, mais capaz de simplesmente desfrutar a companhia de outras pessoas.

Ela e Bernie podiam novamente ser amigos. Agora, ao pararem o carro num local escuro, para se beijarem, ela po­dia retribuir, sem ter que explorar mais e mais os seus dese­jos. O sexo não mais impregnava todos os seus pensamentos. Ela sabia que tudo acabaria acontecendo no devido tempo. Mas só aconteceria quando ela estivesse devidamente pre­parada para isso, quando a experiência fosse uma parte in­tegrante de todo o seu ser.

Não saía apenas com Bernie. Martin também era um ótimo amigo, e eles passavam horas sentados na varanda da casa dela, conversando sobre livros que tinham lido e dis­cutindo as pessoas da cidade. Freqüentemente riam juntos das atitudes ridículas que algumas pessoas assumiam, a fim de parecer importantes. Uma vez, ela até mesmo deixou que Martin lesse um conto que escrevera.

Era sobre o prefeito de uma cidade pequena, que fi­cara bastante deprimido durante a guerra, porque todas as cidadezinhas vizinhas tinham seus heróis de guerra, menos a dele. Por isso, ele decidira transformar em herói o pri­meiro veterano que voltara da guerra. Mas o homem rece­bera baixa por um problema de ordem médica, sem nunca ter chegado perto do front. Apesar disso, o prefeito promo­vera uma grande recepção ao suposto herói. E tudo saíra errado na cerimônia. De certa forma, a história era muito parecida com a do pai de JeriLee, embora com algumas va­riações. No meio da cerimônia, haviam aparecido dois po­lícias militares, que prenderam o herói, porque ele falsificara sua baixa, em uma enfermaria psiquiátrica.

— Está ótimo, JeriLee — disse Martin, genuinamente entusiasmado, ao terminar de ler a história. — Reconheci quase todo mundo. Deveria mandar esse conto para uma revista.

JeriLee meneou a cabeça.

— Acho que ainda não estou preparada para isso. Sin­to que ainda há muitas coisas erradas nessa história. Além do mais, estou trabalhando em outro conto, que deve sair melhor do que esse.

— E é sobre o quê?

— Uma garota como eu, sobre crescer numa cidadezinha como esta.

— Posso ler, quando acabar de escrever?

— Talvez eu demore muito para terminá-lo. Há mui­tas coisas que ainda preciso aprender, antes de escrever a respeito delas.

— Entendo. Hemingway diz que os melhores escritos derivam da experiência pessoal.

— Não gosto de Hemingway. Ele não sabe nada sobre as mulheres. E parece que não se importa absolutamente com elas.

— E de quem você gosta?

— De Fitzgerald. Pelo menos, ele dispensa tanta aten­ção às personagens femininas de seus livros quanto o faz com os homens.

— Para mim, todas as personagens masculinas de Fitz­gerald parecem estranhas, como se tivessem alguma fraqueza. Elas me dão a impressão de terem medo das mulheres.

— Engraçado. . . Eu sinto isso com relação a Heming­way. Os homens das histórias dele parecem estar sempre com medo das mulheres, porque estão sempre tentando pro­var que são homens de fato.

— Tenho que pensar sobre isso — disse Martin, levantando-se. — Agora, está na hora de eu voltar para casa.

— Está tudo bem por lá, Martin?

Há muito que eles haviam deixado de lado todos os fingimentos e JeriLee agora perguntava abertamente sobre os problemas que ele enfrentava com os pais.

— Um pouco melhor. Pelo menos, já não estão be­bendo tanto, agora que papai arrumou aquele emprego na fábrica de gás.

— Fico contente por você, Martin — disse JeriLee, levantando-se também. — Boa noite.

Martin ficou parado, fitando-a, sem se mexer. JeriLee tocou-lhe o rosto, um pouco embaraçada.

— Há algo errado, Martin?

— Não.

— Então por que está me olhando desse jeito?



— Sabe que eu nunca tinha percebido antes? Mas você é realmente muito bonita.

Em outra ocasião, JeriLee poderia ter sorrido. Mas havia tanta sinceridade na voz dele que ela ficou comovida e limitou-se a dizer:

— Obrigada.

— Muito bonita mesmo — murmurou Martin, sorrin­do em seguida e descendo os degraus da varanda. — Boa noite, JeriLee.

Pouco a pouco, a popularidade de JeriLee foi aumen­tando. Havia algo nela que atraía amizades, tanto entre os rapazes como entre as moças. Talvez fosse porque ela tra­tava a todos nos termos de cada um, dentro das perspectivas de cada um. Ao mesmo tempo, continuava a ser uma pessoa retraída. Mas todos gostavam de falar com JeriLee, porque sentiam que ela realmente os escutava.

Com a temporada de verão no auge, o clube permane­cia aberto todas as noites para o jantar e havia dança tam­bém nas quartas-feiras, além das sextas e sábados. Como era impraticável que os músicos voltassem para a cidade todas as noites, o Sr. Corcoran alojou-os num pequeno chalé, atrás das quadras de tênis. Os fundos do chalé davam para o es­tacionamento. Dessa forma, eles não precisavam passar pela frente do clube para chegar ao salão de danças.

JeriLee, que agora trabalhava até tarde nas noites de quarta-feira, estava no terraço, tomando uma Coca-Cola e conversando com Fred, num intervalo entre as apresentações dele, quando Walt saiu pelas portas abertas e dirigiu-se a ela, ignorando Fred completamente:

— Ei, JeriLee...

Fazia mais de um mês que eles tinham ido até a casa dele e aquela era a primeira vez em que Walt voltava a falar com ela.

— O que é?

— Tenho alguns colegas da escola aqui e estamos or­ganizando uma festa na praia. Achei que talvez gostasse de ir também.

JeriLee olhou para Fred. Não havia qualquer expressão no rosto dele. Ela virou-se para Walt.

— Já conhece Fred?

— Já, sim. Olá, Fred.

— Olá — murmurou Fred, a voz tão inexpressiva quanto o rosto.

— Vai ser divertido, JeriLee — continuou Walt. — E se o mar estiver muito frio, poderemos ir para a piscina da minha casa.

— Acho que não vou, Walt. Tenho que me deitar cedo, pois amanhã terei que trabalhar na hora do almoço.

— Ora, JeriLee, vamos. Não ficaremos até tarde. Va­mos apenas tomar alguns drinques e dar umas risadas, nada mais.

— Não, obrigada. Para dizer a verdade, eu estava pen­sando em ir embora cedo. Ainda dá tempo para eu pegar o ônibus das onze e meia.

— Não precisa ir de ônibus. Podemos deixá-la em casa, no caminho.

— Não quero incomodá-lo, Walt. Além do mais, fica fora do seu caminho.

— Não muito. E não será incômodo algum.

-— Está certo.

— Vou chamar os rapazes.

Walt voltou para o salão. Fred olhou para JeriLee e perguntou:

— Tem alguma coisa com esse rapaz?

JeriLee pensou por um momento.

— Pensei que tinha, mas agora não há mais nada.

— Pois ele está zangado com você.

— Como é que sabe? — perguntou ela, desconcertada.

— É o que sinto. Mas posso estar errado. Ele tam­bém não gosta muito de mim, mas talvez seja porque não goste de pretos em geral.

— Espero que você esteja enganado, Fred. Ele pode ser um pouco mimado, mas eu não gostaria de pensar uma coisa dessas a respeito dele.

Estava na hora de Fred voltar a se apresentar. Ele olhou atentamente para JeriLee, em silêncio, perguntando em se­guida:

— Vou vê-la no fim de semana?

— Claro, Fred. E cante bem bonito para as pessoas.

— É o que sempre faço — disse ele, com um sorriso.

— Boa noite, Fred.

— Boa noite, JeriLee.

Fred estava começando a cantar no momento em que Walt voltou.

— Podemos ir, JeriLee — disse ele, começando a des­cer os degraus do terraço. — Vamos atravessar o gramado até o estacionamento.

— E onde estão os seus amigos?

— Eles já estão no carro, com Marian Daley.

A moça seguiu-o. Eles atravessaram o gramado e as quadras de tênis, até o estacionamento. JeriLee ouviu as risadas que saíam do carro de Walt.

— Tem certeza de que não vou estragar nada, Walt? Ainda posso pegar o ônibus. E quero que saiba que não me importo.

— Eu não disse que não havia problema?

Walt parecia ligeiramente aborrecido.

— Está bem.

Eles seguiram em silêncio pelo resto do caminho até o carro. Era um conversível, aberto. Marian e dois rapazes já estavam sentados no banco de trás.

— Por que demorou tanto? — perguntou um dos ra­pazes, quando Walt e JeriLee se aproximaram.

— Tive que assinar a conta do bar — explicou Walt, abrindo a porta do carro. — Rapazes, essa é JeriLee. Jeri­Lee, Joe e Mike Herron. São irmãos. Você já conhece Marian.

JeriLee meneou a cabeça.

— Olá.


Marian ficou indiferente, mas os dois rapazes sorriram e um deles estendeu uma garrafa para JeriLee.

— Junte-se à nossa festa — disse ele. — Tome um gole.

— Não, obrigada.

— Pois eu vou tomar um — disse Walt. Pegou a gar­rafa e levou-a à boca, tomando um grande gole. Devolveu a garrafa ao rapaz e comentou: — Esse rum é dos bons.

— Tem que ser — disse o rapaz, rindo. — Seu pai só tem o melhor.

Walt fechou a porta e sentou-se ao volante. Ligou o motor e saiu à toda do estacionamento. Virou na estrada na direção oposta à da casa de JeriLee.

— Estamos indo para o lado errado — disse a moça.

— Achei melhor deixá-los primeiro, antes de levá-la até sua casa.

JeriLee não respondeu. Ouviu risadas no banco de trás e virou-se. Os dois rapazes tentavam desabotoar a blusa de Marian, que ria e batia-lhes nas mãos.

— Isso não é justo — disse ela, rindo. — São dois contra uma.

JeriLee tornou a ficar de frente. Olhou para o velocímetro. O ponteiro marcava mais de cento e dez.

— É melhor diminuir a velocidade, Walt — disse ela, — A polícia rodoviária está na estrada esta noite.

— Posso dar um jeito neles.

Não havia mais qualquer barulho no banco de trás. Jeri­Lee olhou pelo espelhinho retrovisor. Marian parecia ter de­saparecido. Involuntariamente, ela virou-se e olhou. Marian estava com a cabeça no colo de Joe. JeriLee demorou um momento para perceber o que ela estava fazendo. . .

JeriLee virou-se rapidamente, sentindo um vazio terrí­vel no estômago. De alguma forma, ela sabia que não era assim que deveria ser. Sabia o que os rapazes e garotas fa­ziam nos carros, mas jamais imaginara uma coisa daquelas. JeriLee desejou ansiosamente que Walt os largasse logo de uma vez e a levasse para casa. Walt parou o carro diante de sua casa e desligou o motor.

— Chegamos — disse ele. — Saiam todos. — Saltou e contornou o carro, vindo postar-se ao lado da porta de JeriLee.

— Você disse que ia levar-me para casa, Walt.

— E vou levar. Qual é o problema? Da última vez, você estava ansiosa.

— Da última vez foi diferente. E você estava dife­rente.

Marian e os dois rapazes já tinham saído do carro.

— Vamos, JeriLee — disse Marian, rindo. — Não seja uma desmancha-prazeres.

— Só um drinque e depois eu a levarei para casa — disse Walt. — Prometo.

Relutantemente, JeriLee saltou do carro e seguiu-os para dentro da casa. Foram direto para a piscina. Soltando gritos, os dois irmãos tiraram as roupas e mergulharam na piscina.

— A água está jóia — gritou Mike. — Entre também.

JeriLee virou-se, procurando por Walt. Viu uma luz acender-se dentro da casa, quando ele entrou na cozinha. Um momento depois, começou a tocar música no rádio por­tátil sobre a mesa perto da piscina. Marian estava dançando sozinha, ao som da música.

Walt voltou, com uma bandeja cheia de Coca-Cola e um balde de gelo. Pegou a garrafa de rum que estava ao lado do rádio e rapidamente preparou os drinques. Esten­deu um para Marian, que o pegou e começou a bebê-lo em goles grandes. Ele estendeu um para JeriLee. . — Não, obrigada.

— Não está muito a fim de se divertir, não é?

— Sinto muito. Mas eu lhe disse que queria ir direto para casa.

— Mas vai ter que esperar até que eu acabe de tomar um drinque — disse Walt, furioso, levantando o copo.

— Deixe disso, JeriLee — disse Marian. — Não ban­que a desmancha-prazeres. Você está entre amigos.

— Não, obrigada — falou JeriLee novamente, encaminhando-se na direção da casa.

Walt pôs a mão no braço dela.

— Aonde é que você pensa que está indo, JeriLee?

— Posso pegar o ônibus na estrada — disse ela, cal­mamente.

— Já disse que vou levá-la para casa! Será que minha palavra não é suficiente para você?

Antes de poder responder, JeriLee sentiu duas mãos segurando-lhe os tornozelos. Seus pés deixaram o chão e ela foi carregada para a piscina. Voltou à tona com a boca cheia de água, empurrando rudemente o rapaz que estava a seu lado.

— Ela quer brincar — JeriLee ouviu um dos rapazes dizer. Dois pares de mãos agarraram-na então pelos ombros e empurraram-na para baixo. JeriLee tentou desvencilhar-se e sentiu que as mãos lhe arrancavam o vestido. Ela afundou novamente. Voltou à tona ofegante e teve que se segurar na borda da piscina. Olhou para Walt, com os olhos cheios de lágrimas.

— Por favor, leve-me para casa.

— Vou levá-la — disse ele, levando o copo aos lábios. — Assim que suas roupas secarem.


Capítulo dez

Bernie deparou com Fred no terraço.

— JeriLee está por aqui?

— Não.


— Se a vir, diga-lhe que o pai dela telefonou. Ele quer que JeriLee leve um pacote de sorvete para casa.

Bernie começou a afastar-se. Fred deteve-o.

— Quando foi que ele telefonou?

— Há poucos minutos. Atendi o telefone no bar.

— É estranho. . . Quanto tempo demora daqui até a casa dela?

-— Dez minutos de carro, meia hora de ônibus.

— Então ela já deveria estar em casa. Partiu há mais de uma hora. — Fred sentiu-se invadido por uma estranha sensação de medo. — Sabe por acaso onde mora o tal de Walt Thornton?

— Do outro lado da cidade. Por quê?

— Ele ficou de levar JeriLee para casa. Mas estava mais alto do que uma pipa, assim como seus dois amigos. Eu os vi tomando rum com Coca-Cola como se fosse água. Walt queria que JeriLee os acompanhasse numa festa na praia, e ela queria voltar para casa.

Bernie fitou-o em silêncio por um minuto.

— E eu vi Marian Daley sair com dois rapazes. Ela estava tentando convencer outra garota a acompanhá-los, mas não conseguiu.

— Não estou gostando dessa história — murmurou Fred, olhando para Bernie. — Você tem carro?

Os dois rapazes se entreolharam, pensativos.

— Vou buscar as chaves — disse Bernie. — Espere-me no estacionamento.

JeriLee estava chorando, deitada sobre a grama, ao lado da piscina, tentando cobrir-se, toda encolhida. Sentiu um movimento a seu lado e olhou para cima. Joe estava inclinado sobre ela.

— Pare de ganir — disse ele, em tom irritado. — Quem vê você desse jeito, pensa que nunca fez nada antes.

— Eu nunca...

— Já fez, sim! Walt nos contou que você esteve aqui com ele!

— Mas não aconteceu nada! Juro que não aconteceu nada!

— Será que nunca vai parar de mentir? — Ele virou-se e gritou para Walt: — É melhor você vir até aqui e dar um jeito nesta garota. Ou vou acabar tendo que dar uma surra nela.

Walt aproximou-se. Ainda estava com um copo na mão e cambaleava.

— Ora, JeriLee, estamos apenas querendo nos divertir um pouco — disse ele, em tom apaziguador. — Tome um pouco deste rum e vai sentir-se melhor.

— Não!

Houve um ruído súbito do outro lado da piscina. Joe virou-se e riu.



— Pois olhe para lá!

JeriLee olhou. Marian e Mike estavam juntos no chão, ele por cima dela. JeriLee viu os movimentos frenéticos do rapaz e ouviu os gemidos de Marian, ecoando pela noite.

— Não acha lindo? — disse Joe. — Eles estão fazen­do o que é gostoso. Que tal ficar boazinha agora, para que a gente possa ter uma festa de verdade?

JeriLee não respondeu. O rapaz ficou furioso.

— Então por que diabo veio até aqui, sua galinha sem-vergonha?

— Eu não queria vir! — gritou JeriLee, compreen­dendo que Walt não dissera a eles que ela queria apenas ir para casa, embora ele não tivesse a menor intenção de levá-la. — Por favor, Walt, conte a eles. Diga que eu não queria. . .

Joe ajoelhou-se ao lado dela e segurou-lhe os cabelos, forçando-lhe a cabeça para trás.

— Dê-me esse drinque, Walt!

Ele pegou o copo de Walt e, obrigando JeriLee a abrir a boca, derramou-lhe o rum pela garganta. Ela engasgou e começou a tossir. O líquido doce e pegajoso escorreu-lhe pelas faces, derramando-se sobre seus ombros e seios. Joe não parou, até o copo ficar vazio. Depois, jogou o copo longe. JeriLee ouviu o barulho do copo se quebrando, ao cair no chão de concreto. Joe encostou o rosto no dela.

— E agora você vai cooperar e ser boazinha ou terei que apelar para a ignorância?

JeriLee arregalou os olhos e tentou prender a respi­ração.

— Por favor, deixe-me ir embora! Por favor. . .

Ele moveu-se subitamente, lançando todo o peso de seu corpo em cima dela, esmagando-a contra o chão. Seus dedos se cravaram nos seios dela, enquanto ele tentava beijá-la.

JeriLee debateu-se freneticamente, tentando virar o rosto, para evitá-lo. Involuntariamente, levantou um joe­lho, atingindo-o na virilha. Ele deixou escapar um gemido de dor.

— Cadela nojenta! — Furioso, esbofeteou-a. — Segu­re-a, Walt! Não vou deixar que uma cadela tente me chutar o saco e vá embora impunemente.

Walt ficou indeciso.

— Estou mandando você segurá-la! Está na hora de ela começar a aprender a lição!



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